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Chamas do amor

O Banquete das Chamas e o Peso da Coroa

A noite no palácio da Nação do Fogo nunca era apenas um período de descanso; era um campo de batalha silencioso, onde palavras cortavam mais do que espadas e sorrisos ocultavam venenos letais. Eu estava diante do espelho, ajustando as dobras do meu traje de seda carmesim e ouro. Meus cabelos pretos caíam em ondas perfeitas pelas minhas costas, e meus olhos verde-escuros refletiam uma determinação que nem mesmo a opressão daquele lugar conseguia apagar.

Zuko havia sido claro na noite anterior, sob o luar dos jardins de lótus. Suas palavras ainda ecoavam em minha mente: "É você, Cherry. Sempre foi você". Aquele segredo era nosso escudo, mas eu sabia que, naquele ninho de víboras, escudos eram frequentemente testados até quebrarem.

O salão de jantar principal estava iluminado por tochas que projetavam sombras dançantes nas tapeçadeiras com o emblema da chama. O Senhor do Fogo Ozai estava sentado à cabeceira, uma figura de autoridade absoluta e frieza aterrorizante. À sua direita, Zuko, parecendo desconfortável em sua túnica formal. À esquerda, Azula, com aquele brilho calculista no olhar. Mai e Ty Lee ocupavam as posições seguintes.

O silêncio era preenchido apenas pelo som rítmico dos talheres, até que Azula decidiu que o entretenimento da noite deveria começar.

— Pai — começou Azula, sua voz deslizando como seda sobre espinhos —, estive pensando sobre o futuro da nossa linhagem. Agora que Zuko retornou como o herói que eliminou o Avatar, a estabilidade do trono exige que pensemos em alianças internas.

Zuko tensionou os ombros imediatamente. Ele conhecia aquele tom. Eu, sentada à frente de Mai, mantive minha expressão serena, embora meus sentidos estivessem em alerta máximo.

— Prossiga, Azula — disse Ozai, sem desviar os olhos de sua refeição.

— Creio que Mai seria a companheira ideal para o meu irmão — Azula continuou, lançando um olhar de soslaio para mim, buscando qualquer sinal de fraqueza. — Ela vem de uma linhagem nobre e impecável, é disciplinada e compartilha da mesma... disposição melancólica de Zuko. Eles formam um par visualmente perfeito para a corte.

Mai abaixou os olhos, um raro rubor surgindo em suas bochechas pálidas. Zuko, por outro lado, parecia prestes a explodir. Eu sentia o calor emanando dele através da mesa.

— Mai é uma aliada valiosa — disse Zuko, tentando manter a voz controlada —, mas o meu futuro não deve ser decidido por conveniência estética, Azula.

— Não seja tolo, Zuko — rebateu Azula, sorrindo com escárnio. — Trata-se de imagem. Trata-se de manter a ordem. O que você acha, pai?

Ozai finalmente levantou o olhar. Ele observou Mai por um longo momento, como se estivesse avaliando uma peça de gado. Depois, seus olhos se voltaram para mim. O peso daquela atenção era quase insuportável.

— Mai é filha de um governador leal — disse Ozai, sua voz profunda ressoando pelo salão. — Mas ela não é uma dominadora.

O comentário caiu como uma pedra em um lago calmo. Mai ergueu a cabeça, a surpresa cruzando seu rosto habitualmente entediado.

— A força da Nação do Fogo reside na pureza e na potência do nosso elemento — continuou o Senhor do Fogo, ignorando o desconforto evidente de Mai. — Zuko é o herdeiro do trono. Seus descendentes devem carregar a chama mais forte que esta nação já viu. Mai é habilidosa com suas facas, sim, mas elas são ferramentas de quem não possui o poder verdadeiro. Elas são... limitadas.

Azula piscou, pega de surpresa pela direção que a conversa estava tomando. Ela esperava usar Mai para me humilhar, mas não contava com o pragmatismo cruel de seu pai.

— No entanto, pai — Azula tentou intervir —, a lealdade de Mai é...

— Lealdade é o mínimo que se espera de um súdito — cortou Ozai. — O que eu busco para a linhagem real é a perfeição da guerra.

Ele então apontou o dedo longo e fino em minha direção.

— Cherry, por outro lado, provou ser uma das dominadoras mais talentosas da sua geração. Sua técnica é precisa, sua chama é intensa e ela domina o aço com a mesma maestria que domina o fogo. Ela não é apenas uma acompanhante; ela é uma guerreira completa.

Eu senti o olhar de Zuko queimar em mim, uma mistura de alívio e choque. Mai parecia ter sido atingida por um golpe físico; ela se encolheu levemente na cadeira, a humilhação brilhando em seus olhos.

— Se Zuko deve escolher uma esposa — declarou Ozai —, que seja alguém que possa lutar ao lado dele, não alguém que precise ser protegida pelos guardas se ficar sem suas agulhas. Cherry é a opção superior. Ela é a esposa perfeita para um Senhor do Fogo que pretende governar através da força.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Azula estava lívida. Seu plano de me colocar de lado havia saído pela culatra de forma espetacular. Ela havia dado ao pai a oportunidade de validar exatamente a pessoa que ela queria destruir.

— Eu concordo, Pai — disse Zuko, sua voz agora firme e carregada de uma autoridade que eu nunca tinha ouvido antes. — Cherry tem uma força que vai além do campo de batalha. Ela entende o que significa ser da Nação do Fogo.

Mai levantou-se abruptamente, sua cadeira arrastando-se pelo chão com um ruído estridente.

— Com licença — murmurou ela, a voz trêmula, antes de sair apressadamente do salão.

Ty Lee olhou de um lado para o outro, nervosa, e acabou seguindo a amiga após um aceno desajeitado.

— Veja o que você fez, Zuko — sibilou Azula, os olhos faiscando. — Você humilhou uma das nossas aliadas mais próximas.

— Eu não fiz nada, Azula — respondeu Zuko, encarando a irmã. — Foi você quem trouxe o assunto à mesa. Eu apenas disse a verdade. E a verdade é que eu não pretendo passar minha vida ao lado de alguém por quem não sinto nada além de uma amizade distante, especialmente quando tenho alguém como a Cherry.

Ozai pareceu satisfeito com o conflito. Para ele, a discórdia entre os filhos era apenas mais uma forma de testar sua força.

— O banquete acabou — disse o Senhor do Fogo, levantando-se. — Zuko, Cherry... não me decepcionem. A força é a única moeda que aceito.

Ele saiu do salão, seguido por seus guardas imperiais. Azula permaneceu sentada, suas mãos cerradas em punhos sobre a mesa. Ela olhou para mim com um ódio tão puro que o ar pareceu esfriar.

— Você acha que ganhou, não é? — perguntou ela, a voz baixa e perigosa. — Você acha que o apoio do meu pai significa algo além de que ele vê você como uma ferramenta de reprodução mais útil do que a Mai?

Eu me levantei, mantendo a calma que eu havia cultivado durante todos aqueles anos de treinamento.

— Eu não acho que ganhei nada, Azula — respondi, minha língua afiada finalmente se soltando. — Ao contrário de você, eu não vejo a vida como um jogo de peças descartáveis. Mai foi ferida hoje porque você tentou usá-la como um peão para me atingir. Se há alguém aqui que deveria se sentir derrotada, é você, por ser tão previsível.

— Como ousa falar assim comigo? — Azula levantou-se, uma chama azul começando a dançar em seus dedos.

Zuko deu um passo à frente, colocando-se entre nós.

— Já chega, Azula. Vá atrás da sua amiga. Se é que você sabe o que é ter uma.

Azula soltou um rosnado de frustração e saiu pisando fundo, as chamas azuis se apagando enquanto ela desaparecia nas sombras do corredor.

Finalmente, estávamos sozinhos no grande salão, sob a luz moribunda das tochas. Zuko se virou para mim, a expressão suavizando instantaneamente.

— Cherry, eu sinto muito por isso — disse ele, aproximando-se e segurando minhas mãos. — Eu não queria que as coisas fossem expostas dessa maneira fria pelo meu pai.

— Ele nos vê como armas, Zuko — eu disse, olhando para nossas mãos unidas. — Mas o que ele disse sobre a Mai... foi cruel. Ela não merecia ser diminuída daquela forma, mesmo que ela e eu tenhamos nossas diferenças.

— Meu pai só valoriza o poder — Zuko suspirou, puxando-me para mais perto. — Mas ele está certo sobre uma coisa: você é incrível. E ele não sabe nem da metade. Ele não sabe da sua gentileza, da sua risada... ele só vê a dominadora de fogo. Mas eu vejo tudo.

— Zuko — eu sussurrei, sentindo meu coração acelerar —, agora que ele disse isso na frente de todos... Azula não vai descansar. E Mai... eu não sei se ela vai conseguir me olhar no rosto novamente.

— Deixe que elas tentem o que quiserem — afirmou ele, sua mão subindo para acariciar meu rosto, o polegar traçando a linha da minha mandíbula. — Eu não vou deixar ninguém te machucar. Nem Azula, nem meu pai, nem ninguém. Você é a única razão pela qual eu consigo suportar estar de volta a este lugar.

Eu fechei os olhos por um momento, aproveitando o calor de sua pele.

— Eu também senti sua falta, Zuko. Todos os dias daqueles três anos.

Ele inclinou a cabeça, aproximando seu rosto do meu.

— Eu prometo, Cherry... as coisas vão ser diferentes. Nós vamos mudar essa nação. Juntos.

O beijo que se seguiu foi carregado de todas as palavras que não pudemos dizer durante o jantar. Foi um selo de lealdade, uma promessa de que, não importa o quão sombria fosse a política da Nação do Fogo, nós éramos a luz um do outro.

No entanto, enquanto estávamos ali, eu não pude deixar de sentir um calafrio. Eu sabia que, nas sombras, Azula estava tramando. E Mai, com seu silêncio mortal e suas agulhas escondidas, agora tinha um motivo real para me odiar.

Eu era a "esposa perfeita" aos olhos de um tirano, mas para Zuko, eu era apenas a Cherry. E eu teria que lutar com todas as minhas forças para garantir que a visão de Ozai nunca corrompesse o que tínhamos.

— Vamos sair daqui — eu disse, afastando-me levemente. — Este ar está pesado demais.

— Para onde? — perguntou ele, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

— Para o pátio de treinamento — respondi, meus olhos brilhando com um desafio brincalhão. — Se meu futuro sogro acha que sou uma guerreira completa, acho que devo mostrar ao futuro Senhor do Fogo que ele ainda tem muito o que aprender sobre como me vencer em um duelo.

Zuko riu, a primeira risada verdadeira que eu ouvia dele desde seu retorno.

— Você é impossível.

— Eu sou o que você escolheu — respondi, puxando-o pelo corredor.

Enquanto caminhávamos, passamos por uma varanda onde Ty Lee estava sentada sozinha, olhando para as estrelas. Ela nos viu e deu um pequeno aceno triste. Eu sabia que o grupo estava se despedaçando. A infância havia acabado de vez. O jogo de Azula havia criado feridas que talvez nunca fechassem.

Mas, ao olhar para Zuko caminhando ao meu lado, senti que o sacrifício valia a pena. Eu não era mais apenas uma peça no tabuleiro. Eu era a rainha que ele havia escolhido, e nós escreveríamos nossa própria história, mesmo que tivéssemos que queimar o antigo mundo para fazer isso.

— Cherry? — Zuko chamou, parando na entrada do pátio.

— Sim?

— Obrigado por não desistir de mim. Mesmo quando eu era apenas um príncipe banido e cheio de raiva.

— Eu nunca desistiria do meu fogo, Zuko — respondi, puxando uma de minhas facas e fazendo-a girar no ar antes de capturá-la com precisão. — Agora, prepare-se. Eu não vou pegar leve só porque você é o herdeiro do trono.

Ele assumiu a postura de dobra de fogo, os olhos dourados brilhando com uma intensidade renovada.

— Eu não esperaria nada menos de você.

E ali, sob o céu estrelado da Nação do Fogo, começamos nosso próprio treino. Longe dos olhos de Ozai e das intrigas de Azula, éramos apenas dois jovens lutando pelo futuro que queríamos construir. Um futuro onde o poder não era medido pela crueldade, mas pela força de quem amamos.

Eu sabia que amanhã traria novos desafios. Mai provavelmente estaria praticando sua pontaria com meu nome em mente, e Azula estaria tecendo uma nova teia de mentiras. Mas, por aquela noite, o fogo entre nós era o único que importava.