Chapolin Colorado
O Imposto do Alívio no Velho Oeste
O sol do meio-dia castigava a pequena e empoeirada cidade de Riacho Seco. No meio da rua principal, o vento soprava uma bola de feno solitária, que rolava preguiçosamente entre o Saloon e a delegacia. Mas o silêncio não era de paz; era de puro desespero. Um grupo de moradores, com as mãos na barriga e pernas cruzadas em posições anatomicamente impossíveis, estava reunido em frente ao único banheiro público da cidade.
Lá, parado com os braços cruzados e uma expressão de poucos amigos, estava o terrível Racha Cuca. Ele ostentava um chapéu de abas largas, um coldre baixo e uma placa de madeira escrita à mão que dizia: "Pedágio Sanitário: 10 moedas de ouro ou sua alma".
— Mas isso é uma injustiça, Racha Cuca! — gritou o Velho Sr. Wilkins, suando frio. — Eu não aguento mais dois minutos, e você sabe que eu só recebo minha aposentadoria na semana que vem!
— Regras são regras, velhote — rosnou Racha Cuca, cuspindo um pedaço de fumo no chão. — Quer usar o trono, tem que pagar o imposto. O banheiro agora é território privado do meu bando. Quem não pagar, vai ter que se resolver com o deserto... e cuidado com os cactos!
Os moradores trocaram olhares de pânico. A situação era crítica. Foi então que a filha do padeiro, a jovem Rosa, não suportando mais ver o sofrimento do povo (e o seu próprio), olhou para o céu azul e gritou com toda a força de seus pulmões:
— Oh! E agora, quem poderá nos defender?
Um vulto vermelho e amarelo desceu do telhado do Saloon. Bem, "desceu" talvez seja uma palavra muito elegante. Na verdade, a figura escorregou na calha, bateu em um toldo de lona, ricocheteou em um barril de água e caiu de cara em um monte de feno.
— Eu! — proclamou a voz, abafada pela palha.
A figura se levantou rapidamente, tentando ignorar os vários ramos de feno espetados em suas antenas. Ele limpou o peito, onde reluzia o coração amarelo com as letras CH.
— É o Chapolin Colorado! — exclamaram os moradores, sentindo um misto de esperança e confusão.
— Não contavam com minha astúcia! — disse o herói, fazendo uma pose triunfal que terminou com ele perdendo o equilíbrio e se apoiando no Sr. Wilkins. — Sigam-me os bons!
Chapolin caminhou com passos largos e decididos até o Racha Cuca. Ele parou a poucos centímetros do vilão, tentando parecer intimidador, apesar de ser exatamente trinta centímetros mais baixo que o bandido.
— Escute aqui, seu... seu... indivíduo de maus costumes! — começou Chapolin, apontando o dedo. — Eu recebi o chamado do dever. Minhas anteninhas de vinil detectaram uma injustiça de proporções... biológicas!
Racha Cuca olhou para baixo, encarando o herói com desprezo.
— E quem é você, nanico? Um tomate com pernas? — O vilão riu, fazendo sua gangue, que estava escondida nas sombras, gargalhar junto.
— Eu sou o Chapolin Colorado! E exijo que liberte este recinto para o uso da população! — Chapolin estufou o peito. — É um direito humano básico! Um dever cívico! Um... um... — Ele gaguejou, perdendo o fio da meada.
— Um alívio necessário? — sugeriu Rosa.
— Isso! Exatamente o que eu ia dizer. Suspeitei desde o princípio! — Chapolin recuperou a postura. — Racha Cuca, eu te dou três segundos para sair da frente dessa porta, ou terá que se ver com a minha força descomunal!
— Ah, é? E o que você vai fazer? — Racha Cuca colocou a mão no cabo do revólver.
Chapolin deu um passo para trás, visivelmente pálido.
— Bom, eu... eu posso te denunciar para o sindicato dos vilões! Ou então... — Ele rapidamente tateou o cinto e puxou sua Marreta Biônica. — Ou então eu uso isso!
Ao tentar girar a marreta para impressionar o inimigo, Chapolin acabou acertando a própria canela.
— Ai! Ui! Oh! Meus movimentos são friamente calculados! — Ele começou a pular em um pé só ao redor do Racha Cuca. — Eu estava apenas testando a resistência do meu osso contra a densidade da marreta! Um experimento científico de alta periculosidade!
Racha Cuca, perdendo a paciência, empurrou Chapolin, que saiu rolando até o meio da rua.
— Escutem bem! — gritou o bandido para a multidão. — Ninguém entra aqui sem pagar! E se esse palhaço vermelho tentar de novo, eu vou transformar esse coração no peito dele em um alvo de tiro ao alvo!
Chapolin se levantou, limpando a poeira do short amarelo. Ele olhou para os moradores desesperados e para o vilão implacável.
— Calma, não entrem em pânico! — disse ele, voltando para perto do casal. — Eu tenho um plano. Um plano tão brilhante que até eu mesmo estou ansioso para saber qual é!
— Mas Chapolin — disse o Sr. Wilkins, quase chorando —, o Racha Cuca é perigoso! Ele é o gatilho mais rápido do oeste!
— E eu sou o herói mais astuto do mundo! — rebateu Chapolin. — Esperem aqui. Vou usar minha tática secreta de infiltração.
O herói deu a volta no prédio do banheiro, agachado e fazendo barulhos de espionagem com a boca. Ele tentou subir por uma janela pequena nos fundos, mas ficou entalado. Suas pernas balançavam freneticamente para fora.
— Socorro! — ele sussurrou. — O vilão colocou uma armadilha de encolhimento de janelas!
Rosa correu e ajudou a empurrá-lo para dentro. Lá dentro, Chapolin olhou em volta. O banheiro era simples, com um balde, um espelho sujo e um rolo de papel que parecia lixa. Foi então que ele viu algo interessante: uma corda que passava por uma polia no teto e ia até o lado de fora.
— Suspeitei desde o princípio! — exclamou ele. — O Racha Cuca não está apenas guardando a porta. Ele montou um sistema de alarme!
Enquanto isso, do lado de fora, Racha Cuca começou a cobrar o primeiro morador que conseguiu juntar as moedas. Mas, antes que o homem pudesse entrar, Chapolin apareceu na porta, mas não como Chapolin. Ele havia colocado um lençol velho que encontrou em um balde de limpeza sobre a cabeça.
— Buuuuu! — gritou ele. — Eu sou o fantasma dos que não conseguiram chegar a tempo!
Racha Cuca deu um pulo de susto, mas logo viu as botinhas amarelas por baixo do lençol.
— Chapolin, eu sei que é você! Sai daí agora!
— Quem é Chapolin? — perguntou a voz por baixo do lençol, tentando mudar o tom para algo mais cavernoso. — Eu sou uma alma penada! E venho dizer que este banheiro está amaldiçoado! Quem entrar aqui terá... terá... sete anos de soluços constantes!
Racha Cuca, irritado, arrancou o lençol. Chapolin estava lá, segurando uma escova de vaso sanitário como se fosse uma espada.
— Ah, é você de novo! — rosnou o vilão. — Agora você passou dos limites!
Racha Cuca sacou o revólver, mas Chapolin foi mais rápido (por puro acidente). Ao tentar se proteger, ele tropeçou em um balde de sabão e deslizou pelo chão ensaboado, passando por entre as pernas do Racha Cuca e derrubando o vilão de costas.
— Viram só? — disse Chapolin, levantando-se e tentando manter o equilíbrio no chão liso. — Eu usei a técnica da "Enguia Lubrificada"! Um movimento milenar aprendido com os monges do... do... Japão de Baixo!
A gangue do Racha Cuca, vendo o chefe no chão, avançou. Chapolin, em pânico, tirou do bolso a sua Corneta Paralisadora.
— Parem todos! — Ele soprou a corneta.
Imediatamente, todos os bandidos congelaram em posições ridículas. Um deles estava prestes a dar um soco, outro estava no meio de um bocejo. Até o Racha Cuca, que tentava se levantar, ficou estático como uma estátua de mármore.
— Incrível, Chapolin! — comemorou Rosa. — Você os parou!
— É claro! — disse o herói, guardando a corneta com orgulho. — Com a minha Corneta Paralisadora, eu sou o senhor do tempo e do espaço! Agora, todos vocês podem usar o banheiro em paz. A fila começa aqui!
Os moradores, em festa, começaram a passar pelos bandidos estáticos. Mas, no meio da comemoração, o Sr. Wilkins, em sua pressa, acabou esbarrando no braço do Chapolin. A corneta caiu no chão e, ao bater na madeira, emitiu dois sons curtos: *fom-fom*.
O efeito foi instantâneo. Racha Cuca e sua gangue voltaram à vida, mais furiosos do que nunca.
— Agora você morre, seu vermelhinho! — gritou Racha Cuca, recuperando sua arma.
Chapolin arregalou os olhos. Suas anteninhas começaram a vibrar desesperadamente, emitindo um som de alerta de curto-circuito.
— Esperem! — gritou Chapolin, estendendo a mão. — Antes de me matarem, vocês não gostariam de ouvir uma última vontade?
Racha Cuca parou, intrigado.
— O que é? Fale rápido!
— Eu gostaria de... de... lhes oferecer uma pastilha de mel! Para a garganta, sabe? Gritar "morra" o dia todo deve cansar muito as cordas vocais.
Enquanto o vilão processava a confusão, Chapolin tirou do bolso não pastilhas, mas suas famosas Pastilhas de Encolhicol.
— Tomem! — Ele jogou as pastilhas para cima.
No caos, os bandidos acharam que eram moedas de ouro e tentaram pegá-las com a boca. Em poucos segundos, o que antes era uma gangue de homens brutais transformou-se em um grupo de homenzinhos do tamanho de formigas, cujas vozes agora pareciam zumbidos de mosquito.
— O que aconteceu? — guinchou o mini-Racha Cuca. — Por que o mundo ficou tão grande?
Chapolin, agora sentindo-se um gigante, caminhou até eles com um sorriso de satisfação.
— Não contavam com minha astúcia! Agora vocês são tão pequenos quanto a sua generosidade!
Ele pegou um copo vazio que estava em uma mesa próxima e prendeu todos os bandidos minúsculos lá dentro.
— Pronto! — declarou ele, entregando o copo para o xerife da cidade, que acabara de chegar (e que também estava precisando usar o banheiro). — Leve-os para a prisão. Mas cuidado para não deixá-los fugir pelo ralo!
A cidade de Riacho Seco explodiu em aplausos. O imposto do banheiro fora abolido, e a paz — e o alívio — voltaram ao Velho Oeste.
— Chapolin, você é um gênio! — disse Rosa, dando um beijo na bochecha do herói.
Chapolin ficou vermelho como seu uniforme.
— Ora, não há de quê! — Ele tentou fazer uma pose de galã, mas acabou tropeçando no copo vazio e quase caindo de novo. — Eu apenas usei minha inteligência superior para reduzir o crime... literalmente!
— Mas e agora? — perguntou o Sr. Wilkins. — Como faremos quando eles voltarem ao tamanho normal?
— Não se preocupem! — explicou Chapolin. — O efeito dura apenas algumas horas. Tempo suficiente para o xerife colocá-los em uma cela com grades bem fininhas... ou em uma gaiola de canário!
O sol começava a se pôr no horizonte, pintando o deserto de laranja e roxo. Chapolin Colorado, o herói do coração amarelo, preparava-se para partir.
— Bom, minha missão aqui está cumprida! — anunciou ele. — Outros lugares precisam da minha ajuda. Lugares onde as injustiças são grandes e os heróis são... bem, da minha estatura!
— Para onde você vai agora, Chapolin? — perguntou Rosa.
— Vou para onde o vento me levar! — Ele tentou pular em cima de um cavalo que estava parado por perto, mas errou o salto e caiu do outro lado. — Digo... eu prefiro ir a pé! Exercício é fundamental para manter a forma de um atleta como eu!
Ele começou a caminhar em direção ao pôr do sol, tropeçando em cada pequena pedra no caminho, mas mantendo a cabeça erguida.
— Se precisarem de mim, já sabem! — gritou ele, parando por um momento. — Basta perguntarem: Oh! E agora, quem poderá me defender?
— Nós diremos, Chapolin! — gritou a multidão.
— E eu aparecerei! — Ele acenou uma última vez. — Sigam-me os bons!
E assim, o Chapolin Colorado desapareceu na poeira da estrada, deixando para trás uma cidade agradecida e um vilão que, por um breve momento, aprendeu que tamanho não é documento, especialmente quando se enfrenta a astúcia de um herói que não teme nada... exceto, talvez, ratos, fantasmas e marretas que batem no próprio joelho.
No silêncio da noite que caía, ainda se podia ouvir, bem longe, um grito abafado:
— Eu estou bem! O cacto amorteceu minha queda! Suspeitei desde o princípio!