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Chapolin Colorado

O Plano da Isca de Batom e o Retorno dos Vilões

A cidade grande nunca dormia, mas naquela noite, ela parecia estar em um coma profundo e levemente sinistro. Em um beco úmido, onde o cheiro de lixo se misturava ao aroma de óleo de motor, duas silhuetas se destacavam sob a luz trêmula de um poste quebrado.

— Eu já disse, Quase Nada, se a gente não acabar com ele hoje, eu mudo meu nome para Tripa Cheia! — resmungou o homem magro, cujas roupas pareciam três números maiores que seu corpo esguio.

— Calma, Tripa Seca — respondeu o outro, um sujeito de estatura baixa, olhar de poucos amigos e um bigode que parecia ter sido desenhado com carvão. — O plano é infalível. Ninguém resiste a um pedido de socorro de uma dama em perigo. Nem mesmo aquele gafanhoto vermelho.

No centro do plano, sentada em um caixote de madeira e retocando o batom vermelho com um espelhinho de mão, estava Rosa a Rumorosa. Ela usava um vestido elegante, embora um pouco amassado, e mantinha uma expressão de tédio absoluto.

— Vocês têm certeza de que ele vem? — perguntou Rosa, fechando o estojo de maquiagem com um estalo seco. — Da última vez, ele demorou meia hora porque ficou preso em uma porta giratória.

— Ele vem, Rosa — afirmou Tripa Seca, ajustando seu chapéu de aba larga. — O Chapolin Colorado tem um faro para o perigo... e uma audição treinada para frases feitas. Agora, prepare-se. Quase Nada, esconda-se atrás daqueles barris. Eu vou ficar aqui em cima, com esta rede de pesca pesada. Quando ele aparecer, nós o pegamos como se fosse um siri na praia!

Rosa a Rumorosa suspirou, levantou-se e começou a ensaiar sua melhor voz de desespero. Ela caminhou até o meio do beco, olhou para os lados e, com a mão dramática na testa, gritou:

— Oh! E agora, quem poderá me defender?

O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som de um gato revirando uma lata de lixo. Os vilões prenderam a respiração. De repente, um som de "vupt" cortou o ar, seguido por um estrondo metálico vindo de dentro de uma caçamba de entulho próxima.

A tampa da caçamba voou para longe e uma figura vermelha emergiu, coberta de cascas de banana e jornais velhos.

— Eu! — exclamou o herói, tentando fazer uma pose heroica enquanto equilibrava uma lata de sardinha vazia em cima de uma de suas anteninhas de vinil.

— É o Chapolin Colorado! — exclamou Rosa, com um entusiasmo visivelmente forçado.

— Não contavam com minha astúcia! — Chapolin saltou da caçamba, mas calculou mal a distância e acabou aterrissando dentro de um pneu velho que estava no chão. Ele começou a girar descontroladamente até bater contra a parede. — Sigam-me os bons! Digo... eu já sabia que este pneu precisava de um teste de velocidade. Suspeitei desde o princípio!

Ele se desembaraçou do pneu, limpou o uniforme e aproximou-se de Rosa, que tentava não rir.

— O que aconteceu, jovem dama? Minhas anteninhas de vinil detectaram uma vibração de... de... batom borrado e perigo iminente!

— Oh, Chapolin! — disse Rosa, apontando para as sombras. — Dois homens terríveis querem me roubar! Eles são altos, fortes e têm dentes de tubarão!

— Altos e fortes? — Chapolin deu um passo para trás, protegendo-se com o próprio escudo no peito. — Bom, nesse caso, talvez seja melhor chamarmos a polícia. Eu esqueci que deixei o feijão no fogo e...

— Mas Chapolin — interrompeu Rosa, segurando-o pelo braço —, você é a minha única esperança!

— Sim, eu sei! Eu estava apenas testando sua coragem — disse ele, estufando o peito. — Onde estão esses malfeitores? Apareçam, covardes! Apareçam se forem homens! Se forem dois, apareçam um de cada vez!

Nesse momento, Tripa Seca e Quase Nada saltaram de seus esconderijos. Tripa Seca segurava a rede e Quase Nada brandia um pedaço de pau que parecia um pé de mesa.

— Pegamos você, seu vermelhinho! — gritou Quase Nada.

— Tripa Seca! Quase Nada! — Chapolin deu um salto de susto e acabou parando nos braços de Rosa a Rumorosa. — Que surpresa agradável! O que fazem por aqui? Estão procurando emprego como figurantes de filme de terror?

— Viemos acabar com a sua raça, Chapolin! — rosnou Tripa Seca, girando a rede. — Hoje você não nos escapa com suas táticas tontas.

— Tontas? — Chapolin desceu dos braços de Rosa e recuperou a dignidade. — Meus movimentos são friamente calculados! Inclusive este!

Ele tentou sacar a Marreta Biônica, mas acabou puxando um sanduíche de presunto que estava guardado no cinto para o lanche.

— Ah! Um sanduíche! — disse Quase Nada, confuso.

— Exatamente! — rebateu Chapolin. — Para que vocês possam comer e se acalmar. A fome é a maior causa da vilania no mundo. Sabiam que o estômago vazio gera pensamentos negativos?

— Deixe de conversa fiada! — Tripa Seca lançou a rede.

Chapolin, em um reflexo puramente acidental causado por um espirro iminente, abaixou-se para pegar o sanduíche que havia caído. A rede passou por cima dele e envolveu Quase Nada, que ficou preso como um pacote de padaria.

— Ai! Tripa Seca, seu idiota! Você me pegou! — gritou o vilão baixinho, lutando contra as cordas.

— Viram só? — Chapolin levantou-se, agora com a Marreta Biônica em mãos. — Eu usei a técnica da "Invisibilidade Seletiva". Eu me tornei tão pequeno que a rede nem me viu!

— Ora, seu... — Tripa Seca avançou com os punhos cerrados.

— Espere! — gritou Chapolin, estendendo a mão. — Antes de lutarmos, você não gostaria de conferir se o seu cadarço está desamarrado?

Tripa Seca parou e olhou para os pés.

— Mas eu estou usando botas!

— Ah, então eu me enganei. Suspeitei desde o princípio! — Chapolin aproveitou a distração e desferiu um golpe com a Marreta Biônica, mas a marreta bateu em uma viga de ferro acima deles, ricocheteou e atingiu o próprio Chapolin na cabeça.

O herói começou a andar em círculos, vendo passarinhos coloridos girando ao redor de suas anteninhas.

— Olhem... o carnaval chegou mais cedo este ano... — balbuciou ele, antes de cair sentado.

Rosa a Rumorosa, vendo a confusão, decidiu intervir. Ela não queria que o plano desse errado, mas também estava começando a achar a situação ridícula demais.

— Tripa Seca, acabe logo com isso! — ordenou ela.

O vilão magro aproximou-se do Chapolin caído, mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, as anteninhas de vinil do herói começaram a girar freneticamente, emitindo um som de sirene de ambulância.

— Alerta! Alerta! — gritou Chapolin, recuperando a consciência subitamente. — Minhas anteninhas dizem que há mais alguém neste beco! Alguém muito perigoso!

Tripa Seca olhou em volta, nervoso.

— Quem? Onde?

— Ali! — Chapolin apontou para um espelho quebrado encostado na parede.

Tripa Seca olhou para o próprio reflexo e deu um grito.

— Um monstro! Um monstro magro e feio!

— É você mesmo, seu tonto! — gritou Quase Nada, ainda tentando se desvencilhar da rede.

Aproveitando a confusão mental dos vilões, Chapolin tirou do bolso a sua Corneta Paralisadora.

— Agora vocês vão ver! — Ele soprou a corneta: *fom!*

Tripa Seca congelou com uma expressão de pavor no rosto. Rosa a Rumorosa, que estava por perto, também ficou estática, com a boca aberta no meio de uma frase.

— Pronto! — comemorou Chapolin. — Agora que estão todos paralisados, eu posso... eu posso... — Ele parou e olhou para Quase Nada, que ainda se mexia dentro da rede. — Por que você não parou?

— Porque eu estou coberto pela rede, seu burro! — gritou Quase Nada. — A rede protege contra o som da corneta!

— Ah, sim. É uma rede acústica. Suspeitei desde o princípio! — Chapolin aproximou-se cautelosamente. — Mas não importa. Agora eu vou usar minhas Pastilhas de Encolhicol para transformar você em um vilão de bolso!

Ele buscou no bolso, mas só encontrou farelos do sanduíche de presunto.

— Oh! E agora, quem poderá me defender? — perguntou o próprio herói, percebendo que estava sem munição.

— Ninguém! — Quase Nada finalmente conseguiu libertar um braço e puxou um revólver. — Adeus, Chapolin Colorado!

O vilão mirou, mas, no exato momento em que ia puxar o gatilho, Chapolin tropeçou em uma casca de banana (a mesma que estava em sua cabeça minutos antes) e caiu para a frente. O tiro passou raspando por cima dele e atingiu a corneta paralisadora que estava no chão.

O impacto do tiro fez a corneta emitir dois sons seguidos: *fom-fom!*

Imediatamente, Tripa Seca e Rosa voltaram a se mexer. O susto foi tão grande que Tripa Seca deu um pulo e caiu em cima de Quase Nada, esmagando o parceiro contra o chão.

— Sai de cima de mim, seu saco de ossos! — gritava Quase Nada.

Chapolin, levantando-se e limpando o short amarelo, viu a oportunidade de ouro.

— Rendam-se! — gritou ele, brandindo a Marreta Biônica com renovada confiança. — Vocês estão cercados pela minha astúcia e por... por... este beco sem saída!

Rosa a Rumorosa, percebendo que o plano tinha ido por água abaixo, tentou fugir, mas Chapolin foi mais rápido e bloqueou o caminho com a marreta.

— Aonde vai, dona Rumorosa? A festa está apenas começando!

— Escute aqui, Chapolin — disse Rosa, tentando usar seu charme —, foi tudo um mal-entendido. Eu fui sequestrada por eles, eu juro!

— Ah, claro — disse Chapolin, balançando a cabeça. — E o batom que você estava retocando era para ficar bonita para o seu resgate, não é?

— Exatamente! — disse ela, esperançosa.

— Suspeitei desde o princípio! — Chapolin sorriu. — Mas infelizmente para você, minhas anteninhas de vinil também detectam mentiras... e elas estão zumbindo mais do que um enxame de abelhas em dia de sol!

Nesse momento, as sirenes da polícia de verdade começaram a ecoar ao longe. Os vizinhos, cansados da barulheira no beco, finalmente haviam ligado para as autoridades.

— A polícia! — gritou Tripa Seca. — Vamos cair fora daqui!

Os dois vilões tentaram correr, mas, na pressa, acabaram batendo cabeça um com o outro e caíram desmaiados. Rosa, vendo que não tinha saída, sentou-se novamente no caixote e suspirou, derrotada.

Chapolin Colorado fez uma pose triunfal, colocando um pé sobre o corpo estirado de Tripa Seca.

— Mais uma vitória para o herói do coração amarelo! — declarou ele.

Quando os policiais chegaram ao beco, encontraram os dois bandidos mais procurados da cidade nocauteados e uma mulher furiosa sendo vigiada por um homenzinho de vermelho que tentava explicar como havia derrotado todos com "movimentos friamente calculados".

— Bom trabalho, Chapolin — disse o sargento, algemando Quase Nada. — Como você conseguiu pegar os três sozinho?

— Foi simples, sargento — explicou o herói, enquanto guardava a marreta. — Eu usei a estratégia da "Confusão Generalizada". Primeiro, eu os deixei pensar que eu era um tonto. Depois, eu confirmei a suspeita deles. E, finalmente, quando eles baixaram a guarda para rir, eu os venci com a força da gravidade e um pouco de ajuda desta casca de banana.

— Você é realmente único — comentou o sargento, sem saber se ria ou se agradecia.

— Eu sei, eu sei. A modéstia é uma das minhas maiores virtudes — respondeu Chapolin. — Agora, se me dão licença, tenho outros compromissos. Há uma senhora em outro bairro que não consegue abrir um pote de palmito, e esse é um trabalho para o Chapolin Colorado!

Ele caminhou em direção à saída do beco, mas parou ao lado de Rosa a Rumorosa.

— E você, dona Rosa... da próxima vez que quiser me invocar, tente usar um perfume menos forte. Minhas antenas são alérgicas a fragrâncias baratas!

Rosa apenas revirou os olhos enquanto era levada pelos policiais.

Chapolin deu um salto para sair do beco, tentando pular um pequeno muro para encurtar o caminho. Como era de se esperar, ele não saltou alto o suficiente, bateu a barriga no topo do muro e caiu do outro lado com um barulho de folhagem sendo esmagada.

— Eu estou bem! — gritou sua voz do outro lado. — Eu só queria verificar se o solo deste lado da cidade era mais firme! Suspeitei desde o princípio!

O sargento e os policiais balançaram as cabeças, sorrindo. A cidade podia ser perigosa, mas enquanto houvesse alguém disposto a tropeçar em nome da justiça, eles sabiam que tudo ficaria bem.

Ao longe, sumindo entre os prédios iluminados, ainda se ouvia o eco de um grito heróico:

— Sigam-me os bons!