Chapolin Colorado
O Tesouro da Honestidade e a Prancha do Destino
O sol ainda nem havia pensado em nascer sobre as águas turvas da Baía dos Esqueletos, mas o som de marteladas rítmicas já ecoava pelo convés do temido navio "Satânico". Dois homens, acorrentados a um mastro desgastado pelo sal e pelo tempo, observavam com olhos arregalados enquanto o carrasco — um sujeito gigantesco conhecido como Matadouro — testava a flexibilidade de uma prancha de madeira recém-instalada sobre a borda do navio.
— Eu não quero virar comida de tubarão, Largatixa! — soluçou o pirata Pança Louca, cujo nome fazia jus à sua circunferência abdominal, que sacolejava a cada soluço. — Eu tenho tanto para viver! Eu ainda nem terminei de enterrar meu terceiro tesouro falso!
— Cale a boca, Pança Louca! — sibilou Largatixa, um homem magro e nervoso que parecia uma corda de violão prestes a arrebentar. — Se o capitão Alma Negra ouvir você choramingando, ele vai nos jogar na água antes mesmo do café da manhã. E você sabe que ele odeia desperdiçar o café.
De repente, a porta da cabine do capitão abriu-se com um estrondo. De lá saiu a figura mais temida dos sete mares: Alma Negra. Ele usava um chapéu imenso, uma capa que parecia feita de sombras e tinha uma cicatriz que atravessava o rosto, dando-lhe um ar de quem nunca havia sorrido na vida, nem mesmo quando ganhava moedas de ouro.
— Preparem os pulmões, seus ratos de porão! — rugiu Alma Negra, desembainhando seu sabre. — Ao amanhecer, vocês vão descobrir se os tubarões preferem carne magra ou gordurosa. Matadouro, a prancha está pronta?
— Está firme como o pescoço de um enforcado, capitão! — respondeu Matadouro, dando uma risada que parecia o som de pedras sendo trituradas.
Largatixa e Pança Louca trocaram olhares desesperados. Eles sabiam que não havia saída. Foi então que Largatixa, lembrando-se de uma lenda que ouvira em uma taverna em Tortuga, olhou para o céu estrelado e gritou com a força de um homem que vê a morte de perto:
— Oh! E agora, quem poderá nos defender?
Um zumbido estranho começou a ecoar pelo convés. De repente, um vulto vermelho despencou do topo do mastro principal. O sujeito bateu em três cordas, rodopiou no ar, acertou o ninho de corvo e, por fim, caiu sentado exatamente em cima da barriga de Pança Louca, antes de rolar para o chão de madeira.
— Eu! — exclamou a figura, levantando-se e tentando desesperadamente recuperar o fôlego.
Ele vestia um uniforme vermelho vibrante, com um short amarelo e um coração no peito contendo as letras "CH". Suas antenas de vinil estavam levemente tortas devido à queda cinematográfica.
— É o Chapolin Colorado! — exclamaram Largatixa e Pança Louca, as esperanças subindo mais rápido que a maré.
— Não contavam com minha astúcia! — declarou o herói, fazendo uma pose imponente que foi imediatamente interrompida por um ataque de tosse causado pela maresia. — Sigam-me os bons!
Chapolin olhou em volta, piscando os olhos para se acostumar com a penumbra. Ele viu os dois piratas acorrentados e, em seguida, deparou-se com o imenso Alma Negra e o monstruoso Matadouro. O herói deu um passo para trás, suas pernas começando a tremer em um ritmo de samba.
— O que é isso? Um baile de máscaras temático? — perguntou Chapolin, com a voz um pouco mais aguda do que o normal. — Se for, eu devo dizer que a fantasia de vocês está muito realista. Especialmente o cheiro de peixe podre.
— Quem é este nanico vestido de grilo? — perguntou Alma Negra, aproximando-se com o sabre em riste. — Matadouro, por acaso convidamos um palhaço para a execução?
— Eu não sou um grilo! — protestou Chapolin, estufando o peito para parecer cinco centímetros mais alto. — Eu sou o Chapolin Colorado! E exijo que soltem esses dois... esses dois... o que são vocês mesmo?
— Somos piratas, Chapolin! — disse Largatixa. — Mas somos piratas do bem!
— Piratas do bem? — Chapolin franziu a testa, cruzando os braços. — Suspeitei desde o princípio! Não existem piratas do bem. Piratas roubam, saqueiam e não lavam as orelhas. É contra o meu código de ética ajudar vilões!
— Por favor, Chapolin! — implorou Pança Louca, com lágrimas nos olhos. — Se você nos tirar dessa, nós prometemos nunca mais roubar nem um tostão! Vamos virar... vamos virar... vendedores de enciclopédias!
— Ou sapateiros! — completou Largatixa. — Prometemos deixar a vida de pirataria para sempre!
Chapolin olhou para os dois, pensativo. Suas anteninhas de vinil começaram a vibrar freneticamente.
— Estão falando a verdade? — perguntou o herói. — Olhem que eu tenho um detector de mentiras biônico que nunca falha! — Ele apontou para as antenas, que na verdade estavam vibrando porque ele estava com frio.
— Juramos pela nossa honra! — disseram os dois em uníssono.
— Está bem! — Chapolin virou-se para Alma Negra. — Escute aqui, senhor... capitão Alma de Porco...
— É Alma Negra! — rugiu o vilão.
— Isso, tanto faz. A cor não altera o produto — disse Chapolin, balançando a mão. — Eu exijo que solte esses homens. Eles agora são cidadãos de bem, futuros sapateiros e vendedores de livros.
Alma Negra soltou uma gargalhada tenebrosa.
— Você é muito engraçado, grilo vermelho. Matadouro, pegue-o. Vamos ter três execuções hoje pelo preço de uma.
Matadouro avançou como um touro enfurecido. Chapolin, em um movimento de puro pânico que ele mais tarde chamaria de "tática de distração", tentou correr para o outro lado, mas tropeçou em um balde de piche e saiu deslizando pelo convés ensaboado. Por puro milagre, ele passou por entre as pernas de Matadouro, fazendo com que o gigante perdesse o equilíbrio e caísse de cara em um barril de pólvora.
— Viram só? — disse Chapolin, levantando-se e tentando tirar o piche da bota. — Eu usei a técnica da "Enguia Besuntada"! Um movimento friamente calculado para desestabilizar o inimigo através da física aplicada!
Alma Negra, furioso, avançou com seu sabre.
— Agora chega! Vou transformar esse coração de plástico em picadinho!
— Espere! — gritou Chapolin, estendendo a mão. — Você não ousaria bater em um homem que possui a arma mais poderosa dos sete mares, ousaria?
Alma Negra parou, intrigado.
— E que arma seria essa?
Chapolin rapidamente tateou o cinto e puxou sua Marreta Biônica.
— Esta! A Marreta Biônica de Plástico Reforçado! — Ele tentou girá-la de forma heróica, mas a marreta escapou de sua mão, bateu no mastro, ricocheteou em uma polia e acertou o próprio Chapolin no meio da testa.
— Ai! Ui! Oh! — O herói começou a caminhar em zigue-zague. — Eu... eu estava apenas demonstrando o efeito bumerangue da arma. É uma tecnologia que vocês, piratas atrasados, não compreendem!
Aproveitando o estado meio tonto do herói, Alma Negra tentou um golpe de cima para baixo. Chapolin, recuperando a visão subitamente, deu um salto para o lado e puxou do bolso a sua Corneta Paralisadora.
— Pare! — Ele soprou a corneta com toda a força: *fom!*
Imediatamente, Alma Negra congelou na posição de ataque, com uma expressão de ódio eterno esculpida no rosto. Matadouro, que estava saindo do barril de pólvora, também ficou estático, parecendo uma estátua de jardim muito feia.
— Incrível, Chapolin! — gritou Largatixa. — Você os transformou em pedra!
— Não é pedra, é paralisia sonora! — corrigiu Chapolin, limpando o suor da testa. — Agora, rápido, onde estão as chaves dessas correntes?
— Estão no cinto do Matadouro! — disse Pança Louca.
Chapolin aproximou-se do gigante paralisado. Ele tentou pegar as chaves, mas Matadouro era tão alto que o herói não alcançava o cinto.
— Oh! E agora, quem poderá me defender? — perguntou ele a si mesmo. — Digo... eu tenho uma ideia melhor. Vou usar as Pastilhas de Encolhicol!
Ele tirou o frasco do bolso e tomou uma pastilha. Em poucos segundos, o Chapolin Colorado começou a diminuir de tamanho até ficar do tamanho de um rato.
— Chapolin! Para onde você foi? — perguntou Pança Louca, olhando para o chão.
— Estou aqui embaixo, seu tonto! — disse uma vozinha fina e aguda. — Não me pisem!
O mini-Chapolin escalou a bota de Matadouro, subiu pela calça e chegou ao cinto. Com muito esforço, ele empurrou a chave para fora do gancho. A chave caiu no convés com um tilintar metálico.
— Pronto! — disse o pequeno herói, descendo pelo cadarço do vilão como se fosse uma corda de rapel.
Em alguns minutos, o efeito da pastilha passou e Chapolin voltou ao seu tamanho normal (que já não era muito grande). Ele pegou as chaves e libertou Largatixa e Pança Louca.
— Rápido! — disse Largatixa. — Vamos pegar o bote salva-vidas e fugir daqui antes que eles acordem!
— Esperem! — disse Chapolin. — Eu ainda não terminei. Minhas anteninhas de vinil estão detectando que ainda falta algo para garantir que eles não nos sigam.
Ele aproximou-se da corneta paralisadora que estava no chão. Mas, ao se abaixar, ele acabou tropeçando em uma corda solta e, para não cair, apoiou-se no ombro do paralisado Alma Negra. O peso de Chapolin fez com que o vilão tombasse para o lado, batendo na corneta e emitindo dois sons curtos: *fom-fom!*
O efeito foi instantâneo. Alma Negra e Matadouro voltaram à vida, rugindo de raiva.
— Seus traidores! — gritou Alma Negra. — Matadouro, pegue-os!
— Corram para o bote! — gritou Chapolin, enquanto tentava encontrar sua marreta no meio da confusão.
Os piratas regenerados e o herói correram para a borda do navio. Largatixa e Pança Louca pularam no bote que estava pendurado nas cordas. Chapolin estava prestes a pular também, mas Matadouro agarrou-o pela capa.
— Peguei você, grilo saltitante! — rugiu o carrasco.
— Solte-me, seu... seu... montanha de músculos sem cérebro! — Chapolin debatia-se no ar. — Se não me soltar, eu vou usar minha técnica secreta de "Cofre de Cócegas"!
Ele começou a fazer cócegas nas axilas de Matadouro com suas antenas de vinil. O gigante, que era extremamente sensível, começou a rir descontroladamente, soltando o herói.
— Hahaha! Pare! Hahaha! — Matadouro caiu no chão, rolando de rir.
Chapolin aproveitou o momento e saltou para o bote, caindo exatamente em cima de Pança Louca, que serviu de amortecedor natural.
— Cortem as cordas! — ordenou Chapolin.
Largatixa cortou as amarras com uma faca e o bote despencou no mar com um grande *splash*. Alma Negra apareceu na borda do navio, sacudindo o punho.
— Vocês não vão longe! Eu vou caçá-los até o fim do mundo!
— Pode tentar, Capitão Alma de Chocolate! — gritou Chapolin do bote, enquanto os piratas começavam a remar desesperadamente. — Mas lembre-se: a justiça tarda, mas não falha... ou falha, mas não tarda... enfim, você entendeu o recado!
Enquanto se afastavam do navio negro sob o luar, o silêncio da noite foi quebrado pelo som dos remos batendo na água. Largatixa e Pança Louca olhavam para Chapolin com uma admiração que beirava a incredulidade.
— Você nos salvou mesmo, Chapolin — disse Largatixa, limpando o suor da testa. — Nós nunca esqueceremos.
— E quanto à promessa? — perguntou Chapolin, cruzando os braços e tentando manter o equilíbrio no bote balançante. — Nada de pirataria? Nada de roubar enterrar tesouros alheios?
— Palavra de pirata... digo, de ex-pirata! — disse Pança Louca. — Eu vou abrir uma padaria. "O Pão do Pança". O que acha?
— E eu vou ser alfaiate — disse Largatixa. — Vou fazer roupas que não pinicam.
— Suspeitei desde o princípio! — Chapolin sorriu, satisfeito. — O mundo precisa de mais pães e menos saques. E de roupas que não pinicam também, porque este meu uniforme às vezes me dá uma coceira nas costas que só vendo.
Eles remarão até uma pequena ilha deserta, onde poderiam se esconder até que o navio de Alma Negra estivesse bem longe. Ao chegarem à areia branca, Chapolin preparou-se para partir.
— Bom, minha missão aqui terminou — anunciou ele, olhando para o horizonte onde os primeiros raios de sol começavam a aparecer. — Outros mares precisam da minha astúcia. Outros piratas precisam aprender que a honestidade é o maior tesouro de todos, embora o ouro também seja muito bom para pagar as contas.
— Como você vai embora, Chapolin? — perguntou Largatixa. — Não temos outro barco.
— Não se preocupem! — disse o herói, apontando para o céu. — Eu tenho meus métodos de transporte ultra-secretos e tecnologicamente avançados.
Ele começou a caminhar em direção a uma palmeira, pretendendo usá-la como catapulta humana (um plano que ele acabara de inventar). Ele dobrou o tronco da árvore com muito esforço e sentou-se na ponta.
— Se precisarem de mim, já sabem! — gritou ele. — Basta dizerem: Oh! E agora, quem poderá me defender?
— Nós diremos! — prometeram os dois novos cidadãos honestos.
— Então... sigam-me os bons! — exclamou Chapolin, soltando a trava improvisada da palmeira.
A árvore esticou-se com um estalo violento, lançando o herói vermelho não para o céu, mas diretamente para dentro de um arbusto de cocos logo à frente.
— Eu estou bem! — gritou a voz de Chapolin de dentro das folhas. — Eu só queria testar a resistência aerodinâmica das fibras vegetais! Suspeitei desde o princípio!
Largatixa e Pança Louca riram e acenaram enquanto observavam o vulto vermelho se levantar, sacudir a poeira e começar a caminhar sobre as águas (ou pelo menos tentar, antes de perceber que estava apenas em uma parte muito rasa da praia).
E assim, o Chapolin Colorado partiu para sua próxima aventura, deixando para trás dois homens transformados e a certeza de que, mesmo nos tempos mais sombrios e nos mares mais perigosos, a astúcia — e um pouco de sorte acidental — sempre vence no final.