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Childhood Ties

Marcas de Rebeldia e Asfalto

O sol da tarde batia contra o metal cromado da motocicleta de Engfa, uma máquina que já tinha visto mais asfalto de pistas ilegais do que qualquer concessionária autorizada gostaria de admitir. Engfa ajustou os óculos no rosto, ajeitando a jaqueta de Fórmula 1 que parecia ser sua segunda pele. Kiew, seu fiel companheiro, havia ficado em casa sob os cuidados da vizinha, mas o cheiro de Charlotte ainda estava impregnado no tecido de sua roupa, uma mistura doce de morangos que contrastava com o aroma persistente de nicotina que emanava de seus dedos.

— Você tem certeza disso, Waraha? — Faye perguntou, ajeitando o piercing no canto da boca enquanto subia na garupa. — Se a polícia nos parar, não tem "papai Austin" que nos tire da delegacia. Você nem tem idade para ter licença, quanto mais para pilotar essa fera.

Engfa soltou uma risada sarcástica, chutando o pedal de partida. O motor roncou alto, uma vibração potente que ecoou pela rua estreita do bairro suburbano onde moravam.

— Desde quando você se preocupa com a legalidade das coisas, Malisorn? — Engfa olhou por cima do ombro, um brilho desafiador nos olhos castanhos. — Eu sei dirigir melhor do que qualquer um daqueles engomadinhos que estudam com a Char. Segura firme.

Faye sorriu, passando os braços pela cintura de Engfa e colando o peito nas costas da namorada. Ela adorava a adrenalina, adorava o perigo e, acima de tudo, adorava a forma como Engfa assumia o controle de qualquer situação.

— Então acelera, piloto. Vamos buscar nossa princesa no castelo de cristal.

A viagem até a zona nobre da cidade foi um borrão de luzes e sons. À medida que os prédios pichados e as calçadas rachadas ficavam para trás, dando lugar a avenidas arborizadas e mansões com cercas vivas impecáveis, a sensação de deslocamento aumentava. Quando Engfa estacionou a moto bem em frente aos portões monumentais da Saint Jude Academy, o contraste era quase cômico.

De um lado, SUVs de luxo e sedãs alemães conduzidos por motoristas uniformizados. Do outro, uma moto barulhenta com duas garotas que exalavam tudo o que aquela vizinhança repudiava: rebeldia, liberdade e uma beleza crua.

Engfa desligou o motor e tirou o capacete, bagunçando o cabelo castanho-escuro. Ela olhou ao redor, observando os grupos de alunos que começavam a sair. Meninos com suéteres amarrados nos ombros e meninas com saias plissadas passavam por elas, lançando olhares de desdém e curiosidade.

— Olhe para isso — Engfa comentou, pegando um cigarro e colocando-o entre os lábios, embora não o acendesse por respeito à proximidade da escola. — É um zoológico de filhinhos de papai.

Faye desceu da moto, encostando-se no tanque e puxando Engfa para perto. Ela passou os braços pelo pescoço da namorada, ignorando completamente as dezenas de olhos que as vigiavam.

— Eles são a nobreza da sociedade, Fa — debochou Faye, a voz alta o suficiente para ser ouvida por um grupo de rapazes que passava. — Olhe para as caras deles. Estão morrendo de medo de que a gente roube a prataria ou, quem sabe, a dignidade deles.

— Você é impossível — Engfa murmurou, mas não se afastou. Pelo contrário, ela envolveu a cintura de Faye, puxando-a para mais perto.

Faye, sentindo a plateia crescer, decidiu dar um show. Ela começou a distribuir beijos lentos e úmidos pelo pescoço de Engfa, subindo até a mandíbula, onde deixou uma leve mordida. O piercing frio roçou a pele quente de Engfa, que soltou um suspiro baixo, fechando os olhos e ignorando o mundo ao redor.

— Eles estão olhando, Faye — sussurrou Engfa contra o cabelo ruivo da outra.

— Deixe que olhem — Faye respondeu, virando o rosto para a multidão com um sorriso arrogante e vitorioso. — Eles nunca viram nada tão real na vida inteira.

Nesse momento, os grandes portões de carvalho se abriram e Charlotte Austin surgiu. Ela caminhava com a elegância natural que seus pais haviam treinado exaustivamente, mas assim que seus olhos encontraram a moto e as duas figuras encostadas nela, sua postura mudou. O sorriso que iluminou seu rosto era algo que nenhum dinheiro naquelas contas bancárias poderia comprar.

Charlotte apressou o passo, ignorando as amigas que tentavam falar com ela. O burburinho entre os alunos aumentou drasticamente. "É a Charlotte?", "Quem são aquelas garotas?", "Ela conhece pessoas assim?".

Charlotte não deu a mínima. Ela parou na frente das duas, os olhos brilhando.

— Vocês vieram mesmo — disse ela, a voz carregada de adoração.

— Promessa é promessa, Char — Engfa disse, abrindo um sorriso raro e genuíno.

Sem hesitar, Charlotte se inclinou e beijou Engfa nos lábios, um beijo doce que cheirava a gloss de morango. Em seguida, virou-se para Faye, que a puxou pela nuca para um beijo mais intenso, marcando o queixo da loira com a pressão de seus lábios.

O silêncio que se seguiu entre os alunos da Saint Jude foi quase ensurdecedor. Charlotte Austin, a herdeira perfeita, a aluna nota dez, estava ali, em plena luz do dia, beijando duas garotas que pareciam ter saído de um filme de gangues juvenis.

— Vamos sair daqui? — Charlotte perguntou, subindo na moto e espremendo-se entre Engfa e Faye. — O ar aqui está ficando pesado com tanto julgamento.

Engfa colocou os óculos, deu partida na moto e deu uma última olhada para os alunos boquiabertos.

— Segurem-se — avisou ela, arrancando com tudo e deixando para trás uma nuvem de fumaça e o ego ferido da elite local.

O trajeto até o apartamento de Faye e Engfa foi rápido. O imóvel era pequeno, situado no último andar de um prédio antigo no centro, mas era o refúgio delas. Ali, as paredes eram cobertas por pôsteres de bandas de rock, fotos das três e algumas telas que Charlotte tinha pintado e "contrabandeado" de casa.

Assim que a porta se fechou, a tensão da rua desapareceu, dando lugar à intimidade caseira.

— Lar, doce lar — Faye exclamou, jogando a mochila em um canto e indo direto para a cozinha buscar um suco para Charlotte. — Como foi o dia na prisão de luxo, pequena?

Charlotte sentou-se no sofá desgastado, soltando os cabelos e suspirando de alívio.

— Cansativo. Meus pais ligaram três vezes para saber se eu estava estudando para o exame de admissão da universidade na Suíça. Eles não desistem.

Engfa caminhou até ela, sentando-se ao seu lado e puxando seus pés para o seu colo, começando uma massagem lenta.

— Eles não podem te mandar para a Suíça se você não quiser ir, Char.

— Você sabe como eles são, Fa. Eles acham que podem comprar meu futuro — Charlotte olhou para Engfa, a vulnerabilidade exposta em seus olhos castanho-claros. — Mas eles não sabem que meu futuro já está decidido. E ele envolve vocês duas, nesse apartamento apertado, com o Kiew e a Sunny correndo por aqui.

Faye voltou com o suco e sentou-se do outro lado de Charlotte, entregando o copo e beijando o topo de sua cabeça.

— Nós vamos dar um jeito. Eu e a Fa estamos economizando cada centavo dos nossos turnos extras. O café e a oficina não pagam muito, mas é o suficiente para a gente se manter até você terminar a escola.

Engfa parou a massagem e olhou para Faye, um sorriso cúmplice passando entre elas.

— Falando em turnos extras... eu ganhei uma grana boa na corrida de ontem à noite. Dá para a gente jantar algo decente hoje. O que acham de pizza de morango para a sobremesa?

Charlotte riu, a primeira risada verdadeira do dia.

— Vocês me mimam demais.

— É o nosso trabalho — Faye disse, começando a beijar o pescoço de Charlotte, provocando-a. — E agora que estamos sozinhas, acho que temos um "dia romântico" para continuar. Onde paramos mesmo?

Engfa se inclinou, aproximando o rosto do de Charlotte, a ponta do nariz roçando a dela.

— Acho que paramos na parte em que eu provo para a Faye que não sou a única que sabe morder.

Charlotte sentiu o arrepio familiar percorrer sua espinha. Ela adorava a possessividade de Engfa, a forma como a morena a olhava como se ela fosse o tesouro mais precioso do mundo. E adorava a energia de Faye, a maneira como a ruiva sempre sabia como quebrar o gelo e trazer calor para o ambiente.

— Então prove — Charlotte desafiou em um sussurro, puxando a gola da jaqueta de Engfa.

As horas seguintes foram preenchidas por aquilo que os Austin mais temiam: amor sem regras. Não havia etiquetas, não havia expectativas de carreira, não havia a pressão de ser "alguém". Ali, elas eram apenas três adolescentes descobrindo o mundo através do toque uma da outra.

Engfa, geralmente tão contida e sarcástica, perdia-se nos beijos de Charlotte, permitindo que a doçura da namorada derretesse sua armadura de garota durona. Ela mordia o lábro de Faye com uma intensidade que fazia a ruiva arfar, marcando-a novamente, reafirmando que, apesar das brigas e das dificuldades financeiras, elas eram uma unidade inseparável.

Faye, por sua vez, era o elo que mantinha o fogo aceso. Ela provocava, brincava, fazia piadas sujas que deixavam Charlotte vermelha e Engfa rindo. Ela adorava o contraste entre a pele macia de Charlotte e a pele levemente áspera de Engfa, marcada por cicatrizes de brigas antigas e quedas de moto.

— Sabe o que eu mais gosto em vocês? — Charlotte perguntou, horas depois, enquanto as três estavam amontoadas na cama pequena, cobertas apenas por um lençol fino enquanto o sol se punha lá fora.

— Meu charme irresistível? — Faye brincou, acariciando o braço de Charlotte.

— Minha habilidade de pilotar? — Engfa sugeriu, a voz sonolenta.

Charlotte negou com a cabeça, aninhando-se entre as duas.

— Eu gosto do fato de que, com vocês, eu não preciso ser a "Charlotte Austin". Eu posso ser apenas a Char. A garota que gosta de morangos e que pinta telas confusas. Vocês me veem de verdade.

Engfa abriu os olhos e olhou para Charlotte, o olhar carregado de uma proteção feroz.

— Nós sempre vamos te ver, Char. Não importa quantas viagens seus pais façam ou quantos muros eles tentem construir ao seu redor.

Faye concordou, beijando o ombro de Charlotte, onde uma pequena marca avermelhada — cortesia de um momento mais intenso de Engfa — começava a aparecer.

— Somos nós contra o resto do mundo, lembra? A nobreza pode ter o dinheiro, mas nós temos o fogo.

Charlotte sorriu, fechando os olhos e sentindo o batimento cardíaco das duas namoradas. O cheiro de cigarro de Engfa e o perfume cítrico de Faye eram seu novo lar. Ela sabia que os problemas não desapareceriam, que a segunda-feira chegaria e ela teria que vestir o uniforme da Saint Jude novamente. Mas, enquanto tivesse aquelas marcas na pele e aquele amor no peito, ela seria invencível.

Lá fora, a cidade continuava seu ritmo frenético, alheia ao pequeno universo de liberdade criado dentro daquele apartamento. Três corações, três vidas entrelaçadas pela rebeldia e pelo desejo de serem donas de seus próprios destinos. E, naquela tarde, o asfalto e o luxo se encontraram, mas foi o amor que saiu vitorioso.