Voltar ao resumo

Childhood Ties

Teatro de Máscaras e o Gosto do Perigo

O ar na mansão Austin parecia mais pesado do que o normal naquela noite. O lustre de cristal na sala de jantar lançava reflexos gélidos sobre a mesa posta com porcelana fina e talheres de prata que Charlotte sempre odiara. Seus pais, impecáveis em seus trajes de grife, aguardavam a chegada das "amigas de escola" que Charlotte tanto mencionava. O convite fora um ultimato: "Se elas são tão importantes para você, Charlotte, queremos conhecê-las formalmente", dissera o Sr. Austin, com aquele tom de voz que não aceitava negativas.

No andar de cima, Charlotte terminava de ajustar os últimos detalhes no quarto. Ela havia passado as últimas duas horas transformando Engfa e Faye. Não que elas precisassem de beleza — ambas eram estonteantes —, mas precisavam de um "disfarce" que os Austin pudessem digerir.

Engfa estava parada em frente ao espelho de corpo inteiro, carrancuda. Ela usava uma calça de alfaiataria preta de corte reto e uma camisa de seda branca levemente aberta no colarinho. Os óculos de grau haviam sido limpos, e o cabelo castanho-escuro estava penteado para trás com um pouco de gel, dando-lhe um ar de intelectual rebelde, mas contida. A jaqueta de Fórmula 1 havia sido substituída por um blazer estruturado que Charlotte insistira que ela usasse.

— Eu me sinto um pinguim de luxo, Char — resmungou Engfa, ajeitando o blazer de forma desconfortável. — Se eu tropeçar nesse sapato social e quebrar a cara, a culpa é sua.

Charlotte riu, aproximando-se para ajeitar a gola da namorada. Ela depositou um beijo rápido na bochecha de Engfa, sentindo o perfume caro que havia borrifado nelas para esconder o cheiro de cigarro.

— Você está linda, Fa. Só por uma noite, por favor? Pense nisso como uma missão de espionagem.

Do outro lado do quarto, Faye dava voltas, admirando-se. Ela usava um vestido tubinho verde-esmeralda que realçava seu cabelo vermelho e um batom nude que deixava seu piercing no canto da boca ainda mais evidente — o único detalhe que Charlotte não conseguiu (e nem quis) remover.

— Eu acho que nasci para a alta sociedade — Faye brincou, fazendo uma pose dramática. — Olhe para mim, eu sou pura elegância e perigo.

— Você é puro problema, Malisorn — rebateu Engfa, embora seus olhos brilhassem ao observar a silhueta de Faye.

— Meninas, foco — pediu Charlotte, o coração batendo rápido. — Meus pais são observadores. Falem pouco, sorriam muito e, pelo amor de Deus, não mencionem corridas, brigas ou o fato de que moramos praticamente juntas naquele apartamento.

— Relaxa, pequena — Faye piscou, aproximando-se de Charlotte e beijando seu queixo, o gesto de carinho que sempre a acalmava. — Vamos dar a eles o melhor show de teatro de suas vidas.

A descida pelas escadas foi tensa. O Sr. e a Sra. Austin estavam de pé perto da lareira. Quando viram as três jovens, houve um momento de silêncio avaliador.

— Pai, Mãe — começou Charlotte, a voz firme apesar do nervosismo —, estas são Engfa Waraha e Faye Malisorn.

— É um prazer conhecê-los — disse Engfa, estendendo a mão com uma formalidade que fez Charlotte querer aplaudir. Sua voz estava baixa e controlada, o sarcasmo enterrado sob camadas de polidez forçada.

— O prazer é nosso — respondeu o Sr. Austin, apertando a mão de Engfa com firmeza excessiva, como se tentasse medir sua força. — Charlotte nos disse que vocês estudam juntas.

— Sim, senhor — Faye interveio, com um sorriso radiante que iluminou a sala. — Charlotte é a nossa melhor aluna, sempre nos ajudando com os projetos de arte.

O jantar foi um exercício de equilibrismo. A Sra. Austin questionava sobre as famílias delas, e as meninas respondiam com meias-verdades cuidadosamente ensaiadas. Engfa falava sobre "negócios de logística" (omitindo que eram entregas de peças de moto na oficina) e Faye mencionava "setor de serviços e hospitalidade" (seu trabalho no café barulhento do centro).

A provocação, no entanto, era inevitável. Faye, sentada à frente de Engfa, começou a brincar com o pé sob a mesa. Charlotte, sentada ao lado de Faye, sentiu o movimento e arregalou os olhos. Faye deslizava o pé pela perna de Engfa, subindo lentamente até a coxa, enquanto mantinha uma conversa impecável com o Sr. Austin sobre investimentos imobiliários.

Engfa apertou o garfo com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ela olhou para Faye, um aviso silencioso em seus olhos castanhos, mas Faye apenas sorriu e tomou um gole de vinho, mantendo o contato físico por baixo da toalha de linho.

— Você está bem, senhorita Waraha? — perguntou a Sra. Austin, notando a rigidez de Engfa. — Parece... tensa.

— Apenas apreciando a excelente comida, senhora — Engfa respondeu entre dentes, lançando um olhar possessivo e mortal para Faye, que Charlotte captou imediatamente.

Charlotte sentiu um calor subir pelo pescoço. A audácia de Faye em plena frente de seus pais era aterrorizante e, ao mesmo tempo, incrivelmente excitante. Era como se elas estivessem profanando aquele templo de regras e etiquetas com sua própria essência.

Após o que pareceu uma eternidade, o jantar terminou.

— Se não se importam — Charlotte disse, levantando-se apressadamente —, vamos subir para o meu quarto para terminar um trabalho de literatura.

— Não demorem — disse o Sr. Austin, sem tirar os olhos de um relatório em seu tablet. — Amanhã é dia de escola.

Assim que a porta do quarto de Charlotte se fechou e a tranca foi acionada, o ar pareceu retornar aos pulmões das três. Engfa arrancou o blazer e o jogou no chão, desabotoando os primeiros botões da camisa com urgência.

— Eu vou matar você, Malisorn — rosnou Engfa, avançando sobre Faye e prensando-a contra a porta. — Você quase nos entregou!

— Mas você adorou, não adorou? — Faye rebateu, rindo e passando os braços pelo pescoço de Engfa. — Ver você tentando manter a pose enquanto eu te provocava foi a melhor parte da noite.

Charlotte se aproximou, sentindo a adrenalina ainda correndo em suas veias. Ela se posicionou entre as duas, as mãos espalmadas no peito de cada uma.

— Vocês são loucas. Meu coração quase parou.

— O perigo deixa tudo mais gostoso, Char — Faye sussurrou, inclinando-se para beijar o queixo de Charlotte, enquanto Engfa começava a beijar o pescoço da ruiva com uma fome que havia sido contida durante todo o jantar.

As carícias começaram de forma sutil, mas a tensão acumulada na sala de jantar transbordou. Engfa puxou Charlotte para um beijo profundo, um beijo que carregava todo o sarcasmo e a rebeldia que ela tivera que esconder. Suas mãos, antes comportadas sobre a mesa, agora exploravam as curvas de Charlotte com uma possessividade feroz.

— Eu nunca nasci para isso, Char — Engfa murmurou contra os lábios de Charlotte, a voz rouca. — Essa vida de regras, de camisas engomadas e de sorrisos falsos... isso me sufoca.

— Você nasceu só para mim, Waraha — Faye provocou, puxando a orelha de Engfa com os dentes, causando um arrepio na morena. — Para mim e para a Char. O resto do mundo que se dane com suas regras.

— Concordo em partes — Engfa sorriu de lado, voltando sua atenção para Faye e mordendo seu lábio inferior com força suficiente para deixar uma marca que o batom nude não conseguiria esconder por muito tempo. — Eu nasci para ser livre com vocês.

Charlotte estava entregue ao toque das duas. Ela adorava como Engfa era o fogo protetor e Faye era a brisa provocadora. Elas eram o seu equilíbrio. Ela beijava Faye, sentindo o piercing frio, e logo em seguida buscava o calor dos lábios de Engfa. O quarto, antes uma prisão de expectativas, agora era o palco de sua própria revolução.

De repente, três batidas secas na porta fizeram o mundo parar.

— Charlotte? — A voz do Sr. Austin soou do outro lado, abafada mas autoritária.

O pânico atingiu Charlotte como um balde de água gelada. Engfa congelou, as mãos ainda sob a camisa de Faye. Faye, no entanto, tinha um brilho selvagem nos olhos. Ela não se afastou. Pelo contrário, ela puxou Charlotte para mais perto, selando seus lábios nos dela em um beijo audacioso e silencioso.

— Charlotte, você me ouviu? — o pai insistiu. — Queria saber se você organizou os documentos para a viagem de intercâmbio que discutimos.

Charlotte tentou responder, mas Faye estava agora distribuindo beijos úmidos por seu pescoço, enquanto Engfa, recuperando a compostura provocadora, começou a acariciar a cintura de Charlotte por baixo da blusa, desafiando-a a manter a voz firme.

— S-sim, pai! — Charlotte conseguiu dizer, a voz levemente trêmula. — Está tudo na minha escrivaninha. Eu... eu estou no meio de um parágrafo importante aqui.

— Certo. Não vá dormir tarde. E certifique-se de que suas amigas saiam em uma hora razoável.

— Sim, senhor. Boa noite.

Elas ouviram os passos do Sr. Austin se afastando pelo corredor. Charlotte soltou um suspiro longo, as pernas tremendo.

— Vocês querem me matar do coração? — ela sussurrou, embora não se afastasse do aperto das namoradas.

— Ele não ia entrar, Char — Faye disse, rindo baixinho contra a pele de Charlotte. — Ele é educado demais para invadir o quarto da "filhinha perfeita" sem permissão.

— Mas se ele entrasse... — Charlotte começou, imaginando a cena.

— Se ele entrasse, ele veria que a filha dele tem muito bom gosto — Engfa completou, puxando as duas para a cama. Ela se deitou e trouxe Charlotte e Faye para seus braços. — Mas falando sério... eu mal posso esperar pelo dia em que não precisaremos de trancas, nem de disfarces, nem de nomes falsos para o que fazemos.

Charlotte apoiou a cabeça no peito de Engfa, sentindo o coração da namorada batendo forte sob a seda da camisa branca.

— Eu também, Fa. Um lugar só nosso. Sem regras, sem controladores.

— Onde a Engfa possa fumar o cigarro horrível dela na varanda e eu possa jogar cartas até o amanhecer — Faye completou, abraçando Charlotte por trás.

Engfa olhou para o teto do quarto luxuoso, um sorriso sarcástico e sonhador brincando em seus lábios.

— Até lá, vamos continuar sendo o pior pesadelo dos Austin. E o melhor segredo da Charlotte.

Engfa se inclinou e beijou a testa de Charlotte, depois a de Faye. A adrenalina do quase-flagrante ainda pairava no ar, tornando cada toque mais elétrico, cada sussurro mais significativo. Elas sabiam que o mundo lá fora exigiria que voltassem às suas máscaras na manhã seguinte, mas ali, entre os lençóis de fios egípcios que agora cheiravam a couro, asfalto e morango, elas eram as únicas donas da verdade.

— Somos nós contra o mundo? — Charlotte perguntou, fechando os olhos.

— Sempre, pequena — Faye respondeu, deixando uma última mordida provocadora no ombro de Charlotte.

— Até o fim da estrada — concluiu Engfa, apertando-as em seus braços, protegendo seu pequeno e caótico universo do silêncio frio da mansão.