Childhood Ties
Entre o Brilho das Vitrines e o Calor do Lar
O shopping center era um labirinto de luzes fluorescentes, superfícies espelhadas e o aroma onipresente de café gourmet e perfumes importados. Para Charlotte, aquele era um território familiar, quase uma extensão de sua própria casa. Para Engfa e Faye, no entanto, o lugar parecia um cenário de um filme de ficção científica onde elas eram as alienígenas infiltradas.
Engfa caminhava com as mãos nos bolsos da jaqueta de Fórmula 1, os óculos escuros pendurados na gola da camiseta. Mesmo tentando passar despercebida, sua postura desleixada e o ar de mistério que a envolvia atraíam olhares como um ímã. Faye, ao seu lado, carregava duas sacolas de uma loja de lingeries com um sorriso travesso, enquanto Charlotte examinava algumas telas em uma galeria de arte, os cabelos castanho-claros ondulando suavemente a cada passo.
— Eu juro que se entrarmos em mais uma loja de sapatos, eu vou começar a cobrar por hora — resmungou Engfa, parando perto de um banco de mármore. — Meus pés não foram feitos para o piso liso de shopping, Char. Eles sentem falta do asfalto.
— Deixe de ser ranzinza, Fa — Faye provocou, dando um tapinha no ombro da namorada. — Você fica linda carregando sacolas. Dá um ar de "segurança particular de luxo".
Charlotte se aproximou, rindo da interação das duas, e depositou um beijo rápido na bochecha de Engfa.
— É a última parada, eu prometo. Só preciso ver aqueles pincéis novos.
Enquanto Charlotte entrava na loja de materiais artísticos, Engfa ficou encostada em uma pilastra, observando o movimento. Foi quando um grupo de três rapazes, vestidos com roupas de marca e ostentando relógios caros, parou a poucos metros. O líder do grupo, um loiro com um sorriso excessivamente confiante, caminhou em direção a Engfa.
— Ei — disse ele, ignorando completamente Faye, que estava a dois passos de distância. — Eu te vi lá na praça de alimentação. Você tem um estilo... diferente. Qual é o seu número?
Engfa nem se deu ao trabalho de tirar as mãos dos bolsos. Ela ajustou os óculos no rosto e lançou um olhar gélido através das lentes.
— Meu número é o da delegacia mais próxima se você não sair da minha frente — respondeu ela, a voz carregada de sarcasmo.
O rapaz riu, achando que era apenas um jogo de sedução.
— Qual é, gatinha? Não precisa ser difícil. Um carro como o meu merece uma companhia como a sua.
Faye deu um passo à frente, o piercing no canto da boca brilhando sob as luzes do teto. Ela cruzou os braços, um sorriso predatório surgindo em seus lábios.
— O carro pode ser bom, mas a companhia dela já está ocupada — Faye interveio, a voz vibrante de possessividade. — Na verdade, ela já namora. Comigo. E com ela também.
Nesse momento, Charlotte saiu da loja, segurando um conjunto de pincéis, e parou ao lado de Faye, entrelaçando seu braço no de Engfa.
— Algum problema, meninas? — perguntou Charlotte, observando a cena com calma.
O rapaz olhou para as três, confuso e visivelmente irritado por ser rejeitado na frente dos amigos.
— Três? — Ele soltou uma risada debochada. — Vocês estão brincando, né? Uma gracinha como você — ele apontou para Charlotte — andando com essas duas delinquentes? Deixa eu te mostrar o que é um encontro de verdade.
Ele tentou segurar o braço de Charlotte para puxá-la para longe, mas não teve tempo de completar o movimento. Em um borrão de agilidade, Faye segurou o pulso do rapaz com uma força impressionante, torcendo-o levemente para baixo.
— Se você encostar um dedo nela de novo — sussurrou Faye, os olhos faiscando de raiva —, eu vou quebrar cada osso dessa sua mãozinha de quem nunca lavou uma louça na vida.
O rapaz soltou um gemido de dor, a arrogância sumindo instantaneamente. Os amigos dele deram um passo à frente, mas Engfa se desencostou da pilastra, a expressão fechada e os punhos cerrados. O clima de briga de rua que Engfa tanto conhecia estava prestes a explodir no meio do shopping de luxo.
— Parem — Charlotte disse, a voz calma mas autoritária. — Não vale a pena.
Ela abriu a bolsa, tirou um talão de cheques e rapidamente preencheu uma folha. Ela estendeu o papel para o rapaz, que ainda massageava o pulso solto por Faye.
— Aqui está uma quantia generosa para você comprar um pouco de educação e, quem sabe, tratar esse seu ego ferido — Charlotte disse, com um sorriso doce que não chegava aos olhos. — Agora, por favor, desapareça antes que eu decida chamar o chefe de segurança, que por acaso é um grande amigo do meu pai.
Os rapazes, intimidados pela mistura de agressividade física e poder financeiro, bateram em retirada rapidamente. Engfa soltou um suspiro, relaxando os ombros.
— Você é muito educada, Char. Eu teria apenas dado uma cabeçada nele — comentou Engfa, ajeitando a jaqueta.
— E eu teria adorado ouvir o estalo do pulso dele — Faye acrescentou, ainda com a adrenalina correndo nas veias.
— Vamos embora — Charlotte pediu, puxando as duas em direção à saída. — Já tive glamour o suficiente por hoje. Quero ir para o apartamento de vocês.
O trajeto até o centro da cidade foi feito sob o som do motor da moto de Engfa e o vento batendo nos rostos. Quando finalmente entraram no pequeno apartamento, o contraste com o shopping foi imediato. O lugar cheirava a café antigo, couro e o perfume de baunilha que Faye usava. Kiew e Sunny correram para recebê-las, latindo de alegria.
Charlotte jogou as sacolas no sofá e se sentou, observando o teto com as vigas expostas.
— Sabe — começou Charlotte, pensativa —, eu fico me perguntando quando é que eu vou poder trazer minhas coisas de vez para cá. Quando eu vou poder morar aqui com vocês.
Engfa, que estava indo em direção à cozinha, parou e olhou para ela.
— Você? Morar aqui? — Engfa soltou uma risada sarcástica, tirando um maço de cigarros do bolso. — Char, você não dura dois dias sem o seu chuveiro com controle de temperatura e a sua comida orgânica entregue na porta. Aqui a gente luta para o gás não acabar no meio do banho.
— Eu me adapto — Charlotte rebateu, cruzando os braços. — Eu prefiro o banho frio com vocês do que a mansão vazia dos meus pais.
Faye apareceu com três garrafas de cerveja gelada, entregando uma para cada.
— Acho que a noite pede uma comemoração — disse Faye, animada. — Bebidas, cigarros e alguns desafios de baralho. O que acham?
Engfa pegou um isqueiro, pronta para acender o cigarro, mas Charlotte e Faye falaram em uníssono:
— Engfa!
— O quê? — perguntou a morena, com o cigarro pendurado no canto da boca.
— Você tem dezesseis anos — lembrou Faye, tentando manter a cara séria apesar de adorar o lado rebelde da namorada. — Não tem idade para beber nem para fumar. Seus pulmões vão ficar pretos antes de você tirar a licença de piloto.
— E essa cerveja tem álcool — completou Charlotte, tirando a garrafa da mão de Engfa e substituindo por um copo de suco de morango que estava na geladeira.
Engfa revirou os olhos, jogando-se na poltrona velha.
— Vocês são umas estraga-prazeres. Eu corro em pistas ilegais a cento e oitenta por hora, mas não posso tomar uma cerveja no meu próprio sofá? O mundo está perdido.
— Nós cuidamos de você, Fa — Faye disse, sentando-se no braço da poltrona e passando a mão pelo cabelo da namorada. — Alguém tem que garantir que você chegue aos dezoito inteira.
A noite seguiu calma, uma rotina que elas vinham construindo nos vãos de tempo que o controle dos Austin permitia. Engfa, apesar das reclamações, parecia em paz. Ela adorava observar Charlotte tentando se acomodar no sofá pequeno, ou Faye fazendo vozes engraçadas para falar com os cachorros.
— Sabe, Char — Engfa começou, provocando —, se você vier morar aqui, vai ter que trabalhar. Nada de mesada do papai. Vai ter que limpar o chão, lavar a louça e aguentar o barulho da oficina vizinha às seis da manhã. Você vai viver sem privilégios.
Charlotte olhou para as duas, um brilho de determinação nos olhos.
— Eu sei trabalhar. Posso vender minhas telas. E, se eu ficar cansada... — ela deu um sorriso malicioso — eu tenho certeza de que vocês duas adorariam me mimar.
Faye soltou uma gargalhada, jogando uma almofada em Charlotte.
— Ela nos pegou, Fa. Ela sabe que somos cadelinhas dela.
— Fale por você, Malisorn — Engfa resmungou, mas não conseguiu esconder o sorriso quando Charlotte se inclinou e beijou sua bochecha.
Faye se levantou e pegou um baralho de cima da mesa de centro, espalhando as cartas com a habilidade de quem passava noites jogando para passar o tempo.
— Chega de conversa fiada. Vamos ver quem é a mestre do Uno e do Poker aqui. Quem perder, limpa o cercadinho do Phalo amanhã na casa da Char.
— Você está morta, Faye — Engfa disse, ajeitando os óculos com um ar de desafio. — Eu não perco no baralho desde os dez anos.
As horas passaram entre risadas, provocações e o som rítmico das cartas sendo embaralhadas. Charlotte, embora fosse a mais calma, revelou-se uma jogadora estratégica e implacável, vencendo três rodadas seguidas de Uno, para a indignação de Engfa.
— Você roubou! — acusou Engfa, apontando para Charlotte. — Não tem como você ter quatro cartas de "comprar quatro" seguidas!
— É talento, Engfa. Aceite sua derrota — Charlotte respondeu, piscando para Faye.
Faye observava a cena com o coração aquecido. Ali, naquele espaço reduzido, cercada pelo cheiro de asfalto de uma e pela doçura da outra, ela sentia que tinha tudo o que precisava. Não importava o caos que as esperava lá fora, nem os segredos que precisavam manter perante a sociedade.
— É bom, não é? — perguntou Faye, em um momento de quietude enquanto Engfa tentava organizar suas cartas novamente.
— O quê? — perguntou Charlotte, encostando a cabeça no ombro de Faye.
— Isso. Ter um lar. Não uma casa com paredes caras, mas um lugar onde a gente pode simplesmente ser a gente mesma. Onde as brigas são por causa de um jogo de cartas e não por causa de expectativas de vida.
Engfa parou de mexer nas cartas e olhou para as duas. Sua expressão sarcástica suavizou-se, dando lugar àquela vulnerabilidade que ela só mostrava entre quatro paredes.
— É — concordou Engfa, a voz baixa. — É a única coisa que faz sentido nessa bagunça toda.
Charlotte envolveu as duas em um abraço coletivo, sentindo o calor de seus corpos. Kiew e Sunny pularam no sofá, querendo participar do momento, seguidos por Phalo, o coelhinho, que Charlotte trouxera escondido em sua bolsa de compras e que agora explorava o tapete.
— Eu amo vocês — sussurrou Charlotte.
— Nós também, pequena — responderam as duas quase ao mesmo tempo.
A noite terminou com as três amontoadas na cama de casal no quarto pequeno. Engfa, como sempre, ocupava o lado da parede, agindo como um escudo protetor. Charlotte ficava no meio, sendo o ponto de equilíbrio, e Faye ficava na ponta, pronta para qualquer brincadeira ou carícia de última hora.
Entre mordidas leves no pescoço, beijos roubados e sussurros de planos para um futuro onde o segredo não fosse mais necessário, elas adormeceram. O mundo dos Austin, com suas exigências e friezas, parecia estar a galáxias de distância. Ali, no centro da cidade, em um apartamento que cheirava a liberdade, Charlotte, Engfa e Faye eram donas de seu próprio destino, um jogo de cada vez.