Chopper e Jinbe
Bolhas de Sabão e Histórias de Tritão
O sol começava a descer lentamente no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e violeta, mas o trabalho no Thousand Sunny ainda estava longe de terminar. Jinbe e Chopper estavam no meio da cozinha, cercados por baldes de água morna, sabão e esfregões. A "obra de arte" de Chopper provou ser mais resistente do que eles esperavam; a tinta de Usopp era de uma qualidade irritantemente boa.
— Eu não sabia que o Usopp usava pigmentos tão fortes — comentou Chopper, esfregando uma mancha amarela persistente em uma das pernas da mesa. Ele estava em sua forma *Heavy Point*, para ter mais força nos braços, mas ainda assim parecia uma tarefa hercúlea.
Jinbe, que estava ajoelhado no chão — o que o fazia parecer uma pequena colina azul dentro da cozinha —, mergulhou uma esponja gigante no balde. Com movimentos circulares e precisos, ele limpava as marcas de pegadas das paredes.
— O Usopp é um mestre dos detalhes, pequeno médico — respondeu Jinbe, soltando uma risada profunda. — Ele prepara o material para aguentar tempestades e batalhas. Limpar isso com água comum é quase como tentar lutar contra a maré alta.
Chopper parou por um momento, limpando o suor da testa. Ele olhou para Jinbe e depois para o balde de sabão. Um brilho travesso, o mesmo que causara a confusão inicial, surgiu em seus olhos. Ele mergulhou a pata na água ensaboada e, com um movimento rápido, soprou através de um pequeno círculo formado pelos dedos.
Uma bolha de sabão grande e brilhante flutuou em direção ao rosto de Jinbe, estourando bem na ponta de seu nariz azul.
Jinbe piscou, surpreso. Ele olhou para Chopper, que tentava inutilmente esconder um sorriso atrás da pata.
— Chopper... estamos tentando limpar, lembra-se? — disse Jinbe, tentando manter o tom sério, mas falhando miseravelmente quando outra bolha atingiu sua orelha.
— Mas Jinbe, o sabão faz parte da limpeza! — exclamou a rena, voltando para sua forma pequena e saltitante. — E olhe como elas brilham com a luz do pôr do sol!
Jinbe suspirou, mas era um suspiro de derrota alegre. Ele sabia que não conseguiria manter a disciplina por muito tempo. Ele era um guerreiro lendário, um ex-Shichibukai, um mestre do Karatê Tritão... mas, diante daquela rena que o olhava como se ele fosse o centro do universo, ele era apenas um pai querendo ver o filho feliz.
— Tudo bem, tudo bem — cedeu Jinbe, largando a esponja. — Se é para usar o sabão, vamos usá-lo da maneira correta.
Jinbe juntou as mãos em forma de concha, acumulando uma pequena quantidade de água ensaboada. Com um sopro poderoso e controlado, ele não criou apenas uma bolha, mas uma corrente inteira delas, que inundou a cozinha como se fosse uma nevasca de cristal.
— Uau! — Chopper pulou no ar, tentando estourar as bolhas com os cascos. — Como você fez tantas de uma vez?
— Técnica de respiração — explicou Jinbe, fingindo uma importância marcial. — Um verdadeiro timoneiro deve saber controlar o ar tanto quanto a água.
Por alguns minutos, a tarefa de limpeza foi esquecida. O Thousand Sunny, geralmente um lugar de treinos intensos de Zoro ou das correrias loucas de Luffy, transformou-se em um playground silencioso e mágico. Chopper corria de um lado para o outro, rindo enquanto as bolhas refletiam as cores do arco-íris em seus olhos grandes. Jinbe observava, sentado no chão, sentindo uma paz que raramente experimentara em seus anos de pirataria sob o comando de Fisher Tiger ou Whitebeard.
Com Luffy, a energia era caótica e contagiante. Com Chopper, era algo mais suave. Era o sentimento de cuidar de algo precioso e frágil, mas imensamente corajoso.
— Jinbe — chamou Chopper, sentando-se exausto sobre um tapete que ainda estava meio úmido. — Você já se sentiu sozinho antes de entrar para o bando?
A pergunta pegou o tritão de surpresa. Ele olhou para as próprias mãos, marcadas por cicatrizes de mil batalhas.
— Muitas vezes, pequeno. O mar é vasto, e ser um tritão nem sempre é fácil. O mundo pode ser um lugar frio para quem é diferente.
Chopper baixou as orelhas, lembrando-se de seu próprio passado na Ilha de Drum, onde fora chamado de monstro tanto por humanos quanto por outras renas.
— Eu também me sentia assim. Antes do Doutor Hiriluk e da Doutora Kureha... eu achava que nunca teria um lugar onde pertencer. Por isso, quando o navio fica vazio, eu fico com um pouco de medo de que todos sumam de verdade.
Jinbe moveu-se com uma agilidade surpreendente para o seu tamanho, sentando-se ao lado de Chopper. Ele estendeu sua mão imensa e envolveu os ombros da rena em um abraço lateral, trazendo-o para perto de seu peito largo.
— Escute bem, Chopper — disse Jinbe, sua voz vibrando como o som de um oceano calmo. — Existem laços que nem mesmo a maior das tempestades pode quebrar. O Luffy não escolhe seus companheiros por conveniência; ele os escolhe pela alma. Nós somos sua família agora. E eu... — ele hesitou por um segundo, antes de continuar com ternura — eu prometo que nunca deixarei você sozinho no escuro.
Chopper enterrou o rosto na roupa de Jinbe, sentindo o calor reconfortante do corpo do tritão.
— Você é como um pai para mim, Jinbe. — A voz de Chopper saiu abafada, mas carregada de emoção.
Jinbe sentiu um nó na garganta. Ele nunca tivera um filho biológico, mas naquele momento, ele entendeu perfeitamente o que os humanos queriam dizer com "amor paternal".
— E você é o filho que eu não sabia que precisava, pequeno médico.
Eles ficaram assim por um longo tempo, enquanto as últimas bolhas de sabão estouravam e o silêncio do navio se tornava acolhedor em vez de assustador. Mas a realidade da limpeza logo voltou a bater à porta — ou melhor, nas paredes manchadas.
— Bom — disse Jinbe, levantando-se e ajudando Chopper a se levantar também. — Se não terminarmos isso logo, Sanji vai nos proibir de comer o lanche da noite. E eu ouvi dizer que ele ia preparar torta de cereja.
Os olhos de Chopper brilharam instantaneamente.
— Torta de cereja?! Temos que terminar agora!
Com uma energia renovada, os dois voltaram ao trabalho. Desta vez, agiram como uma equipe perfeitamente sincronizada. Jinbe usava sua força para mover os móveis pesados, enquanto Chopper, em sua forma *Walk Point*, corria por baixo das mesas para alcançar os cantos mais difíceis. Eles cantavam canções de marinheiros enquanto esfregavam, transformando o trabalho duro em uma extensão da brincadeira.
Quando a última mancha de tinta azul desapareceu da madeira, a cozinha brilhava mais do que quando o dia começara. O cheiro de sabão de limão substituíra o odor forte das tintas.
— Conseguimos! — comemorou Chopper, fazendo uma pequena dança da vitória.
— De fato. Um trabalho digno de dois grandes piratas — elogiou Jinbe, cruzando os braços com orgulho.
Eles saíram para o convés de grama para respirar o ar fresco da noite. As estrelas começavam a surgir, pontilhando o manto negro do céu. Foi então que ouviram o som distante de vozes conhecidas e o barulho de um motor.
— É o Mini-Merry! — gritou Chopper, correndo para a amurada do navio. — Eles voltaram!
Luffy, Zoro, Sanji, Nami, Usopp, Robin, Franky e Brook estavam subindo a bordo, carregados de sacolas, caixas e histórias para contar. Luffy foi o primeiro a saltar no convés, rindo alto.
— Ei! Chopper! Jinbe! Vocês não acreditam no tamanho do besouro que eu encontrei! — gritou o capitão, correndo em direção aos dois.
Nami caminhou logo atrás, olhando em volta com desconfiança.
— Tudo parece muito calmo por aqui... — ela murmurou, estreitando os olhos. — Vocês dois não se meteram em confusão, não é?
Jinbe e Chopper trocaram um olhar cúmplice. Chopper tinha um pequeno rastro de tinta amarela atrás da orelha que Jinbe rapidamente limpou com o polegar antes que Nami percebesse.
— Confusão, Nami-san? — perguntou Jinbe, com sua voz mais calma e diplomática. — De modo algum. Nós apenas cuidamos do navio e garantimos que tudo estivesse em ordem.
— É verdade! — reforçou Chopper, balançando a cabeça freneticamente. — Foi um dia muito produtivo e... educativo!
Sanji passou por eles, carregando mantimentos frescos.
— Que bom. Porque a cozinha está impecável. Até parece que foi encerada.
Ao ouvir isso, Chopper deu um sorrisinho de lado para Jinbe, que respondeu com um piscar de olhos discreto.
Enquanto o resto da tripulação se espalhava pelo navio, transformando o silêncio de volta no caos vibrante que era a marca dos Chapéus de Palha, Jinbe e Chopper permaneceram um momento a mais perto do timão.
Usopp aproximou-se, coçando a cabeça.
— Estranho... eu jurava que tinha deixado minhas tintas experimentais aqui no convés. Alguém as viu?
Chopper começou a assobiar uma melodia aleatória, olhando para as estrelas, enquanto Jinbe subitamente se interessou muito em observar o horizonte.
— Talvez o vento as tenha levado, Usopp — sugeriu Jinbe, com a voz mais séria que conseguiu fingir.
— O vento? Dentro de caixas pesadas? — Usopp desconfiou, mas logo foi puxado por Luffy para ver o tal besouro gigante e esqueceu o assunto.
A noite caiu sobre o Thousand Sunny. Sanji serviu o jantar e, como prometido, havia uma enorme torta de cereja esperando por eles. Chopper sentou-se ao lado de Jinbe, como já se tornara seu hábito.
Entre uma garfada e outra, Luffy falava sem parar sobre as aventuras na ilha, mas Chopper mal ouvia. Ele estava ocupado demais sentindo-se seguro. Ele olhou para o homem-peixe ao seu lado, que comia com calma, ocasionalmente garantindo que Chopper tivesse a melhor fatia da torta.
Naquele navio cheio de heróis, monstros e lendas, Chopper sabia que tinha muitos protetores. Mas ali, ao lado de Jinbe, ele sentia algo diferente. Era a certeza de que, não importa quão grande fosse o oceano ou quão assustadores fossem os inimigos, ele sempre teria um porto seguro, um ombro largo onde descansar e alguém que, se necessário, "sentaria" em seus problemas para fazê-lo rir.
— Jinbe? — sussurrou Chopper, puxando levemente a capa do tritão.
— Sim, Chopper?
— Amanhã... podemos brincar de novo? Mas sem a parte da tinta.
Jinbe sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto marcado pelas lutas da vida.
— Amanhã, pequeno, podemos fazer o que você quiser. Mas agora, coma sua torta. Um médico precisa de energia para cuidar de uma tripulação tão barulhenta quanto a nossa.
Chopper sorriu de volta, seu coração transbordando de uma felicidade simples e pura. O Thousand Sunny seguiu seu caminho pelas águas escuras, mas, dentro dele, o calor de uma família — e especialmente o laço entre um pai tritão e seu filho rena — brilhava mais forte do que qualquer farol na Grand Line.