Chopper e Jinbe
O Peso do Descanso e o Trono de Pelúcia
O sol de meio-dia castigava o convés de grama do Thousand Sunny, mas a brisa marinha trazia um alívio refrescante para os dois únicos ocupantes do navio. O resto da tripulação havia partido para uma exploração em uma ilha de vegetação densa e perigosa, e Franky, o único que poderia ter ficado, estava ocupado demais no atracadouro subterrâneo fazendo reparos no Shark Submerge. Assim, o silêncio — algo raro no navio do futuro Rei dos Piratas — reinava soberano.
Jinbe estava sentado em sua almofada habitual perto do timão, mas sentia que o calor estava deixando seus músculos de tritão um tanto rígidos. Ele precisava de um lugar mais macio, algo que o ajudasse a relaxar a coluna após tantas noites seguidas vigiando o leme.
Chopper, por sua vez, estava em sua forma *Guard Point*. Ele havia decidido que aquele era o dia perfeito para testar a resistência de seu pelo contra o calor e a umidade, transformando-se em uma imensa e fofíssima bola de pelos que ocupava boa parte do centro do convés. Ele parecia um imenso pufe de algodão-doce marrom, com apenas os chifres e os olhos curiosos espiando por cima da massa de pelos.
— Chopper, meu pequeno amigo — chamou Jinbe, levantando-se com um gemido baixo de cansaço. — Você parece extremamente confortável nessa forma.
A grande bola de pelos sacudiu levemente, e a voz de Chopper saiu abafada de algum lugar no meio de toda aquela maciez.
— Eu estou, Jinbe! É como se eu fosse minha própria cama. O vento passa entre os pelos e me mantém fresquinho. Quer experimentar?
Jinbe olhou para a rena e depois para o próprio corpo maciço. Ele era um homem-peixe de proporções consideráveis, pesando centenas de quilos de puro músculo e estrutura óssea de tubarão-baleia.
— Você tem certeza, Chopper? Eu não sou exatamente leve. Não quero machucar o nosso médico.
— Ora, não seja bobo! — Chopper riu, e sua forma esférica balançou como uma gelatina. — Meu *Guard Point* pode aguentar impactos de canhões e golpes de gigantes! Suas costas vão agradecer, e eu vou adorar o carinho. Pode sentar, Jinbe!
Jinbe hesitou por apenas mais um segundo antes de aceitar a oferta. Ele caminhou lentamente até a grande massa de pelos. Com cuidado, ele se virou de costas e começou a descer seu corpo sobre a rena. No momento em que o traseiro imenso do tritão encontrou a pelagem de Chopper, um som de "fufu" escapou do ar comprimido entre os pelos.
— Oh... — Jinbe soltou um suspiro profundo de satisfação. — Isso é... inacreditável.
Ele se acomodou completamente, deixando todo o seu peso afundar na rena. Chopper era tão macio que Jinbe sentiu como se estivesse flutuando em uma nuvem sólida. Para Chopper, a sensação era de um calor imenso e uma pressão firme, mas estranhamente reconfortante. Era como se ele tivesse se tornado o trono oficial do timoneiro.
— E então? — perguntou Chopper, sua voz vibrando sob o corpo de Jinbe. — É bom?
— É o melhor lugar onde já sentei em toda a minha vida, Chopper — confessou Jinbe, fechando os olhos e deixando os braços descansarem sobre os joelhos. — Sinto como se cada vértebra da minha coluna estivesse voltando para o lugar.
— Hehehe! Eu sabia! — Chopper parecia orgulhoso. — Pode ficar aí o tempo que quiser. Eu vou ser o seu Trono de Rena hoje!
E assim começou o que seria o dia mais calmo e, ao mesmo tempo, mais inusitado da vida dos dois. Jinbe, que raramente se permitia momentos de puro lazer, acabou pegando um livro que Robin havia deixado por perto. Ele lia calmamente, usando o "Trono Chopper" como base.
Sempre que Jinbe se mexia para ajustar a posição, rebolando levemente para encontrar o encaixe perfeito entre seus músculos e a pelagem da rena, Chopper soltava uma risadinha.
— Isso faz cócegas, Jinbe! — exclamou a rena, tentando não se desmanchar da forma esférica.
— Peço desculpas, pequeno — disse o tritão, embora não parasse de se acomodar. — É que você é tão fofo que é difícil não querer afundar um pouco mais.
As horas passavam devagar. O sol mudava de posição no céu, e Jinbe, sentindo-se mais relaxado do que nunca, acabou deixando o livro de lado. A pressão constante de seu peso sobre Chopper criava um ambiente de calor mútuo que convidava ao sono. Jinbe começou a cochilar, sua cabeça pendendo levemente para a frente, enquanto seu corpo pesado continuava firmemente plantado sobre o médico da tripulação.
Chopper, lá embaixo, não se importava nem um pouco. Ele gostava da sensação de ser útil para Jinbe de uma forma que não envolvesse remédios ou ataduras. Ele se sentia protetor, como se estivesse guardando o descanso de seu "pai" adotivo.
— Jinbe? — sussurrou Chopper após um tempo, percebendo que o tritão estava quase dormindo.
— Hum? Sim, Chopper? — respondeu ele, com a voz rouca de sono.
— Você acha que o Luffy vai ficar com ciúmes quando vir que eu deixei você sentar em mim e não ele?
Jinbe soltou uma risada baixa, que fez todo o corpo de Chopper vibrar sob ele.
— Provavelmente. Mas o Luffy não tem a paciência necessária para apreciar um descanso assim. Ele ia querer pular em você como se fosse um trampolim. Eu... eu aprecio a estabilidade.
— É verdade — concordou Chopper. — Você é muito mais calmo. É bom ser seu banco, Jinbe.
— E é uma honra ter um banco tão dedicado — retribuiu o tritão, dando um tapinha carinhoso na lateral da pelagem de Chopper, que era onde ele imaginava que ficava o ombro da rena.
No meio da tarde, o estômago de Chopper roncou. O som ecoou por dentro da forma *Guard Point* e subiu diretamente para o lugar onde Jinbe estava sentado.
— Parece que o meu trono está com fome — observou Jinbe, abrindo um dos olhos.
— É... eu acho que gastei muita energia mantendo essa forma — admitiu Chopper, um pouco envergonhado. — Mas não precisa levantar! Eu consigo aguentar mais um pouco.
— De forma alguma — disse Jinbe, começando o lento processo de se levantar. — Um bom rei — ou melhor, um bom timoneiro — cuida de quem o sustenta.
Jinbe se levantou, e Chopper sentiu uma súbita falta do peso reconfortante sobre suas costas. O ar fresco atingiu os pelos que estavam comprimidos, e ele se sentiu leve como uma pluma. Jinbe foi até a cozinha e voltou com uma cesta de maçãs e alguns biscoitos que Sanji havia deixado preparados.
Ele se sentou novamente sobre Chopper, mas desta vez de lado, para poder entregar a comida diretamente para a pequena abertura onde o focinho de Chopper aparecia.
— Aqui está, pequeno médico. Uma recompensa pelo seu excelente serviço.
Eles comeram juntos ali mesmo, no meio do convés. Jinbe sentado majestosamente sobre a rena, e Chopper mastigando as maçãs com gosto, sentindo o peso de Jinbe retornar para estabilizá-lo.
— Sabe, Jinbe — começou Chopper, após engolir um pedaço de biscoito —, às vezes eu esqueço como você é grande. Mas quando você senta assim em mim, eu lembro que você é como uma montanha. Uma montanha gentil.
Jinbe olhou para o horizonte, o mar refletindo o brilho dourado do fim da tarde.
— No mar, Chopper, todos tentamos parecer maiores e mais fortes do que realmente somos para sobreviver. Mas aqui, com você... eu não preciso ser o "Cavaleiro do Mar". Posso ser apenas alguém descansando com seu filho.
Chopper sentiu seu coração aquecer. Ele se esforçou para expandir um pouco mais seus pelos, criando uma espécie de encosto para as costas de Jinbe.
— Então descanse, Jinbe. O dia ainda não acabou, e os outros vão demorar a chegar.
Jinbe aceitou o convite e se recostou completamente. Ele passou o resto da tarde ali, sentado sobre Chopper, observando as nuvens passarem. Eles conversaram sobre coisas triviais: o sabor das diferentes águas dos oceanos, as plantas medicinais que Chopper queria cultivar e as histórias das constelações que guiavam os navegadores.
Foi uma tarde de conexão silenciosa. Não havia batalhas, não havia Marinha, não havia Yonkou. Havia apenas o peso de um e o suporte do outro.
Quando as sombras começaram a se alongar e o som distante do motor do Mini-Merry anunciou o retorno da tripulação, Jinbe finalmente se levantou em definitivo. Ele espreguiçou os braços, sentindo-se renovado.
Chopper desfez sua forma *Guard Point* com um estalo suave, voltando à sua forma pequena e habitual. Ele cambaleou um pouco, as pernas um tanto bambas por terem ficado na mesma posição o dia todo, mas tinha um sorriso enorme no rosto.
— E então? Como está o seu corpo, Jinbe? — perguntou a rena, ajustando o chapéu.
Jinbe inclinou a cabeça, fazendo o pescoço estalar de forma satisfatória.
— Eu me sinto dez anos mais jovem, Chopper. Muito obrigado.
— Shishishi! — Chopper dançou um pouco, balançando os braços. — Não pense que isso vai te deixar elogiar o meu trabalho médico, seu bobo!
Jinbe riu da reação clássica da rena. Ele se abaixou e colocou Chopper em seu ombro, caminhando para a beirada do navio para receber os companheiros que chegavam.
Luffy saltou primeiro, carregando um saco cheio de frutas estranhas.
— Ei! Jinbe! Chopper! Vocês perderam! Tinha uma planta que tentou comer o Usopp! — gritou o capitão, animado.
Nami subiu logo atrás, exausta.
— Vocês dois parecem muito relaxados — observou ela, limpando o suor da testa. — Aconteceu alguma coisa enquanto estivemos fora?
Jinbe olhou para Chopper, que deu uma piscadela discreta para o tritão.
— Nada de especial, Nami-san — respondeu Jinbe com sua calma habitual. — Eu apenas descobri que o Sunny tem o melhor assento da Grand Line.
— Assento? — perguntou Usopp, confuso, enquanto subia a bordo. — Eu não lembro de termos comprado móveis novos.
— É um modelo exclusivo — disse Chopper, rindo e se segurando no pescoço de Jinbe. — E só o Jinbe tem permissão para usar!
Luffy inclinou a cabeça, sem entender nada, mas logo se distraiu quando Sanji anunciou que o jantar seria servido em breve.
Enquanto todos se dirigiam para a cozinha, Jinbe deu um tapinha suave na pata de Chopper que estava em seu ombro. Naquela noite, enquanto o navio navegava sob o luar, Jinbe não sentiu o peso de suas responsabilidades ou de seu passado. Ele sentia apenas a leveza de saber que, não importa o quão pesado o mundo se tornasse, ele sempre teria um pequeno médico pronto para carregar esse peso com ele — ou, se necessário, para servir de almofada para ele.
E Chopper, antes de dormir, anotou em seu diário médico: *"Prescrição para timoneiros cansados: um Guard Point de duas horas e muitas maçãs. Efeito garantido: felicidade para o pai e para o filho."*