Chora de prazer princesa
O Eco Antigo
A ligação com Jake havia sido um turbilhão de emoções. Niki tentou explicar o inexplicável, mas as palavras pareciam vazias, insuficientes para descrever a intensidade do que ele havia experimentado. Jake, compreensivelmente, estava confuso, preocupado.
– Niki, você está falando sério? Portal? Passado? Nossa coreografia? – A voz de Jake vinha do outro lado da linha, carregada de uma mistura de incredulidade e preocupação. – Você tem certeza de que está bem? Talvez você devesse descansar um pouco.
– Eu estou bem, hyung. Eu juro. Eu sei que parece loucura, mas eu vi. Eu senti. – Niki insistiu, sua voz ainda vibrando com a adrenalina. – Eu vi a dança. A dança antiga. E era como se fosse a nossa, mas diferente. Mais... fundamental.
Houve um silêncio do outro lado, e Niki podia quase visualizar Jake massageando as têmporas, um hábito comum quando estava estressado.
– Niki, você está sob muita pressão ultimamente. O comeback, as promoções... É normal que sua mente crie algumas coisas para lidar com isso. – Jake tentava ser gentil, mas Niki sentiu a ponta de ceticismo em sua voz. – Por que não conversamos sobre isso amanhã, com a cabeça fria?
Niki suspirou, resignado. Ele sabia que seria difícil. Como ele poderia esperar que alguém acreditasse em algo tão fantástico? Mas ele não podia simplesmente ignorar o que havia acontecido.
– Tudo bem, hyung. Amanhã. Mas, por favor, pense no que eu disse. A música. A coreografia. – Niki pediu, antes de desligar.
Ele se sentou no chão frio novamente, o papel com "Zago" e "Ogaz" ainda em suas mãos. A sala de prática estava imersa em um silêncio pesado, que parecia amplificar seus próprios pensamentos. Ele olhou para o espelho, sua imagem refletida parecendo mais pensativa do que nunca.
Ele não estava louco. Ele tinha certeza. A visão, a sensação de energia, o eco da dança antiga em seu corpo – tudo era real demais para ser uma alucinação.
A palavra "Zago" continuava a reverberar em sua mente, agora com um novo significado. Era mais do que um portal; era uma chave. Uma chave para uma parte de si mesmo que ele nem sabia que existia.
Ele se levantou e foi até a janela, olhando para as luzes cintilantes de Seul. A cidade parecia tão viva e moderna, mas ele sabia que por baixo de toda aquela superfície, havia uma história profunda, um eco de eras passadas.
Niki lembrou-se de sua avó, de suas histórias sobre os antigos rituais e as danças sagradas. Ele nunca tinha dado muito crédito a elas, as considerando apenas contos folclóricos. Mas agora, ele se perguntava o quão reais elas eram.
Ele precisava de mais informações. Ele não podia simplesmente ir para a cama e esquecer o que tinha acontecido. Não depois de sentir aquela conexão visceral com algo tão antigo.
Seu olhar caiu sobre sua mochila. Ele se lembrou de ter deixado seu tablet lá. Talvez houvesse algo mais na internet, algo que ele não tinha encontrado em sua busca inicial.
Ele pegou o tablet e começou a pesquisar novamente. Desta vez, ele foi mais específico. "Ogaz ritual coreano", "dança ancestral coreana e portais", "lendas de dançarinos que viajam no tempo". Ele digitou tudo que vinha à sua mente, mesmo as ideias mais descabidas.
Os resultados foram uma mistura de artigos acadêmicos, blogs de entusiastas do ocultismo e fóruns de discussão. Ele filtrou as informações, buscando padrões, conexões.
Ele encontrou menções a um tipo específico de dança, conhecida como "Mugunghwa-chum", a "Dança da Rosa de Sharon". Era uma dança ritualística, praticada em tempos antigos para conectar o mundo humano ao mundo espiritual, para buscar sabedoria e orientação dos ancestrais.
A descrição da dança o arrepiou. Os movimentos, a cadência, a energia; tudo parecia estranhamente familiar. Era como se ele já tivesse executado aqueles passos antes, em algum lugar, em algum momento.
Ele encontrou uma gravação antiga, em preto e branco, de uma apresentação de Mugunghwa-chum. A qualidade era ruim, mas a essência da dança era inconfundível. Enquanto ele assistia, ele sentiu uma onda de reconhecimento. Os movimentos eram mais lentos, mais fluidos, mas a estrutura, as transições, até mesmo a forma como os dançarinos usavam as mãos e os olhos – tudo ressoava com a coreografia que ele e o ENHYPEN estavam aprendendo.
Não era idêntico, claro. A coreografia do ENHYPEN era moderna, adaptada aos tempos atuais, com elementos contemporâneos. Mas a alma, a essência, parecia ser a mesma.
Ele se lembrou do que tinha visto na névoa: uma versão mais jovem de si mesmo, dançando em um pátio de templo. Seria possível que ele, de alguma forma, estivesse conectado a essa dança ancestral? Que a música e a coreografia do novo single estivessem, sem que eles soubessem, ativando uma memória antiga, um eco de um passado distante?
Niki continuou pesquisando, e encontrou uma lenda particularmente intrigante. A lenda de "Han-ryeong", o "Dançarino do Vácuo". Han-ryeong era um dançarino lendário que, através de sua arte, era capaz de transcender o tempo e o espaço, conectando-se com os espíritos dos ancestrais e, em raras ocasiões, até mesmo vislumbrando o futuro. A lenda dizia que Han-ryeong possuía uma "marca de dança" única, um símbolo que aparecia em sua pele quando ele estava em profunda conexão com sua arte.
Niki olhou para o próprio braço. Nenhum símbolo. Mas a ideia de uma "marca de dança" o fez pensar. Ele havia sentido uma energia tão forte, tão visceral. Seria possível que essa conexão fosse mais profunda do que ele imaginava?
Ele passou as próximas horas mergulhado em pesquisas, o cansaço sendo superado pela pura fascinação. A cada nova descoberta, a teia de mistério se tornava mais densa e, ao mesmo tempo, mais clara. Ele estava desvendando algo muito maior do que um simples sonho ou uma palavra lida ao contrário. Ele estava desvendando a própria história da dança, e seu lugar nela.
Quando o sol começou a espreitar no horizonte, pintando o céu de tons rosados e alaranjados, Niki finalmente se viu exausto. Mas era um cansaço diferente, um cansaço de quem havia viajado por mundos desconhecidos e retornado com uma nova compreensão.
Ele sabia que não podia manter isso em segredo. Ele precisava falar com os outros membros. Não apenas Jake, mas Heeseung, Jay, Sunghoon, Sunoo e Jungwon. Eles eram uma equipe, uma família. Se a coreografia do novo single era realmente um portal para algo tão antigo e poderoso, eles precisavam saber.
Ele se lembrou de uma passagem que havia lido: "A dança é uma oração em movimento, e quando feita com intenção pura, pode mover montanhas e atravessar dimensões."
Niki sentiu um arrepio. A intenção. Eles sempre dançaram com intenção, com paixão, com o desejo de se conectar com seus fãs. Mas agora, a intenção ganhava um novo significado. Era uma intenção ancestral, uma oração em movimento que talvez estivesse ecoando através dos séculos.
Ele guardou seu tablet, o papel com "Zago" e "Ogaz" cuidadosamente dobrado e guardado em seu bolso. Ele precisava de um plano. Como ele explicaria tudo isso sem parecer um louco?
Ele decidiu que a melhor abordagem seria mostrar, não apenas contar. Ele os levaria para a sala de prática, colocaria a música e os faria sentir a mesma energia que ele havia sentido. Ele os faria dançar com uma nova perspectiva, com uma nova intenção.
Ele sabia que seria um desafio. Os hyungs eram práticos, realistas. Mas Niki tinha uma fé inabalável no poder da dança.
Ele se levantou, seu corpo doendo um pouco pela noite mal dormida, mas sua mente estava mais clara do que nunca. Ele sentiu uma nova determinação. Ele não era apenas um idol de K-pop; ele era um guardião, um elo entre o passado e o presente, um intérprete de uma linguagem antiga que estava sendo redescoberta através de sua arte.
Ele caminhou até a porta da sala de prática, as luzes da manhã começando a iluminar o corredor. Ele sabia que o dia seria longo, cheio de perguntas e, talvez, de ceticismo. Mas ele estava pronto. Ele tinha uma história para contar, uma verdade para revelar. E ele tinha a dança para provar isso.
Ao sair da sala, ele olhou para trás uma última vez. A sala parecia normal, vazia, silenciosa. Mas Niki sabia que ali, naquelas quatro paredes, um portal havia se aberto. E ele estava determinado a guiar seus companheiros de grupo através dele.
Ele imaginou a reação de Jungwon, o líder, sempre tão cético e analítico. De Jake, que tentaria encontrar uma explicação lógica para tudo. De Heeseung, o mais velho, que talvez tivesse uma mente mais aberta para as coisas antigas. De Jay, que provavelmente faria mil perguntas. De Sunghoon, que talvez visse a beleza e a poesia por trás da loucura. E de Sunoo, que talvez fosse o primeiro a sentir a energia, a abraçar o mistério com sua sensibilidade.
Niki sorriu. Essa seria a aventura mais louca de suas vidas. E ele estava ansioso para vivê-la com eles.
Ele pegou seu celular e digitou uma mensagem no grupo do ENHYPEN: "Precisamos conversar. Coisa séria. Sala de prática, depois do café da manhã."
Ele enviou a mensagem, e instantaneamente, viu os "lidos" aparecerem. As respostas começaram a chegar, uma mistura de curiosidade e preocupação.
Jay: – Sério, Niki? O que aconteceu? Você está bem?
Sunoo: – Hyung, você me assustou! Aconteceu alguma coisa ruim?
Jungwon: – Niki, por favor, não me diga que você quebrou algo de novo.
Niki riu. Eles nunca mudavam. Mas ele sabia que, por trás da fachada de brincadeiras e preocupações cotidianas, eles estariam lá para ele. Eles sempre estiveram.
Ele estava prestes a levá-los a uma jornada que mudaria a forma como eles viam a si mesmos, sua arte e o mundo ao seu redor. E, de alguma forma, ele sabia que eles estavam prontos. A dança os esperava, o eco antigo os chamava, e o portal estava apenas começando a se abrir.