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Ciúmes

Cicatrizes e Ouro

O sol das duas da tarde banhava a orla de Ipanema quando Jorge Carrascal estacionou o carro em frente ao casarão de fachada preta fosca e detalhes em cobre. O letreiro minimalista anunciava o *Studio Pulgar*, o estúdio de tatuagem mais exclusivo e concorrido da Zona Sul do Rio de Janeiro. Jorge, aproveitando sua rara folga como economista de uma grande multinacional, vestia uma camisa de linho entreaberta no peito e óculos escuros, exibindo o tom bronzeado da pele e as diversas tatuagens que subiam pelo seu pescoço. O sorriso fácil e contagiante já estava desenhado em seus lábios enquanto empurrava a porta de vidro com sensor.

O interior climatizado cheirava a café moído na hora, antisséptico e essência de baunilha. A decoração industrial elegante gritava sofisticação, refletindo tanto o renome técnico de Erick quanto a fortuna da qual ele havia aberto mão para seguir sua vocação.

— Olha só quem resolveu dar o ar da graça! — exclamou Camila, a recepcionista, levantando-se com os braços abertos.

— *Hola, mi reina!* — Jorge a abraçou calorosamente, rindo alto enquanto deixava uma caixa de doces finos sobre o balcão de mármore. — Trouxe esses quitutes pra adoçar o dia de vocês. Cadê o homem mais marrento dessa cidade?

— Está terminando uma sessão no estúdio principal — respondeu Mateus, outro tatuador residente, aproximando-se com um sorriso para cumprimentar o colombiano com um aperto de mão e um toque de ombro. — Disse que hoje o trabalho era delicado, traço fino e botânica. Já está quase no fim.

Jorge encostou-se no balcão e, em menos de cinco minutos, já tinha o estúdio inteiro rindo de suas histórias sobre o caos no mercado financeiro e suas tentativas desastrosas de sambar no fim de semana anterior. O carisma de Carrascal era natural; ele cativava qualquer ambiente com facilidade, um contraste vibrante com a figura soturna e intimidadora do marido.

Erick Pulgar era o oposto do riso solto. Oriundo de uma das famílias mais aristocráticas e ricas de Santiago, o chileno havia chocado o patriarca quando se recusou a assumir as empresas petrolíferas que se expandiam no Brasil. Erick preferia desenhar. Preferia a precisão cirúrgica das agulhas, o zumbido das máquinas e a eternização de memórias na epiderme. Coube ao irmão mais velho, Pablo, carregar o fardo dos negócios da família, enquanto Erick erguia seu próprio império da arte. Com noventa por cento do corpo coberto por tinta preta — um visual bruto de verdadeiro pitbull —, Erick era autoritário, de poucas palavras e inegavelmente dominante. Nos corredores daquele estúdio e na vida a dois, o lema sempre fora claro: sua vontade era lei.

Exceto quando Jorge decidia desafiá-lo, é claro.

A porta de vidro jateado do estúdio principal deslizou suavemente com um bipe eletrônico. Jorge virou-se no mesmo instante, o olhar brilhando em antecipação para ver o marido.

— Terminei o plástico filme, precisa deixar por duas horas e passar a pomada que... — a voz grave e rouca de Erick ecoou no corredor.

Ele estava de camisa preta de manga curta, exibindo os braços maciços completamente cobertos por mandalas, sombras e runas que se estendiam até o pescoço e a mandíbula. Estava tirando os óculos de grau que usava para focar nas linhas mais finas.

No entanto, a mulher que saía logo atrás dele fez o sorriso de Jorge morrer instantaneamente no rosto.

Era Gabriela.

Herdeira de uma tradicional família do ramo imobiliário chileno-brasileiro, a mulher que fora apresentada a Erick na juventude como o casamento perfeito para unir fortunas. A mesma que, anos atrás, quando Jorge e Erick começaram a se envolver, fizera questão de infernizar a vida do casal, tratando Jorge com desdém e tentando a todo custo minar o relacionamento deles.

Gabriela usava um short jeans curtíssimo e desfiado, desabotoado na lateral esquerda para não pressionar a pele recém-tatuada. Jorge bateu os olhos no local e sentiu o estômago despencar em um abismo gelado: uma enorme serpente entrelaçada em lírios começava na curva da bunda esquerda dela e descia de forma provocante por toda a extensão da coxa.

— Ai, Erick, você continua com as mãos tão inacreditavelmente macias... — disse Gabriela em um tom arrastado, soltando uma risadinha pretensiosa enquanto amarrava o cabelo de lado. — Exatamente como eu me lembrava de anos atrás. O toque firme, perfeito... Nem senti dor. Foi quase um prazer.

Erick parecia tenso, os olhos escuros semicerrados em frieza, mas não teve tempo de cortar a provocação. Gabriela finalmente fingiu notar a presença de Jorge no hall. Seus lábios pintados de vermelho formaram um sorriso debochado.

— Ora, se não é o Jorge... — ela ronronou, virando-se para Erick e pousando a mão delicada no peitoral tatuado do homem, erguendo-se na ponta dos pés para depositar um beijo estalado, excessivamente próximo do canto da boca dele. — Obrigada, meu lindo. Nos vemos em breve para os retoques.

Um silêncio pesado e mortal tomou conta da recepção. Ninguém ousou respirar.

Gabriela recolheu sua bolsa Chanel, ajeitou os óculos escuros e passou pela porta de vidro com um rebolado insolente.

Erick virou o rosto na direção de Jorge, a mandíbula tão travada que os tendões do pescoço saltavam contra as tatuagens negras. Ele sabia exatamente o que estava por vir. Jorge era ciumento em níveis viscerais, e Gabriela era o estopim de qualquer bomba atômica.

— Jorge... — começou Erick, com a voz baixa e cautelosa, dando um passo à frente.

Jorge não disse uma única palavra na frente dos funcionários. Ele apenas lançou um olhar cortante para o marido, girou sobre os calcanhares e caminhou a passos duros em direção à sala privada de Erick, no final do corredor, abrindo a porta e esperando que o chileno entrasse.

Assim que Erick cruzou o batente e trancou a porta atrás de si, o inferno congelou.

— Que porra foi aquela? — explodiu Jorge, apontando o dedo trêmulo de raiva para a porta. — Que caralho foi aquilo, Erick?

— Se acalma e baixa o tom — ordenou o chileno, a postura autoritária de pitbull assumindo o controle instintivamente, os olhos fuzilando o marido. — Você sabe muito bem que aqui é o meu local de trabalho. Não dou satisfação da minha agenda na frente da minha equipe.

— Ah, não dá? Que conveniente para você! — berrou Jorge, o sangue quente colombiano pulsando com força nas têmporas. — Você escondeu de mim que ia tatuar aquela cadela! Escondeu! Por que você não me disse nada no café da manhã? Por que não avisou ontem à noite?

— Porque eu sabia que você ia dar exatamente esse showzinho ridículo! — retrucou Erick, invadindo o espaço de Jorge, os peitos quase se encostando. — Foi um atendimento profissional! Ela agendou com a gerência há seis meses sob o sobrenome de solteira da mãe, eu só descobri que era ela quando o horário já estava pago e confirmado. Eu sou o melhor dessa cidade, Jorge! Eu não cancelo cliente por picuinha do passado!

— Picuinha? Você chama aquela víbora que tentou nos separar de picuinha? — Jorge soltou uma risada histérica, as lágrimas de humilhação e cólera queimando no fundo dos olhos castanhos. — E você ainda teve a pachorra de tocar nela ali! Da porra da bunda até a coxa! Você passou quatro horas passando a mão na bunda da sua ex-noivinha!

— Eu passei quatro horas fazendo o meu trabalho com luvas e agulhas, caralho! — vociferou Erick, batendo com a palma da mão contra a mesa de carvalho, fazendo os frascos de tinta vibrarem. — Eu sou um profissional! Quantas coxas e bundas eu já tatuei nesta cidade? Centenas! O meu trabalho não tem sexo, não tem desejo, não tem porra nenhuma além de arte! Você me conhece!

— Eu conhecia o homem que jurou lealdade para mim! — gritou Jorge de volta, as veias do pescoço saltadas. — Mas parece que a carne é fraca quando o passado bate na sua porta, né? Fala a verdade, Erick! Você sentiu saudade? Sentiu saudade de tocar naquele corpinho de elite que a sua família tanto aprovava?

O silêncio que se seguiu foi cortante como uma lâmina de barbear. A expressão de Erick transformou-se de raiva em uma frieza gélida e perigosa.

— Mede as suas palavras, Jorge — avisou o chileno, com a voz caindo para um sussurro ameaçador. — Não ouse entrar nesse território.

— Por que não? Dói ouvir a verdade? — continuou Jorge, despejando a ferida mais antiga e dolorosa de sua alma, o tabu que sempre tentava ignorar sob suas conquistas. — Ela era a mulher perfeita para você, não era? Rica, de sobrenome tradicional, do mesmo mundinho fútil de herdeiros de onde você veio! E eu? Eu sou o colombiano que teve que se foder como garçom e entregador para conseguir pagar uma faculdade! Eu não tenho linhagem de ouro, Erick! Talvez você sinta falta de alguém da sua laia!

— Cala a sua boca! — rugiu Erick, agarrando os braços de Jorge com força, sacudindo-o levemente para trazê-lo à realidade, os olhos escuros em chamas. — Cala a porra da boca antes que você diga uma merda da qual vá se arrepender pelo resto da vida!

Jorge desvencilhou-se do aperto com um tranco violento, o peito subindo e descendo com força, o olhar ferido e transbordando de orgulho ferido.

— Não encosta em mim. Eu vou para casa. E você não ouse se aproximar de mim hoje.

Sem esperar resposta, Jorge abriu a porta com força, cruzou a recepção a passos largos, sem olhar para os lados, e bateu a porta de vidro com tanta violência que o alarme soou por um segundo antes de silenciar.

Erick ficou parado no centro da sala, respirando com dificuldade. Ele olhou para as próprias mãos calejadas, para os desenhos que amava criar e sentiu uma pontada de desespero genuíno queimar suas entranhas. Nenhuma fortuna do mundo, nenhum elogio de cliente e nenhuma obra de arte valiam a dor que ele havia acabado de ver estampada nos olhos do único homem que ele amava.

Vinte minutos depois, o motor possante do carro esportivo de Erick rugiu na garagem do prédio de luxo onde moravam, no Leblon. Ele subiu pelo elevador privativo em tempo recorde. As portas se abriram direto na cobertura, onde a brisa suave do mar entrava pela varanda aberta.

Jorge estava lá, de costas para a sala, olhando para a imensidão escura do oceano enquanto segurava um copo de uísque com os dedos pálidos de tensão.

Erick tirou os sapatos, jogou as chaves sobre a bancada e caminhou na direção do marido com passos firmes e silenciosos. O pitbull estava de volta, mas desprovido de qualquer agressividade contra a presa; havia apenas determinação e devoção.

— Eu mandei você não se aproximar — disse Jorge, a voz rouca, sem se virar.

Erick ignorou sumariamente. Ele aproximou-se até que o calor de seu corpo fizesse sombra sobre Jorge. Com um movimento ágil e inegociável, tirou o copo de uísque da mão do colombiano, colocou-o sobre a mesinha lateral e segurou Jorge pelos ombros, virando-o de frente para si.

— Olhe para mim — ordenou Erick, o tom profundo, exigindo obediência absoluta.

Jorge tentou desviar os olhos, teimoso, mas as mãos grandes e tatuadas de Erick subiram para o seu rosto, segurando sua mandíbula com uma firmeza possessiva, forçando-o a encarar as íris negras que ardiam em intensidade.

— O meu pedido é uma ordem, Jorge. Olhe para mim.

Os olhos marejados de Carrascal finalmente encontraram os de Erick. Havia mágoa ali, mas também o amor desesperado que os unia há quatro anos.

— Você acha mesmo que aquele lixo de linhagem tem algum valor para mim? — começou Erick, com a voz vibrando tão perto que seu hálito quente acariciava a boca de Jorge. — Você acha que eu renunciei a milhões do meu pai, que eu enfrentei a minha família inteira para ser tatuador, para no fim me importar com o dinheiro ou a classe social de alguém?

Jorge engoliu em seco, o lábio inferior tremendo de leve.

— Aquela mulher não significa nada. Nunca significou — continuou o chileno, os polegares calejados traçando as maçãs do rosto do marido com uma delicadeza quase dolorosa. — O casamento arranjado que os meus pais queriam era um contrato comercial de negócios que eu repudiava. Eu escolhi a tinta. E, acima de tudo, eu escolhi você.

— Você não me contou, Erick... Você tocou nela...

— Eu errei. Eu fui um covarde e um imbecil por não ter cancelado a porra da sessão e jogado o dinheiro na cara dela — confessou Erick, engolindo o próprio orgulho, algo que ele jamais fazia para homem algum na terra. — Eu tive medo de que você fizesse um escândalo no estúdio, mas o meu silêncio machucou você. E isso foi imperdoável. Mas nunca mais... ouça bem, Jorge, nunca mais diga que você não é o suficiente para mim.

Erick deu um passo mais perto, colando completamente os corpos, as fivelas de seus cintos se chocando.

— Você trabalhou de sol a sol, construiu a sua vida do zero com a sua própria inteligência e força. Você tem mais honra e dignidade no seu dedo mindinho do que toda aquela gente fútil junta. Você é o meu marido. A única pessoa no mundo que manda em mim. O único que tem o meu coração debaixo dessa carcaça. Entendeu?

As lágrimas represadas escorreram finalmente pela pele bronzeada de Jorge. O ressentimento que o consumia desmoronou diante da verdade nua e crua na voz de Erick. O colombiano ergueu as mãos e segurou os pulsos tatuados do marido, soltando um suspiro trêmulo.

— Ela beijou você... — murmurou Jorge, o bico involuntário de ciúmes ainda presente, mas o fogo da raiva dando lugar à posse.

— Então limpe a sujeira dela — rosnou Erick em resposta.

Jorge não precisou de um segundo convite. Puxou a gola da camisa preta de Erick para baixo e cravou a boca no pescoço do chileno, mordendo com força a pele tatuada, exatamente onde Gabriela havia tentado marcar território. Erick soltou um gemido gutural, as mãos descendo com ferocidade para a cintura de Jorge, erguendo-o do chão sem o menor esforço e prensando-o contra a parede de vidro que dava para a noite carioca.

— Você é meu — sussurrou Jorge entre beijos vorazes e lambidas quentes que subiam até o queixo e a boca de Erick. — Só meu, seu brutamontes.

— Eu sou seu, *mi vida* — respondeu Erick contra os lábios dele, antes de selar um beijo faminto, profundo, as línguas se entrelaçando em um duelo urgente de redenção e luxúria.

Não havia mais espaço para discussões. Erick rasgou os botões restantes da camisa de linho de Jorge, expondo o peito esculpido e moreno, cobrindo-o com beijos abrasadores enquanto caminhava em passos largos até a suíte principal, carregando o marido como se ele não pesasse nada.

Quando caíram sobre a cama macia, o atrito das peles suadas e tatuadas parecia faísca em palha seca. Erick retirou as próprias roupas em segundos, exibindo o porte imponente e cada centímetro da tinta negra que contava sua história. Ele se posicionou entre as pernas abertas de Jorge, olhando-o de cima com um olhar que misturava a selvageria de um pitbull e a adoração de um devoto.

— Lembra daquela sessão na sua coxa? — sussurrou Erick, a voz arrastada descendo até o ouvido do colombiano enquanto descia as calças dele. — Quatro anos atrás. Você me provocando, rindo daquele jeito debochado, dançando na maca... Eu quase enlouqueci tentando ser profissional.

— Você demorou demais para me foder naquele dia — provocou Jorge com a respiração curta, os olhos brilhando em puro desejo enquanto arqueava as costas, buscando o contato da pele quente.

— Eu não vou demorar hoje — sentenciou o chileno.

O sexo que se seguiu foi uma tempestade ardente e redentora. Erick penetrou Jorge com firmeza e lentidão calculada, fazendo o colombiano gemer alto contra os lençóis, fincando as unhas nas costas largas do tatuador. Cada estocada era profunda, pontuada por palavras sussurradas em espanhol, declarações possessivas e carícias que deixavam marcas visíveis. Erick beijava cada cicatriz, cada tatuagem e cada pedaço de pele bronzeada, reafirmando que nenhum outro corpo no universo importava.

Eles se moveram em um ritmo febril e desesperado, encontrando a paz no caos do prazer. Quando o clímax os atingiu, vieram juntos em um espasmo violento; Jorge gritou o nome de Erick enquanto enterrava o rosto na curva do pescoço do marido, e Erick desabou sobre ele, despejando toda a sua força e devoção dentro do homem que era sua vida inteira.

Uma hora depois, o quarto estava mergulhado em uma penumbra reconfortante. Jorge estava deitado de bruços sobre o peito maciço de Erick, sonolento e com a respiração calma. O chileno, ainda desperto, mantinha um braço forte ao redor da cintura do marido, enquanto a outra mão acariciava suavemente os cabelos pretos e úmidos do colombiano.

— Amanhã eu vou cancelar o cadastro dela do estúdio — disse Erick em voz baixa, quebrando o silêncio com firmeza. — Ela vai ter que achar outro lugar para retocar aquela merda.

Jorge soltou uma risadinha preguiçosa, beijando a clavícula tatuada de Erick.

— Bom mesmo. Se ela pisar lá de novo, eu vou pessoalmente quebrar a cara dela com um salto agulha.

Erick riu baixo, um som raro e genuíno que vibrou no peito. Ele beijou a testa de Jorge demoradamente, puxando o edredom para cobrir ambos.

— Agora dorme, meu bem. Eu cuido de tudo. Meu pedido é uma ordem.

Jorge sorriu contra a pele do marido, fechando os olhos em completa segurança.

— Só se você me trouxer café na cama amanhã.

— O que você quiser, Jorge. Sempre o que você quiser.

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