Ciúmes dos membros
Entre o Orgulho e o Abismo
A calmaria que se seguiu ao beijo de Jungkook durou pouco mais de uma hora. O que deveria ter sido uma noite de reconciliação e carinhos sob as cobertas transformou-se, subitamente, em um campo de batalha minado. Tudo começou com uma notificação boba no celular de S/N, um vídeo enviado no grupo que ela tinha com a "maknae line", onde Jimin e Taehyung faziam palhaçadas nos bastidores de um ensaio antigo.
S/N soltou uma risada baixa, os olhos brilhando com a lembrança, e isso foi o suficiente para que a insegurança de Jungkook, que ainda estava à flor da pele, voltasse com força total. Ele esticou o pescoço para ver a tela e, ao notar que era mais um momento compartilhado entre ela e os outros, sentiu o estômago revirar.
— Sério? — Jungkook perguntou, a voz subitamente perdendo o tom doce de minutos atrás. — Você não consegue passar dez minutos comigo sem checar o que eles estão fazendo?
S/N franziu o cenho, guardando o celular na mesa de cabeceira. Ela sentiu a mudança drástica na atmosfera do quarto.
— Kook, era só um vídeo engraçado do Jimin. Eu não estava procurando nada, a notificação apareceu.
— "Só um vídeo do Jimin" — ele repetiu, levantando-se da cama com um movimento brusco. — É sempre "só o Jimin", "só o Tae", "só o Hobi". Parece que eu sou apenas um acessório na sua vida, alguém com quem você fica quando os outros estão ocupados demais para te entreter.
— Do que você está falando? — S/N também se levantou, sentindo a irritação começar a borbulhar. — Nós acabamos de conversar sobre isso! Eu achei que tínhamos resolvido. Por que você está voltando a esse ponto?
— Porque eu percebi que você não entendeu nada! — Jungkook exclamou, gesticulando com as mãos de forma impaciente. — Você me pediu desculpas, mas no segundo seguinte já está rindo das piadas deles no celular. Você é viciada na atenção que eles te dão!
— Viciada na atenção? — S/N soltou uma risada incrédula, sentindo o peito arder. — Jungkook, eles são meus amigos. Eles me fazem sentir bem, me fazem rir. Eu não posso ter uma vida social além de você? É isso que você quer? Que eu viva em uma bolha onde só você existe?
— Eu quero ser respeitado! — Ele gritou, a veia em seu pescoço saltando. — Eu quero sentir que, quando estou no mesmo ambiente que você, eu sou a pessoa mais importante. Mas hoje, na HYBE, eu me senti invisível. Você agia como se estivesse em um encontro com o grupo inteiro, menos comigo!
— Você se sentiu invisível porque se isolou! — S/N rebateu, dando um passo em direção a ele, sem recuar diante da sua altura. — Você sentou naquele sofá com essa cara de quem odeia o mundo e esperou que eu fosse rastejando até você. Eu tentei falar com você, Jungkook! Eu perguntei se você estava bem, e você me deu respostas de uma palavra só. O que você queria? Que eu ficasse de luto enquanto os outros estavam se divertindo?
— Eu queria que você tivesse a sensibilidade de perceber que eu não estava bem! — Jungkook socou levemente a palma da própria mão, a frustração transbordando. — Mas você estava ocupada demais sendo a "queridinha" de todos. Você adora como eles te olham, não adora? Adora como o Taehyung te toca como se fosse dono de você e como o Jimin te chama por apelidos fofos.
O silêncio que se seguiu àquela frase foi pesado e cortante. S/N sentiu como se tivesse levado um tapa no rosto. A insinuação de Jungkook era baixa, maldosa e, acima de tudo, injusta.
— Você realmente acabou de dizer isso? — A voz dela tremeu, não de medo, mas de uma fúria que ela raramente sentia. — Você está insinuando que eu dou liberdade para eles porque eu gosto de ser desejada?
— Eu estou dizendo que você não coloca limites! — Jungkook rugiu, os olhos escuros brilhando de raiva. — Você deixa que eles ultrapassem a barreira do que é aceitável para uma mulher que tem namorado. Aquela mão no ombro, aquele abraço por trás... você acha que eu sou cego?
— Eu acho que você é doente! — S/N gritou de volta, as lágrimas de raiva finalmente escapando. — Eles são como irmãos para você! Como você pode ser tão sujo a ponto de projetar essas coisas neles? E em mim? Eu nunca dei motivo para você desconfiar da minha fidelidade ou do meu amor.
— Não se trata de traição física, S/N! — Jungkook se aproximou, o rosto a poucos centímetros do dela, a respiração pesada. — Trata-se de prioridade. Trata-se de saber o seu lugar e o meu lugar. Se eu fizesse a mesma coisa com uma staff, se eu ficasse rindo e tocando outra mulher na sua frente, você estaria queimando de ódio agora mesmo!
— Eu não teria ódio se fosse uma amiga sua de anos! — Ela o empurrou pelo peito, precisando de espaço. — Mas você não tem amigos, não é? Você só tem o grupo. E agora você quer destruir a única relação saudável que eu tenho com eles por causa dessa sua insegurança infantil!
— Infantil? — Jungkook soltou uma risada amarga, os olhos marejados. — Então é isso que eu sou para você? Um pirralho ciumento que não sabe se comportar?
— Sim! — S/N exclamou, perdendo completamente o controle. — Você está agindo como um garoto mimado que não quer dividir o brinquedo. Só que eu não sou um brinquedo, Jungkook! Eu sou um ser humano. Eu tenho sentimentos, tenho amigos e tenho o direito de rir com quem eu quiser sem ter que pedir permissão para o meu namorado ditador!
Jungkook recuou como se tivesse sido atingido por um projétil. A palavra "ditador" ecoou nas paredes do quarto, deixando um rastro de amargura. Ele limpou uma lágrima solitária que teimava em cair, mas seu rosto logo se transformou em uma máscara de frieza absoluta.
— Se é assim que você se sente — ele disse, a voz agora perigosamente baixa e controlada —, se você acha que eu sou um fardo, um ditador que te impede de ser feliz com seus "amiguinhos"... então por que você ainda está aqui?
S/N sentiu o sangue congelar nas veias. A briga tinha escalado para um nível que ela não previra. O orgulho de ambos era uma muralha intransponível naquele momento.
— Você está me mandando embora? — Ela perguntou, a voz falhando.
— Eu estou dizendo que, se você prefere a companhia deles, se você acha que a minha presença é opressiva, talvez você deva ir para onde se sente mais livre — Jungkook respondeu, virando as costas para ela e caminhando até a janela, observando as luzes de Seul sem realmente enxergar nada.
— Você é um covarde — S/N sussurrou, a voz carregada de mágoa. — Você começa um incêndio e, em vez de ajudar a apagar, você me expulsa da casa.
— Eu não comecei nada — ele murmurou, sem se virar. — Eu só queria ser amado da maneira que eu te amo. Mas parece que o meu amor é demais para você, não é? É "sufocante".
— O seu amor não é sufocante, Jungkook. O seu ciúme é. A sua falta de confiança em mim é o que me mata um pouco a cada dia — S/N pegou sua bolsa que estava jogada no chão, as mãos tremendo violentamente. — Eu vou embora. Mas não porque eu prefiro eles. Eu vou embora porque eu não reconheço o homem que está na minha frente agora.
Jungkook permaneceu imóvel. Ele ouviu o som dos passos dela em direção à porta. Cada passo parecia uma martelada em seu coração, mas o orgulho ferido o impedia de se virar e implorar para que ela ficasse. Ele estava convencido de que tinha razão, de que era a vítima naquela situação.
S/N parou na soleira da porta, olhando para as costas largas de Jungkook. Ela esperou. Esperou que ele se virasse, que dissesse que era tudo um mal-entendido, que a abraçasse e pedisse desculpas por ter sido tão cruel. Mas o silêncio dele foi a resposta mais barulhenta que ela já recebeu.
— Adeus, Jungkook — ela disse, a voz quase inaudível.
Ela saiu e fechou a porta com cuidado, sem bater. O estalo suave da fechadura soou como um tiro no silêncio do dormitório.
Assim que a porta se fechou, a fachada de Jungkook desmoronou. Ele caiu de joelhos no chão, as mãos enterradas nos cabelos, soltando um soluço sufocado que vinha do fundo de sua alma. Ele queria correr atrás dela, queria gritar o nome dela no corredor, mas seus pés pareciam feitos de chumbo.
Enquanto isso, S/N caminhava pelo corredor escuro do dormitório, tentando conter o choro para não acordar os outros membros. No entanto, ao chegar à sala de estar, ela deu de cara com Namjoon, que estava lendo um livro sob a luz fraca de um abajur.
Ele levantou os olhos e, ao ver o estado dela — o rosto inchado, os olhos vermelhos e a bolsa apertada contra o peito —, ele fechou o livro imediatamente, levantando-se com uma expressão de profunda preocupação.
— S/N? O que aconteceu? — Ele perguntou, aproximando-se com cautela.
Ela tentou responder, mas as palavras ficaram presas na garganta. Ela apenas balançou a cabeça e desabou no choro, sendo prontamente acolhida pelos braços protetores do líder.
— Shh, está tudo bem... — Namjoon murmurou, lançando um olhar triste em direção ao corredor onde ficava o quarto de Jungkook. — Ele fez de novo, não foi?
S/N não precisou responder. O silêncio que se seguiu na sala da HYBE era diferente do silêncio de horas atrás. Não era um silêncio de expectativa ou de diversão. Era o silêncio de algo que tinha sido quebrado, e que talvez, nem todo o amor do mundo fosse capaz de consertar sem deixar cicatrizes profundas.
No quarto, Jungkook permanecia no chão, cercado pelo perfume dela que ainda pairava no ar. Ele olhou para o celular na mesa de cabeceira. Uma parte dele queria ligar, pedir perdão, dizer que era um idiota. Mas a outra parte, a parte ferida e possessiva, ainda sussurrava que ela era a culpada.
Ele apagou a luz, deixando-se consumir pela escuridão. Naquela noite, em Seul, o "Golden Maknae" descobriu que nem todo o ouro do mundo podia comprar a paz de um coração que não sabia como confiar. E S/N, ao sair pela porta da frente do prédio, sentiu que tinha deixado uma parte de si mesma para trás, em um quarto onde o amor tinha se transformado em uma gaiola de vidro, bonita de se ver, mas impossível de respirar.