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Ciúmes dos membros

Ecos de um Vidro Quebrado

O corredor da HYBE parecia quilométrico sob os pés de S/N. O apoio de Namjoon na sala de estar havia sido o único fio de sanidade que a impedira de desabar completamente no chão frio. Ele não fizera perguntas difíceis; o líder tinha aquela sabedoria silenciosa de quem já havia mediado tempestades demais dentro daquele grupo. Ele apenas ofereceu um copo de água, um lenço e um olhar que dizia: "Eu sei que ele é difícil".

Mas "difícil" era um eufemismo que já não cabia mais na ferida aberta no peito de S/N.

Ela passou a noite em um hotel próximo, recusando-se a voltar para o apartamento que dividia com Jungkook ocasionalmente. O silêncio do quarto de hotel era opressor. Ela olhava para o celular a cada cinco minutos, odiando-se por esperar uma mensagem que, no fundo, sabia que o orgulho de Jungkook não permitiria enviar.

Enquanto isso, no dormitório, a manhã surgiu cinzenta. Jungkook não havia pregado o olho. Ele estava sentado na mesma posição, a cabeça latejando. O som da porta do quarto se abrindo sem bater o fez levantar o olhar com uma centelha de esperança, achando que ela havia voltado.

Mas era Jimin.

O rosto de Jimin não carregava o sorriso habitual. Ele entrou, fechou a porta e cruzou os braços, encarando o caçula com uma mistura de decepção e cansaço.

— Ela foi embora chorando, Jungkook — disse Jimin, a voz baixa, mas cortante como uma navalha.

Jungkook desviou o olhar, sentindo a bile subir à garganta.

— Você não deveria estar aqui, hyung. Isso é entre mim e ela.

— Deixou de ser entre vocês no momento em que você usou o meu nome e o do Taehyung para machucá-la — rebateu Jimin, dando um passo à frente. — O Namjoon nos contou o básico. Você realmente acha que nós temos segundas intenções com a mulher que você ama? Você nos conhece há mais de dez anos, Jungkook! Somos uma família.

— Eu sei que somos uma família! — Jungkook explodiu, levantando-se e chutando a cadeira do computador. — Mas ela não impõe limites! Ela sorri para vocês de um jeito que... que me faz sentir como se eu fosse substituível.

Jimin soltou uma risada seca, desprovida de humor.

— Você é um idiota. Substituível? Ela fala de você como se o sol nascesse e se pusesse nos seus olhos. O que você chama de "falta de limites" é apenas a confiança de alguém que se sente em casa conosco porque sabe que nós te amamos. Você não está com ciúmes de nós, Jungkook. Você está com medo de não ser o suficiente para ela. E, agindo assim, você está provando que realmente não é.

Aquelas palavras atingiram Jungkook como um soco no estômago. Ele cambaleou para trás, caindo sentado na cama.

— Eu só queria que ela fosse minha — ele sussurrou, a voz quebrada. — Só minha.

— Ela não é um troféu, Jungkook. Ela é uma pessoa. E se você não aprender a diferença entre amar e possuir, vai acabar sozinho nesta sala, olhando para as paredes e se perguntando por que o mundo ficou tão silencioso.

Jimin saiu, batendo a porta com força. O som foi o gatilho. Jungkook pegou o celular e, com as mãos trêmulas, discou o número dela. Caixa postal. Ele tentou de novo. Caixa postal.

O pânico começou a se instalar. Ele se vestiu às pressas, pegou as chaves do carro e saiu do dormitório como um furacão, ignorando os chamados de Jin na cozinha. Ele precisava encontrá-la.

S/N estava em uma pequena cafeteria, escondida atrás de óculos escuros para disfarçar o inchaço nos olhos. Ela mexia no café intocado quando a cadeira à sua frente foi puxada com violência. Ela não precisou olhar para saber quem era. O cheiro do perfume dele, uma mistura de baunilha e algo amadeirado, a atingiu como uma lembrança dolorosa.

— Precisamos conversar — disse Jungkook. Ele parecia péssimo. O cabelo estava bagunçado, e as olheiras eram profundas.

— Não temos nada para falar, Jungkook — ela respondeu, a voz fria. — Você deixou tudo bem claro ontem à noite. Você não confia em mim e não respeita os meus amigos.

— Eu estava fora de mim! — Ele tentou segurar a mão dela por cima da mesa, mas ela a recolheu rapidamente. — Eu tive um ataque de pânico, S/N. Ver você tão feliz com eles enquanto eu me sentia um lixo... eu projetei tudo em cima de você.

— Isso não justifica as coisas que você disse — ela retrucou, finalmente tirando os óculos e encarando-o. — Você me chamou de carente de atenção. Você insinuou que eu gostava que o Taehyung e o Jimin me olhassem de forma errada. Você tem noção do quanto isso é degradante? Para mim e para eles?

Jungkook baixou a cabeça, as lágrimas começando a cair livremente.

— Eu sei. Eu sou um lixo. Eu sou um covarde, como você disse. Mas eu não consigo controlar. Dói aqui dentro, S/N. Dói ver você rindo com o mundo e saber que eu sou o único que te faz chorar.

— Então por que você continua fazendo isso? — Ela perguntou, a voz embargada. — Por que cada momento de felicidade nossa tem que ser seguido por uma briga onde você tenta me diminuir para se sentir seguro?

— Porque eu tenho medo de que um dia você acorde e perceba que eles são mais divertidos, que eles são mais calmos, que eles não são quebrados como eu — ele desabafou, a voz rouca de tanto chorar. — Eu olho para o Jimin e vejo a delicadeza dele. Olho para o Tae e vejo como ele é magnético. E eu me sinto apenas o garoto que precisa treinar o dobro para ser metade do que eles são.

S/N suspirou, sentindo a raiva ser substituída por uma tristeza profunda. Ela esticou a mão e, desta vez, permitiu-se tocar os dedos dele.

— Jungkook... você nunca foi "apenas" nada. Para mim, você é o homem que me faz sentir segura, o homem que me faz rir com as dancinhas bobas na cozinha, o homem que eu escolhi. Mas eu não posso carregar o peso das suas inseguranças nas minhas costas. Eu estou cansada de pisar em ovos para não engatilhar um surto de ciúmes seu.

— Eu vou mudar — ele prometeu, apertando a mão dela com força, como se sua vida dependesse disso. — Eu vou para a terapia, eu vou falar com o Namjoon, eu vou pedir desculpas para os hyungs... só não me deixa. Por favor, S/N. O mundo não faz sentido sem você.

S/N olhou para ele por um longo tempo. Ela via o arrependimento sincero, mas também via o padrão. Ela sabia que as feridas da noite anterior não desapareceriam com um pedido de desculpas em uma cafeteria.

— Eu não vou te deixar hoje, Jungkook — ela disse, e viu o alívio imediato no rosto dele. — Mas eu não vou voltar para o dormitório com você agora.

O sorriso dele vacilou.

— Por que não?

— Porque precisamos de espaço. Você precisa entender que o seu valor não depende de quanto tempo eu passo colada em você. E eu preciso recuperar a minha paz. Eu vou ficar na casa da minha prima por alguns dias.

— S/N... — ele começou a protestar.

— Não — ela o interrompeu, firme. — Se você realmente quer mudar, comece respeitando essa decisão. Não me ligue a cada hora. Não apareça lá de surpresa. Use esse tempo para pensar no que você quer: uma namorada ou uma prisioneira. Porque eu não vou ser a segunda opção.

Jungkook engoliu seco. O impulso de implorar, de pegá-la no colo e levá-la para casa era quase insuportável, mas ele viu a determinação nos olhos dela. Ele percebeu que, se forçasse a barra agora, a perderia para sempre.

— Tudo bem — ele disse, a voz trêmula. — Eu vou respeitar. Mas me promete uma coisa?

— O quê?

— Me promete que ainda existe um "nós" no fim disso tudo?

S/N sentiu uma lágrima escorrer. Ela se levantou, inclinou-se sobre a mesa e beijou a testa dele com ternura, mas com uma distância que doeu mais do que qualquer grito.

— Isso depende de você, Kook. O "nós" está quebrado. Cabe a você decidir se quer colar os pedaços ou se vai continuar martelando até virar pó.

Ela se virou e saiu da cafeteria sem olhar para trás. Jungkook ficou ali, sentado, cercado pelo barulho das xícaras e das conversas alheias, sentindo-se mais sozinho do que nunca. Ele olhou para as próprias mãos e percebeu que elas ainda tremiam.

Ele pegou o celular e, em vez de ligar para ela, abriu o grupo do BTS.

— Hyungs... — ele digitou, as lágrimas embaçando a tela. — Podemos conversar? Eu fiz uma bobagem. Uma bobagem muito grande.

A resposta veio quase instantaneamente de Namjoon.

— Estamos na sala de ensaio, Jungkook. Venha para casa.

Jungkook guardou o celular e respirou fundo. O caminho para a redenção seria longo e doloroso, mas, pela primeira vez, ele entendeu que o verdadeiro amor não era sobre segurar com força, mas sobre ter a coragem de abrir as mãos e confiar que, se fosse real, ela voltaria.

Enquanto caminhava em direção ao carro, ele viu um outdoor enorme com o rosto do grupo. Ele olhou para os seus seis irmãos e sentiu uma vergonha avassaladora. Ele tinha sorte de tê-los. E tinha mais sorte ainda de ter uma mulher que o amava o suficiente para não aceitar o seu pior.

— Eu vou consertar isso — ele sussurrou para o vento frio de Seul. — Eu juro que vou.

Mas, no fundo de sua mente, a voz de S/N ainda ecoava: "O amor não é uma gaiola". E Jungkook sabia que, até que ele realmente acreditasse nisso, a sombra do ciúme estaria sempre à espreita, esperando o próximo riso, a próxima piada, o próximo momento em que ele se sentisse pequeno demais para o mundo gigante que ela habitava.

A briga havia terminado, mas a guerra interna de Jeon Jungkook estava apenas começando. E desta vez, ele não teria S/N para segurar sua mão durante as batalhas. Ele teria que aprender a lutar sozinho, para que, um dia, pudesse ser o homem que ela merecia ter ao seu lado: um homem que amava com a alma, e não com o medo.