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Ciúmes dos membros

O Labirinto de Vidro e a Fragilidade do Agora

O silêncio no dormitório do BTS naquela noite era denso, quase sólido. Jungkook estava sentado no sofá da sala, as luzes apagadas, exceto pelo brilho azulado da tela de seu celular. Ele não queria abrir a galeria de fotos, mas seus dedos pareciam ter vontade própria. Ali estava ela, S/N, sorrindo em uma foto de grupo durante o jantar de comemoração do último projeto da Big Hit. Ela estava sentada entre Jimin e Taehyung, e a mão de Jimin descansava casualmente no encosto da cadeira dela.

Para qualquer outra pessoa, era apenas uma imagem de amigos celebrando. Para Jungkook, era um gatilho que fazia seu sangue ferver e sua insegurança gritar. Ele sentia aquela queimação familiar no peito, o monstro do ciúme que ele jurara domar na última sessão de terapia.

A porta principal se abriu silenciosamente. S/N entrou, tirando os sapatos e soltando um suspiro de cansaço. Ela parou ao ver a silhueta de Jungkook no escuro.

— Jungkook? — chamou ela, a voz suave, mas carregada de uma cautela que partia o coração dele. — Por que está no escuro?

— Estava esperando você chegar — respondeu ele, a voz gélida. — O jantar parece ter sido muito bom. Pelo menos nas fotos que o Jimin postou, você parecia estar se divertindo bastante.

S/N fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Ela conhecia aquele tom. Era o prelúdio de uma tempestade que ela esperava que tivesse ficado no passado.

— Foi um jantar de trabalho, Kook. Todos estavam lá. Jimin e Tae foram ótimos, me ajudaram com os investidores novos.

— Eu imagino — ele se levantou, caminhando até ela. — Especialmente o Jimin. Ele parece sempre muito disposto a te ajudar, não é? Sempre por perto, sempre tocando em você como se... como se tivesse esse direito.

— Jungkook, não comece com isso — S/N disse, tentando passar por ele, mas ele bloqueou o caminho suavemente, embora com firmeza. — Eu estou exausta. Tive um dia de doze horas e tudo o que eu queria era chegar em casa e receber um abraço do meu namorado, não um interrogatório.

— Um abraço? — Jungkook soltou uma risada amarga. — Talvez você devesse ter pedido um abraço para ele no restaurante. Parecia que vocês estavam bem íntimos naquelas fotos.

S/N sentiu a paciência esgotar. A exaustão física se transformou em uma indignação cortante.

— Você está sendo ridículo! — Ela jogou a bolsa no sofá. — Eu não posso ter uma vida? Eu não posso trabalhar e ser amiga das pessoas que você chama de irmãos? Você confia em mim ou não, Jungkook? Porque se a resposta for não, nós estamos perdendo nosso tempo aqui.

— Eu confio em você! — gritou ele, a voz ecoando pelas paredes do dormitório. — Eu não confio neles! Eu não confio na forma como eles olham para você, como se você fosse a coisa mais preciosa do mundo. Porque você é minha, S/N! E eu não suporto a ideia de que qualquer um deles pense, por um segundo sequer, que tem uma chance.

— Eu não sou sua propriedade! — S/N rebateu, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Eu não sou um troféu que você guarda em uma prateleira e só tira quando quer brincar. Eu sou um ser humano. E se você não consegue lidar com o fato de que eu sou amada por outras pessoas além de você, então o problema é seu, não meu.

— O problema é meu? — Jungkook deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma mistura de raiva e desespero. — Eu te dou tudo! Eu mudei por você, eu estou indo para a terapia por você! E o que eu recebo em troca? Ver você rindo com o Jimin enquanto eu fico aqui, contando as horas para você voltar?

— Você não mudou por mim, Jungkook — disse ela, a voz agora baixa e trêmula. — Você mudou para tentar me controlar. Mas o controle não é amor. É uma prisão. E eu estou cansada de viver em uma cela onde eu tenho que pedir permissão para sorrir para um amigo.

— Eu nunca te proibi de nada! — ele exclamou, embora soubesse que suas atitudes diziam o contrário.

— Você não precisa proibir com palavras quando seus olhos me punem toda vez que eu sou feliz sem você por perto — S/N limpou uma lágrima que escorreu. — Eu não aguento mais, Jungkook. Toda vez que avançamos um passo, você nos arrasta dez para trás com essa sua insegurança doentia.

— Insegurança doentia? — Jungkook sentiu o golpe. — Eu só te amo demais. É tão difícil entender que eu tenho medo de te perder?

— Você vai me perder justamente por causa desse medo! — gritou ela. — Você está sufocando o que temos. Você está matando o meu amor por você, pedaço por pedaço, toda vez que abre a boca para me acusar de algo que só existe na sua cabeça.

Jungkook parou, o peito subindo e descendo pesadamente. O silêncio que se seguiu foi pior do que os gritos. Ele viu a dor no rosto dela, uma dor que ele mesmo causara. Ele queria se aproximar, queria pedir desculpas, mas o orgulho e a paranoia ainda lutavam dentro dele.

— Talvez — começou S/N, a voz agora fria e decidida — você devesse passar um tempo sozinho. Para entender que o mundo não gira em torno do seu medo de ser substituído.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou ele, o pânico começando a substituir a raiva.

— Eu vou para a casa da minha prima hoje à noite. Não me ligue. Não mande mensagens. Eu preciso respirar, Jungkook. E você precisa decidir se quer ser um homem que ama ou um dono que vigia.

— S/N, não... está chovendo, está tarde — ele tentou segurar a mão dela, mas ela se esquivou.

— Não encoste em mim — disse ela, e o tom de sua voz foi como uma facada no coração dele. — Toda vez que você me toca com essa raiva nos olhos, eu sinto que estou sumindo. Eu preciso me encontrar de novo.

Ela pegou a bolsa e caminhou em direção à porta. Jungkook ficou parado no meio da sala, sentindo o chão desaparecer sob seus pés.

— Se você sair por essa porta agora, S/N... — ele começou, uma ameaça vazia que ele se arrependeu de proferir no instante em que as palavras saíram.

— Se eu sair por essa porta — ela o interrompeu, virando-se uma última vez —, talvez eu finalmente consiga dormir sem sentir que cometi um crime por ser eu mesma.

A porta bateu com um estrondo final. Jungkook caiu de joelhos no carpete, o silêncio do dormitório tornando-se insuportável. Ele olhou para o celular no sofá. O brilho da tela havia se apagado. Ele estava sozinho no escuro, cercado pelos ecos de suas próprias palavras cruéis.

Minutos depois, a porta do corredor se abriu novamente. Não era S/N. Era Namjoon, que voltava do estúdio. Ele parou ao ver Jungkook no chão, a aura de derrota emanando do caçula.

— Ela foi embora, não foi? — perguntou Namjoon, a voz carregada de uma decepção cansada.

Jungkook não respondeu. Apenas escondeu o rosto nas mãos e soluçou.

— Nós ouvimos os gritos lá de baixo, Jungkook — continuou o líder, aproximando-se e sentando-se no braço do sofá. — O Jimin está lá fora agora, garantindo que ela entre em um táxi com segurança. Ele está arrasado porque sabe que, de alguma forma, você usou o nome dele para machucá-la.

— Eu não queria... — Jungkook soluçou. — Eu só... eu vi a foto e eu perdi a cabeça.

— A foto não é o problema, Kook. O problema é que você olha para o mundo e vê ameaças onde só existe carinho. Você olha para nós, seus irmãos, e vê rivais. Como você acha que a S/N se sente sendo o centro dessa guerra que você criou sozinho?

— Eu a amo tanto, Hyung — Jungkook levantou o rosto, os olhos vermelhos e inchados. — Eu não sei como parar de sentir isso.

— Amar não é possuir, Jungkook — Namjoon disse, colocando uma mão firme no ombro do mais novo. — Se você a ama, deveria querer que ela fosse a pessoa mais feliz do mundo, mesmo que essa felicidade não dependa exclusivamente de você a cada segundo do dia. Você a está expulsando da sua vida com as próprias mãos.

— O que eu faço? — perguntou o caçula, desesperado. — Eu vou atrás dela?

— Não. Se você for agora, só vai causar mais dor. Ela pediu espaço, então dê o espaço que ela precisa. E use esse tempo para entender que você precisa se curar antes de tentar consertar o que quebrou com ela. Você não pode oferecer um amor saudável se o seu coração está cheio de veneno.

Jungkook passou a noite em claro, sentado na varanda, observando a chuva cair sobre Seul. Cada gota parecia um lembrete de sua falha. Ele pensou em todas as promessas que fizera a S/N, em todos os momentos em que ela o perdoara, e percebeu que o estoque de perdão dela havia finalmente acabado.

No dia seguinte, o clima na HYBE estava pesado. Os membros evitavam falar sobre o assunto, mas os olhares de Jimin e Taehyung eram carregados de uma mágoa silenciosa. Jungkook sentia-se um estranho entre os seus. Ele tentou focar no ensaio, mas sua mente estava no apartamento da prima de S/N, imaginando se ela estava chorando ou se, finalmente, estava sentindo o alívio de estar longe dele.

Durante o intervalo, Jimin aproximou-se de Jungkook. O clima era tenso.

— Você acha que eu faria algo para te ferir, Jungkook? — perguntou Jimin, sem rodeios.

— Não, Hyung... eu sei que não — Jungkook baixou a cabeça.

— Então por que você a trata como se ela fosse um prêmio em disputa? — Jimin deu um passo à frente, sua voz firme. — Eu a amo como uma irmã. O Tae a ama como uma melhor amiga. Nós cuidamos dela porque ela te faz feliz. Mas se a sua forma de "amar" for destruir a saúde mental dela, então eu mesmo vou ajudá-la a ficar longe de você.

— Eu sei que errei, Jimin. Eu sinto muito.

— Não peça desculpas para mim. Peça para o espelho, porque é você quem vai ter que conviver com as consequências de ter jogado fora a melhor coisa que já te aconteceu.

As semanas se passaram como um borrão doloroso. Jungkook mergulhou na terapia com uma intensidade renovada. Ele começou a entender que seu ciúme era um reflexo de sua própria baixa autoestima, de um medo irracional de que, se S/N visse o mundo além dele, ela perceberia que ele não era o suficiente. Ele aprendeu a identificar os gatilhos, a respirar antes de falar, a separar a realidade de suas projeções mentais.

Mas S/N permanecia em silêncio.

Um mês depois daquela noite fatídica, Jungkook recebeu uma mensagem. Seu coração quase parou ao ver o nome na tela.

S/N: "Podemos conversar? Estarei no parque perto do rio Han às 20h."

Ele chegou meia hora antes. Quando a viu caminhar em sua direção, usando um casaco longo e o cachecol que ele lhe dera no Natal passado, ele sentiu uma mistura de esperança e terror. Ela parecia mais calma, mas havia uma distância em seus olhos que ele nunca vira antes.

— Oi — disse ela, parando a alguns metros de distância.

— Oi — respondeu ele, as mãos nos bolsos para esconder o tremor. — Obrigado por vir.

— Eu precisei desse tempo, Jungkook. Para entender quem eu sou sem o peso das suas expectativas sobre mim.

— Eu entendo — ele disse, com sinceridade. — Eu também precisei de tempo para entender o monstro que eu estava me tornando. Eu não vou pedir que você volte para mim agora, S/N. Eu só queria te pedir perdão. Por cada vez que eu te sufoquei, por cada vez que eu desconfiei da sua integridade e por ter feito você sentir medo de mim.

S/N olhou para as águas escuras do rio.

— Eu te perdoo, Kook. Mas o perdão não apaga as cicatrizes. Eu ainda sinto um aperto no peito toda vez que meu celular vibra e eu penso que pode ser você com alguma acusação.

— Eu mudei, S/N. Eu estou tentando. Os hyungs estão me ajudando. Eu aprendi que o seu sorriso para o Jimin não tira nada de mim. Na verdade, ele deveria me deixar feliz por saber que você está cercada de pessoas que te amam.

— Fico feliz em ouvir isso. De verdade.

— Eu queria te mostrar uma coisa — Jungkook pegou um pequeno caderno de sua mochila. — É o meu diário da terapia. Eu escrevi sobre cada dia sem você. Sobre como eu aprendi a confiar no que temos, mesmo quando não estamos juntos. Eu não quero que você leia agora, mas... eu queria que você soubesse que eu não desisti de ser o homem que você merece.

S/N pegou o caderno, seus dedos roçando os dele por um breve segundo. A eletricidade ainda estava lá, mas era uma faísca suave, não o incêndio destrutivo de antes.

— Eu não sei se podemos voltar a ser o que éramos, Jungkook. Aquela versão de nós morreu naquela noite.

— Eu não quero voltar a ser o que éramos — ele disse, dando um passo cauteloso à frente. — Aquilo era tóxico. Eu quero construir algo novo. Algo baseado em liberdade, não em posse. Eu quero que você saia com quem quiser, que ria com quem quiser, e que volte para mim porque você me ama, não porque você tem medo da minha reação se não voltar.

S/N deu um pequeno sorriso, o primeiro que ele via em semanas.

— É um discurso bonito, Jeon Jungkook.

— Não é um discurso. É uma promessa. Eu sei que o vidro quebrou, S/N. Mas eu estou disposto a colar cada pedaço, mesmo que eu corte as minhas mãos no processo. Só me dê uma chance de te mostrar que eu posso ser o seu porto seguro, e não a sua tempestade.

Ela olhou para o caderno em suas mãos e depois para o homem à sua frente. Ele parecia mais maduro, mais consciente. A arrogância do ciúme fora substituída pela humildade do arrependimento.

— Um passo de cada vez? — perguntou ela, estendendo a mão.

Jungkook segurou a mão dela, sentindo o calor retornar ao seu mundo.

— Um passo de cada vez — repetiu ele. — No seu tempo. Do seu jeito.

Eles começaram a caminhar lado a lado pelo parque. Não houve beijos apaixonados ou promessas de amor eterno naquela noite. Houve apenas o som de dois corações tentando encontrar o ritmo novamente, em meio aos ecos de um passado que eles estavam decididos a transcender. Jungkook sabia que o caminho seria longo e que o monstro do ciúme ainda poderia sussurrar em seus ouvidos em noites de solidão, mas agora ele tinha uma arma mais forte: a confiança que ele estava aprendendo a depositar, primeiro em si mesmo, e depois na mulher que nunca deixara de amá-lo, mesmo nos momentos mais sombrios.

A luz da lua refletia no rio Han, e pela primeira vez em muito tempo, Jungkook não sentiu necessidade de controlar o reflexo. Ele apenas apreciou a beleza da luz, sabendo que ela pertenceria a quem quisesse olhar, mas que ele era o único que tinha o privilégio de caminhar ao lado da fonte daquela claridade.