Clara o amor do general
O Veneno da Dúvida e o Eco da Vida
A neve começava a cair sobre o Pequeno Palácio, pintando de branco as torres douradas que Clara um dia chamou de lar. Escondida sob as sombras das árvores ancestrais do jardim leste, ela apertava o manto surrado contra o corpo. O frio de Ravka era impiedoso, mas não tanto quanto o gelo que se instalou em seu coração ao ver a cena diante de seus olhos.
Lá estava ele. Aleksander. O homem que jurou que ela era sua única luz, o homem que a chamava de "minha pequena Sangria" com uma voz que derretia sua vontade. Ele segurava Alina Starkov, a Conjuradora do Sol, com a mesma possessividade que costumava dedicar a ela. E então, ele a beijou.
Clara sentiu o ar fugir de seus pulmões. Suas mãos, escondidas sob o tecido grosso, pousaram instintivamente sobre o ventre ainda discreto, mas que carregava o peso de um mundo novo. A dor não foi apenas emocional; foi física. Como Sangria, ela sentia o fluxo da vida, e naquele momento, seu próprio sangue pareceu se transformar em chumbo.
— Você viu o suficiente, criança?
A voz áspera e desprovida de piedade veio de trás dela. Clara se sobressaltou, virando-se para encontrar os olhos frios de Baghra. A mãe do General parecia uma sombra viva, uma lembrança constante de que o amor dos Morozova era uma maldição, não uma bênção.
— Ele... ele disse que me amava — sussurrou Clara, as lágrimas congelando em seus cílios. — Ele disse que eu era tudo.
Baghra soltou uma risada seca, um som que lembrava gravetos quebrando.
— Aleksander ama o que você representa, Clara. Ele ama o poder que você poderia dar a ele, a linhagem que você poderia assegurar. Mas veja ali — ela apontou com o cajado para o General e a Conjuradora. — Ele encontrou o que realmente precisava. A luz para a sua escuridão. Você foi um passatempo, uma distração confortável enquanto a verdadeira peça do tabuleiro não aparecia. Ele já a superou.
— Não pode ser verdade — protestou Clara, embora a visão do beijo ainda estivesse queimando sua retina.
— Ele não precisa mais de você — continuou Baghra, aproximando-se, o rosto marcado por séculos de segredos. — Alina Starkov é o futuro dele. Para ele, você é apenas uma falha que fugiu. Se ele a encontrar agora, será apenas para garantir que o que você carrega não caia em mãos erradas, ou para usá-la como bateria para seus próprios fins. Fuja, Clara. Fuja antes que ele decida que sua utilidade acabou de vez.
Clara sentiu uma náusea profunda. O bebê em seu ventre pareceu se agitar, uma pulsação dupla que ecoava em seus ouvidos. Ela não estava ali por ciúmes, inicialmente. Ela tinha arriscado tudo, voltando às sombras do palácio, porque a gravidez de uma Sangria era complexa. O bebê drenava sua energia vital de forma alarmante, e ela precisava de compostos alquímicos específicos — um tônico pré-natal que apenas os boticários reais do palácio preparavam para a elite Grisha. Sem isso, ela morreria antes do quinto mês, e o bebê com ela.
— Eu preciso ir — disse Clara, a voz embargada. — Eu não posso ficar.
— Então vá e não olhe para trás. Esconda-se no lugar mais profundo que encontrar, pois se ele sentir o cheiro do seu rastro, ele não terá piedade.
Clara deu as costas à sogra e correu. Ela conhecia as passagens de serviço, os caminhos usados pelos servos que o General raramente notava. Ela conseguiu entrar na ala da enfermaria, o coração martelando contra as costelas. O cheiro de ervas e antissépticos a atingiu. Com dedos trêmulos, ela vasculhou as prateleiras de vidro até encontrar os frascos azuis marcados com o selo da ordem dos Sangrias.
Ela pegou três frascos, escondendo-os nas dobras de sua capa. Era o suficiente para garantir que o herdeiro das sombras sobrevivesse ao inverno.
Ao sair pela porta lateral que dava para os estábulos, Clara tropeçou em uma pilha de lenha. O barulho foi baixo, mas no silêncio da noite, pareceu um tiro de canhão.
— Quem está aí? — uma voz masculina ecoou.
Um soldado da guarda oprichniki, vestindo o uniforme cinza fosco, virou a esquina com uma lanterna. A luz atingiu o rosto de Clara por um breve segundo. Ela viu o reconhecimento nos olhos do homem. Todos no palácio conheciam a esposa do General, a mulher que desaparecera e transformara o mestre das sombras em um monstro ainda mais implacável.
— Senhora Kirigan? — o soldado gaguejou, baixando a arma por um momento em choque.
Clara não respondeu. Ela usou o pouco que sabia de manipulação corporal para acelerar o próprio pulso, enviando uma descarga de adrenalina para as pernas. Ela correu em direção à floresta, a neve dificultando seus passos.
— Alto! — gritou o soldado, mas ele não atirou. Ele sabia que o General o esfolaria vivo se ferisse um fio de cabelo daquela mulher. Em vez disso, ele levou o apito aos lábios e soprou um som agudo que cortou a noite.
...
Dentro do palácio, Aleksander estava em seu quarto, a escuridão absoluta sendo seu único consolo após o encontro teatral com Alina. Ele ainda sentia o gosto do arrependimento. Cada fibra de seu ser gritava por Clara, pelo toque macio de sua pele gordinha, pelo calor que ela emanava.
O som do apito o fez levantar-se instantaneamente. As sombras na sala se agitaram como cães de caça sentindo uma presa.
Ivan entrou no quarto sem bater, o rosto pálido.
— General! Um guarda nos estábulos. Ele jura ter visto a Senhora.
Aleksander sentiu o mundo parar.
— Onde? — a palavra saiu como um rosnado animal.
— Ela fugiu para a floresta norte. Ele disse que ela estava carregando algo... frascos da enfermaria.
Kirigan não esperou por mais explicações. Ele atravessou o corredor como um vulto negro, sua capa flutuando atrás dele como asas de um corvo. Ele chegou ao pátio em segundos, encontrando o guarda trêmulo.
— Para onde ela foi? — Aleksander agarrou o homem pelo colarinho, levantando-o do chão.
— P-para as árvores, meu Senhor! Ela parecia... ela estava diferente. Mais rápida.
Aleksander soltou o homem e fechou os olhos, expandindo seus sentidos. Ele buscou a ressonância magnética do poder de Clara. E lá estava ela. Uma pulsação vibrante, mas estranhamente dissonante, movendo-se freneticamente entre os pinheiros.
— Clara — ele sussurrou, uma mistura de alívio e fúria preenchendo seu peito.
Ele começou a correr. Ele não precisava de cavalos; as sombras o impulsionavam, encurtando as distâncias. Ele podia sentir o medo dela, um rastro de pânico que pairava no ar gélido.
— Por que você voltou, meu amor? — ele pensava, a mente em turbilhão. — E por que está fugindo de mim de novo?
Ele a viu entre os troncos brancos. Ela estava exausta, a respiração saindo em nuvens brancas, os pés afundando na neve profunda. Ela parou perto de um riacho congelado, apoiando-se em uma árvore, a mão protegendo o ventre de forma protetora.
Aleksander diminuiu o passo, deixando que as sombras se dissolvessem ao seu redor para não assustá-la ainda mais.
— Clara — disse ele, a voz suave, carregada de uma dor que ele nunca mostraria a mais ninguém.
Ela deu um pulo, virando-se para ele. Os olhos dela estavam vermelhos de choro, e o medo que ele viu ali o atingiu com mais força do que qualquer corte de luz de Alina Starkov.
— Afaste-se! — ela gritou, a voz falhando. — Vá voltar para sua Conjuradora! Vá construir seu império com ela!
Aleksander franziu a testa, dando um passo à frente.
— Alina não é nada para mim. Ela é uma ferramenta, Clara. Apenas isso.
— Eu vi você! — ela soluçou, apertando os frascos contra o peito. — Eu vi como você a olhava. Sua mãe me contou tudo. Você só me queria pelo meu sangue, para viver para sempre enquanto você brinca de ser deus!
— Minha mãe é uma mentirosa que quer nos destruir! — Aleksander rugiu, a frustração transbordando. — Sim, no começo, eu procurei você pelo poder. Eu sou um monstro, Clara, eu nunca neguei isso. Mas o que eu sinto por você... isso não tem nada a ver com Grishas ou tronos. Eu estou morrendo a cada dia que você passa longe de mim!
Clara balançou a cabeça, recuando para a beira do riacho.
— Você não me ama. Você ama o que eu posso fazer por você. E agora que você tem a luz dela, eu sou descartável. Ela me disse... Baghra me disse que você já me superou.
— Ela mentiu! — ele deu mais um passo, estendendo a mão. — Olhe para mim, Clara. Olhe nos meus olhos e diga que você não sente a verdade.
Clara olhou. E por um momento, a conexão entre eles, aquele fio invisível de sangue e sombra, vibrou. Ela viu o desespero dele, a obsessão que beirava a loucura, mas também viu uma adoração genuína que nenhuma mentira de Baghra poderia apagar completamente.
No entanto, a insegurança era um veneno persistente. Ela olhou para o palácio ao longe e depois para o homem à sua frente.
— E o bebê, Aleksander? — ela perguntou, a voz mal audível. — Ele também é uma ferramenta?
O General congelou. A confirmação de sua suspeita o atingiu como um impacto físico.
— Nosso filho... — ele sussurrou, a voz tremendo pela primeira vez em séculos. — Você voltou pelos tônicos. Você está fraca porque ele está consumindo você.
— Eu não vou deixar você transformá-lo em algo como você — disse ela, reunindo as últimas forças. — Eu prefiro desaparecer na neve.
— Você não vai a lugar nenhum — a voz dele mudou. A suavidade desapareceu, substituída pela autoridade implacável do General Kirigan. — Você é minha esposa. Você carrega o meu herdeiro. Eu queimaria este país inteiro antes de deixar você dar mais um passo para longe de mim.
As sombras começaram a se erguer do chão, cercando Clara como paredes vivas.
— Aleksander, não... — ela implorou, mas a exaustão e o efeito do bebê em seu sistema finalmente cobraram o preço. Seus joelhos cederam.
Antes que ela atingisse a neve, ele estava lá. Aleksander a pegou nos braços, apertando-a contra o peito com uma força que era ao mesmo tempo um resgate e uma prisão. Ele enterrou o rosto no pescoço dela, inalando o cheiro de sândalo e sangue que ele tanto sentira falta.
— Eu te encontrei — murmurou ele contra a pele dela. — E desta vez, Clara, eu vou trancá-la em uma gaiola de ouro se for preciso. Você nunca mais verá a luz do sol se isso significar que você nunca mais fugirá de mim.
Clara tentou lutar, mas a escuridão estava cobrindo sua visão. A última coisa que sentiu antes de desmaiar foi o beijo possessivo de Aleksander em sua testa e a promessa sombria que ele sussurrou em seu ouvido.
— O mundo vai aprender a nos temer, minha Sangria. Você, eu e o nosso filho. E ninguém, nem minha mãe, nem a Conjuradora, ficará no nosso caminho.
Kirigan olhou para a floresta silenciosa, seus olhos brilhando com uma determinação fria. Ele tinha sua alma de volta. E agora, ele faria Ravka sangrar para garantir que ela permanecesse exatamente onde pertencia: sob seu domínio absoluto.