Clara o amor do general
O Sussurro da Linhagem e a Cura das Sombras
A luz da manhã filtrava-se pelas pesadas cortinas de veludo azul do quarto principal, mas Aleksander não havia dormido. Ele permanecia sentado na poltrona ao lado da cama, observando o peito de Clara subir e descer em um ritmo frágil. Ela parecia tão pequena sob os lençóis de seda, a palidez de sua pele contrastando com o cabelo escuro espalhado pelo travesseiro.
Ele segurava a mão dela, sentindo o pulso fraco. O General estava em um estado de fúria contida que fazia as sombras nos cantos do quarto se contorcerem como serpentes inquietas. Ele queria destruir Baghra, queria punir cada guarda que permitiu que ela fugisse meses atrás, mas, acima de tudo, ele sentia um terror que não experimentava há séculos: o medo da perda definitiva.
Uma batida suave na porta o despertou de seus pensamentos sombrios.
— Entre — ordenou ele, a voz rouca.
Um jovem Grisha, vestindo o *kefta* vermelho dos Corporalki com bordados cinza de curandeiro, entrou na sala. Seu nome era Joran, um dos curandeiros mais brilhantes que Aleksander trouxera de Ravka Ocidental, conhecido não apenas por sua habilidade, mas por uma intuição que beirava o profético. Joran era jovem, com traços harmoniosos e uma calma que parecia irritar o General naquele momento de tensão.
Joran fez uma reverência profunda, embora seus olhos estivessem fixos na paciente.
— General. Vim fazer a avaliação matinal da Senhora Kirigan.
Aleksander levantou-se, mas não se afastou da cama. Ele observou cada movimento do curandeiro enquanto o jovem pousava as mãos sobre o ventre de Clara, fechando os olhos para sentir as ressonâncias do corpo dela. O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir o estalar da lenha na lareira.
Após o que pareceu uma eternidade, Joran retirou as mãos e olhou para o General. Havia uma hesitação em seu olhar que fez Aleksander cerrar os punhos.
— Fale logo, curandeiro.
— A criança está estável, General. E... — Joran permitiu um pequeno sorriso — é uma menina. Uma pequena Sangria, pelo que posso sentir da força com que ela se agarra à vida.
O coração de Aleksander falhou uma batida. Uma menina. Uma filha. A imagem de uma versão em miniatura de Clara, com seus olhos e o poder dele, ou talvez o inverso, inundou sua mente, trazendo uma onda súbita de possessividade avassaladora.
— No entanto — continuou Joran, e o sorriso desapareceu —, a situação da Senhora é crítica. Fugir durante o primeiro trimestre, sob estresse extremo e sem a nutrição adequada, drenou suas reservas. O tônico que ela buscou na enfermaria ajudará a manter o bebê, mas não será o suficiente para salvar a mãe. O corpo dela está tratando a gestação como um parasita porque ela está fraca demais.
— Cure-a — rosnou Aleksander, dando um passo ameaçador. — Use todo o seu poder, chame os outros, faça o que for necessário.
— Não é tão simples, meu Senhor. A magia dos Sangrias é ligada à essência vital. O corpo dela está rejeitando a conexão física necessária para sustentar o útero. O colo do útero está tenso, sob risco de um parto prematuro que nenhum de nós poderia reverter agora. O repouso absoluto é obrigatório, mas precisamos de algo mais... orgânico.
Joran limpou a garganta, parecendo subitamente desconfortável sob o olhar gélido do Herege das Sombras.
— Existe um método antigo, General. Frequentemente usado entre as linhagens Grisha mais puras quando a mãe corre risco de vida. O tônico químico é artificial. O que ela precisa é da essência do pai para fortalecer o ambiente uterino.
Aleksander estreitou os olhos, a confusão nublando sua expressão.
— Explique-se.
— O sêmen do pai — disse Joran, a voz baixa e técnica — contém as mesmas assinaturas genéticas e energéticas que a criança. Quando introduzido de forma íntima, ele atua como um bálsamo natural para o colo do útero, relaxando a musculatura e fortalecendo o vínculo entre a mãe e o feto. É uma forma de "lembrar" ao corpo de Clara que esta criança não é um invasor, mas parte dela e de você. O remédio sozinho não vai funcionar, General. Ela precisa do seu toque, da forma mais profunda.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Aleksander olhou para Clara, o rosto dela tão doce mesmo no cansaço. A ideia de que ele, o monstro das sombras, poderia ser a cura física para a fragilidade dela era uma ironia que ele não esperava.
— Saia — disse Aleksander finalmente.
— General, eu recomendo que...
— Eu disse para sair, Joran. Mantenha os tônicos prontos. Eu cuidarei do resto.
Assim que o curandeiro saiu, Aleksander voltou para o lado da cama. Ele sentou-se na borda do colchão, o peso fazendo Clara se mexer levemente. Ela abriu os olhos devagar, as íris castanhas demorando a focar até encontrarem o rosto dele. O medo imediato que surgiu ali o cortou como uma lâmina.
— Aleksander... — ela sussurrou, tentando se afastar, mas sem forças para isso.
— Shh, não se mova — disse ele, a voz suavizando-se em um tom de veludo que ele usava apenas para ela. — Você precisa descansar. Você está em segurança agora.
— Eu não estou em segurança com você — ela rebateu, uma lágrima solitária escorrendo. — Você me usou. Você quer o poder dela... a luz dela.
Aleksander inclinou-se sobre ela, cercando-a com seu corpo, as sombras criando um casulo ao redor da cama, isolando o mundo exterior.
— Clara, ouça-me bem, porque não direi isso a mais ninguém. O que eu fiz com Alina foi um teatro necessário para o que está por vir. Mas ontem, quando eu a beijei, eu senti nojo. Eu senti como se estivesse provando cinzas. Porque cada parte de mim, cada grama deste poder maldito que eu carrego, pertence a você.
Ele pegou a mão dela e a colocou sobre o próprio coração, que batia forte e descompassado.
— Você acha que eu a quero pelo poder? Clara, você é a única coisa que me torna humano. Sem você, eu sou apenas o Herege. Com você... eu sou apenas um homem que ama sua esposa além da razão.
Clara soluçou, a insegurança lutando contra a verdade que ela via nos olhos dele.
— O curandeiro disse que temos uma filha — continuou ele, sua voz tremendo levemente de emoção. — Uma menina, Clara. Mas ele também disse que você está morrendo. Que o nosso bebê está tirando a vida de você porque você não tem mais nada para dar.
Clara levou a mão ao ventre, o pavor substituindo a tristeza.
— Minha menina... eu não posso perdê-la.
— Você não vai. Mas eu preciso que você confie em mim. O curandeiro sugeriu um tratamento... antigo. Um tratamento que exige que eu esteja com você, da forma mais íntima, para fortalecer seu corpo e o dela.
Ele explicou, com palavras cuidadosas e carregadas de um desejo que ele vinha reprimindo há meses, o que precisava ser feito. Clara corou, a pele pálida ganhando um tom rosado que a tornava ainda mais bonita aos olhos dele.
— Você quer dizer que... — ela começou, a voz sumindo.
— Eu quero dizer que vou cuidar de você, Clara. Vou curar você com o que há de mais puro em mim. Não haverá sombras, não haverá manipulação. Apenas nós dois.
Ele começou a desabotoar o *kefta* negro, seus olhos nunca deixando os dela.
— Eu não queria que fosse assim, por necessidade médica — admitiu ele, a voz baixa e rouca. — Eu queria que você voltasse para mim porque me perdoou. Mas eu não vou deixar você morrer, Clara. Nem que eu tenha que mantê-la presa a mim pelo resto da eternidade.
Ele se deitou ao lado dela, puxando-a para o seu calor. Clara, apesar de toda a dor e da traição que sentia, não conseguiu evitar se aninhar no peito dele. O cheiro de Aleksander — sândalo, frio e poder — era o único lar que ela conhecia.
— Me perdoe, Aleksander — sussurrou ela contra o pescoço dele.
— Pelo quê? Por fugir?
— Por ser fraca. Por não ser a Conjuradora do Sol. Por ser apenas... eu.
Aleksander segurou o queixo dela, forçando-a a olhá-lo.
— Alina Starkov é uma tocha no escuro, Clara. Você é o próprio sangue que corre em minhas veias. Nunca, jamais, se compare a ela. Você é a General das minhas sombras. Você é a mãe da minha filha. E você é a única mulher que eu já amei em séculos de existência.
Ele a beijou então, não o beijo técnico e frio que dera em Alina, mas um beijo que carregava toda a sua fome, sua angústia e sua devoção. Era um beijo de um homem faminto encontrando o banquete, de um náufrago encontrando a terra firme.
As mãos de Aleksander começaram a percorrer as curvas dela, aquelas curvas que ele tanto adorava e que ela tanto temia serem um defeito. Ele as tocava como se fossem arte sacra, cada toque carregado de uma reverência silenciosa. Quando ele finalmente a possuiu, não foi com a fúria do General, mas com a ternura de um marido que temia que sua esposa se quebrasse.
Ele sentiu a conexão Grisha se intensificar. Como Sangria, Clara absorvia a vitalidade dele. Ele sentia a energia fluindo de seu corpo para o dela, alimentando o colo do útero enfraquecido, acalmando os espasmos de dor que a vinham atormentando. A pulsação dupla do bebê pareceu se harmonizar com a dele, um ritmo triplo que preenchia o quarto.
— Aleksander... — ela arquejou, as mãos cravadas nos ombros dele, os olhos brilhando com uma nova força.
— Eu estou aqui — murmurou ele, beijando o suor em sua testa. — Eu nunca mais vou deixar você ir.
Horas depois, Clara dormia um sono profundo e reparador, a cor voltando às suas bochechas. Aleksander estava deitado ao lado dela, observando-a com uma guarda incansável. Ele sabia que a batalha por Ravka ainda estava lá fora, que Alina Starkov ainda esperava por suas ordens e que Baghra ainda tramava nas sombras.
Mas, naquele momento, dentro daquele quarto, o Herege das Sombras tinha tudo o que precisava. Ele colocou a mão sobre o ventre de Clara, sentindo o movimento sutil de sua filha.
— Você será a criatura mais poderosa deste mundo — prometeu ele em um sussurro para a criança que ainda não nascera. — E ninguém ousará tocar em você ou em sua mãe.
Ele sabia que o caminho à frente seria pavimentado com mentiras para Alina e guerra para Ravka. Ele continuaria a manipular a Conjuradora do Sol, usaria a luz dela para expandir suas sombras e proteger seu império. Mas a luz que realmente importava, a luz que ele guardaria com cada gota de seu sangue, estava ali, dormindo em seus braços.
Aleksander fechou os olhos por um breve momento, permitindo-se sentir a paz pela primeira vez em três meses. A caçada terminara. A reconquista, porém, estava apenas começando. E ele não teria piedade de quem tentasse separar sua família novamente.