Continuação amor sombrio
O Eclipse dos Ossos e a Alquimia do Pavor
O laboratório de Wandinha Addams não era apenas um local de estudos; era um teatro de anatomia onde a moralidade era a primeira peça a ser descartada. As lâmpadas de gás oscilavam, projetando sombras que pareciam dançar nas paredes de pedra úmida, enquanto o som de ossos se quebrando preenchia o ar como o estalar de lenha seca em uma fogueira de execução.
Tyler estava no centro da sala, os joelhos cravados no chão frio. Sua pele esticava-se ao limite, as fibras musculares rompendo-se e refazendo-se sob a influência do soro de beladona e do sangue Addams. Wandinha permanecia sentada em sua poltrona de carvalho, a caneta-tinteiro deslizando pelo papel com uma frieza que desafiava a agonia que testemunhava.
— Respire, Tyler — comandou ela, sem levantar os olhos do caderno. — A dor é apenas a linguagem que o corpo usa para protestar contra a grandeza. Ignore o dialeto e foque na mensagem.
Tyler soltou um grito que começou humano e terminou em um registro gutural, capaz de fazer os frascos de vidro nas prateleiras vibrarem em simpatia. Suas costas se arquearam, e as garras rasgaram o tecido da túnica de seda, deixando tiras negras espalhadas pelo chão.
— Eu sinto... — ele arquejou, o suor frio misturando-se à secreção escura que brotava de seus poros — ...eu sinto cada vértebra se deslocando. É como se meu esqueleto estivesse sendo reconstruído por um arquiteto louco.
— Um arquiteto Addams, para ser mais precisa — corrigiu Wandinha, finalmente fechando o diário e caminhando até ele. — O Hyde comum é uma explosão de violência desordenada. O que estamos criando aqui é uma combustão controlada. Você não está perdendo a forma, Tyler. Você está encontrando a sua verdadeira geometria.
Ela parou a centímetros dele. A face de Tyler estava em constante mutação; a mandíbula se projetava, os dentes se tornavam presas de marfim amarelado, mas os olhos — aqueles olhos cercados pelo anel dourado — permaneciam fixos nos dela. Não havia o vazio da loucura predatória, mas uma lucidez aterrorizante.
— Wandinha... — a voz dele agora era um estrondo subterrâneo. — Eu posso ver... a estrutura molecular do ar. Eu sinto o calor das velas como se fossem incêndios. E eu sinto você. Seu coração... bate tão devagar. É como um tambor fúnebre no meio de uma tempestade.
— É a minha canção de ninar favorita — disse ela, estendendo a mão para tocar o ombro dele, onde a pele já dava lugar à textura coriácea e cinzenta do monstro. — Agora, levante-se. O Hyde nunca se ajoelha, a menos que seja para arrancar uma jugular.
Com um esforço hercúleo, Tyler se ergueu. Ele agora tinha mais de dois metros de altura, uma massa de músculos e fúria contida que ocupava o espaço de forma predatória. No entanto, ao contrário das transformações anteriores em Nevermore, ele não avançou contra ela. Ele permaneceu estático, uma estátua de pesadelo aguardando ordens.
— Como é a sensação de manter a consciência enquanto habita o abismo? — perguntou Wandinha, circulando-o como um examinador avaliando uma peça de artilharia.
— É como estar em uma sala de espelhos onde todos os reflexos querem matar — respondeu o Hyde, as palavras saindo com dificuldade pela garganta modificada. — Mas a sua voz... ela é o único espelho que não quebra. Ela me mantém ancorado.
Wandinha permitiu que um brilho de satisfação cruzasse seus olhos escuros por um milésimo de segundo.
— Excelente. A simbiose está completa. Você é o primeiro de sua espécie a não ser um escravo de seus instintos ou de um mestre medíocre como Laurel Gates. Você é o senhor da sua própria carnificina.
De repente, um som agudo e metálico ecoou pelas tubulações da mansão. Mãozinha, que estava de vigia no andar superior, desceu as escadas saltando de degrau em degrau e começou a gesticular freneticamente sobre a mesa de autópsia.
— Visitantes? — Wandinha traduziu, suas sobrancelhas se contraindo levemente. — Tão cedo? O Círculo de Sangue é mais impaciente do que eu imaginava. Eles não têm o menor respeito pelo tempo de incubação de um monstro.
Tyler, ou o que restava dele na forma do Hyde, virou a cabeça em direção à porta pesada do laboratório. Suas narinas dilataram-se, captando um odor que não pertencia à casa.
— Cheiro de ozônio e prata — rosnou o monstro. — E algo amargo... como incenso de igreja velha.
— Puristas — cuspiu Wandinha, pegando sua adaga de obsidiana. — Eles vieram com suas orações e suas armas de prata, acreditando que o mundo pode ser limpo com rituais de exclusão. Eles não entendem que a sujeira é o que dá sabor à vida.
Ela olhou para Tyler, que parecia uma sombra sólida pronta para ser projetada contra o mundo.
— Tyler, esta é a sua prova de fogo. Eles não esperam que você tenha mente. Eles esperam uma besta que podem encurralar com táticas padrão. Mostre a eles que o erro de cálculo será o último que cometerão.
— Eu vou estraçalhá-los — prometeu ele, as garras raspando o chão de pedra, arrancando faíscas.
— Não — Wandinha o deteve com um gesto seco. — A morte rápida é um desperdício de potencial criativo. Eu quero que eles sintam o terror de enfrentar algo que não podem categorizar. Deixe que um sobreviva. Alguém precisa levar o conto do nosso "noivado" de volta para o Círculo.
Eles subiram as escadas em um silêncio sepulcral. A mansão Addams parecia ter percebido a intrusão; as sombras nos corredores tornaram-se mais densas, e os retratos nas paredes pareciam prender a respiração. No grande salão de entrada, a porta principal havia sido arrancada das dobradiças, não por força bruta, mas por uma explosão de energia cinética que deixara um rastro de cinzas no tapete persa.
Três figuras vestidas com longos casacos de couro cinza estavam no centro do salão. Eles usavam máscaras de prata sem feições, apenas com fendas estreitas para os olhos. Nas mãos, carregavam bastões eletrificados e bestas carregadas com virotes de ponta de mercúrio.
— Wandinha Addams — disse a figura central, sua voz distorcida por um modulador. — Você violou as leis fundamentais do equilíbrio. O que você carrega em suas veias e o que você trouxe para esta casa é uma heresia biológica. Entregue o espécime e talvez sua família seja poupada da purgação.
Wandinha parou no topo da escadaria, os braços cruzados, a imagem da indiferença gótica.
— Vocês, puristas, são tão previsíveis que chega a ser tedioso — disse ela, sua voz ecoando com uma autoridade gélida. — Falam de equilíbrio enquanto tentam podar o jardim da existência conforme seus próprios medos. Minha família não precisa de misericórdia, especialmente vinda de homens que se escondem atrás de máscaras de talheres baratos.
— O espécime é uma anomalia que deve ser destruída — declarou o purista, levantando seu bastão. — Ele matou em Nevermore. Ele matará novamente.
— Ele não é mais um espécime — rebateu Wandinha, um sorriso cruel curvando seus lábios. — Ele é o meu cúmplice. E ele está com fome de dogmas.
Ela fez um sinal leve com a mão. Das sombras atrás dela, o Hyde emergiu. Ele não saltou; ele caminhou, cada passo fazendo o chão tremer. A visão do monstro consciente, com o brilho dourado nos olhos e a postura de um carrasco, fez com que os puristas recuassem um passo, a confiança vacilando.
— O que é isso? — sussurrou um deles, a voz trêmula. — Ele deveria estar em choque anafilático pelo veneno... ele não deveria estar de pé!
— O que vocês chamam de veneno, eu chamo de café da manhã — rosnou Tyler, sua voz saindo como o atrito de placas tectônicas.
O primeiro purista disparou sua besta. O virote de prata voou com precisão mortal em direção ao peito do Hyde. Com um movimento que foi um borrão de velocidade inumana, Tyler pegou o projétil no ar, a ponta de prata queimando levemente sua palma, mas ele nem sequer piscou. Ele quebrou o virote ao meio como se fosse um palito de dentes e o deixou cair.
— Minha vez — disse o monstro.
O que se seguiu foi uma sinfonia de violência coreografada. Tyler moveu-se com uma agilidade que desafiava seu tamanho. Ele não era mais o animal descontrolado que Wandinha vira na floresta de Jericó; ele era uma arma de precisão. Ele desarmou o primeiro invasor com um golpe de garra que destruiu o bastão elétrico e, em seguida, arremessou o homem contra uma armadura medieval com tanta força que o metal se dobrou ao redor do corpo do purista.
O segundo tentou usar um dispositivo de contenção, uma rede de filamentos de prata, mas Wandinha, lá do alto, lançou uma de suas próprias adagas, cortando o cabo de alimentação do dispositivo antes que fosse disparado.
— Não interrompam o progresso dele — gritou ela, os olhos brilhando com uma excitação macabra. — Ele está apenas começando a se divertir!
Tyler agarrou o segundo purista pelo pescoço, levantando-o do chão. O som do metal da máscara se amassando sob a pressão dos dedos do Hyde era música para os ouvidos de Wandinha. O monstro olhou para o homem aterrorizado e, em vez de matá-lo instantaneamente, aproximou o rosto, deixando que o hálito quente e carregado de enxofre atingisse o invasor.
— Diga ao seu Círculo — sussurrou Tyler — que a luz que vocês tanto protegem não é nada perto da escuridão que nós cultivamos.
Ele lançou o homem através da janela de vidro colorido, estilhaçando a representação de um santo em mil pedaços sangrentos.
O líder dos puristas, o único que restava de pé, deixou cair sua arma. Ele olhou para Wandinha, depois para a besta que o cercava, e percebeu que não estava enfrentando apenas um monstro e uma garota. Ele estava enfrentando uma nova ordem mundial.
— Vocês... vocês são loucos — gaguejou ele. — O mundo vai caçá-los até os confins da terra.
— Deixe que tentem — disse Wandinha, descendo os degraus lentamente, a saia de seu vestido preto roçando o tapete manchado de sangue. — Eu sempre achei que os confins da terra seriam um excelente lugar para um piquenique fúnebre.
Ela parou diante do líder e retirou a máscara de prata dele com a ponta da adaga. Por baixo, havia o rosto de um homem comum, pálido de terror.
— Vá — ordenou ela. — Conte a eles o que viu. Diga que Wandinha Addams não tem apenas um monstro. Ela tem um igual. E diga que, se voltarem, eu não serei tão pedagógica.
O homem não esperou uma segunda ordem. Ele tropeçou nos próprios pés e correu para a noite, desaparecendo na névoa de New Jersey.
O silêncio retornou à mansão, mas era um silêncio diferente. Estava carregado com o cheiro de vitória e a eletricidade da transformação. Tyler começou a encolher, o processo de retorno à forma humana sendo muito mais rápido e menos doloroso do que o habitual, graças à estabilidade do sangue de Wandinha.
Em poucos minutos, ele estava de pé, vestindo apenas os restos da túnica de seda, ofegante, mas com um sorriso triunfante no rosto. Ele olhou para as mãos, que voltavam a ser humanas, embora as cicatrizes do Hyde permanecessem como tatuagens de guerra.
— Como eu me saí? — perguntou ele, a voz voltando ao tom aveludado e sedutor.
Wandinha caminhou até ele e, pela primeira vez, não houve hesitação. Ela colocou a mão no centro do peito dele, sentindo o coração desacelerar para um ritmo que agora ecoava o dela.
— Você foi... adequado — admitiu ela, o que, no vocabulário de Wandinha, era o equivalente a um elogio poético. — Mas precisamos trabalhar na sua finalização. Você deixou marcas de sangue no tapete que o Mãozinha vai levar horas para limpar.
Tyler riu, puxando-a para mais perto. O perigo ainda emanava dele, uma aura de predação que nunca o deixaria totalmente, e Wandinha descobriu que aquela era a única companhia que ela realmente suportava.
— Você nunca está satisfeita, não é? — ele murmurou, inclinando-se para que seus lábios quase tocassem o ouvido dela. — Acabamos de derrotar um esquadrão de elite de caçadores de monstros e você está preocupada com o tapete.
— Detalhes são a diferença entre um amador e um artista — respondeu ela, olhando nos olhos dele. O anel dourado ainda estava lá, um lembrete permanente do pacto que haviam selado. — E nós, Tyler, estamos prestes a pintar uma obra-prima de terror.
Ela se afastou e olhou para a porta destruída, para a noite que se estendia além da propriedade Addams.
— Eles virão em maior número agora — observou ela. — O Círculo de Sangue não aceita derrotas.
— Deixe que venham — disse Tyler, colocando-se ao lado dela, uma silhueta de poder e lealdade. — Eu estou ansioso para ver que cores eles vão adicionar à nossa tela.
Wandinha pegou a mão dele. Não era um gesto de carinho convencional, mas a união de duas forças da natureza que haviam decidido que o mundo era pequeno demais para ambos.
— Mãozinha — chamou ela. A mão surgiu das sombras, pronta para agir. — Traga o kit de reparos para a porta. E prepare o laboratório. Amanhã, começaremos a fase dois. Se o Círculo quer uma guerra santa, eu vou dar a eles um apocalipse personalizado.
Enquanto a madrugada avançava, os dois permaneceram ali, observando o horizonte. A mansão Addams, com suas torres e seus segredos, parecia pulsar com uma nova vida. O monstro e a mestre haviam passado pelo teste. O vínculo de sangue não era mais apenas uma teoria alquímica; era uma realidade que tremia nas veias de ambos.
Naquela noite, Wandinha Addams não escreveu em seu diário. Ela não precisava. A história estava sendo escrita no chão do salão, no vidro quebrado e na respiração sincronizada de dois seres que haviam encontrado, no escuro, a luz mais negra de todas.
O jogo não era mais sobre sobrevivência. Era sobre domínio. E como Wandinha bem sabia, o trono do abismo nunca ficava vazio por muito tempo.