Continuação amor sombrio
O Batismo das Cinzas e o Eco do Labirinto
A manhã em New Jersey não trouxe o sol, mas uma névoa espessa e sulfurosa que parecia ter sido conjurada pelas próprias chaminés da mansão Addams. O cheiro de ozônio da batalha da noite anterior ainda impregnava as cortinas de veludo, um lembrete persistente de que o Círculo de Sangue havia falhado em sua primeira incursão. Wandinha estava no jardim de inverno, um lugar onde as plantas não floresciam, mas definhavam com uma elegância mórbida. Ela segurava um regador de prata contendo uma mistura de água de pântano e arsênico, alimentando cuidadosamente uma Clepsidra Venenosa.
Tyler apareceu no arco da porta, vestindo agora roupas pretas mais práticas que Wandinha havia selecionado do guarda-roupa de um tio desaparecido. A palidez de seu rosto era acentuada pelo contraste do tecido, e seus olhos, embora azuis à primeira vista, mantinham aquele brilho residual de âmbar que denunciava a presença constante do Hyde, agora domesticado pela vontade dela.
— Você não dorme nunca? — perguntou Tyler, sua voz carregando uma suavidade perigosa.
— O sono é para aqueles que não têm planos de dominação — respondeu ela, sem se virar. — Além disso, as alucinações causadas pela privação de sono são muito mais criativas do que qualquer sonho que meu subconsciente possa produzir.
Tyler aproximou-se, parando a uma distância que respeitava o espaço pessoal de Wandinha, mas permitia que ele sentisse o frio que emanava dela.
— O Mãozinha me disse que você passou a madrugada analisando os restos das máscaras dos puristas. Encontrou algo que não seja apenas fanatismo religioso e metal de baixa qualidade?
Wandinha finalmente deixou o regador de lado e virou-se para ele. Em sua mão pálida, ela segurava um pequeno chip eletrônico, quase invisível, que brilhava com uma luz carmesim intermitente.
— Eles não são apenas puristas medievais, Tyler. Eles são tecnocratas do oculto. Este chip estava embutido no modulador de voz do líder. Ele não serve apenas para distorcer o som; é um rastreador biométrico de frequência ultra-baixa. Eles não estavam apenas tentando nos matar. Eles estavam colhendo dados.
Tyler sentiu um rosnado baixo vibrar em seu peito, uma reação instintiva do Hyde ao se sentir monitorado.
— Dados? Para quê?
— Para calibração — Wandinha caminhou em direção a uma mesa de ferro batido onde o Mãozinha estava ocupado desmontando um dos bastões elétricos. — Eles sabem que você é diferente agora. Eles viram que o Hyde não é mais uma besta errática. Eles estão adaptando suas armas para a nossa frequência específica. O próximo ataque não será um confronto direto; será uma cirurgia.
— Então precisamos atacar primeiro — disse Tyler, seus dedos se curvando levemente, as unhas ameaçando se alongar. — Eu posso farejá-los. O cheiro daquele homem que você deixou fugir... ele ainda está impregnado no ar. É um rastro de medo e incenso barato. Eu posso encontrá-lo antes que ele chegue ao ninho deles.
Wandinha inclinou a cabeça, observando-o com uma curiosidade clínica.
— Sua impulsividade é quase tocante, Tyler. Mas caçar um rato em um labirinto só serve para sujar as garras. Eu prefiro incendiar o labirinto e observar quem corre para a saída.
Ela pegou um mapa antigo de New Jersey e o estendeu sobre a mesa. Havia várias marcações em tinta preta, formando um padrão geométrico que lembrava uma teia de aranha.
— O Círculo de Sangue opera através de "Células de Purificação". Eles usam propriedades abandonadas que possuem conexões com linhas de energia telúrica. De acordo com os meus cálculos e os dados que o Mãozinha extraiu do chip, a base de operações deles nesta região fica sob um antigo sanatório em Pine Barrens. Um lugar com uma história deliciosa de tratamentos desumanos e suicídios em massa.
— Pine Barrens — repetiu Tyler, um sorriso predatório surgindo em seus lábios. — Um lugar perfeito para um monstro se esconder.
— Ou para uma armadilha ser armada — advertiu Wandinha. — Eles esperam que você vá até lá movido pela fúria. Eles esperam que eu vá movida pela arrogância. O que eles não esperam é que nós vamos como uma unidade tática.
Ela abriu uma gaveta e retirou dois frascos. Um continha um líquido vermelho escuro, quase preto; o outro, um pó cinza que parecia brilhar com luz própria.
— Este é o Batismo das Cinzas — explicou ela. — Cinzas de ancestrais Addams misturadas com essência de mandrágora colhida sob uma lua de sangue. Nós vamos ingerir isso. Ele vai criar um véu em nossa assinatura biológica. Para os sensores deles, seremos apenas sombras. Fantasmas em sua própria máquina.
Tyler pegou o frasco de líquido, olhando para Wandinha com uma intensidade que misturava devoção e desejo.
— Você realmente pensou em tudo, não é?
— Eu detesto surpresas, a menos que envolvam um testamento favorável ou uma execução pública — respondeu ela. — Beba. O gosto é de arrependimento e terra úmida, mas os efeitos são revigorantes.
Eles beberam simultaneamente. Tyler sentiu um frio súbito percorrer suas veias, seguido por uma sensação de leveza que parecia desconectar sua alma de seu peso físico. Wandinha, por outro lado, apenas empalideceu ainda mais, se é que isso era possível, seus olhos tornando-se dois abismos negros sem fundo.
— Como você se sente? — perguntou ela.
— Como se eu fosse feito de fumaça e dentes — respondeu Tyler, sua voz agora soando como se viesse de vários lugares ao mesmo tempo.
— Perfeito. Mãozinha, prepare o Mustang. Vamos fazer uma visita de cortesia ao sanatório.
A viagem até Pine Barrens foi silenciosa. O Mustang avançava pela estrada cercada por pinheiros retorcidos que pareciam garras tentando alcançar o céu. Tyler observava Wandinha pelo canto do olho. Ela dirigia com uma calma absoluta, mas ele podia sentir a eletricidade estática que emanava dela — uma fome de caos que rivalizava com a do próprio Hyde.
— Wandinha — disse ele, quebrando o silêncio —, você disse que eu era sua arma. Mas o que acontece quando a guerra acabar? Quando o Círculo for apenas cinzas?
Wandinha não desviou os olhos da estrada.
— A guerra nunca acaba, Tyler. Ela apenas muda de forma. Paz é apenas o intervalo entre dois atos de violência. E quanto ao seu papel... você não é apenas uma arma. Você é o meu testamento vivo. O mundo precisa de monstros para saber onde termina a luz. E eu preciso de você para garantir que eu nunca seja forçada a viver nela.
Tyler sorriu, uma expressão que era puramente humana em sua doçura, mas carregada com a promessa de horror.
— Você é a criatura mais egoísta e magnífica que eu já conheci.
— Eu aceito o elogio — disse ela, estacionando o carro em uma clareira a poucos metros das ruínas do sanatório.
O edifício era uma carcaça de concreto e tijolos, as janelas quebradas parecendo órbitas vazias em um crânio gigante. No entanto, abaixo da superfície, Tyler podia ouvir o zumbido mecânico de geradores e o pulsar de corações humanos.
— Eles estão lá embaixo — sussurrou ele, seus sentidos aguçados captando o cheiro de metal e antisséptico. — Pelo menos doze deles. Armados.
— Ótimo — disse Wandinha, saindo do carro e pegando uma maleta de couro preto no porta-malas. — Eu trouxe alguns brinquedos novos para o Mãozinha testar. Granadas de vácuo sônico e um composto químico que dissolve prata.
Eles entraram nas ruínas, movendo-se como sombras entre as sombras. Graças ao Batismo das Cinzas, os sensores laser que varriam os corredores não disparavam. Eles eram invisíveis para a tecnologia, mas muito reais para qualquer um que cruzasse seu caminho.
Ao chegarem ao elevador de serviço, Wandinha fez um sinal para o Mãozinha. A mão saltou para o painel de controle e, em segundos, as luzes de segurança piscaram e a porta se abriu. Eles desceram para o subsolo, onde o ar era frio e estéril.
Quando as portas se abriram, eles foram recebidos por um corredor iluminado por luzes fluorescentes brancas. Dois guardas puristas, sem as máscaras mas com uniformes táticos, estavam de vigia. Antes que pudessem levantar suas armas, Tyler avançou.
Ele não se transformou completamente. Em vez disso, permitiu que apenas as garras e a força do Hyde emergissem. Foi um movimento fluido, quase artístico. Em um segundo, ele estava no meio do corredor; no próximo, os dois guardas estavam no chão, inconscientes e com as armas destruídas.
— Limpo — disse Tyler, limpando uma gota de sangue do rosto com o polegar.
— Eficiente — comentou Wandinha, passando por ele sem parar. — Mas tente não ser tão exibido. Temos um laboratório central para encontrar.
Eles seguiram pelo complexo, uma sequência de salas de vidro cheias de computadores e tanques de contenção. Em um dos tanques, Wandinha parou, seus olhos se arregalando levemente. Dentro do líquido esverdeado, flutuava o que parecia ser um braço de Hyde, mas com modificações mecânicas integradas aos ossos.
— Eles estão tentando criar seus próprios híbridos — murmurou ela, o nojo evidente em sua voz. — Eles não querem erradicar o sobrenatural. Eles querem industrializá-lo. Eles querem monstros que obedeçam a botões, não a vontades.
— Isso é... doentio — disse Tyler, sentindo uma náusea visceral.
— Isso é um insulto à estética do horror — corrigiu Wandinha. — Tyler, destrua os tanques. Mãozinha, faça o upload de todos os arquivos para o meu servidor privado e depois plante o vírus "Necrose Digital". Eu quero que este lugar seja apagado da existência, tanto física quanto virtualmente.
Enquanto Tyler começava a quebrar os tanques com uma fúria controlada, Wandinha caminhou até o console central. Ela digitou uma sequência de comandos com uma velocidade impressionante. De repente, uma voz ecoou pelos alto-falantes do laboratório — a mesma voz modulada do líder da noite anterior.
— Wandinha Addams. Você é tão previsível. Sabíamos que viria para as ruínas. O Batismo das Cinzas foi uma jogada inteligente, mas nós não confiamos apenas em sensores biométricos. Nós confiamos na psicologia.
As portas do laboratório se fecharam com um estrondo metálico. Um gás avermelhado começou a ser liberado pelo teto.
— Gás de nervos misturado com partículas de prata ionizada — observou Wandinha, cobrindo o nariz com um lenço de seda preta. — Um clássico. Um pouco datado, mas eficaz.
Tyler começou a tossir, o Hyde dentro dele rugindo de dor quando a prata ionizada entrou em seus pulmões. Ele caiu de joelhos, sua pele começando a queimar.
— Wandinha... fuja... — ele conseguiu articular.
— Eu não fujo, Tyler. Eu apenas mudo a perspectiva do campo de batalha — disse ela, mantendo a calma.
Ela abriu sua maleta e retirou um pequeno frasco contendo um líquido que parecia mercúrio vivo. Ela o lançou contra o console central. Ao quebrar, o líquido não se espalhou; ele começou a "comer" o metal e os circuitos, expandindo-se como um fungo metálico.
— O que é isso? — perguntou a voz nos alto-falantes, agora carregada de pânico.
— É uma criação do meu tio Chico — respondeu Wandinha, caminhando até Tyler e ajudando-o a se levantar. — Ele o chama de "A Fome de Fausto". É um organismo nanotecnológico que se alimenta de eletricidade e silício. Em cinco minutos, este laboratório não terá energia nem para manter as portas fechadas.
Ela olhou para a câmera no teto.
— E em dez minutos, o sistema de ventilação vai reverter, trazendo todo o gás de volta para a sua sala de controle. Eu espero que você tenha bons pulmões.
Tyler, sentindo a força retornar à medida que o sistema de ventilação começava a falhar devido ao ataque do nanovírus, levantou-se. Ele agarrou Wandinha pela cintura e, com um salto impulsionado pela força do Hyde, atravessou uma das janelas de vidro reforçado que dava para um duto de manutenção.
Eles correram pelo duto enquanto as luzes do complexo piscavam e morriam atrás deles. O som de explosões eletrônicas e o grito dos puristas ecoavam pelo labirinto de concreto.
Ao saírem para o ar frio da noite de Pine Barrens, Tyler respirou fundo, sentindo o frescor da floresta limpar seus pulmões. Ele olhou para trás e viu a fumaça negra saindo das ruínas do sanatório.
— Acabou? — perguntou ele.
— Para esta célula, sim — disse Wandinha, limpando a poeira de seus ombros. — Mas o Círculo é vasto. No entanto, agora eles sabem que não estamos apenas nos defendendo. Estamos caçando.
Ela olhou para Tyler. Ele estava coberto de fuligem e sangue, mas seus olhos brilhavam com uma lealdade inabalável.
— Você está bem? — perguntou ela, sua voz mantendo a neutralidade, mas com uma nota quase imperceptível de preocupação.
— Nunca estive melhor — respondeu ele, aproximando-se dela. — Eu gosto dessa nossa nova rotina. Destruir impérios antes do desjejum tem o seu charme.
Wandinha permitiu-se um pequeno aceno de cabeça.
— Vamos para casa. O Mãozinha precisa de um polimento e eu preciso de uma xícara de chá de cicuta. E Tyler...
— Sim?
— Da próxima vez que você for atingido por prata ionizada, tente não ser tão dramático. Isso afeta o meu cronograma.
Tyler riu, um som que se misturou ao uivo de um lobo distante.
— Vou tentar, mestre. Vou tentar.
Eles voltaram para o Mustang e desapareceram na escuridão de New Jersey. Naquela noite, a mansão Addams não foi apenas um refúgio; foi o quartel-general de uma revolução sombria. Wandinha sentou-se em sua escrivaninha, abriu seu diário e escreveu:
"O Círculo de Sangue descobriu que a tecnologia é uma defesa frágil contra a vontade pura. Tyler provou que a simbiose é mais forte do que a programação. Eles tentaram nos transformar em dados, mas nós os transformamos em cinzas. O próximo capítulo será escrito com o medo deles. E eu mal posso esperar para ver a caligrafia."
Ela fechou o livro e olhou para Tyler, que estava sentado no peitoril da janela, observando a lua. O monstro e a mestre estavam em paz, mas o mundo... o mundo estava prestes a descobrir que a escuridão Addams era contagiosa. E que, uma vez infectado, não havia cura. Apenas a gloriosa e terrível aceitação do abismo.