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Continuação amor sombrio

O Jardim das Lamentações e o Eco do Abismo

A mansão Addams estava mergulhada em um silêncio que, para a maioria das pessoas, seria ensurdecedor, mas que para Wandinha era apenas a trilha sonora ideal para sua irritação crescente. O Círculo de Sangue fora reduzido a cinzas e arquivos criptografados, e o vácuo deixado pela adrenalina da caçada começava a ser preenchido pela presença sufocante de sua própria linhagem.

Wandinha estava sentada na estufa de plantas carnívoras, tentando catalogar a taxa de crescimento de uma beladona negra, mas o som constante da risada de Morticia e o estalo das chicotadas lúdicas de Gomez no andar de cima estavam drenando sua paciência. A união de seus pais, sempre tão nauseantemente afetuosa, parecia mais barulhenta agora que ela não tinha um culto para desmantelar ou um monstro para treinar.

Tyler entrou na estufa com passos cautelosos. Ele não era mais o Hyde imponente que havia estraçalhado guardas em Jericó; naquele momento, ele parecia apenas Tyler. Os ombros levemente caídos, os olhos azuis desprovidos do anel dourado, e uma expressão que carregava a fragilidade de quem ainda estava tentando entender onde terminava o homem e onde começava a besta.

— Wandinha? — chamou ele, a voz soando pequena sob as cúpulas de vidro. — Eu trouxe o chá de raiz de mandrágora que você pediu. Mãozinha disse que você estava... tensa.

Wandinha não se virou. Ela continuou a anotar em seu diário com uma força que quase rasgava o papel.

— Tensa é um termo eufemístico para descrever o desejo de cometer um genocídio familiar — respondeu ela, a voz seca como pergaminho antigo. — E eu não pedi chá. Eu pedi silêncio. Algo que parece ser um recurso escasso nesta casa de horrores sentimentais.

Tyler deu mais um passo, hesitando. Ele colocou a bandeja em uma mesa de pedra coberta de limo.

— Seus pais estão apenas felizes por você estar em casa, Wandinha. Eles sentiram sua falta.

Wandinha finalmente virou-se, seus olhos escuros brilhando com uma hostilidade que fez Tyler recuar instintivamente.

— A felicidade deles é uma patologia que eu não sou obrigada a diagnosticar. E a sua tentativa de atuar como mediador emocional é tão irritante quanto o som de um violino desafinado. Por que você ainda está aqui, Tyler? A simbiose está estável. O Hyde está dormindo. Você não tem mais utilidade tática no momento.

As palavras o atingiram como um golpe físico. Tyler sentiu um aperto no peito que nada tinha a ver com a transformação física. Era a dor nua de ser lembrado de sua posição.

— Utilidade tática? — ele repetiu, a voz falhando levemente. — É só isso que eu sou para você? Uma arma que você guarda no armário quando a guerra acaba?

— Armas não falam, Tyler. E elas certamente não buscam validação sentimental em uma estufa — rebateu ela, levantando-se e caminhando em direção a ele com uma postura predatória. — Você se tornou mole. Onde está a criatura que não temia o abismo? Tudo o que vejo agora é o garoto patético da cafeteria, esperando por uma migalha de atenção que eu não tenho o menor interesse em fornecer.

Tyler sentiu o rosto queimar. A falta de propósito, somada à convivência com a família Addams — que o tratava como uma curiosidade exótica ou um animal de estimação de Wandinha —, estava corroendo sua sanidade de uma forma que o Hyde nunca conseguiu.

— Eu deixei tudo para trás por você — disse ele, a voz subindo de tom, carregada de uma mágoa que ele não conseguia mais esconder. — Eu matei por você. Eu quase morri por você. Eu bebi o seu sangue e me tornei parte dessa... dessa loucura. Você disse que éramos cúmplices. Que éramos uma unidade.

Wandinha soltou um riso curto e sem humor, um som que gelou o sangue dele.

— Cúmplices em um crime, não em um romance de banca de jornal. Se você esperava que o pacto de sangue viesse acompanhado de troca de confidências e apoio emocional, você é mais tolo do que eu previ. Sua fragilidade é um insulto ao que eu construí em você.

— Eu não sou uma máquina, Wandinha! — Tyler gritou, e por um breve segundo, um lampejo de âmbar brilhou em seus olhos, mas desapareceu tão rápido quanto veio, deixando apenas a vulnerabilidade humana. — Eu sinto coisas. Eu sinto o vazio que você tanto preza, e ele dói. Dói porque eu sinto que estou desaparecendo. Quando você me olha, você só vê o Hyde. Mas o Hyde não é quem está apaixonado por você. Sou eu. E você me trata como lixo.

Wandinha deu um passo à frente, invadindo o espaço dele, mas não com afeto. Ela o encarou com uma frieza absoluta.

— A paixão é o câncer da vontade, Tyler. Ela torna você previsível, fraco e, o mais imperdoável de tudo, entediante. Se a sua "humanidade" exige que eu seja algo que não sou para que você se sinta inteiro, então você é um experimento fracassado. Eu prefiro um monstro quebrado a um homem carente.

Ela pegou o frasco de chá e, com um movimento deliberado, despejou o conteúdo na terra de um vaso próximo.

— Agora, saia daqui. Vá para o seu quarto na ala leste e fique lá até que eu tenha uma missão que exija a sua brutalidade. Não quero ver esse seu olhar de cachorro abandonado enquanto tento lidar com o fato de que meu pai quer organizar um banquete em honra ao nosso "sucesso".

Tyler ficou parado por um longo tempo, observando o líquido escuro ser absorvido pela terra. Ele queria gritar, queria deixar o Hyde destruir tudo naquela estufa, mas a parte humana dele — a parte que Wandinha tanto desprezava — estava ocupada demais tentando não chorar.

— Você é a pessoa mais cruel que eu já conheci — sussurrou ele, sem olhar para ela. — E o pior é que eu ainda prefiro a sua crueldade ao silêncio de qualquer outra pessoa.

— Então você é um masoquista — respondeu ela, voltando-se para suas anotações. — O que é a única coisa remotamente interessante sobre você hoje. Vá embora, Tyler. Você está poluindo o meu ar com o seu sentimentalismo.

Sem dizer mais nada, Tyler virou-se e saiu da estufa. Ele caminhou pelos corredores escuros da mansão, sentindo-se um intruso em um mundo de sombras que não lhe pertencia. Ele passara de mestre de seu próprio destino a escravo de uma garota que não possuía um coração para ser conquistado.

Ao chegar ao seu quarto, ele trancou a porta e encostou a cabeça na madeira fria. O Hyde estava silencioso, como se também estivesse envergonhado da fraqueza de seu hospedeiro. Tyler sentou-se na cama, olhando para as próprias mãos — mãos que haviam arrancado vidas, mas que agora tremiam.

Enquanto isso, na estufa, Wandinha parou de escrever. Sua mão, geralmente firme como a de um cirurgião, hesitou por um segundo sobre a página. Ela sentia um incômodo no peito, uma irritação que não vinha de seus pais, mas da imagem de Tyler saindo da sala.

— Ineficiente — murmurou ela para si mesma, embora a palavra soasse vazia.

Mãozinha surgiu de trás de um vaso de samambaia-venenosa e gesticulou freneticamente.

— Eu não fui dura demais com ele, Mãozinha — respondeu ela, a voz ligeiramente mais defensiva do que o normal. — Ele precisa entender que o abismo não aceita autocompaixão. Se ele quer estar ao meu lado, ele precisa ser de aço, não de vidro.

Mãozinha fez um gesto lento, como se estivesse limpando uma lágrima imaginária, e depois apontou para a porta por onde Tyler saíra.

— Não seja ridículo. Eu não o estou perdendo — disse Wandinha, fechando o diário com um estalo seco. — Ele não tem para onde ir. Ele é meu. O sangue dele pertence a mim.

Mas, pela primeira vez, a certeza de posse não trouxe a satisfação habitual. Wandinha olhou para a bandeja de chá abandonada e sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a nomear. Era o estresse, ela decidiu. O estresse de estar cercada pela normalidade anormal de sua família.

No andar de cima, o som de um duelo de esgrima começou, seguido pela risada exuberante de Gomez. Wandinha apertou os punhos. Ela precisava de um novo inimigo, de uma nova conspiração, de qualquer coisa que a tirasse daquela inércia doméstica onde as emoções de Tyler começavam a vazar para dentro de sua fortaleza de gelo.

Tyler, em seu quarto, deitou-se e olhou para o teto. Ele se sentia mais sozinho ali, na mansão mais assombrada do país, do que jamais se sentira na cela da polícia de Jericó. Lá, pelo menos, ele tinha o ódio para mantê-lo aquecido. Aqui, ele tinha apenas o eco de uma voz que o chamava de obra-prima em um dia e de lixo no outro.

— Eu não sou apenas uma ferramenta — sussurrou ele para a escuridão, mas não havia ninguém para ouvir.

A noite caiu sobre a mansão Addams, trazendo consigo os uivos habituais e o ranger das estruturas antigas. Mas para os dois jovens que habitavam suas alas opostas, a escuridão não trazia descanso. Wandinha lutava contra a irritação de uma família que a amava demais, enquanto Tyler lutava contra o vazio de uma mestre que parecia não amá-lo o suficiente.

O pacto de sangue estava selado, mas as rachaduras na alma de Tyler estavam começando a mostrar que, às vezes, o monstro mais perigoso não é aquele que ruge no escuro, mas aquele que chora em silêncio quando a luz se apaga. E Wandinha, em sua busca pela perfeição do pavor, talvez estivesse prestes a descobrir que uma arma quebrada pode ferir a mão de quem a segura com mais crueldade do que qualquer inimigo.

Naquela noite, as luzes da mansão permaneceram acesas por muito tempo. Wandinha escreveu dez páginas sobre a anatomia do arrependimento, apenas para queimá-las logo em seguida. Tyler permaneceu imóvel, esperando que o Hyde acordasse e levasse embora a dor de ser apenas humano. Mas o Hyde permaneceu em silêncio, deixando Tyler sozinho com o peso de sua própria carne e a frieza de sua dona.

O jogo mudara novamente, e desta vez, as regras não estavam escritas em sangue, mas no espaço gélido entre dois corações que se recusavam a bater no mesmo ritmo. E em algum lugar nas sombras, o destino dos Addams observava, esperando para ver se o monstro e a mestre sobreviveriam à prova mais difícil de todas: a convivência com o próprio vazio.