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Continuação amor sombrio

O Batismo de Sangue e a Gehenna Subterrânea

A cripta de Joseph Crackstone exalava um frio que não provinha apenas da pedra úmida ou da ausência de sol; era o frio da história mal resolvida. Wandinha Addams descia os degraus de pedra com a leveza de um espectro, cada passo ecoando como uma sentença de morte. Atrás dela, o Hyde que outrora fora Tyler Galpin não era mais uma criatura de espasmos e rugidos descontrolados. Ele era uma sombra maciça, movendo-se com a fluidez de um predador que havia aprendido a amar suas correntes.

O ar mudou drasticamente quando cruzaram o limiar do primeiro subsolo. O cheiro de decomposição antiga foi substituído pelo odor estéril de laboratório: ozônio, formaldeído e o zumbido incessante de servidores de alta potência.

— Eles transformaram o solo sagrado de um genocida em um berçário para abominações — observou Wandinha, seus dedos traçando as runas gravadas nas paredes de concreto moderno que agora sustentavam a fundação da cripta. — Crackstone ficaria horrorizado. O que, naturalmente, me traz uma satisfação imensa.

— Wandinha — a voz de Tyler era um trovão contido, vibrando no peito largo —, eles estão logo atrás daquela porta blindada. Consigo ouvir três... não, quatro corações. Um deles bate com uma cadência irregular. O soro de estabilização deles é falho.

— É a arrogância do Círculo de Sangue — respondeu ela, retirando de sua bolsa um pequeno frasco com um líquido negro e efervescente. — Eles tentam replicar o que a natureza levou milênios para aperfeiçoar e o que o sangue Addams levou séculos para dominar. Eles buscam soldados; eu criei uma divindade do caos.

Com um movimento rápido, Wandinha derramou o líquido na fechadura eletrônica. O ácido alquímico devorou os circuitos em segundos, e a porta de aço deslizou com um gemido metálico.

O laboratório central era um anfiteatro de horrores tecnológicos. Tanques de vidro reforçado alinhavam-se nas paredes, contendo formas humanoides em vários estágios de mutação. No centro, cercado por monitores, estava um homem de meia-idade com um jaleco cinza impecável, cujos olhos brilhavam com o fanatismo que só a ciência sem ética pode produzir.

— Wandinha Addams... e o espécime 01 — disse o homem, sua voz amplificada pelos alto-falantes. — Vocês são um desvio estatístico que viemos corrigir.

— Errado — disse Wandinha, caminhando para o centro da sala, ignorando os guardas que emergiam das sombras com armas de choque. — Nós somos o erro que vai deletar o seu sistema. Tyler, o banquete está servido. Mas lembre-se: o homem de jaleco é meu. Preciso que ele assista ao desmonte de sua obra antes de parar de respirar.

Tyler não precisou de um segundo comando. O Hyde emergiu não como uma explosão, mas como uma maré montante de músculos e garras. Ele atravessou o laboratório como um raio âmbar. O primeiro guarda foi lançado contra um tanque de contenção, o vidro estilhaçando-se e liberando um fluido amniótico esverdeado. O segundo tentou disparar uma rede de contenção eletrificada, mas Tyler a agarrou no ar, rugindo enquanto a eletricidade percorria seu corpo, apenas para devolver o choque ao atirador com um golpe que quebrou o esterno do homem.

Wandinha, enquanto isso, avançava em direção ao cientista chefe. Um guarda se interpôs em seu caminho, brandindo um bastão de combate. Ela nem sequer desacelerou. Com um movimento fluido, ela se esquivou do golpe, usou o impulso do agressor para girar e cravou sua adaga de obsidiana na base do crânio dele. O corpo caiu como um saco de ossos antes mesmo de ela retirar a lâmina.

— Você fala de equilíbrio e purificação — disse Wandinha, parando diante do console principal onde o cientista tentava freneticamente ativar um protocolo de autodestruição —, mas o que vejo aqui é apenas inveja. Vocês não suportam que a escuridão tenha escolhido a mim, e não aos seus tubos de ensaio.

— Você é uma psicopata! — gritou o cientista, recuando enquanto Wandinha subia os degraus do palanque. — O que você fez com esse rapaz... você o escravizou através de uma simbiose de sangue! Nós íamos libertá-lo!

— Libertá-lo para ser um cão de guarda acorrentado aos seus ideais medíocres? — Wandinha inclinou a cabeça, um olhar de genuína curiosidade cruzando seu rosto pálido. — Tyler nunca esteve tão livre. Pela primeira vez, ele não teme o que vê no espelho, porque ele sabe que o que está lá é o que eu desejo. E não há liberdade maior do que ser o objeto de um desejo Addams.

Um rugido ensurdecedor ecoou atrás dela. Tyler havia terminado com os guardas. Ele estava parado no centro do laboratório, coberto de fluidos químicos e sangue, as garras gotejando. Os outros "espécimes" nos tanques começaram a se agitar, reagindo à presença do alfa.

— Mate-os, Tyler — ordenou Wandinha, sem desviar os olhos do cientista. — Eles são cópias pálidas. Um insulto à sua linhagem.

— Com prazer — rosnou o Hyde.

O que se seguiu foi uma sinfonia de destruição sistemática. Tyler passava pelos tanques como um ceifador em um campo de trigo. O som de vidro quebrando e o silêncio final das criaturas inacabadas preenchiam a sala. O cientista caiu de joelhos, cobrindo os ouvidos.

— Pare! Anos de pesquisa... milhões em investimento!

— O valor de uma vida é medido pela sua capacidade de causar um impacto estético no mundo — disse Wandinha, encostando a ponta fria da adaga no queixo do homem. — O seu impacto foi apenas um ruído irritante.

Ela olhou para o console e viu um arquivo rotulado como "Projeto Gênesis: Células de Jericó". Seus olhos percorreram as linhas de código e dados biométricos.

— Interessante — murmurou ela. — Vocês não estavam apenas tentando criar Hydes. Estavam tentando sintetizar o sangue Addams a partir das amostras que coletaram na floresta. Vocês queriam a minha vontade, não apenas a força dele.

— O seu sangue é a chave para o controle total — soluçou o cientista. — Com ele, poderíamos comandar qualquer excluído. Poderíamos acabar com as guerras!

— Guerras são divertidas — rebateu Wandinha. — O que eu não tolero é o plágio.

Ela se virou para Tyler, que agora voltava à sua forma humana, embora ainda envolto em uma aura de perigo latente. Ele caminhou até ela, o peito subindo e descendo, os olhos fixos em Wandinha com uma intensidade que faria qualquer outra pessoa recuar.

— Ele é todo seu, Tyler — disse ela, afastando-se do cientista. — Mas deixe a garganta intacta por um momento. Quero que ele veja o vírus que o Mãozinha está inserindo na rede global do Círculo de Sangue enquanto falamos.

Mãozinha, que estivera invisível até então, saltou de cima de um servidor, gesticulando um sinal de positivo.

— Em poucos minutos — explicou Wandinha ao homem aterrorizado —, todos os recursos financeiros, todos os esconderijos e todas as identidades dos membros do Círculo de Sangue serão expostos à Interpol, à máfia russa e, mais importante, à minha mãe. Ela tem um jeito muito particular de lidar com pessoas que tentam roubar segredos de família. Garanto que a morte será a parte menos dolorosa do seu futuro.

Tyler agarrou o cientista pelo colarinho, levantando-o do chão com uma facilidade aterrorizante.

— Você disse que eu era um monstro — sussurrou Tyler, sua voz carregada com uma doçura cruel. — Mas o monstro aqui é a garota que me deu um propósito. E o meu propósito agora é garantir que você nunca mais sonhe com luz.

Com um movimento seco, Tyler lançou o homem contra o terminal principal, que explodiu em uma chuva de faíscas. A eletricidade percorreu o corpo do cientista, deixando-o paralisado e fumegante, mas vivo o suficiente para ver o laboratório ser consumido pelas chamas químicas que Tyler havia espalhado.

Wandinha caminhou até Tyler. Ela limpou uma mancha de fluido verde da bochecha dele com o lenço.

— Terminou? — perguntou ela.

— Por hoje — respondeu Tyler, envolvendo a cintura dela com um braço firme. — Mas você sabe que eles vão mandar outros. O Círculo é uma hidra.

— E eu sou uma Addams — disse ela, olhando para o incêndio que começava a devorar a cripta subterrânea. — Eu adoro cortar cabeças. E com você ao meu lado, Tyler, sinto que estamos apenas começando a nossa lua de mel de destruição.

Eles saíram da cripta enquanto o solo de Jericó tremia com as explosões subterrâneas. O cemitério estava envolto em fumaça, e o cheiro de queimado subia aos céus como um sacrifício.

Ao chegarem ao Mustang, Wandinha parou e olhou para a cidade ao longe. As luzes de Jericó pareciam pequenas e insignificantes diante da vastidão da noite.

— Para onde agora, mestre? — perguntou Tyler, abrindo a porta para ela.

— Para casa — respondeu Wandinha, sentando-se ao volante. — O tio Chico mencionou um culto em Nova Orleans que afirma ter descoberto uma maneira de falar com os mortos sem usar um tabuleiro Ouija. Acho que eles precisam de uma lição sobre etiqueta necromântica.

Tyler sorriu, sentando-se ao lado dela. O Hyde ronronou em seu peito, uma vibração de puro contentamento.

— Nova Orleans parece perfeito. Ouvi dizer que o cemitério de lá é uma obra de arte.

— É aceitável — admitiu Wandinha, engatando a marcha. — Mas tenho certeza de que podemos fazer algumas melhorias na decoração.

O Mustang acelerou pela estrada, deixando Jericó para trás, uma cicatriz na terra que nunca cicatrizaria. Dentro do carro, o silêncio era preenchido pela cumplicidade de dois seres que haviam encontrado no abismo o seu lar.

Wandinha olhou pelo retrovisor e viu a primeira luz da madrugada tentando romper o horizonte. Ela apertou o volante, sentindo a pulsação do sangue Addams e a presença constante de Tyler.

— Tyler?

— Sim, Wandinha?

— Se você algum dia tentar se tornar um herói... eu mesma o matarei.

Tyler riu, um som rico e sombrio que ecoou pelo interior do carro.

— Não se preocupe, Wandinha. Eu prefiro o inferno com você do que qualquer paraíso sem a sua sombra.

Ela não respondeu, mas permitiu que o canto de seus lábios se curvasse em um microssegundo de aprovação. O mundo estava em perigo, e era exatamente assim que Wandinha Addams gostava das coisas. A viagem estava apenas começando, e a trilha sonora seria escrita em gritos, sangue e a mais absoluta e deliciosa escuridão.