Voltar ao resumo

Coraçoes Feridos

O Eco do Silêncio e a Primeira Geada

A primeira manhã de casados não trouxe a luz dourada que os romances costumam descrever. Para Park Jimin, o amanhecer na cobertura de luxo de Jungkook parecia cinzento, filtrado pelas cortinas automáticas que se abriram com um zumbido eletrônico impessoal. Ele havia passado a noite no sofá da sala, encolhido sob uma manta de seda que não conseguia aquecer o frio que emanava de dentro de seus ossos.

Jimin levantou-se, sentindo o corpo rígido. Seus olhos estavam inchados, um lembrete físico da revelação brutal da noite anterior. Ele caminhou até a cozinha em conceito aberto, um monumento de mármore escuro e aço inoxidável onde nada parecia ter sido usado.

O som de passos firmes ecoou pelo corredor. Jungkook apareceu, já vestido com um terno cinza-chumbo perfeitamente cortado. Ele parecia impecável, como se não tivesse passado a noite em claro remoendo o ódio que nutria pela família Park. Ele parou ao ver Jimin, seus olhos percorrendo a figura frágil do marido.

— Você deveria ter dormido na cama — disse Jungkook, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eu não sou um bárbaro. O quarto de hóspedes estava disponível se o meu te causava repulsa.

Jimin sustentou o olhar dele, embora seu coração martelasse contra as costelas.

— A cama ou o sofá não fazem diferença, Jungkook — respondeu Jimin com uma calma que surpreendeu a ambos. — Onde quer que eu durma nesta casa, continuarei sendo seu prisioneiro, não é?

Jungkook estreitou os olhos. Ele caminhou até a cafeteira de última geração, ignorando a pergunta. O aroma do café forte logo preencheu o ar, mas não trouxe conforto.

— Temos um café da manhã com a imprensa em duas horas — declarou Jungkook, consultando o relógio de pulso. — O hotel Intercontinental. Seu pai estará lá. Sorria, seja o filho devoto e o marido apaixonado. Se alguém suspeitar que este casamento é algo além de um conto de fadas, as ações da Park Enterprises vão despencar antes do meio-dia.

— Você quer que eu ajude a destruir meu pai? — Jimin soltou uma risada amarga. — Você me contou que ele me usou como moeda de troca e agora quer que eu seja o acessório da sua vingança pública?

Jungkook virou-se, o copo de café fumegante na mão. Ele deu um passo em direção a Jimin, invadindo seu espaço pessoal.

— Eu não quero, Jimin. Eu estou ordenando. — O tom era baixo, perigoso. — Lembre-se do que eu disse. Eu tenho documentos que podem colocar seu pai atrás das grades por décadas. Se você cooperar, a queda dele será financeira e gradual. Se você resistir, eu o destruo hoje mesmo, e ele passará o resto dos seus dias em uma cela fria. Escolha.

Jimin sentiu as lágrimas ameaçarem cair novamente, mas ele as engoliu. Ele não daria a Jungkook a satisfação de vê-lo desmoronar outra vez.

— Eu vou me trocar — disse Jimin, passando por ele sem tocá-lo.

***

O salão do hotel estava repleto de jornalistas e fotógrafos. O flash das câmeras era constante, criando uma atmosfera frenética. Park Jihyun, o pai de Jimin, estava no centro do salão, exibindo um sorriso vitorioso que agora, aos olhos de Jimin, parecia uma máscara grotesca.

— Meu querido filho! — Jihyun exclamou, abrindo os braços assim que viu o casal se aproximar.

Jimin sentiu a mão de Jungkook pousar firmemente em sua lombar. O toque era possessivo, um lembrete silencioso das correntes invisíveis.

— Pai — murmurou Jimin, permitindo ser abraçado. O cheiro do perfume caro do pai, que antes lhe trazia segurança, agora o sufocava.

— Jungkook, meu rapaz! — Jihyun deu um tapinha no ombro do genro. — O mercado está eufórico. A fusão das nossas influências é o assunto de Seul.

— Estou ciente, senhor Park — disse Jungkook, e Jimin notou a tensão na mandíbula dele. — Fizemos um excelente negócio.

A palavra "negócio" vibrou no ar. Jihyun pareceu vacilar por um segundo, seus olhos buscando os de Jungkook, mas logo recuperou a compostura.

Durante o café, Jimin sentou-se entre os dois homens. Ele observava a interação. Jungkook era um mestre da dissimulação; ele falava sobre expansão de mercado e sinergia corporativa com uma polidez gélida que os repórteres interpretavam como profissionalismo brilhante. Mas Jimin via os dedos de Jungkook apertarem o cabo do talher toda vez que Jihyun mencionava o "legado da família".

— Jimin parece um pouco pálido — comentou uma jornalista de uma revista de moda renomada. — A noite de núpcias foi cansativa?

Jungkook deu um sorriso de lado, um gesto que fez o coração de Jimin falhar uma batida por pura confusão sensorial. Ele parecia tão... humano naquele momento.

— Foi uma noite de muitas descobertas — respondeu Jungkook, olhando diretamente para Jimin. — Não é, querido?

Jimin sentiu o rosto arder. A audácia de Jungkook em usar a intimidade que eles não tiveram como uma arma pública era ultrajante.

— Sim — respondeu Jimin, forçando a voz a não tremer. — Jungkook tem uma maneira muito específica de mostrar suas intenções. Eu ainda estou me acostumando com a intensidade dele.

Jungkook arqueou uma sobrancelha. Ele não esperava que Jimin devolvesse o golpe com tanta sutileza. Por um breve instante, um brilho de algo parecido com respeito cruzou os olhos escuros do mais velho, mas desapareceu tão rápido quanto surgiu.

Quando o evento terminou e eles se despediram de Jihyun, o patriarca dos Park puxou Jimin de lado por um momento.

— Você está fazendo um bom trabalho, Jimin — sussurrou o pai. — Continue assim. Mantenha-o satisfeito. Isso é vital para a nossa sobrevivência.

Jimin sentiu um nojo profundo.

— Sobrevivência de quem, pai? — perguntou Jimin em voz baixa. — Da empresa ou a sua?

Jihyun franziu o cenho, mas antes que pudesse responder, Jungkook se aproximou, reivindicando seu lugar ao lado de Jimin.

— Precisamos ir, senhor Park. Temos reuniões na Jeon Corp.

No carro, a caminho da empresa, o silêncio era denso. Jimin olhava pela janela, observando o movimento da cidade, sentindo-se um fantasma em sua própria vida.

— Você foi bem — disse Jungkook subitamente, sem tirar os olhos do tablet.

— Isso foi um elogio ou uma avaliação de desempenho? — rebateu Jimin.

Jungkook desligou o aparelho e virou-se para ele.

— Considere como quiser. Você entendeu o jogo rapidamente. Achei que você seria mais... difícil.

— O que você esperava? Que eu chorasse e implorasse para ir para casa? — Jimin finalmente o encarou. — Você mesmo disse, Jungkook. Meu pai me vendeu. Eu não tenho uma casa para onde voltar. O homem que eu amava como pai é um criminoso, e o homem com quem me casei é um vingador obcecado. Eu só estou tentando descobrir onde eu caibo nesse desastre.

Jungkook sentiu uma fisgada incômoda. Ele estava acostumado a lidar com adversários que gritavam ou tentavam suborná-lo. A vulnerabilidade articulada de Jimin era muito mais difícil de combater.

— Você cabe onde eu decidir que cabe — disse Jungkook, mas a frase soou vazia até para seus próprios ouvidos.

***

As semanas seguintes transformaram-se em uma rotina de aparências e hostilidade silenciosa. Durante o dia, eles eram o casal real do mundo corporativo. À noite, eram estranhos habitando um mausoléu de vidro.

Jungkook trabalhava até tarde, muitas vezes chegando em casa e encontrando Jimin lendo na biblioteca ou pintando em um pequeno ateliê que ele montara em um dos quartos vagos. Jungkook evitava entrar lá. Havia algo naquelas telas — explosões de cores e formas abstratas — que parecia denunciar a alma de Jimin de uma forma que o deixava desconfortável.

Certa noite, Jungkook chegou mais cedo e encontrou Jimin adormecido sobre um livro de arte na sala. A luz do abajur iluminava a curva suave de seu pescoço e a expressão serena que ele só parecia ter quando estava inconsciente.

Sem pensar, Jungkook se aproximou. Ele observou os cílios longos de Jimin e a pele que parecia quase translúcida. Por um momento, o ódio que ele cultivara por dez anos pareceu uma carga pesada demais para carregar. Ele estendeu a mão, querendo afastar uma mecha de cabelo loiro que caía sobre os olhos de Jimin, mas parou a milímetros de distância.

*O que você está fazendo?*, ele se perguntou, fechando o punho. *Ele é um Park. O sangue dele é o sangue do homem que destruiu sua vida.*

Nesse momento, Jimin despertou. Ele piscou, confuso, e seus olhos encontraram os de Jungkook. Por um segundo, a barreira entre eles caiu. Não havia vingança, não havia contratos, apenas dois homens sozinhos no escuro.

— Você chegou cedo — sussurrou Jimin, a voz rouca de sono.

— O trânsito estava calmo — mentiu Jungkook, afastando-se apressadamente.

Jimin sentou-se, esfregando os olhos.

— Jungkook... até quando vamos continuar assim?

— Assim como?

— Vivendo como se estivéssemos em um campo de batalha. Você já conseguiu o que queria. Você controla a maioria das ações da empresa do meu pai. Você o tem nas mãos. Por que continua me tratando como se eu fosse o culpado pelas escolhas dele?

Jungkook riu, um som amargo que cortou o ar.

— Você acha que isso é sobre ações, Jimin? É sobre justiça. Seu pai não perdeu apenas dinheiro quando destruiu minha família. Ele tirou a dignidade do meu pai. Ele o levou ao suicídio.

Jimin congelou. O ar pareceu faltar em seus pulmões.

— Suicídio? — repetiu ele, a voz quase inaudível. — Ele me disse que seu pai tinha se aposentado no exterior por causa de problemas de saúde...

— Ele mentiu para você, assim como mentiu para o mundo — disse Jungkook, os olhos brilhando com uma dor antiga. — Eu vi meu pai ser enterrado em uma cova sem nome porque não tínhamos dinheiro nem para um funeral decente. Enquanto isso, você estava em escolas particulares na Suíça, vivendo do dinheiro que ele roubou de nós.

Jimin sentiu um peso insuportável no peito. As peças do quebra-cabeça de Jungkook finalmente se encaixaram, e a imagem era devastadora. Ele se levantou e caminhou até Jungkook. Desta vez, ele não recuou.

— Eu não sabia — disse Jimin, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu juro por tudo o que é sagrado, Jungkook... eu nunca soube. Se eu soubesse...

— O que você teria feito? — Jungkook o desafiou, a voz subindo de tom. — Teria renunciado à sua vida de luxo? Teria vindo me procurar para pedir desculpas? As palavras não mudam o passado, Jimin!

— Não, elas não mudam. Mas eu não sou meu pai! — Jimin gritou de volta, agarrando a frente da camisa de Jungkook. — Você está se tornando exatamente o que ele é! Um homem que usa as pessoas, que destrói vidas para conseguir o que quer. Olhe para mim, Jungkook! Olhe para o que você está fazendo com a gente!

Jungkook segurou os pulsos de Jimin, pretendendo afastá-lo, mas o contato físico foi como um rastilho de pólvora. A dor, a raiva e a atração reprimida que ele tentara ignorar explodiram em um único instante.

Em vez de empurrá-lo, Jungkook puxou Jimin para mais perto, eliminando qualquer espaço entre eles. Seus olhos vasculharam o rosto de Jimin, procurando pela falsidade que ele tanto queria encontrar, mas só viu uma honestidade dilacerante.

— Eu deveria te odiar — rosnou Jungkook contra os lábios de Jimin.

— Então me odeie — respondeu Jimin, a respiração entrecortada. — Mas sinta alguma coisa, Jungkook. Pare de ser esse fantasma de gelo.

Jungkook não resistiu mais. Ele colou seus lábios aos de Jimin em um beijo que não tinha nada de romântico. Era um beijo desesperado, carregado de anos de rancor e uma fome que o surpreendeu. Jimin gemeu contra sua boca, suas mãos subindo para o pescoço de Jungkook, puxando-o para mais perto, entregando-se com uma intensidade que Jungkook não estava preparado para lidar.

Era uma batalha de línguas e dentes, um reconhecimento mútuo de que eles estavam ambos quebrados, ambos vítimas das ambições de um homem que não estava ali. Jungkook empurrou Jimin contra a parede, suas mãos descendo para apertar a cintura do mais novo, sentindo o calor do corpo dele através das roupas finas.

Quando se separaram, ambos estavam ofegantes, os olhos fixos um no outro. A máscara de Jungkook estava em pedaços no chão.

— Isso não muda nada — disse Jungkook, embora sua voz estivesse falhando.

— Muda tudo — rebateu Jimin, tocando levemente o lábio inferior de Jungkook, que estava levemente inchado. — Porque agora você sabe que eu não sou apenas um troféu ou uma peça de tabuleiro. Eu sou real, Jungkook. E eu sinto.

Jungkook soltou-o e deu um passo para trás, o pânico começando a surgir em seu peito. O amor era uma fraqueza, ele repetia para si mesmo como um mantra. Se ele permitisse que Jimin entrasse, sua vingança perderia o sentido. E se a vingança perdesse o sentido, quem seria ele?

— Vá para o seu quarto, Jimin — disse Jungkook, recuperando sua frieza habitual, embora suas mãos ainda tremessem levemente.

Jimin o observou por um momento, a tristeza voltando a ocupar o lugar da paixão.

— Você pode fugir agora, Jungkook. Mas você já provou o que é ter um coração de novo. E você não vai conseguir esquecer.

Jimin virou-se e caminhou em direção ao corredor, deixando Jungkook sozinho na sala vasta e silenciosa.

Jungkook caminhou até a janela, olhando para o horizonte de Seul. A cidade parecia um mar de luzes, mas ele se sentia em completa escuridão. Ele tocou os próprios lábios, o gosto de Jimin ainda presente.

Ele havia planejado cada passo daquela vingança. Ele havia antecipado cada movimento de Jihyun. Mas ele nunca, em seus planos mais sombrios, havia previsto que a maior ameaça ao seu plano não seria a traição de um inimigo, mas a pureza de uma vítima que se recusava a ser apenas um objeto.

A guerra continuava, mas pela primeira vez, Jungkook temia que, ao destruir os Park, ele acabaria destruindo a única coisa que o fazia se sentir vivo novamente. E essa era uma derrota que ele não sabia se estava preparado para aceitar.