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Coraçoes Feridos

O Labirinto de Vidro e a Fragilidade do Vidro

A manhã que se seguiu ao beijo foi carregada de uma eletricidade estática, daquelas que fazem os pelos dos braços se arrepiarem antes de uma tempestade devastadora. Jungkook não apareceu para o café. Ele havia saído antes mesmo do sol vencer a linha dos arranha-céus de Gangnam, deixando para trás apenas o aroma de café forte e um bilhete impresso, impessoal, sobre a bancada de mármore: "Reunião de emergência na subsidiária de Incheon. Volto tarde. Não me espere."

Jimin leu aquelas palavras e sentiu o papel queimar entre seus dedos. "Não me espere". Era um comando, um aviso e uma súplica, tudo ao mesmo tempo. Jungkook estava fugindo. O grande predador, o homem que orquestrara uma década de ruína, havia recuado diante de um beijo que ele mesmo iniciara.

Jimin passou o dia vagando pelo apartamento, que agora parecia maior e mais frio do que nunca. Ele tentou pintar, mas as cores pareciam erradas. O azul era pálido demais, o vermelho lembrava sangue em vez de paixão. Ele acabou se sentando no chão da biblioteca, cercado por livros que não conseguia ler, pensando na revelação sobre o pai de Jungkook.

O suicídio. A cova sem nome. A miséria.

Cada detalhe era uma facada na percepção que Jimin tinha de sua própria vida. Ele sempre soubera que seu pai, Park Jihyun, era um homem duro, focado em resultados e pouco afeito a demonstrações de afeto. Mas um monstro? Um homem capaz de empurrar outro para o abismo e depois apagar o rastro da queda? Jimin olhou para as próprias mãos, mãos que haviam sido cuidadas, educadas e alimentadas por esse pecado. Ele se sentia cúmplice de um crime que não cometera, mas do qual usufruíra cada centavo.

O relógio marcou dez da noite quando a porta principal se abriu com um clique eletrônico suave. Jungkook entrou, mas não parecia o homem impecável de sempre. O paletó estava pendurado no braço, a gravata frouxa e os primeiros botões da camisa abertos. Ele parou ao ver Jimin sentado no sofá, a luz da sala reduzida a um brilho âmbar.

— Eu disse para não esperar — disse Jungkook, a voz mais rouca que o habitual, carregada de um cansaço que parecia vir da alma.

— Eu não estou esperando por ordens, Jungkook — Jimin levantou-se lentamente. — Estou esperando pelo meu marido. Ou pelo homem que habita esse terno.

Jungkook soltou um suspiro pesado e jogou o paletó sobre uma poltrona. Ele caminhou até o bar, mas parou antes de tocar na garrafa de uísque. Seus ombros subiram e desceram em uma respiração profunda.

— O que você quer, Jimin? — perguntou ele, ainda de costas. — Quer que eu peça desculpas pelo que aconteceu ontem? Quer que eu diga que foi um erro?

— Foi um erro? — Jimin deu um passo à frente, a voz suave, mas firme.

Jungkook virou-se bruscamente. Seus olhos estavam injetados, uma mistura de exaustão e uma raiva que parecia estar sendo mantida sob controle por um fio de cabelo.

— Claro que foi! — exclamou ele, gesticulando para o espaço entre eles. — Você é o filho de Park Jihyun! Você é a moeda, o objeto, a peça! Beijar você... tocar você dessa forma... é trair a memória do meu pai. É esquecer por que eu passei cada noite dos últimos dez anos planejando como destruir vocês.

— "Vocês"? — Jimin sentiu o peito arder. — Você ainda me coloca no mesmo saco que ele, depois de tudo? Depois de saber que eu não tinha ideia?

— A ignorância não apaga o benefício, Jimin! — Jungkook deu dois passos largos, diminuindo a distância entre eles. — Você dormiu em lençóis de seda enquanto eu dormia no chão de depósitos. Você nunca sentiu fome, nunca sentiu o frio de não ter um teto. O seu bem-estar foi construído sobre o cadáver do meu pai. Como eu posso olhar para você e não ver o rosto do homem que o matou?

— Então por que me beijou? — desafiou Jimin, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Se eu sou tão repulsivo, se eu sou apenas um lembrete do seu sofrimento, por que você me segurou como se eu fosse a única coisa real no mundo?

Jungkook travou. A mandíbula dele se contraiu com tanta força que Jimin achou que ele fosse quebrar os dentes. O silêncio que se seguiu foi opressor, preenchido apenas pelo som da respiração pesada de ambos.

— Porque eu sou um idiota — sussurrou Jungkook, a voz subitamente baixa, quase vulnerável. — Porque, por um segundo, eu esqueci quem eu era. E eu esqueci quem você é.

— E quem sou eu, Jungkook? — Jimin aproximou-se mais, até que seus peitos quase se tocassem. — Diga. Sem falar do meu pai, sem falar de empresas. Quem sou eu para você?

Jungkook olhou para baixo, encontrando os olhos de Jimin. Ali, naquela proximidade perigosa, a raiva dele começou a se transformar em algo muito mais aterrorizante: desejo e uma dor crua.

— Você é a minha ruína — disse Jungkook, a voz falhando. — Você é a única variável que eu não previ. Eu deveria te usar e te descartar, mas toda vez que você me olha com essa... essa pureza irritante... eu sinto que estou sufocando.

Jimin estendeu a mão, hesitante, e tocou o peito de Jungkook, bem acima do coração. O órgão batia freneticamente, como um pássaro enjaulado tentando escapar.

— Deixe-me ajudar você a respirar — pediu Jimin em um sussurro.

Jungkook fechou os olhos, uma expressão de agonia cruzando seu rosto. Ele lutou contra o impulso de se afastar, mas o toque de Jimin era como uma âncora em meio a um naufrágio. Quando ele abriu os olhos novamente, a escuridão neles havia mudado. Não era mais o ódio puro; era uma fome desesperada de conexão, de algo que o fizesse esquecer o frio que o habitava há tanto tempo.

Ele segurou o rosto de Jimin com as duas mãos, os dedos mergulhando nos cabelos loiros com uma urgência quase violenta.

— Se fizermos isso — avisou Jungkook, a voz trêmula —, se eu permitir que isso aconteça... eu não vou parar. Eu vou destruir seu pai. Eu vou tirar tudo dele. Você entende? Eu não vou desistir da minha vingança por você.

Jimin sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele sabia que estava entrando em um pacto com o diabo, mas o diabo tinha olhos que imploravam por salvação.

— Eu sei — respondeu Jimin. — Mas se você vai tirar tudo dele, então me dê algo em troca. Não o seu ódio. Dê-me você. O Jungkook que existia antes de tudo isso ser destruído.

Jungkook soltou um som gutural, algo entre um soluço e um rosnado, e colou seus lábios aos de Jimin. Desta vez, não houve hesitação. O beijo foi uma colisão de mundos, uma entrega mútua que desafiava toda a lógica e todo o rancor acumulado. Jungkook o carregou para o quarto principal, o lugar que ele havia jurado nunca compartilhar com Jimin.

Naquela noite, entre os lençóis de seda que Jungkook tanto desprezava, a vingança foi silenciada pelo toque. Jungkook explorou o corpo de Jimin como se estivesse tentando memorizar cada curva, cada cicatriz invisível, cada resposta aos seus dedos. Jimin, por sua vez, abraçou a escuridão de Jungkook, oferecendo sua luz não como uma arma, mas como um refúgio.

— Jimin... — Jungkook murmurou contra o pescoço dele, a voz carregada de uma emoção que ele não conseguia nomear.

— Estou aqui — respondeu Jimin, apertando-o contra si. — Eu não vou a lugar nenhum.

Pela primeira vez em dez anos, Jungkook dormiu sem ter pesadelos com o pai. Mas a paz era uma ilusão frágil, um castelo de vidro esperando pelo primeiro golpe de pedra.

***

A manhã trouxe uma realidade fria. Jimin acordou com o lado da cama vazio, mas, ao contrário do dia anterior, o cheiro de Jungkook ainda estava nos travesseiros. Ele se levantou, sentindo o corpo leve, uma ponta de esperança florescendo em seu peito. Talvez, apenas talvez, o amor pudesse ser mais forte que a sede de sangue.

Ele encontrou Jungkook na sala, já vestido, mas sem o paletó. Ele estava ao telefone, sua voz fria e cortante.

— Eu não me importo com as desculpas dele. Se a remessa não chegar ao porto até as 18h, liquide os ativos da subsidiária. Eu quero Park Jihyun desesperado até o final do dia.

Jimin parou na entrada da sala, o coração afundando. O homem que o segurara com tanta ternura poucas horas antes havia retornado ao seu papel de carrasco.

Jungkook desligou o telefone e virou-se, vendo Jimin. Ele não sorriu. Não houve o calor da noite anterior. Seus olhos eram novamente dois poços de gelo.

— Bom dia — disse Jungkook, a voz neutra.

— Você vai mesmo fazer isso hoje? — perguntou Jimin, a voz carregada de decepção. — Depois de ontem...

Jungkook caminhou até ele, parando a uma distância segura, como se o toque de Jimin fosse um veneno do qual ele precisasse se desintoxicar.

— O que aconteceu ontem foi... um momento de fraqueza. Eu avisei a você, Jimin. Minha vida é dedicada a um propósito. Você aceitou os termos.

— Eu não aceitei ser um objeto de prazer à noite e um inimigo de manhã! — Jimin sentiu a raiva borbulhar. — Você está usando o que temos para se sentir melhor consigo mesmo enquanto destrói a minha família!

— A *sua* família destruiu a *minha* vida! — Jungkook gritou, a máscara de gelo trincando. — Você acha que uma noite de sexo apaga o que eu vi? Você acha que seu corpo é o suficiente para me fazer esquecer o cheiro de mofo do apartamento onde eu morava porque seu pai nos roubou?

Jimin recuou, como se tivesse levado um tapa físico. As lágrimas queimavam, mas ele se recusou a deixá-las cair.

— Você está certo, Jungkook. Eu fui um idiota por pensar que você era capaz de sentir qualquer coisa além de ódio. Você não quer justiça. Você quer dor. E você vai acabar sozinho, cercado pelo dinheiro que roubou de volta, mas sem ninguém que se importe se você respira ou não.

Jimin deu as costas e caminhou em direção à porta de saída.

— Onde você vai? — perguntou Jungkook, a voz subitamente tingida de um pânico que ele tentou esconder.

— Vou ver o meu pai — disse Jimin, sem olhar para trás. — Se ele é o monstro que você diz, eu preciso ouvir da boca dele. E se você for destruir tudo, comece por mim, porque eu não vou mais ficar aqui assistindo você se transformar naquilo que você mais odeia.

A porta bateu com um som definitivo.

Jungkook ficou parado no meio da sala, o silêncio voltando a pesar sobre seus ombros. Ele deveria se sentir vitorioso. O plano estava avançando, Jihyun estava encurralado e ele tinha o controle total. Mas, ao olhar para o quarto onde haviam passado a noite, ele sentiu um vazio tão vasto que parecia capaz de engoli-lo por inteiro.

Ele pegou o celular e discou para o seu assistente.

— Cancele a liquidação dos ativos de Incheon — ordenou ele, a voz falha.

— Mas, senhor Jeon, o plano...

— Apenas faça o que eu mandei! — Jungkook desligou e atirou o aparelho contra a parede de vidro. O celular estilhaçou, mas o vidro temperado da janela nem sequer arranhou.

Jungkook caiu de joelhos, cobrindo o rosto com as mãos. Ele estava vencendo a guerra, mas estava perdendo a única coisa que o fizera sentir que a vida valia a pena ser vivida. E o pior de tudo era que ele não sabia como parar a máquina de destruição que ele mesmo havia criado.

***

Jimin chegou à mansão dos Park com o coração na mão. O lugar que outrora fora seu lar agora parecia uma fortaleza de segredos. Ele entrou sem ser anunciado, passando pelos seguranças que o conheciam desde criança.

Encontrou o pai no escritório, o mesmo escritório onde Jungkook dissera que o destino de muitas famílias fora selado. Jihyun parecia envelhecido, cercado por papéis e telas de computador exibindo gráficos em queda livre.

— Jimin? O que faz aqui a esta hora? — Jihyun levantou os olhos, a surpresa evidente. — Jungkook sabe que você saiu?

— O que você fez com o pai do Jungkook, pai? — a pergunta saiu direta, cortante como uma lâmina.

Jihyun empalideceu, o nome parecendo um fantasma que ele tentara exorcizar por décadas. Ele se recostou na cadeira, e por um momento, a máscara de empresário poderoso caiu, revelando um homem acuado.

— Então ele te contou — murmurou Jihyun. — Eu imaginei que ele faria isso. Ele é exatamente como o pai dele... persistente.

— Ele se matou, pai! — Jimin gritou, batendo com as mãos na mesa. — Ele se matou porque você o arruinou! Por que você nunca me contou? Por que me deixou casar com o filho do homem que você destruiu?

— Porque era a única forma de salvar a empresa, Jimin! — Jihyun levantou-se, a voz subindo de tom. — O mercado é uma selva. Ou você devora, ou é devorado. O pai de Jungkook, Jeon Jungho, era fraco. Ele confiava demais. Eu apenas aproveitei as oportunidades.

— Você roubou a vida dele! — Jimin sentiu um nojo profundo. — E agora Jungkook está fazendo o mesmo com você. E o pior é que eu não posso culpá-lo.

Jihyun aproximou-se do filho, tentando tocar seu ombro, mas Jimin recuou como se o toque fosse tóxico.

— Você precisa falar com ele, Jimin. Ele ouve você. Ele está apaixonado, eu vejo como ele olha para você nas fotos, como ele te protegeu naquele café... Se você o convencer a parar, nós podemos reconstruir tudo.

Jimin olhou para o pai e viu, pela primeira vez, a extensão da sua corrupção. Jihyun não sentia remorso pelo que fizera a Jungho; ele apenas sentia medo das consequências. Ele estava tentando usar o filho, novamente, como um escudo humano.

— Você não entende, não é? — disse Jimin, a voz agora fria e desprovida de lágrimas. — Jungkook não me ama. Ele me odeia porque eu sou seu filho. E eu não vou pedir nada a ele.

— Jimin, pense na sua herança! Pense no seu futuro!

— Meu futuro não está neste escritório cheio de sangue, pai. E minha herança é uma vergonha que eu vou carregar para o resto da vida.

Jimin virou as costas e saiu da mansão, ignorando os chamados desesperados do pai. Ele caminhou pelas ruas de Seul, sem rumo, sentindo-se um pária de dois mundos. Ele não pertencia à vingança de Jungkook, e não pertencia mais à mentira de seu pai.

Quando a noite caiu, ele se viu de volta à frente do prédio da cobertura. Ele não queria subir, mas não tinha para onde ir. Ao entrar no elevador, sentiu um peso no peito. O que ele diria a Jungkook? Que o pai dele era realmente o monstro que ele descrevera? Que a vingança era justa, mas que ele não conseguia suportar ser o dano colateral?

As portas do elevador se abriram e ele encontrou Jungkook parado no hall, como se estivesse esperando por ele há horas. Jungkook parecia devastado. Suas roupas estavam desalinhadas e havia cacos de vidro no chão da sala ao fundo.

Eles se olharam por um longo tempo.

— Ele confirmou tudo, não foi? — perguntou Jungkook, a voz desprovida de qualquer traço de triunfo.

Jimin apenas acenou com a cabeça, as lágrimas finalmente voltando a cair.

Jungkook deu um passo à frente e, desta vez, não houve hesitação, não houve raiva. Ele puxou Jimin para um abraço apertado, escondendo o rosto no ombro do mais novo.

— Eu tentei continuar — sussurrou Jungkook, a voz quebrada. — Eu tentei odiar você hoje o dia todo. Eu dei ordens para destruir a última subsidiária dele. Mas eu não consegui. Eu cancelei tudo.

Jimin afastou-se um pouco para olhar no rosto de Jungkook.

— Por que?

— Porque eu percebi que, se eu tirar tudo dele agora, eu perco você. E eu descobri que... — Jungkook engoliu em seco, a confissão parecendo um esforço hercúleo. — Eu descobri que prefiro viver com a injustiça do passado do que com a sua ausência no meu futuro.

Jimin soluçou, enterrando o rosto no peito de Jungkook.

— Isso não apaga o que ele fez, Jungkook. Ele não merece o seu perdão.

— Eu não estou perdoando ele, Jimin — disse Jungkook, segurando o rosto dele com ternura. — Eu estou me perdoando. Por ter passado dez anos sendo um morto-vivo. Por ter transformado você em uma arma quando você deveria ter sido o meu porto seguro.

Eles ficaram ali, no hall daquela cobertura luxuosa que fora construída sobre segredos e dor, dois jovens marcados pelos pecados de seus pais. A vingança ainda estava lá, um monstro adormecido nos arquivos de Jungkook, e o crime de Jihyun ainda manchava a história de ambos.

Mas, enquanto Jungkook beijava a testa de Jimin, algo havia mudado. O labirinto de vidro em que viviam não havia desaparecido, mas agora eles tinham um ao outro para encontrar a saída. A geada estava começando a derreter, e embora o caminho à frente fosse incerto e cheio de cicatrizes, pela primeira vez, eles não estavam mais lutando um contra o outro.

Eles estavam apenas começando a aprender como amar em meio aos escombros.