d
O Eco de um Abraço Eterno
A celebração em Valhala continuava vibrante, mas para Qin Shi Huang, o mundo ao redor começou a perder o foco. O riso de Xiao Huang, que agora acordara de seu breve cochilo e tentava engatinhar entre as pernas das cadeiras, soava como música, mas uma música que trazia consigo uma melancolia antiga. Qin, o homem que se autoproclamava o único e verdadeiro Imperador, sentiu uma pontada familiar em seu peito. Não era a dor física da sinestesia toque-espelho, mas algo mais profundo, uma ferida na alma que nem mesmo o trono mais alto poderia curar.
Ele se afastou sutilmente da mesa principal, caminhando até a mureta de mármore que dava para o pomar de pessegueiros. O perfume das flores lembrava-lhe de um tempo de sombras, de um tempo em que ele era apenas uma criança odiada, um "monstro" que carregava as dores de um mundo que o desprezava. E, no meio daquela escuridão, havia existido uma luz. Uma mulher que o ensinara a sorrir.
Uma lágrima solitária escapou por baixo da venda de Qin, descendo por sua bochecha. Ele a limpou rapidamente com as costas da mão, mas seus ombros tremeram.
— O Imperador não chora diante de seu povo — murmurou para si mesmo, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos.
Hades, que observava cada movimento de seu marido com a precisão de quem conhece os batimentos cardíacos do outro, entregou Xiao Huang aos cuidados de uma relutante, mas secretamente encantada, Brunhilde. Ele caminhou com passos silenciosos até Qin, parando a uma distância respeitosa antes de envolver a cintura do Imperador com seus braços fortes.
— O Imperador pode não chorar — disse Hades, a voz baixa e reconfortante como o veludo das sombras de Helheim —, mas o homem que eu amo tem o direito de sentir saudade.
Qin relaxou contra o peito de Hades, permitindo-se ser vulnerável por um breve instante.
— Ela ficaria orgulhosa do que nos tornamos, Hades — sussurrou Qin. — Chun Yan... ela foi a única que me viu quando eu era invisível. Eu daria todos os tesouros da China para que ela pudesse ver Xiao Huang uma única vez.
Hades apertou o abraço, um brilho determinado em seus olhos heterocromáticos.
— Qin, você se lembra do que eu lhe disse quando nos unimos? — Hades inclinou a cabeça, encostando a testa na nuca do marido. — Que o Submundo não é apenas um lugar de punição, mas um reino sob o meu comando. E que, para o Rei do Submundo, as fronteiras entre a vida e a memória são tênues.
Qin virou-se nos braços de Hades, confuso.
— Do que você está falando? Chun Yan... a alma dela... ela partiu há milênios. Ela se sacrificou por mim.
Hades deu um sorriso enigmático, o tipo de sorriso que apenas um deus que governa a eternidade poderia ostentar.
— Eu sou o Rei de Helheim, Qin. Eu ouço os lamentos, mas também guardo as pérolas que caem nas profundezas. Levei tempo, precisei negociar com forças que até mesmo os deuses temem, mas eu fiz uma promessa de que você nunca mais caminharia sozinho.
Hades estalou os dedos levemente. No final do corredor de pessegueiros, uma névoa prateada começou a se formar, girando suavemente sob a luz do pôr do sol.
— O que é isso? — perguntou Qin, sua postura voltando a ser a de um guerreiro, embora seu coração batesse descontroladamente.
— Um presente — respondeu Hades, afastando-se um passo para dar espaço ao que estava por vir. — De um marido que não suporta ver uma única lágrima de tristeza em seu Imperador.
Da névoa, uma figura começou a se materializar. Era uma mulher de postura firme, vestindo trajes tradicionais que evocavam uma era de guerras e sacrifícios. Seus cabelos estavam presos de forma prática, e seu rosto carregava a beleza da maturidade misturada com uma bondade inabalável. Quando ela deu o primeiro passo para fora da bruma, seus olhos encontraram os de Qin.
O Imperador da China estancou. Ele sentiu o peso da venda em seus olhos como se fosse chumbo. Com mãos trêmulas, algo que ninguém em Valhala jamais imaginaria ver, Qin levou os dedos às fitas de sua venda e a desamarrou, deixando o tecido cair no chão de mármore. Pela primeira vez em eras, ele olhou para o mundo sem barreiras.
— Ying Zheng... — a voz da mulher era exatamente como ele se lembrava. Quente, firme e cheia de um amor que ele nunca sentira de mais ninguém.
— Chun Yan? — a voz de Qin falhou. Ele deu um passo à frente, incerto, como a criança ferida que um dia fora. — É... é você mesma?
— Venha aqui, meu pequeno imperador — disse ela, abrindo os braços com um sorriso que iluminou o jardim mais do que qualquer divindade solar poderia fazer.
Qin não correu; ele voou para o abraço dela. Quando seus corpos se encontraram, o impacto da sinestesia foi imediato, mas não houve dor. O que Qin sentiu, refletido no corpo dela, foi uma onda avassaladora de alívio, orgulho e uma ternura que transbordava. Ele enterrou o rosto no ombro dela, soluçando abertamente, sem se importar com quem estivesse olhando.
— Você voltou... você voltou por mim — ele murmurava entre os soluços.
— Eu nunca saí de perto de você, Zheng — disse Chun Yan, acariciando os cabelos dele com a mesma doçura de séculos atrás. — Eu vi você se tornar o maior rei que o mundo já conheceu. Eu vi você lutar, eu vi você sofrer e, finalmente, eu vi você encontrar a felicidade.
Hades observava a cena de longe, com os braços cruzados e um olhar de profunda satisfação. Ele sentiu uma mão pequena puxando sua túnica. Xiao Huang estava ali, tendo escapado de Brunhilde, olhando para a cena com curiosidade.
— Pa? — o bebê perguntou, apontando para Qin e a mulher desconhecida.
Hades pegou o filho no colo e aproximou-se lentamente do reencontro.
— Qin — chamou Hades suavemente.
O Imperador se recompôs, limpando o rosto, embora seus olhos ainda estivessem vermelhos. Ele se virou para Chun Yan, segurando a mão dela com força, como se temesse que ela desaparecesse se ele a soltasse.
— Chun Yan, este é... este é o meu marido, Hades — Qin apresentou, sua voz recuperando um pouco da grandiosidade real. — O Rei do Submundo. Foi ele quem...
— Eu sei quem ele é — interrompeu Chun Yan, curvando-se respeitosamente para Hades. — Majestade, não tenho palavras para agradecer o que fez. Trazer uma alma de volta do descanso eterno não é um feito pequeno.
— Para o meu marido, eu moveria o próprio Tártaro — respondeu Hades com uma inclinação de cabeça nobre. — E este pequeno aqui... — Ele estendeu Xiao Huang para frente. — É o nosso filho. Xiao Huang.
Os olhos de Chun Yan se arregalaram. Ela olhou para o bebê, que tinha as bochechas sujas de molho de churrasco e um brilho travesso no olhar. Xiao Huang olhou para a mulher, inclinou a cabeça para o lado e soltou um de seus balbucios alegres.
— Vovó? — tentou o pequeno, provavelmente confundindo a aura materna com algo que ele instintivamente reconhecia.
Chun Yan soltou um suspiro trêmulo e pegou o menino nos braços. Xiao Huang imediatamente agarrou o colar dela, rindo.
— Ele é lindo, Zheng — disse ela, as lágrimas agora surgindo em seus próprios olhos. — Ele tem o seu brilho. E a calma de seu pai.
— Ele é um pequeno tirano — brincou Qin, aproximando-se para beijar a testa do filho enquanto este estava no colo de Chun Yan. — Ele governa esta casa com punho de ferro e pedidos de uvas.
O grupo se sentou sob a sombra de um grande pessegueiro, longe do barulho do restante do churrasco. Hades providenciou para que os melhores vinhos e as carnes mais macias fossem servidos ali, criando um oásis de privacidade para a família.
Chun Yan ouvia atentamente enquanto Qin narrava suas vitórias, mas ele falava muito mais sobre sua vida com Hades e os desafios de criar um bebê em Valhala do que sobre suas conquistas militares. Hades intervinha ocasionalmente, corrigindo as partes onde Qin exagerava sua própria paciência durante as trocas de fralda.
— Então, o Grande Imperador Qin Shi Huang tem medo de uma criança com sono? — provocou Chun Yan, rindo enquanto Xiao Huang tentava comer um pedaço de pêssego que ela cortara para ele.
— Não é medo! — protestou Qin, cruzando os braços. — É uma retirada estratégica! O choro dele é uma arma sônica que ignora as defesas da minha armadura!
— Ele foge para o escritório e diz que precisa "revisar decretos imperiais" toda vez que o menino começa a berrar às três da manhã — entregou Hades, servindo uma taça de vinho para Chun Yan.
— Hades! — Qin exclamou, embora houvesse um sorriso em seus lábios. — De que lado você está?
— Do lado da verdade, meu amor. Sempre.
Chun Yan observava a interação com o coração transbordando. Ela vira o sofrimento de Zheng, a solidão de um menino que carregava o ódio do mundo. Ver que ele agora tinha um parceiro que o desafiava, que o amava e que construíra uma família com ele era o maior presente que ela poderia receber, mesmo após a morte.
— Zheng — disse ela, chamando a atenção dele. — Você se lembra do que eu lhe disse antes de... antes de eu partir?
Qin assentiu, a expressão tornando-se séria e doce ao mesmo tempo.
— "Não importa o quanto o mundo te odeie, eu sempre estarei ao seu lado".
— E eu estive — confirmou ela. — Mas agora vejo que não preciso mais me preocupar. Você encontrou alguém que enxerga o homem por trás da coroa. Alguém que te dá o trono que você realmente merece: o de um lar.
Hades estendeu a mão e entrelaçou seus dedos com os de Qin sobre a mesa.
— Ele é o centro do meu mundo, Chun Yan. Enquanto eu existir, nada voltará a feri-lo.
A noite caiu sobre Valhala, e as luzes das lanternas chinesas que Qin insistira em pendurar começaram a brilhar, refletindo-se nas taças de cristal. O churrasco dos deuses ainda ecoava ao longe — a voz de Thor discutindo com Lu Bu sobre qual força era maior, ou o som de Zeus tentando cantar alguma canção antiga —, mas ali, sob o pessegueiro, havia apenas paz.
Xiao Huang acabou dormindo no colo de Chun Yan, exausto de brincar com a nova "vovó". Qin encostou a cabeça no ombro de Hades, sentindo a presença de Chun Yan de um lado e o calor de seu marido do outro. Pela primeira vez em toda a sua existência, o Imperador não sentia necessidade de provar sua superioridade a ninguém.
— Hao — sussurrou Qin, fechando os olhos.
— Sim — concordou Chun Yan, ninando o neto. — Tudo está muito bem.
Hades olhou para as estrelas de Valhala, sentindo uma satisfação que nenhum poder sobre as almas poderia proporcionar. Ele sabia que Chun Yan teria que retornar ao seu descanso eventualmente, mas o vínculo fora restaurado. O vazio no peito de Qin fora preenchido.
— Obrigado, Hades — Qin murmurou, quase pegando no sono.
— Não me agradeça, meu Imperador — respondeu o Rei do Submundo, depositando um beijo suave no topo da cabeça de Qin. — Um rei faz tudo pelo seu povo. E você... você é o meu único e absoluto reino.
E assim, entre deuses, humanos e memórias revividas, o churrasco terminou não com um grito de guerra, mas com o silêncio sagrado de uma família que, contra todas as probabilidades, encontrou a eternidade no amor.