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Sabor de Realeza e a Audácia do Imperador

O sol de Valhala começava a se despedir, pintando o horizonte com pinceladas de um carmesim profundo que combinava perfeitamente com a elegância de Hades. O churrasco ainda fervilhava a alguns metros de distância, mas o canto reservado onde o casal real se encontrava parecia envolto em uma bolha de tranquilidade dourada. Xiao Huang, após o emocionante encontro com Chun Yan, havia finalmente se rendido ao cansaço e dormia profundamente em um berço de seda improvisado sob a guarda vigilante da babá divina que Hades designara.

Qin Shi Huang, agora sem sua venda, observava o marido com uma intensidade que poderia derreter o gelo mais eterno de Helheim. Ele estava recostado em uma cadeira entalhada, a postura relaxada, mas carregando aquela arrogância inerente que o tornava tão magnético. Seus olhos, vibrantes e atentos, seguiram o movimento da mão de Hades enquanto o Deus do Submundo levava à boca um pedaço de carne perfeitamente grelhada, marinada em especiarias raras que Hermes havia trazido de alguma região remota do cosmos.

— Você parece estar apreciando muito esse corte, Hades — comentou Qin, cruzando as pernas e apoiando o queixo na palma da mão. — Mais do que a companhia do seu Imperador?

Hades soltou um riso baixo, um som que vibrou no peito e fez Qin sentir um formigamento familiar. Ele limpou o canto da boca com um guardanapo de linho, mantendo a dignidade soberana que o caracterizava.

— A companhia do meu Imperador é o prato principal de qualquer banquete, Qin — respondeu o Deus, sua voz aveludada carregada de uma diversão contida. — Mas este tempero é, de fato, excepcional. Tem um equilíbrio entre o doce e o picante que me lembra... bem, você.

Qin arqueou uma sobrancelha, um sorriso ladino brincando em seus lábios. Ele sentia a energia de Hades, uma mistura de proteção devota e um desejo latente que sempre o fascinava. Através de sua sinestesia, Qin podia sentir a satisfação gustativa de Hades como se fosse sua, mas ele queria mais. Ele queria o controle.

— Hao! Se me lembra, então é meu por direito — declarou Qin, levantando-se com a graça de um predador. — Onde o Imperador está, tudo pertence a ele. Incluindo o que está no seu prato.

Hades apenas sorriu, pegando outro pedaço de carne com o garfo de prata. Ele sabia que Qin estava tramando algo. O Imperador chinês nunca fazia nada de forma simples; cada gesto era uma performance, cada palavra um decreto.

— Você já teve sua porção, meu amor — disse Hades, movendo o garfo de forma provocativa. — E, se bem me lembro, você disse que "um rei não divide suas conquistas".

— Um rei não divide, ele toma — corrigiu Qin, aproximando-se o suficiente para que Hades pudesse sentir o perfume de flores de lótus que sempre emanava dele.

Qin inclinou-se sobre Hades, as mãos apoiadas nos braços da cadeira do Deus. A proximidade era elétrica. Ele olhou profundamente nos olhos de Hades, sua expressão suavizando-se para uma máscara de sedução pura.

— Hades... — sussurrou ele, a voz caindo para um tom íntimo que geralmente estava reservado para as paredes do quarto deles. — Esqueça a comida por um momento.

Hades, embora soubesse que Qin era um mestre da manipulação, não conseguiu evitar de ser atraído por aquele olhar. Ele pousou o garfo lentamente, sua guarda baixando apenas um centímetro, o suficiente para o Imperador agir.

— O que você deseja, Qin? — perguntou Hades, sua voz ligeiramente mais rouca.

— Apenas um beijo — respondeu Qin, aproximando o rosto. — Um beijo digno de dois soberanos.

Hades fechou os olhos por um breve segundo, esperando o contato dos lábios de Qin. Ele sentiu o hálito quente do marido contra sua pele, o prelúdio daquela conexão que sempre o fazia esquecer o peso da coroa. No entanto, no último milésimo de segundo, em vez de selar os lábios de Hades com os seus, Qin fez um movimento rápido e calculado.

Como um raio, a mão de Qin disparou em direção ao prato de Hades, os dedos ágeis capturando o último e mais suculento pedaço de carne que o Deus estava guardando para o final.

Hades abriu os olhos instantaneamente, mas Qin já havia recuado um passo, levando o pedaço de carne à boca com um triunfo estampado no rosto. Ele mastigou lentamente, fechando os olhos em deleite fingido, enquanto um brilho de pura travessura dançava em suas íris.

— Realmente — disse Qin, após engolir —, o tempero é formidável. Você tem bom gosto, meu Rei.

Hades permaneceu em silêncio por um momento, observando o marido. Sua expressão era uma mistura de descrença e uma admiração relutante. Ele deveria saber. Qin Shi Huang não era apenas um homem de paixões, era um estrategista que via o mundo como um tabuleiro de jogo, mesmo durante um churrasco de família.

— Você usou um beijo como distração para roubar minha comida? — perguntou Hades, levantando-se lentamente da cadeira. Sua estatura imponente agora pairava sobre Qin, mas o Imperador não recuou nem um milímetro.

— Eu usei a diplomacia para expandir meus recursos — corrigiu Qin, dando de ombros com uma elegância irritante. — É uma tática básica de governança. Você deveria estar orgulhoso da minha eficiência.

— Eficiência, é? — Hades deu um passo à frente, um sorriso perigoso e charmoso surgindo em seu rosto. — Você se esquece, Qin, que em Helheim, cada ato de rebeldia tem sua consequência. E roubar do Rei do Submundo é um crime de alta traição.

Qin riu, uma risada clara que atraiu a atenção momentânea de um Hermes curioso que passava por perto, antes de o mensageiro decidir que era mais seguro não interferir.

— E o que o grande Hades pretende fazer? — desafiou Qin, colocando as mãos nos quadris. — Vai me sentenciar ao Tártaro? Ou talvez uma eternidade de tédio ouvindo as reclamações de Zeus?

— Algo muito mais imediato — respondeu Hades.

Antes que Qin pudesse reagir ou usar uma de suas técnicas de defesa, Hades foi mais rápido. Com a agilidade de um guerreiro veterano, ele envolveu a cintura de Qin com um braço, puxando-o para perto com uma força firme, mas cuidadosa. Com a outra mão, ele segurou o ombro de Qin, girando-o parcialmente.

*PÁ!*

O som do tapa ecoou suavemente no canto reservado, seguido pelo silêncio atônito de Qin. Hades havia desferido um tapa firme e sonoro na nádega do Imperador.

Qin ficou paralisado por um segundo, seus olhos arregalados de surpresa. Ele sentiu o calor do impacto se espalhar, uma sensação que, devido à sua sinestesia, foi sentida por ambos, mas o choque da audácia de Hades superava qualquer sensação física.

— Isso... — Qin começou, a voz falhando por um momento enquanto ele se virava para encarar o marido, o rosto ficando vermelho, não de dor, mas de uma mistura de indignação e excitação. — Você acabou de dar um tapa no Imperador da China?

— Eu dei um tapa no meu marido travesso — corrigiu Hades, mantendo uma expressão de seriedade absoluta, embora seus olhos brilhassem com triunfo. — Considere isso sua punição real. Roube meu jantar novamente e a sentença será dobrada.

Qin levou a mão ao local atingido, massageando-o levemente enquanto tentava recuperar sua compostura majestosa. Ele bufou, mas não conseguiu esconder o sorriso que começou a surgir no canto de sua boca.

— Você é um bárbaro, Hades — disse Qin, embora houvesse um tom de aprovação em sua voz. — Nenhum mortal ou deus jamais ousou tal desrespeito.

— E nenhum mortal ou deus jamais teve o privilégio de me chamar de marido — rebateu Hades, puxando Qin para um abraço de verdade desta vez, prendendo-o contra seu peito. — Agora, se você quer tanto o que é meu, peça como um rei, não como um ladrão de estradas.

Qin relaxou nos braços dele, passando os braços pelo pescoço de Hades e puxando-o para baixo para que suas testas se encostassem.

— Hao — sussurrou Qin, a arrogância dando lugar a uma ternura profunda. — Talvez eu peça... mas a provocação é metade da diversão, você não acha?

Hades soltou um suspiro fingido de cansaço, mas seus braços apertaram Qin com força.

— Você vai me deixar de cabelos brancos antes do tempo, Zheng.

— Bobagem — riu Qin, selando finalmente seus lábios nos de Hades em um beijo que, desta vez, não tinha segundas intenções além de demonstrar o amor imenso que os unia. — Você é um deus. Você tem a eternidade para aprender a lidar com a minha grandeza.

Ao longe, Xiao Huang soltou um pequeno resmungo durante o sono, fazendo os dois pais se separarem instantaneamente para verificar o filho. O pequeno imperador apenas se virou para o lado, abraçando seu cobertor, alheio às brincadeiras e punições reais que ocorriam a poucos passos de distância.

Hades olhou para o berço e depois para Qin, sentindo uma paz que nunca imaginou ser possível. O churrasco em Valhala continuava, o mundo dos deuses e humanos era um caos constante, mas ali, entre um tapa de punição e um beijo de reconciliação, ele tinha tudo o que precisava.

— Venha — disse Hades, estendendo a mão para o marido. — Vamos ver se sobrou algo da sobremesa antes que o Hermes decida que tudo pertence a ele também.

Qin pegou a mão de Hades, entrelaçando seus dedos com firmeza.

— Ele que tente — declarou o Imperador, recuperando sua aura de superioridade. — Se ele tocar em um único doce, eu mostrarei a ele por que o Caminho Real é intransponível.

Hades riu, conduzindo seu Imperador de volta para a luz das lanternas, sabendo que, embora Qin Shi Huang fosse um desafio constante à sua paciência, não havia ninguém no universo, vivo ou morto, que ele preferisse ter ao seu lado naquela jornada eterna.