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Veneno em Seda e Neon

O trajeto até o teatro foi marcado por um silêncio tenso, interrompido apenas pelo som rítmico das unhas de Sara batendo na tela do celular e pelos suspiros baixos de Eduarda, que parecia buscar oxigênio na fresta da janela do carro. Emanuel, no banco do meio, sentia-se como uma barreira física entre dois polos magnéticos que teimavam em se repelir.

Ao chegarem ao saguão do teatro municipal, a discrepância entre as duas tornou-se um espetáculo à parte. Eduarda caminhava com uma elegância tímida, o vestido de seda preta moldando seu corpo esguio de forma discreta, quase como se ela quisesse se fundir às sombras das colunas de mármore. Já Sara parecia ter sido iluminada por um refletor exclusivo; o vestido vermelho, os seios siliconados desafiando a gravidade e o som estridente de seus saltos agulha atraíam olhares de desaprovação e desejo em proporções iguais.

— Gente, olha esse lugar — sussurrou Sara, sem qualquer preocupação com o volume da voz. — Parece que eu entrei num episódio de "Downton Abbey", só que com menos orçamento e mais cheiro de mofo. Emanuel, sério, como você aguenta?

— Sara, por favor, fale baixo — pediu Emanuel, sentindo o peso dos olhares dos frequentadores habituais, pessoas que valorizavam o silêncio e a erudição. — Estamos aqui pela Duda. Respeite o ambiente dela.

Eduarda aproximou-se de Emanuel, entrelaçando seu braço ao dele. Ela olhou para Sara com uma mistura de medo e cansaço.

— É um prédio histórico, Sara. A acústica é pensada para que a voz humana chegue a todos os cantos sem esforço. É arte, não é uma caixa de som estourando — disse Eduarda, tentando manter a voz firme, embora seus dedos tremessem levemente contra o terno de Emanuel.

Sara soltou uma risada debochada, ajeitando o decote generoso diante de um espelho dourado no corredor.

— Acústica, arte... Bla, bla, bla. Você é tão pretensiosa, garota. Estuda História da Arte e acha que o mundo é um museu. Acorda, a vida real acontece lá fora, onde as pessoas suam, bebem e se tocam, não aqui onde todo mundo finge que entende uma peça russa de três horas sobre o tédio.

— Não é tédio, é profundidade — rebateu Eduarda, as lágrimas começando a turvar sua visão. — Mas eu sei que você não consegue entender nada que não envolva um copo de vodka e um homem babando no seu decote.

Emanuel interveio antes que a situação escalasse, conduzindo-as para seus assentos. Durante a apresentação, a tortura foi mútua. Eduarda tentava se concentrar na interpretação dos atores, buscando refúgio na beleza estética das cenas, enquanto sentia a energia inquieta de Sara ao seu lado. Sara não parava de bufar, cruzar e descruzar as pernas, e enviar mensagens no WhatsApp, o brilho da tela do celular sendo um insulto constante à escuridão do teatro.

Quando as luzes finalmente se acenderam após os aplausos, Sara levantou-se como se tivesse acabado de ser libertada de uma prisão.

— Graças a Deus! Se eu ficasse mais cinco minutos ouvindo aquele monólogo sobre o destino da alma, eu mesma me atirava do balcão. Agora, Emanuel, cumpra sua parte. Boate. Agora.

O trio seguiu para a "Pulse". A transição do silêncio contemplativo para as batidas eletrônicas ensurdecedoras foi violenta. O camarote reservado por Emanuel oferecia algum conforto, mas a proximidade forçada ali era ainda pior. Sara imediatamente pediu a garrafa de vodka premium prometida, servindo-se de uma dose pura enquanto começava a balançar o corpo no ritmo da música.

Eduarda sentou-se no sofá de couro, encolhida. O barulho a agredia, e a forma como Sara interagia com o ambiente a deixava enojada. Sara começou a dançar de forma provocante na frente de Emanuel, ignorando completamente a presença da outra namorada.

— Vamos, Manu! Deixa de ser travado — gritou Sara por cima do som, passando as mãos pelo abdômen dele. — Esquece a museóloga ali no canto. Ela já teve a dose de cultura dela, agora é a minha vez de ter você.

Sara virou-se para Eduarda, com um sorriso cruel nos lábios pintados de vermelho.

— O que foi, Duda? Está triste porque aqui ninguém se importa com o seu "olhar sensível"? Aqui, se você não se mexe, você é invisível. Mas tudo bem, eu brilho por nós duas. Você nasceu para ser sombra, eu nasci para ser o sol.

Eduarda sentiu algo romper dentro de si. A humilhação da noite inteira, o cansaço de ser sempre a "compreensiva" e a "frágil" diante da agressividade de Sara transbordaram. Ela se levantou, os olhos injetados, encarando a loira que exalava uma vulgaridade calculada.

— Você não é o sol, Sara — disse Eduarda, a voz saindo cortante, audível mesmo sob o grave do som. — Você é só barulho. Você se veste como se estivesse à venda, se comporta como se precisasse de validação de cada homem neste lugar para se sentir viva. Você me chama de falsa, mas olha para você. É tudo plástico, por dentro e por fora.

Sara arqueou uma sobrancelha, visivelmente surpresa com a reação, mas mantendo o sorriso de escárnio.

— Ah, a gatinha tem unhas? Que fofo. Continua, querida. Solta essa frustração de quem não tem metade da minha bunda nem um terço do meu fogo.

— Fogo? — Eduarda soltou uma risada amarga, as lágrimas de raiva escorrendo. — Você não tem fogo, Sara. Você tem desespero. Você é vulgar, barata. Emanuel te trata bem por pena, porque sabe que, se tirar o dinheiro e o luxo dele, você não passa de uma prostituta de luxo que ele encontrou em algum lugar qualquer!

O silêncio que se seguiu no camarote foi mais ensurdecedor que a música da pista. O rosto de Emanuel se transformou instantaneamente. A veia em sua têmpora saltou, e seu olhar, antes cansado, tornou-se gélido e autoritário.

— Eduarda! — O grito de Emanuel cortou o ar. — O que você disse?

Eduarda percebeu o erro no momento em que a palavra saiu de sua boca. Ela cambaleou para trás, a mão cobrindo os lábios, a fragilidade voltando com força total.

— Emanuel, eu... eu não quis dizer... ela me provocou...

— Eu não admito esse tipo de baixo nível — disse Emanuel, aproximando-se de Eduarda com uma postura intimidadora. — Você pode estar com raiva, pode estar chateada, mas usar uma palavra dessas? Isso é inaceitável. Eu achei que você fosse a pessoa educada e sensível desta relação.

Sara, percebendo a virada de jogo, não perdeu tempo. Ela não se sentiu ofendida de verdade; já fora chamada de coisas piores em sua ascensão social e administrativa, e tinha plena consciência do poder de sua imagem. No entanto, ver Emanuel se voltar contra "a protegida" era um prazer que ela não trocaria por nada.

Ela forçou os olhos a ficarem marejados, murchando os ombros e deixando o copo de vodka tremer levemente na mão.

— Tudo bem, Manu... — Sara disse, com a voz subitamente baixa e ferida. — Eu sei o que as pessoas pensam de mim. Eu sei que eu sou demais para ela. Mas ser chamada disso... na sua frente... dói muito. Eu só queria que a gente se divertisse.

Emanuel virou as costas para Eduarda, que agora chorava copiosamente, e envolveu Sara em um abraço protetor. Ele a apertou contra o peito, sentindo o corpo curvilíneo dela relaxar sob o seu toque.

— Calma, Sara. Eu estou aqui — murmurou ele, lançando um olhar de puro desapontamento para Eduarda. — Eu não vou deixar ninguém te desrespeitar assim, muito menos ela.

— Emanuel, por favor — implorou Eduarda, tentando tocar o braço dele. — Ela passou a noite toda me diminuindo, me chamando de morta, de manipuladora...

— E você provou que ela estava certa, não foi? — Emanuel retrucou, seco. — Você usou a sua "doçura" para esconder um veneno que eu não sabia que você tinha. Vá para o carro, Eduarda. Agora. O motorista vai te levar para casa.

— Você não vem comigo? — perguntou ela, com a voz partida.

— Eu vou ficar aqui com a Sara. Ela precisa se acalmar depois do que você fez.

Eduarda olhou para os dois. Sara estava escondida no pescoço de Emanuel, mas, por um breve segundo, ela inclinou a cabeça e olhou para Eduarda por cima do ombro dele. Não havia lágrimas nos olhos loiros; havia apenas um brilho de triunfo absoluto. Sara deu um sorriso minúsculo, quase imperceptível, antes de voltar a fingir um soluço.

Eduarda saiu do camarote, sentindo-se pequena e derrotada. Enquanto caminhava pela boate, ouvia o som da música que antes odiava, mas que agora parecia a trilha sonora de sua própria queda.

No camarote, Emanuel continuava a acariciar os cabelos de Sara.

— Você está melhor? — perguntou ele, a voz suavizando.

— Vou ficar — respondeu Sara, afastando-se o suficiente para olhar nos olhos dele, usando sua melhor expressão de vulnerabilidade fingida. — Eu só não entendo por que ela me odeia tanto. Eu tento incluir ela, tento animar a vida dela...

— Ela está insegura, Sara. Mas isso não justifica o que ela disse. Esquece isso agora. Vamos aproveitar o resto da noite, só nós dois. Eu preciso de um pouco de paz, e você é a única que não está tentando me manipular com lágrimas agora.

Sara sorriu, desta vez abertamente. Ela passou os braços pelo pescoço de Emanuel, puxando-o para um beijo quente e dominador. Enquanto o beijava, ela saboreava a vitória. Eduarda podia ter o intelecto, podia ter a "pureza" e a faculdade de História da Arte, mas Sara conhecia os homens. Ela sabia que, no final da noite, Emanuel sempre escolheria a mulher que o fazia se sentir um rei, um protetor, um homem de poder — e ninguém desempenhava esse papel melhor do que ela.

Emanuel, por sua vez, fechou os olhos e se entregou ao momento. O estresse de gerenciar seus estúdios de tatuagem pelo mundo e suas empresas era imenso, e ele só queria alguém que não o fizesse pensar. Naquele momento, o corpo de Sara e a música alta eram o anestésico perfeito para a decepção que sentia por Eduarda.

A noite seria longa, e o apartamento, quando ele voltasse, seria pequeno demais para as duas. Mas, por enquanto, ele tinha o controle. Ou, pelo menos, era o que Sara o fazia acreditar enquanto pedia outra garrafa de vodka e o arrastava para o meio da pista de dança.