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O Jogo das Sombras e do Reclame

A porta do elevador se fechou, deixando para trás o som abafado da batida eletrônica da boate. Eduarda estava sozinha no banco de trás do Uber Black, as luzes da cidade passando como borrões de neon através do vidro embaçado por suas lágrimas. O motorista mantinha um silêncio profissional, mas ela conseguia sentir o peso da própria humilhação. Emanuel a expulsara. Ele escolhera os seios de silicone e o choro falso de Sara em vez da dignidade dela.

Mas, enquanto limpava o rastro de rímel no rosto, o choro de Eduarda cessou subitamente. O olhar sensível deu lugar a algo frio e calculista. Ela conhecia Emanuel melhor do que ninguém; sabia que ele era um homem que precisava ter o controle, um tatuador que desenhava destinos na pele dos outros, mas que se perdia quando o roteiro de sua própria casa saía do trilho.

— Mude o destino, por favor — disse ela ao motorista, a voz agora firme, sem qualquer traço da gagueira manhosa de minutos atrás. — Não vamos mais para o endereço no Morumbi. Vou lhe passar um novo local.

Ela não iria para o apartamento. Não ficaria lá, esperando como uma criança castigada que ele chegasse de madrugada com o cheiro do perfume barato de Sara impregnado na camisa. Ela foi para o loft de Beatriz, uma amiga da faculdade que entendia perfeitamente as nuances de uma guerra psicológica.

Enquanto isso, na "Pulse", a vitória de Sara começava a perder o brilho. Emanuel estava fisicamente presente, segurando a cintura dela enquanto ela dançava, mas seus olhos estavam distantes. Ele checava o relógio a cada cinco minutos. A imagem de Eduarda saindo do camarote, com os ombros encolhidos e o olhar de animal ferido, começou a corroer sua irritação, transformando-a em uma culpa incômoda.

— Para de olhar para esse celular, Manu! — Sara gritou, tentando puxar o rosto dele para outro beijo. — Ela já deve estar dormindo, abraçada com algum livro de arte mofado. Esquece aquela sonsa.

Emanuel se afastou sutilmente.

— Eu mandei ela embora sozinha, Sara. Está tarde.

— Ela é adulta, Emanuel! Ou pelo menos finge ser quando quer te dar lição de moral — Sara revirou os olhos, servindo-se de mais vodka. — Bebe logo e para de ser o pai dela. Você é o namorado, não o tutor legal.

Mas o clima havia morrido para ele. Às três da manhã, Emanuel praticamente arrastou Sara para fora da boate. O silêncio no carro de volta foi preenchido apenas pelas reclamações dela sobre a noite ter acabado cedo demais. Quando entraram no apartamento, Emanuel foi direto para o quarto principal.

A cama estava perfeitamente arrumada. O pijama de seda de Eduarda estava dobrado sobre o travesseiro, exatamente como ela o deixara antes de saírem. O cheiro de lavanda ainda pairava no ar, mas o vazio era absoluto.

— Duda? — ele chamou, a voz ecoando pelo corredor silencioso.

Nenhuma resposta. Ele foi até o banheiro, depois até a sala de jantar. Nada.

— Ela não está aqui — disse ele, voltando para a sala onde Sara jogava os saltos agulha no chão com estrondo.

— Deve estar escondida no quarto de hóspedes, fazendo drama para você ir lá implorar perdão — Sara bocejou, desabotoando o vestido. — Amanhã ela aparece com aquela cara de santa sofredora. Relaxa.

Emanuel não relaxou. Ele ligou para o celular de Eduarda. Caixa postal. Ligou de novo. Desligado. Ele ligou para o motorista que deveria tê-la trazido.

— Senhor Emanuel? Sim, eu a deixei onde ela pediu... Não, não foi no seu prédio. Ela pediu para descer em Pinheiros, em frente a um prédio comercial. Ela parecia bem decidida, senhor.

O sangue de Emanuel gelou. O controle que ele tanto prezava escorregou por entre seus dedos como areia.

— Ela não voltou para casa, Sara — disse ele, a voz subindo de tom, a autoridade de tatuador rico e influente dando lugar a um desespero cru.

— Ah, que ótimo! Agora a mosca-morta resolveu fugir? — Sara riu, embora houvesse um lampejo de dúvida em seus olhos. — É só mais um truque dela, Manu. Ela quer que você fique assim, louco atrás dela.

— Se acontecer alguma coisa com ela, Sara, eu juro... — Ele não terminou a frase. Pegou as chaves do carro e saiu, deixando Sara falando sozinha no meio da sala luxuosa.

Emanuel passou o resto da madrugada rodando as ruas próximas a Pinheiros. Ligou para hospitais, para a polícia, para todos os contatos que Eduarda poderia ter. O sol começou a nascer, tingindo o céu de São Paulo de um laranja pálido, e ele ainda estava no carro, os olhos vermelhos de cansaço e a mente em colapso. Ele mandou centenas de mensagens.

"Duda, por favor, responde." "Eu errei, eu não devia ter falado daquele jeito." "Onde você está? Me atende, eu estou ficando louco."

Eduarda lia cada uma das mensagens. Ela estava sentada na varanda do loft de Beatriz, tomando um chá Earl Grey e observando o amanhecer. Seu celular estava no modo silencioso, mas a tela brilhava constantemente com o nome de Emanuel.

— Você vai deixar ele sofrer mais quanto tempo? — perguntou Beatriz, aparecendo com uma manta.

Eduarda deu um gole lento no chá, um sorriso pequeno e enigmático surgindo em seus lábios.

— O tempo necessário para ele entender que o silêncio dói muito mais do que os gritos da Sara. Ele acha que pode me descartar quando eu me defendo? Ele precisa aprender que a minha paz tem um preço alto.

O dia passou devagar. Emanuel não foi para o estúdio. Ele cancelou sessões com clientes que esperavam meses por uma vaga. Ficou sentado no sofá de casa, com a cabeça entre as mãos, ignorando as tentativas de Sara de "animá-lo" com roupas íntimas novas ou massagens. Para Emanuel, o apartamento sem Eduarda parecia um museu abandonado. Faltava a luz suave, o toque delicado, a sensação de que ele era o porto seguro de alguém.

Sara, por outro lado, estava furiosa. O plano de tirar Eduarda do caminho por uma noite havia se transformado em um pesadelo onde Emanuel só pensava na "outra".

— Chega, Emanuel! — Sara gritou às quatro da tarde, chutando uma almofada. — Ela está fazendo isso de propósito! É um jogo! Você não vê? Ela quer te ver rastejando!

Emanuel levantou o olhar, e Sara recuou um passo. Ele nunca a olhara daquela forma. Havia uma frieza cortante, uma distância intransponível.

— Se for um jogo, Sara... ela está ganhando. Porque eu daria metade dos meus estúdios agora só para ouvir a voz dela dizendo que está bem. Se você não consegue entender isso, talvez seja você quem deva sair.

Sara empalideceu. O golpe foi certeiro. Ela se calou, sentando-se no canto oposto da sala, roendo as unhas impecáveis enquanto o medo de perder sua fonte de luxo começava a superar sua arrogância.

Às sete da noite, o celular de Emanuel tocou. Não era uma chamada, mas uma localização compartilhada. Um café charmoso perto da faculdade de História da Arte.

Ele não dirigiu; ele voou.

Quando entrou no café, viu Eduarda sentada em uma mesa ao fundo. Ela vestia um suéter de lã clara e lia um livro, parecendo a criatura mais serena e intocada do mundo. Não havia vestígios de choro, apenas a doçura melancólica que ele tanto amava.

Emanuel parou diante da mesa, arfando, o cabelo bagunçado, a barba por fazer. O grande Emanuel, o homem que comandava impérios de tinta, estava trêmulo.

— Duda... — a voz dele saiu como um sussurro quebrado.

Ela levantou os olhos lentamente do livro.

— Oi, Emanuel. Você parece cansado.

— Onde você estava? Por que fez isso comigo? Eu achei que... eu achei que tivesse te perdido. Eu não dormi, eu não comi, eu quase chamei a Interpol!

Eduarda fechou o livro com delicadeza, marcando a página.

— Eu precisava pensar. Você me chamou de venenosa, Emanuel. Você me mandou embora para ficar com ela, depois de tudo o que eu aguentei em silêncio.

— Eu sei, eu fui um idiota! — Ele se ajoelhou ao lado da cadeira dela, sem se importar com os outros clientes do café. Pegou a mão dela e a beijou fervorosamente. — Eu perdi a cabeça, o estresse, a Sara me pressionando... mas nada justifica. Por favor, volta para casa. Eu não consigo ficar naquele lugar sem você.

Eduarda acariciou o rosto dele com a ponta dos dedos. Ela sentia o poder vibrando sob sua pele. Sara achava que a vulgaridade e o confronto direto eram as armas mais fortes, mas Eduarda sabia que a ausência e a fragilidade estratégica eram letais.

— Eu não sei se consigo voltar, Emanuel — ela disse, fazendo um biquinho manhoso, os olhos voltando a brilhar com lágrimas prontas para cair. — Eu me senti tão desprotegida. Você é o meu mundo, e de repente você se voltou contra mim por causa dela.

— Nunca mais — prometeu ele, a voz firme. — Eu vou colocar limites na Sara. Ela não vai mais encostar um dedo na sua autoestima. Eu juro. Eu faço o que você quiser. Só não me deixa mais assim. Eu imploro, Duda.

Eduarda deixou uma lágrima solitária cair, a "lágrima de crocodilo" que Sara tanto odiava, mas que para Emanuel era um comando de rendição total.

— Você promete que vai me levar naquela exposição de Renoir amanhã? Só nós dois? Sem boates, sem gritos?

— Prometo. Prometo tudo o que você quiser.

— E você vai dizer para a Sara que, se ela me ofender de novo, ela vai ter que procurar outro lugar para morar?

Emanuel hesitou por um milésimo de segundo, mas o medo de voltar para aquele apartamento vazio foi maior.

— Vou. Eu vou deixar bem claro quem manda naquela casa.

Eduarda sorriu internamente. Ela se inclinou e beijou os lábios de Emanuel, um beijo casto e doce que o fez suspirar de alívio.

— Então vamos para casa, meu amor. Eu senti sua falta.

Quando chegaram ao apartamento, Sara estava na sala, pronta para disparar uma saraivada de insultos. Mas, ao ver a expressão de Emanuel e a forma como ele segurava Eduarda — como se ela fosse uma relíquia de vidro que pudesse quebrar a qualquer momento —, ela travou.

Eduarda passou por Sara com um olhar baixo, parecendo a mesma menina tímida de sempre. Mas, ao passar pelo ombro da loira, Eduarda sussurrou, tão baixo que apenas Sara pôde ouvir:

— O teatro foi maravilhoso, Sara. Mas o segundo ato... o segundo ato foi o meu favorito.

Sara sentiu um calafrio. Ela olhou para Emanuel, que estava ocupado tirando o casaco de Eduarda e perguntando se ela queria um chá ou um banho quente, ignorando completamente a presença da loira siliconada.

Naquela noite, Emanuel dormiu com Eduarda em seus braços, sentindo-se o homem mais sortudo do mundo por ter recuperado sua "pequena". No quarto de hóspedes, Sara bufava de ódio, percebendo que sua vulgaridade havia perdido para a seda fina e silenciosa de Eduarda.

A guerra estava longe de terminar, mas Eduarda agora sabia exatamente como mover as peças. Se Sara era o fogo que queimava, ela era a água que afogava — silenciosa, profunda e impossível de controlar. E Emanuel, no centro de tudo, continuava acreditando que era ele quem mantinha o equilíbrio, sem perceber que era apenas o prêmio em um tabuleiro onde a timidez era a jogada mais agressiva de todas.