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D

Ouro e Espinhos

O silêncio matinal no apartamento de Emanuel era uma ilusão frágil, como uma película de gelo sobre um lago prestes a romper. Ele observava o reflexo do sol nas janelas panorâmicas enquanto terminava seu café preto, sentindo o peso habitual nos ombros. A noite anterior com Eduarda fora calma, preenchida por sussurros e a suavidade da seda, mas o olhar de Sara no corredor, gélido e ressentido, ainda queimava em sua memória.

Emanuel sabia que estava em dívida. Nos últimos dias, ele havia se inclinado demais para o lado da "paz" de Eduarda, deixando Sara à deriva em sua própria fúria e carência. Como um homem prático, um tatuador que entendia que cada marca na pele tinha um preço e uma intenção, ele decidiu que era hora de reequilibrar a balança.

Ele saiu cedo e voltou antes do almoço com uma sacola de veludo de uma das joalherias mais exclusivas da Oscar Freire. Dentro, um bracelete de ouro maciço, cravejado com pequenos diamantes que brilhavam com a mesma intensidade agressiva de Sara.

Ao entrar na sala, encontrou a cena típica. Eduarda estava sentada na poltrona perto da janela, com um caderno de esboços no colo, desenhando distraída enquanto ouvia música clássica nos fones de ouvido. Sara estava no sofá oposto, lixando as unhas com uma energia nervosa, usando um conjunto de academia de cor neon que deixava muito pouco para a imaginação.

— Cheguei — anunciou Emanuel, colocando a chave sobre o balcão.

Sara nem levantou os olhos, mas parou de lixar a unha. Eduarda tirou os fones e sorriu para ele, aquele sorriso doce e contido que sempre o desarmava.

— Oi, Manu — sussurrou Eduarda, fechando o caderno. — Você parece menos cansado hoje.

— Eu tive uma manhã produtiva — disse ele, caminhando em direção a Sara.

Ele parou diante dela e estendeu a sacola de veludo. Sara finalmente olhou para cima, as sobrancelhas arqueadas, a máscara de indiferença começando a rachar.

— O que é isso? — perguntou ela, a voz carregada de um sarcasmo defensivo. — Algum suborno para eu não quebrar os vasos da sala hoje?

— É um presente, Sara. Porque eu sei que ando meio ausente.

Ela pegou a sacola com rapidez, os dedos longos e bem feitos abrindo o estojo. Quando o ouro brilhou sob a luz da sala, os olhos de Sara se iluminaram. Ela soltou um suspiro de satisfação genuína, deslizando a joia pelo pulso. O bracelete realçava o tom bronzeado de sua pele e combinava perfeitamente com sua aura de exuberância.

— Meu Deus, Emanuel... é lindo — disse ela, levantando-se e jogando os braços ao redor do pescoço dele, o perfume doce inundando os sentidos do homem. — Você finalmente lembrou que eu gosto de brilhar, não de ficar mofando no escuro.

Emanuel retribuiu o abraço, sentindo o corpo firme e curvilíneo de Sara contra o seu. Por um momento, ele sentiu que tinha resolvido o problema. Mas o silêncio que veio do canto da sala foi mais alto do que qualquer grito de Sara.

Eduarda ainda estava sentada na poltrona. Suas mãos, antes ocupadas com o caderno, agora estavam entrelaçadas com força no colo. Ela não disse nada, mas seus olhos grandes começaram a brilhar com aquela umidade familiar. Ela olhou para o bracelete no pulso de Sara e depois para as próprias mãos vazias.

— Que bom que você gostou, Sara — disse Eduarda, a voz tão baixa que quase se perdeu no ar. — É realmente... muito chamativo. Combina com você.

Sara se afastou de Emanuel, exibindo o pulso como um troféu de guerra.

— É claro que combina, querida. Ouro de verdade é para quem tem presença. Não é qualquer um que consegue carregar uma peça dessas sem parecer que está sendo engolido por ela.

— Sara, não começa — avisou Emanuel, sentindo o estresse voltando a subir pela nuca.

— Eu não estou começando nada! — Sara riu, vitoriosa. — Só estou apreciando o bom gosto do meu homem. Pelo menos hoje ele não trouxe um livro de poesia de segunda mão ou uma flor seca de jardim. Ele trouxe algo que tem valor.

Eduarda se levantou lentamente. Ela parecia menor do que o normal, os ombros levemente caídos. Ela caminhou até Emanuel e tocou suavemente o braço dele.

— Eu fico feliz por você, Manu. Se isso te faz sentir melhor por ter me dado tanta atenção ontem, eu entendo. Você é sempre tão generoso.

O comentário de Eduarda foi como uma agulha fina espetando a bolha de felicidade de Sara. A loira estreitou os olhos.

— O que você quer dizer com "se sentir melhor", sua sonsa?

— Nada, Sara — respondeu Eduarda, fazendo um carinho manhoso no braço de Emanuel, os olhos voltados para ele com uma adoração quase infantil. — É que o Manu é tão sensível... ele se sente culpado com facilidade. Ontem à noite foi tão especial, nós conversamos tanto sobre o futuro... Eu imagino que ele tenha sentido que precisava compensar você de alguma forma, já que você ficou sozinha.

Emanuel sentiu o impacto do golpe. Eduarda, com sua voz de anjo, acabara de transformar o presente caro de Sara em uma "esmola de consolação".

— Compensar? — Sara deu um passo à frente, a voz subindo de oitavas. — Você acha que ele me deu isso por pena? Emanuel me deu isso porque eu sou a mulher que ele quer ver brilhando ao lado dele! Não uma sombra que vive escondida atrás de cardigãs bege!

— Eu nunca disse isso, Sara... — Eduarda recuou, escondendo o rosto no ombro de Emanuel, o corpo começando a tremer levemente. — Por que você sempre grita comigo? Eu só estava elogiando o gesto do Manu.

— Você estava era sendo uma cobra manipuladora! — gritou Sara, apontando o dedo para a outra. — Emanuel, você não vê? Ela faz isso toda vez! Ela morde e depois se esconde atrás de você chorando!

— Chega! — Emanuel explodiu, afastando as duas. — Eu não aguento mais! Eu saio para trabalhar, eu tento agradar, eu tento manter esse apartamento funcional, e em cinco minutos vocês transformam um presente de milhares de reais em um motivo para gritaria!

— Ela começou! — disse Sara, os seios subindo e descendo com a respiração acelerada. — Ela desmereceu o meu presente!

— Eu não desmereci... — soluçou Eduarda, as lágrimas agora correndo livremente. — Eu só queria que as coisas fossem simples, Manu. Eu não preciso de ouro. Eu só preciso de você. Mas a Sara... ela faz tudo parecer uma competição por dinheiro e status.

Eduarda se sentou no chão, perto do sofá, abraçando os próprios joelhos em uma posição de extrema vulnerabilidade. Era a imagem perfeita do abandono. Emanuel olhou para ela e sentiu aquele instinto protetor esmagador, aquele que o fazia esquecer a lógica e focar apenas na dor daquela criatura frágil.

— Duda, levanta daí — disse ele, a voz suavizando apesar da raiva.

— Não... eu vou para o meu quarto — murmurou ela, a voz embargada. — Eu não quero atrapalhar o momento de vocês. Aproveite seu bracelete, Sara. Ele é lindo, de verdade. Desculpe se eu sou sensível demais para este lugar.

Ela se levantou com dificuldade, como se o peso da tristeza fosse físico, e caminhou em direção ao corredor sem olhar para trás.

Emanuel ficou parado no meio da sala, olhando para a porta por onde Eduarda desaparecera e depois para Sara, que ainda exibia o bracelete, mas agora com uma expressão de fúria frustrada.

— Viu só? — Sara cruzou os braços. — Agora você vai lá atrás dela, não vai? Vai pedir desculpas por ter me dado um presente. É patético, Emanuel.

— Eu não vou pedir desculpas por te dar um presente, Sara — disse ele, a voz fria. — Mas eu vou pedir desculpas pelo clima que você criou. Você não consegue receber nada sem atacar a Eduarda?

— Eu atacar? Ela que me chamou de carente de atenção nas entrelinhas! Aquela garota é um veneno destilado em conta-gotas, Emanuel! E você bebe tudo achando que é água benta!

— Cala a boca, Sara. Apenas... cala a boca.

Emanuel caminhou até o quarto de Eduarda. Ele a encontrou deitada na cama, de lado, com o rosto enterrado no travesseiro. O som dos soluços baixinhos era a única coisa audível no quarto na penumbra. Ele se sentou na beirada da cama e colocou a mão sobre o quadril dela.

— Pequena... não fica assim.

Eduarda se virou, os olhos vermelhos e o nariz rosado, parecendo uma criança perdida.

— Eu me sinto tão mal, Manu — sussurrou ela, pegando a mão dele e levando-a até o rosto. — Eu sinto que eu estrago tudo com a minha insegurança. Eu só queria ser forte como a Sara, sabe? Ter aquela confiança, não me importar com o que os outros dizem... mas dói. Dói quando ela insinua que eu sou um fardo para você.

— Você não é um fardo, Duda. Nunca.

— Mas eu não te dou presentes caros, eu não saio para boates... eu só tenho o meu amor e esses momentos calmos. Às vezes eu acho que você vai se cansar de mim e ficar só com ela, porque ela é... mais emocionante.

Emanuel sentiu o coração apertar. Ele a puxou para o colo, abraçando-a com força. Eduarda se aninhou nele, escondendo o rosto em seu pescoço, o corpo esguio relaxando sob o toque dele.

— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu ele. — Eu amo o seu silêncio, Duda. Eu preciso dele para não enlouquecer.

Enquanto isso, na sala, Sara ouvia o murmúrio das vozes vindo do quarto. Ela olhou para o bracelete de ouro em seu pulso. Ele era pesado, brilhante e caro, mas, naquele momento, parecia frio. Ela sentia uma inveja corrosiva da facilidade com que Eduarda conseguia a atenção total de Emanuel apenas chorando.

Sara caminhou até a porta do quarto, que estava entreaberta. Ela viu a cena: Emanuel balançando Eduarda como se ela fosse um tesouro precioso, sussurrando palavras de conforto que ela nunca recebia daquela forma. Para Sara, o afeto de Emanuel era sempre uma conquista, uma batalha de vontades, um prêmio por sua exuberância. Para Eduarda, parecia ser um direito natural.

— Que cena patética — disse Sara, encostada no batente da porta, a voz carregada de veneno.

Emanuel levantou os olhos, a expressão endurecendo.

— Sai daqui, Sara.

— Ah, claro. O mestre está cuidando da sua bonequinha de porcelana. Sabe o que é mais engraçado, Eduarda? — Sara deu um passo para dentro do quarto, o bracelete brilhando agressivamente. — Você se faz de coitadinha, mas você é a pessoa mais egoísta que eu conheço. Você não deixou o Emanuel aproveitar um segundo do prazer de me dar esse presente. Você teve que sugar o oxigênio da sala para que todos olhassem para você.

Eduarda encolheu-se ainda mais nos braços de Emanuel.

— Eu não fiz nada... eu só fiquei triste...

— Você é uma parasita emocional! — gritou Sara. — Emanuel, olha para ela! Ela está adorando isso! Ela está adorando ver você brigando comigo por causa dela!

— Sara, chega! — Emanuel se levantou, colocando Eduarda delicadamente na cama. — Você vai sair deste quarto agora, ou eu juro que pego esse bracelete e jogo pela janela!

Sara deu uma risada histérica.

— Ah, agora a culpa é do bracelete? A culpa é da joia que você comprou porque não aguenta mais o peso dessa guria morta nas suas costas?

Emanuel caminhou até Sara, sua altura e presença física forçando-a a recuar.

— Eu comprei o bracelete porque eu amo você, Sara. Mas o seu comportamento está tornando impossível amar qualquer coisa em você agora. Vá para o seu quarto. Resfrie a cabeça. Ou a próxima sacola que eu trouxer para casa vai ser para você guardar suas coisas e ir embora.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara olhou para Emanuel, buscando algum traço de blefe em seus olhos escuros. Não encontrou nenhum. Ele estava no seu limite. O tatuador controlador e prático estava de volta, e ele não estava aceitando negociações.

Sara engoliu em seco, a confiança vacilando pela primeira vez. Ela olhou para Eduarda, que a observava por cima do travesseiro com um olhar que Sara poderia jurar que continha uma ponta de satisfação vitoriosa.

Sem dizer mais nada, Sara girou nos calcanhares e saiu, o som de seus passos pesados ecoando pelo corredor até que a porta de seu quarto batesse com força.

Emanuel suspirou, fechando os olhos por um longo momento. Ele sentia que estava tentando apagar um incêndio em uma refinaria de petróleo usando apenas um copo de água. Ele voltou para a cama e se deitou ao lado de Eduarda, que imediatamente se arrastou para perto dele, entrelaçando suas pernas nas dele.

— Ela me odeia, Manu — sussurrou Eduarda, a voz rouca de tanto chorar. — Ela nunca vai me aceitar.

— Ela vai ter que aceitar, Duda. Ou as coisas vão ter que mudar drasticamente por aqui.

— Você não vai mandar ela embora, vai? — perguntou ela, com uma ponta de esperança mal disfarçada.

— Eu não quero chegar a esse ponto. Eu gosto da energia dela, da vida que ela traz... mas este apartamento está ficando pequeno demais para tanto conflito.

Eduarda não disse mais nada. Ela apenas apoiou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração de Emanuel. Ela sabia que tinha vencido mais uma batalha. Sara tinha o ouro, mas ela tinha o homem. Ela tinha o controle das emoções dele, a capacidade de fazê-lo sentir-se essencial e protetor.

No outro quarto, Sara descontava sua raiva na parede, socando o travesseiro. Ela olhou para o bracelete novamente. Ela o amava, mas ele agora era um lembrete constante de que, no jogo de Emanuel, o brilho incomodava, e a sombra acolhia.

A "terceira guerra" havia terminado em um cessar-fogo armado. Emanuel, exausto, acabou pegando no sono com o cheiro de lavanda de Eduarda nos pulmões, sem saber que, na cozinha, Sara já planejava sua próxima jogada. Ela não seria expulsa. Ela não seria ignorada. Se Eduarda queria jogar com a fragilidade, Sara jogaria com o desejo.

O apartamento estava em silêncio, mas era o silêncio de uma mina terrestre esperando pelo próximo passo. E Emanuel, o mediador cansado, era quem carregava o peso de todos os explosivos.