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Mármore, Luar e Manha
O silêncio do café da manhã no apartamento de Emanuel foi quebrado não por um grito de Sara ou por um soluço de Eduarda, mas por um entusiasmo contido que brilhava nos olhos da mais jovem. Eduarda segurava o celular com as duas mãos, os dedos pequenos tremendo levemente de excitação, enquanto um panfleto digital brilhava na tela.
— Emanuel, você não vai acreditar! — exclamou ela, a voz subindo um tom, o que para os padrões de Eduarda era o equivalente a um grito de guerra. — A faculdade de Belas Artes organizou um tour noturno. Mas não é qualquer tour. É à meia-noite, no Cemitério da Consolação!
Sara, que estava ocupada retocando o gloss labial enquanto conferia suas próprias curvas em um espelho de mão, parou o movimento no meio do caminho. Ela arqueou uma sobrancelha loira e perfeitamente desenhada, lançando um olhar de puro deboche para a outra.
— No cemitério? À meia-noite? — Sara soltou uma risada anasalada, fazendo o bracelete de ouro tilintar. — O que você vai fazer lá, Eduarda? Pedir dicas de moda para os cadáveres? Porque, olha, o estilo deles combina bastante com esses seus vestidos de vovó.
Eduarda nem sequer se sentiu ofendida, o que por si só já era um sinal de que ela estava em outro mundo.
— É sobre arte tumular, Sara! — explicou ela, os olhos brilhando. — A arquitetura dos mausoléus, o simbolismo das esculturas de bronze, a influência do barroco na arte da morte... e depois eles vão contar lendas urbanas e histórias de terror locais. É o paraíso para qualquer estudante de História da Arte!
Emanuel, que estava terminando de ler um e-mail sobre o fornecimento de tintas para seu estúdio em Londres, levantou o olhar. Sua expressão era a de quem acabara de ouvir que o céu ficaria roxo.
— De jeito nenhum, Eduarda — sentenciou ele, a voz firme e prática. — Meia-noite? No centro da cidade? Em um cemitério? É perigoso, é escuro e é, no mínimo, uma ideia mórbida.
Eduarda murchou por apenas um segundo, antes de colocar em prática sua arma mais poderosa: a persistência silenciosa. Ela se levantou, caminhou até Emanuel e sentou-se no braço da poltrona dele, inclinando o corpo para que seu perfume suave de lavanda o envolvesse.
— Manu... por favor — começou ela, a voz baixinho, quase um ronronar. — Vai ser tudo organizado. Tem seguranças da universidade, guias especializados... Eu esperei por isso o semestre inteiro. Você sabe como eu amo cemitérios. Eles são tão... calmos.
— Calmos porque todo mundo lá já morreu, querida — interrompeu Sara, levantando-se e caminhando até a cozinha para pegar um suco. — Mas os vivos que ficam rondando o lado de fora não são nada calmos. Emanuel tem razão. Você é uma mosca-morta, Eduarda. Se um fantasma soprar no seu pescoço, você desmaia e o Manu vai ter que gastar uma fortuna em terapia para você.
Eduarda ignorou Sara, focando toda a sua energia em Emanuel. Ela começou a brincar com o colarinho da camisa dele, os dedos pequenos roçando a pele da nuca dele, um gesto que ela sabia que o desarmava.
— Eu não sou frágil assim — murmurou ela, fazendo um biquinho manhoso. — E eu vou estar com o meu grupo de estudos. Por favor, me deixa ir? Eu prometo que mando localização em tempo real a cada dez minutos.
— Não — repetiu Emanuel, embora o "não" já estivesse soando menos autoritário e mais como uma súplica por paz. — Meia-noite não é hora de uma menina como você estar em um cemitério vendo estátua de anjo triste. Se você quer ver arte, eu te levo ao MASP amanhã à tarde. Com luz, segurança e ar-condicionado.
Eduarda suspirou pesadamente, afastando-se dele. Ela cruzou os braços sobre o peito esguio e caminhou até a janela, olhando para a rua com uma expressão de mártir incompreendida.
— Tudo bem — disse ela, o tom de voz subitamente gélido, mas ainda doce. — Eu entendo. Você não confia na minha maturidade. Você me trata como uma criança, enquanto para a Sara você dá toda a liberdade do mundo para ela voltar às seis da manhã de boates onde as pessoas usam coisas muito mais perigosas do que histórias de terror.
Sara parou com o copo de suco na mão, os olhos faiscando.
— Ei! Não me mete no seu fetiche por defunto não, ô do museu! Eu volto às seis da manhã porque eu sei me cuidar. Eu não pareço uma boneca de porcelana que quebra se alguém olhar torto.
— Exatamente — rebateu Eduarda, virando-se para Emanuel com os olhos já marejados, a técnica perfeita de "vulnerabilidade estratégica". — Você confia nela porque ela é barulhenta e agressiva. Mas eu, só porque sou quieta e gosto de coisas profundas, sou proibida de viver minha paixão acadêmica. Eu vou de qualquer jeito, Emanuel. Eu já paguei a inscrição.
Emanuel massageou as têmporas. Ele conhecia aquele tom. Quando Eduarda parava de pedir e começava a "bater o pé" de forma mansa, a situação estava prestes a se tornar um drama de três dias de silêncio e olhares tristes.
— Você vai "de qualquer jeito"? — Emanuel arqueou uma sobrancelha. — E como você pretende chegar lá?
— Eu pego um Uber — disse ela, com uma determinação que beirava o cômico. — Eu não preciso que ninguém me leve. Eu sou uma mulher independente, estudante de História da Arte, e os túmulos da família Matarazzo estão me esperando.
Sara soltou uma gargalhada alta, quase engasgando com o suco.
— Independente! — debochou a loira. — Emanuel, olha para ela! Ela está tremendo só de falar em pegar um Uber para o centro à noite. Eduarda, se um morador de rua te pedir um real, você entrega a bolsa, o celular e pede desculpas por não ter mais!
— Eu não tenho medo! — protestou Eduarda, embora suas mãos realmente estivessem um pouco trêmulas. — A arte exige sacrifícios. E eu vou.
Emanuel suspirou, derrotado pela combinação de teimosia silenciosa de Eduarda e a provocação incessante de Sara. Ele sabia que, se não cedesse, Eduarda ficaria "murcha" por uma semana, e o clima no apartamento ficaria insuportável.
— Tudo bem — cedeu Emanuel, levantando as mãos em sinal de rendição. — Você vai. Mas eu vou te levar. E eu vou ficar esperando no carro, na porta do cemitério, até esse tour acabar.
Os olhos de Eduarda brilharam instantaneamente, e ela correu para os braços de Emanuel, cobrindo seu rosto de beijos.
— Obrigada, obrigada, obrigada! Você é o melhor namorado do mundo!
Sara revirou os olhos, mas havia um brilho de curiosidade em seu olhar. Ela não admitiria nunca, mas a ideia de ver Eduarda morrendo de medo entre túmulos era tentadora demais para ignorar.
— Ah, não. Se você vai ficar lá plantado na porta do cemitério como um motorista de funerária, eu também vou — anunciou Sara, ajeitando o cabelo loiro. — Eu não vou ficar aqui sozinha enquanto vocês dois saem para um encontro romântico com o Zé do Caixão.
Emanuel olhou para Sara, incrédulo.
— Você odeia cemitérios, Sara. Você disse que tinha cheiro de mofo e tristeza.
— E tem! Mas eu quero ver a cara da Eduarda quando as luzes se apagarem. Vai ser melhor que qualquer filme de comédia. Além disso, eu comprei um conjunto de couro novo que ficaria ótimo sob a luz da lua. Se é para ir ao cemitério, eu vou ser a viúva mais gostosa que aquele lugar já viu.
Eduarda olhou para Sara com um misto de irritação e aceitação.
— Tudo bem, Sara. Você pode ir. Mas tem que prometer que não vai ficar rindo alto ou falando no celular enquanto o guia estiver explicando sobre a transição do neoclássico para o ecletismo tumular.
— Bla, bla, bla — Sara fez um gesto de "fala com a minha mão". — Eu só vou para garantir que nenhum fantasma te leve, porque eu ainda não terminei de te irritar nesta vida.
Às onze e meia da noite, o trio saiu do apartamento. Emanuel vestia um jeans escuro e uma jaqueta de couro, mantendo seu ar prático e protetor. Eduarda parecia ter saído de um romance gótico: usava um vestido longo de veludo azul-marinho, um cardigã de renda e carregava uma pequena lanterna vintage que ela comprara especialmente para a ocasião. Sara, por outro lado, parecia pronta para uma festa VIP em uma mansão assombrada: botas de cano alto, uma calça de couro camurça curtíssima e um top que realçava seus seios siliconados de forma quase escandalosa para um ambiente sagrado.
— Sara, você vai mesmo assim? — perguntou Emanuel, olhando para o decote dela enquanto entravam no elevador. — É um cemitério, não a inauguração da "Pulse".
— Querido, se os mortos puderem ver, eles vão agradecer pelo privilégio — respondeu ela, piscando para o próprio reflexo no espelho. — E se houver algum vampiro bonitão lá dentro, eu quero estar preparada.
Ao chegarem ao Cemitério da Consolação, o clima era exatamente o que Eduarda esperava: neblina baixa, portões de ferro imensos e o silêncio pesado que só um lugar com milhares de histórias enterradas poderia ter. O grupo da faculdade já estava reunido, uma mistura de estudantes de óculos e professores com cara de sono.
— Eu volto em duas horas — disse Eduarda, dando um beijo rápido em Emanuel. — Não se preocupem, eu estou com o meu guia de bolso e a lanterna.
— Se você gritar, eu entro derrubando o portão — avisou Emanuel, sério.
— E se você vir uma loira correndo mais rápido que o Usain Bolt, sou eu indo embora sem olhar para trás — completou Sara, encostada no carro, já começando a se sentir desconfortável com os sons das corujas.
Eduarda se juntou ao grupo e o tour começou. Emanuel e Sara ficaram no carro, estacionados logo à frente do portão principal. O silêncio dentro do veículo era quebrado apenas pelo som do rádio em volume baixo.
— Ela é louca — murmurou Sara, observando a silhueta de Eduarda desaparecer entre os túmulos. — Quem em sã consciência gosta de passear onde as pessoas apodrecem?
— Ela vê beleza onde a gente vê medo, Sara — respondeu Emanuel, olhando fixamente para o portão. — É o jeito dela. Ela é sensível a essas coisas.
— Sensível ou perturbada? — Sara bufou, mas logo se aproximou de Emanuel, colando seu corpo ao dele no banco de couro do carro. — Está um pouco frio aqui fora, não acha?
Emanuel sorriu, passando o braço pelos ombros dela.
— Você só está com medo, Sara. Admita.
— Eu? Medo? — Ela riu, mas se encolheu quando um galho seco estalou nas proximidades. — Eu só acho que este lugar precisa de mais iluminação. E de um DJ.
Enquanto isso, dentro do cemitério, Eduarda estava em êxtase. O guia falava sobre a escultura de um anjo de mármore carrara, e ela anotava tudo em seu caderninho, a luz da lanterna iluminando as páginas de forma dramática. No entanto, conforme o grupo se aprofundava nas alamedas mais antigas, o clima de "histórias de terror" começou a tomar conta.
— Dizem que, nesta quadra — começou o guia, baixando a voz —, o vigia noturno costuma ouvir o som de um piano tocando dentro de um dos mausoléus selados.
Eduarda sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela amava a estética, mas sua imaginação era fértil demais. De repente, um gato preto cruzou o caminho, derrubando uma pequena placa de metal de um túmulo próximo. O som metálico ecoou no silêncio da noite.
— Ai! — Eduarda soltou um ganido baixo, dando um pulinho e agarrando o braço do estudante mais próximo, um rapaz de óculos fundo de garrafa que ficou instantaneamente vermelho.
Ela respirou fundo, tentando recuperar a compostura. "É apenas História da Arte, Eduarda. É apenas arquitetura", repetia para si mesma. Mas, quando o guia começou a falar sobre a "Loira do Banheiro" que supostamente teria sido enterrada ali perto, a imagem de Sara veio à sua mente, e ela quase riu de nervoso.
Lá fora, Sara estava perdendo a paciência.
— Já faz uma eternidade! — reclamou ela. — Emanuel, vamos entrar. Eu quero ver se ela já desmaiou.
— Sara, a gente prometeu esperar aqui.
— Ah, por favor! Eu estou com cãibra nas pernas. Vamos dar só uma voltinha na entrada, só para ver o movimento dos fantasmas.
Emanuel, também curioso e um pouco preocupado com o silêncio absoluto lá dentro, acabou cedendo. Eles saíram do carro e caminharam até o portão, que estava apenas encostado para o grupo. Entraram silenciosamente, Sara agarrada ao braço de Emanuel com tanta força que as unhas dela quase atravessavam a jaqueta dele.
— Olha lá o grupo — sussurrou Emanuel, apontando para uma luz de lanternas a uns cinquenta metros de distância.
Eles começaram a caminhar pelas sombras, tentando não ser notados. Sara, no entanto, não era feita para a discrição. Seus saltos agulha estalavam no calçamento de pedra como tiros.
— Sara, tira os sapatos! — sibilou Emanuel.
— Eu não! Você tem ideia de quanto custou este salto? Eu não vou pisar no chão de cemitério descalça e pegar uma micose fantasmagórica!
Nesse momento, Eduarda, que estava um pouco afastada do grupo para observar um detalhe em um baixo-relevo, ouviu os estalos. Ela congelou. O guia acabara de mencionar a lenda de um espírito que caminhava com passos pesados em busca de sua joia perdida.
Eduarda virou a lanterna para a direção do som. A luz atingiu em cheio o rosto de Sara, que estava com uma expressão de pânico misturada com irritação, e o bracelete de ouro em seu pulso brilhou intensamente.
— O ESPÍRITO! — gritou Eduarda, perdendo toda a sua pose de intelectual. — ELA VOLTOU PELO OURO!
Eduarda saiu correndo em direção ao grupo, tropeçando no próprio vestido de veludo. Emanuel e Sara, assustados com o grito dela, também começaram a correr, mas na direção contrária, achando que Eduarda estava fugindo de algo realmente perigoso.
— CORRE, EMANUEL! — gritou Sara, esquecendo o salto e disparando como uma atleta. — O CEMITÉRIO ESTÁ ASSOMBRADO!
O caos foi instantâneo. O grupo de estudantes, ao ouvir os gritos e ver vultos correndo nas sombras, também entrou em pânico. Lanternas voavam para todos os lados, pessoas tropeçavam em coroas de flores e o guia tentava desesperadamente manter a ordem.
Emanuel finalmente conseguiu alcançar Eduarda, que estava escondida atrás de um túmulo de granito, tremendo como uma folha.
— Duda! Sou eu! — exclamou ele, segurando-a pelos ombros.
Eduarda olhou para cima, ofegante, e viu Sara logo atrás dele, bufando e segurando um dos sapatos na mão.
— Você... vocês? — Eduarda piscou, as lágrimas de susto ainda nos olhos. — O que vocês estão fazendo aqui dentro? Eu pensei que era a assombração da joia!
— Assombração da joia é a sua mãe, Eduarda! — disparou Sara, tentando recuperar o fôlego e ajeitando o decote. — Você quase me matou de susto! Eu ouvi você gritando e achei que um zumbi estava te comendo!
Emanuel olhou para as duas, o pânico dando lugar a uma vontade incontrolável de rir. Ali estavam elas: Eduarda, a gótica de boutique, abraçada a um túmulo; e Sara, a Barbie do submundo, descalça em um cemitério, segurando um salto agulha como se fosse uma adaga.
— Parabéns às duas — disse Emanuel, rindo abertamente agora. — Vocês acabaram de expulsar metade da faculdade de Belas Artes do cemitério. O tour acabou.
Eduarda olhou ao redor e viu o grupo se dispersando rapidamente em direção à saída, os professores reclamando da falta de compostura dos jovens. Ela olhou para Emanuel, depois para Sara, e começou a rir também — uma risada nervosa e aguda.
— Eu... eu acho que já vi arte o suficiente por hoje — admitiu Eduarda, limpando o vestido. — O anjo de mármore não é tão assustador quanto a Sara correndo no escuro com um brilho dourado no pulso.
— Engraçadinha — resmungou Sara, voltando a calçar o sapato. — Na próxima vez que você quiser ver morto, a gente assiste "The Walking Dead" no sofá de casa, com o ar-condicionado no máximo e uma garrafa de vinho. Eu nunca mais piso aqui.
Eles caminharam de volta para o carro, o clima de tensão transformado em uma leveza cômica. Emanuel passou os braços ao redor das duas enquanto atravessavam o portão.
— Sabe de uma coisa? — disse Emanuel. — Eu prefiro vocês duas vivas e brigando no meu ouvido do que qualquer estátua perfeita de cemitério.
Ao entrarem no carro, Eduarda se aninhou no ombro de Emanuel, ainda segurando sua lanterninha vintage.
— Manu... — chamou ela, manhosa.
— O que foi, pequena?
— Na semana que vem tem uma palestra sobre catacumbas subterrâneas...
— Nem pensar, Eduarda — disseram Emanuel e Sara ao mesmo tempo, enquanto o carro arrancava, deixando para trás os túmulos, os fantasmas e a arte, em direção à segurança barulhenta e vibrante da vida que eles compartilhavam.