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Sussurros de Mármore e Saltos Agulha

O estúdio de tatuagem de Emanuel no Morumbi era um santuário de minimalismo e precisão, mas seu apartamento era o campo de batalha onde a lógica raramente vencia. Emanuel estava sentado em sua poltrona de couro legítimo, revisando alguns esboços de uma nova série de tatuagens neo-tradicionais, quando o som de risadinhas abafadas vindo da varanda chamou sua atenção.

Eduarda estava lá com duas amigas da faculdade de História da Arte. Elas falavam baixo, mas o eco no ambiente amplo e envidraçado trazia as palavras como se fossem segredos soprados ao vento.

— ...e o guia disse que a iluminação por lanternas foca exatamente nas esculturas de Victor Brecheret — dizia Eduarda, a voz carregada de uma reverência quase mística. — É um tour exclusivo, meninas. Meia-noite. O Cemitério da Consolação vira um museu a céu aberto sob o luar. É a estética da morte em sua forma mais pura.

Emanuel sentiu um calafrio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado. Ele conhecia aquela voz manhosa de Eduarda; era a mesma que ela usava para convencê-lo a comprar livros raros ou a levá-lo a museus em dias de chuva. Mas "cemitério" e "meia-noite" eram palavras que não deveriam habitar a mesma frase que "Eduarda".

— Você tem certeza, Duda? — perguntou uma das amigas. — Dizem que aquele lugar é sinistro de madrugada.

— É arte, meninas — insistiu Eduarda, com aquela teimosia suave que Emanuel tanto conhecia. — O mármore parece ganhar vida na escuridão. Eu não perderia isso por nada. Emanuel nem vai notar se eu sair de fininho.

Emanuel arqueou uma sobrancelha. "Ah, ele vai notar", pensou ele, fechando seu tablet com um estalo seco.

Antes que ele pudesse se levantar para intervir, a porta principal se abriu com o estrondo familiar de saltos altos batendo contra o piso de porcelanato. Sara entrou, carregada de sacolas de grife, exalando um perfume importado tão forte que poderia despertar os próprios mortos de quem Eduarda falava.

— Cheguei, povo! — gritou Sara, jogando as chaves no aparador de cristal. — Manu, você não acredita no vestido que eu achei para a festa de amanhã. É tão curto que eu vou precisar de um alvará judicial para usar, mas meus peitos ficaram uma obra de arte.

Eduarda e as amigas apareceram na porta da varanda, interrompidas em seu planejamento gótico. Eduarda olhou para Sara com aquela expressão de desaprovação silenciosa, como se a loira fosse um borrão de tinta neon em uma tela de Rembrandt.

— Estamos falando de arte de verdade aqui, Sara — disse Eduarda, com um tom de superioridade acadêmica. — Não de... decotes.

Sara revirou os olhos, jogando o cabelo loiro platinado para trás.

— Ai, lá vem a museóloga de plantão. O que foi agora? Descobriu um novo tipo de mofo em algum quadro velho?

— Eduarda quer ir ao cemitério à meia-noite — interrompeu Emanuel, levantando-se e cruzando os braços sobre o peito tatuado. — Para um "tour artístico".

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som de Sara processando a informação. Então, ela soltou uma gargalhada tão alta que as amigas de Eduarda recuaram um passo.

— No cemitério? — Sara se dobrou de rir, segurando o bracelete de ouro para não fazer barulho. — À meia-noite? O que você vai fazer lá, Duda? Pedir dicas de maquiagem para os cadáveres? Porque, olha, essa sua cara pálida já está meio caminho andado!

— É sobre arquitetura tumular, Sara! — rebateu Eduarda, as bochechas ficando levemente rosadas de indignação. — É um evento acadêmico. Você não entenderia, já que sua ideia de cultura é escolher a marca da vodka no camarote.

— Olha aqui, sua mosca-morta — Sara deu um passo à frente, a postura agressiva e confiante —, eu posso não entender de defunto, mas entendo de perigo. O centro da cidade à noite não é lugar para uma menina que pede desculpas para a calçada quando tropeça.

Emanuel interveio, colocando-se entre as duas.

— Ninguém vai a cemitério nenhum à meia-noite. Eduarda, é perigoso. E Sara, pare de provocar.

Eduarda olhou para Emanuel com os olhos subitamente brilhantes, aquela umidade estratégica que sempre fazia o coração dele vacilar. Ela caminhou até ele, segurando a barra de sua camiseta com os dedos pequenos.

— Manu... por favor. O grupo de estudos vai estar lá. Tem segurança. É a única chance de ver as peças com essa iluminação. Você sabe como isso é importante para a minha tese.

— Não — disse Emanuel, tentando manter a voz firme. — Meia-noite é hora de estar na cama, não rondando túmulos.

— Viu? — zombou Sara. — Até o Manu sabe que você é uma criança que tem medo de escuro. Se um gato preto cruzar o seu caminho lá dentro, você desmaia e quem tem que carregar o corpo é o guia.

Eduarda soltou a camiseta de Emanuel, os lábios tremendo levemente. Ela não gritou. Ela apenas se encolheu, abraçando o próprio corpo, parecendo a criatura mais solitária e incompreendida do mundo.

— Tudo bem — sussurrou ela. — Eu entendo. Minha educação e meus sonhos não importam. Eu fico aqui, trancada, enquanto a Sara pode sair para onde quiser e voltar às seis da manhã cheirando a cigarro e bebida.

— Ei! — protestou Sara. — Eu sou formada em administração, querida. Eu sei gerenciar meus riscos. E eu não volto cheirando a cigarro, eu volto cheirando a sucesso!

Emanuel suspirou, sentindo a dor de cabeça começando a pulsar. Ele olhou para Eduarda, que agora parecia uma pintura de tragédia clássica, e para Sara, que exalava uma vulgaridade vibrante e desafiadora.

— Eu levo vocês — sentenciou Emanuel.

— O quê? — Sara e Eduarda perguntaram em uníssono.

— Eu levo a Eduarda ao cemitério. Eu fico no carro, na porta, esperando o tour acabar. E como eu não confio em deixar a Sara sozinha em casa com ideias de vingança, ela vai junto.

— Eu? No cemitério? — Sara fez uma careta de nojo. — Emanuel, o meu bronzeado não combina com aquele lugar. E se um fantasma puxar o meu silicone?

— Você vai, Sara. Ou ninguém sai de casa hoje — disse Emanuel, com aquele tom de autoridade que ele usava nos estúdios quando um cliente começava a dar trabalho.

Às onze e meia da noite, o trio saiu do prédio. O contraste era cômico. Eduarda vestia um vestido longo de veludo azul-marinho, um cardigã de renda e carregava uma pequena lanterna vintage. Parecia ter saído de um filme gótico de baixo orçamento. Sara, por outro lado, vestia uma calça de couro camurça tão justa que Emanuel se perguntava como ela conseguia respirar, botas de salto agulha e um top que realçava cada centímetro de suas curvas trabalhadas.

— Você vai ao cemitério ou a um teste para o clipe da Anitta? — perguntou Eduarda, enquanto entravam no carro.

— Querida, se eu morrer de susto lá dentro, quero que o meu cadáver seja o mais bem vestido daquela quadra — rebateu Sara, retocando o batom vermelho no espelho do quebra-sol.

O trajeto até o Cemitério da Consolação foi marcado por um silêncio tenso. Emanuel dirigia seu SUV preto com os olhos fixos na estrada, sentindo-se o motorista de uma excursão para o hospício. Ao chegarem, a neblina baixa e os portões de ferro imensos pareciam saídos de um pesadelo.

— É aqui — disse Eduarda, a voz carregada de uma excitação sombria. — Olha só aquela entrada neoclássica!

— Parece a entrada do inferno — murmurou Sara, agarrando o braço de Emanuel com tanta força que as unhas dela quase perfuraram a jaqueta dele. — Manu, tem certeza que não tem nenhum maníaco com uma serra elétrica lá dentro?

— É um tour cultural, Sara. Sossega — disse Emanuel, embora ele mesmo estivesse atento a qualquer movimento nas sombras do centro.

Eduarda desceu do carro, parecendo flutuar em seu vestido de veludo. Ela se juntou ao pequeno grupo de estudantes que esperava no portão. Emanuel e Sara ficaram encostados no carro.

— Eu vou com ela — anunciou Sara, subitamente.

— Você? Por quê? — Emanuel arqueou uma sobrancelha.

— Porque se aquela sonsa ver um vulto e desmaiar, eu quero estar lá para filmar e postar no Instagram. E também... — Sara olhou para os lados, a voz baixando — ...está muito escuro aqui fora. Perto daqueles estudantes nerds parece mais seguro.

Emanuel acabou cedendo. Ele trancou o carro e seguiu as duas. O tour começou com o guia falando sobre a história das famílias ricas de São Paulo e suas moradas eternas. Eduarda caminhava na frente, quase em transe, tocando o mármore frio com as pontas dos dedos e fazendo anotações em um caderninho.

— Veja, Manu — sussurrou Eduarda, puxando-o para perto de um anjo de bronze. — A pátina no metal cria uma profundidade que você nunca conseguiria no papel. É como se a dor estivesse incrustada no material.

— É, muito bonito — respondeu Emanuel, embora estivesse mais preocupado em garantir que nenhum morador de rua pulasse o muro.

Sara, por sua vez, caminhava logo atrás, os saltos agulha estalando no calçamento de pedra, o que fazia vários estudantes olharem feio para ela.

— Gente, que lugar deprimente — comentava Sara, em um volume nada discreto. — Emanuel, olha aquele túmulo ali. Tem mais ouro naquela estátua do que no meu bracelete. Será que eles não sentem falta se a gente levar um pedacinho?

— Sara! — sibilou Eduarda, virando-se com os olhos faiscando. — Respeite o ambiente! Estamos cercados de história.

— Estamos cercados de gente morta, Eduarda. E se você não calar a boca, eu vou começar a ler as datas de validade nessas placas em voz alta.

O guia parou em frente a um mausoléu imenso, cercado por correntes de ferro.

— Aqui jaz uma jovem que, diz a lenda, foi enterrada viva por engano — começou o guia, com uma voz teatral. — Dizem que, em noites de lua cheia, é possível ouvir o som de suas unhas arranhando o mármore por dentro.

Eduarda deu um passo atrás, o rosto ficando ainda mais pálido sob a luz da lua. Ela instintivamente buscou o braço de Emanuel, apertando-o com força.

— É só uma lenda, pequena — sussurrou Emanuel, sentindo o tremor dela.

Sara, percebendo a brecha, soltou uma risadinha malévola. Ela esperou o guia avançar um pouco e, aproveitando que Eduarda estava distraída olhando para uma escultura de anjo triste, aproximou-se por trás e arranhou suavemente a lateral de uma placa de metal próxima.

— *Créc... créc... créc...*

O grito que Eduarda soltou ecoou por todo o cemitério, fazendo o guia parar e três corujas levantarem voo das árvores próximas. Ela pulou no colo de Emanuel, enroscando as pernas em sua cintura como se sua vida dependesse disso.

— ELA ESTÁ ACORDANDO! MANU, TIRE-ME DAQUI! ELA ESTÁ ARRANDO!

Sara explodiu em uma gargalhada histérica, apontando para a outra.

— Ai, meu Deus! — Sara quase perdeu o fôlego. — A intelectual! A corajosa! A amante da arte! Bastou um barulhinho e ela virou um macaco de circo no colo do Emanuel!

Emanuel, segurando Eduarda com um braço enquanto tentava manter a compostura, olhou para Sara com irritação.

— Sara, isso não teve graça.

— Teve toda a graça do mundo! — rebateu Sara, limpando uma lágrima de riso que borrava seu rímel. — Ela quer ser a gótica das trevas, mas não aguenta um "créc".

Eduarda, percebendo a pegadinha, desceu do colo de Emanuel devagar. Seu rosto estava vermelho de vergonha e raiva. Ela ajeitou o vestido de veludo com uma dignidade ferida.

— Você é vulgar, Sara. Você não tem respeito pela morte, nem pela arte, nem por mim.

— Eu tenho respeito pela diversão, querida. E você é um parque de diversões completo quando está com medo.

O tour continuou, mas o clima de "reverência artística" havia sido substituído por uma tensão elétrica. Eduarda agora caminhava grudada em Emanuel, recusando-se a olhar para os lados. Sara continuava fazendo comentários sobre como os túmulos precisavam de uma reforma e como ela nunca permitiria ser enterrada em um lugar tão "cafona".

Perto do final da visita, o grupo passou por uma área onde a vegetação era mais densa. Um vento súbito soprou, fazendo as folhas secas rodopiarem.

— Manu... — sussurrou Eduarda, a voz manhosa voltando com força. — Eu acho que vi algo se mexendo ali atrás daquele mausoléu da família Matarazzo.

— É o vento, Duda — disse Emanuel, já exausto.

— Não era o vento! Era... era um vulto branco! — Ela se apertou contra ele. — Eu quero ir embora. A arte já deu o que tinha que dar. Eu já capturei a essência da melancolia.

— Ah, agora ela quer ir embora? — provocou Sara. — O que foi, o fantasma não quis tirar uma selfie com você?

Mas, naquele momento, um som real veio de trás de um dos túmulos. Um rosnado baixo, seguido pelo barulho de algo pesado se movendo entre as folhas.

Desta vez, não foi Eduarda quem gritou. Foi Sara.

— AI, MEU DEUS! É UM ZUMBI! EMANUEL, É UM ZUMBI!

Sara disparou na frente, correndo com seus saltos agulha pelo calçamento irregular com uma agilidade que desafiava as leis da física. Ela não olhou para trás, nem para Emanuel, nem para nada.

Emanuel e Eduarda ficaram parados por um segundo, até que um cachorro vira-lata, grande e peludo, saiu de trás do túmulo, abanando o rabo e esperando por comida.

Emanuel começou a rir. Não era uma risada discreta; era uma gargalhada profunda que vinha do estômago.

— O zumbi, Sara! — gritou ele, enquanto via a loira já quase no portão de saída.

Eduarda, vendo a rival fugir em pânico de um cachorro, sentiu a alma lavada. Ela se permitiu um sorriso vitorioso, embora ainda estivesse segurando o braço de Emanuel.

— Parece que a "corajosa" não gerencia tão bem os riscos assim, não é? — comentou Eduarda, com uma doçura ácida.

Quando chegaram ao carro, encontraram Sara trancada no banco de trás, com as janelas fechadas e uma expressão de puro terror.

— Abram logo essa porta! — gritou ela, a voz abafada pelo vidro. — Aquele monstro quase me pegou!

Emanuel abriu a porta e entrou no banco do motorista, ainda rindo. Eduarda sentou-se ao lado dele, com uma postura impecável.

— Era um cachorro, Sara — disse Eduarda, calmamente. — Um vira-lata. Ele parecia bem mais simpático que você, inclusive.

Sara ficou em silêncio por exatos dez segundos, antes de cruzar os braços e bufar.

— Eu não sabia! Ele era grande e tinha olhos brilhantes! E no escuro tudo parece maior. Além disso, eu estava protegendo vocês. Se fosse um monstro de verdade, eu teria distraído ele enquanto vocês fugiam.

— Claro, Sara. Correndo na direção oposta a nós — debochou Emanuel, ligando o motor.

O caminho de volta para casa foi mais animado. Eduarda, sentindo-se a vencedora da noite por ter mantido a compostura (pelo menos mais do que Sara no final), começou a dar uma aula sobre o simbolismo dos cachorros na arte tumular, citando como eles representavam a fidelidade além da morte.

Sara, por sua vez, tentava recuperar sua dignidade retocando o batom e postando uma foto da entrada do cemitério com a legenda: "Noite cultural com os meus amores. Nada me abala. #Corajosa #Arte #NoitePaulista".

Ao entrarem no apartamento, o estresse da noite parecia ter se dissipado, substituído por aquela camaradagem estranha que só um triângulo amoroso tão disfuncional poderia produzir.

— Eu vou tomar um banho de sal grosso — anunciou Sara, caminhando para o seu quarto. — Acho que peguei um encosto de mau gosto naquele lugar.

— Eu vou preparar um chá e terminar minhas anotações — disse Eduarda, dando um beijo suave no rosto de Emanuel. — Obrigada por me levar, Manu. Foi... inspirador.

Emanuel ficou sozinho na sala por um momento, olhando para o vazio. Ele pensou em como sua vida era uma sucessão de tentativas de equilibrar o veludo e o couro, o silêncio e o grito. Ele era um tatuador de renome, um homem que lidava com a dor e a permanência todos os dias, mas nada era tão permanente ou tão doloroso quanto as brigas daquelas duas.

Ele caminhou até a varanda e olhou para a cidade. De repente, ouviu um grito vindo do banheiro de Sara.

— EMANUEL! TEM UMA ARANHA NO MEU BOX! É UMA ARANHA DO CEMITÉRIO! ELA ME SEGUIU!

E logo em seguida, a voz de Eduarda, vinda da cozinha:

— Deixe a pobre aranha em paz, Sara! Ela provavelmente tem mais história que você!

Emanuel fechou os olhos e sorriu. Ele sabia que, em algum lugar entre o medo de fantasmas e o pavor de insetos, aquelas duas mulheres estranhamente se completavam — e o completavam. Ele caminhou em direção ao corredor, pronto para mediar mais uma crise, ciente de que, no seu mundo, a paz era apenas o intervalo entre dois atos de uma peça muito bem encenada.

— Já estou indo! — gritou ele. — E se a aranha for gótica, ela fica com a Eduarda!

O som das duas reclamando em uníssono foi a música que o acompanhou até o fim da noite. No final das contas, o cemitério não era tão assustador quanto a rotina de Emanuel, mas ele não trocaria aquele caos por nenhuma paz de mármore.