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Sombras de Veludo e o Vira-lata do Destino
A noite no apartamento de Emanuel havia começado com uma calmaria enganosa. Após o fiasco do cemitério na noite anterior, um silêncio tenso pairava sobre o luxuoso imóvel no Morumbi. Sara estava trancada em seu quarto, mergulhada em rituais de beleza para "expurgar a energia de mofo" que, segundo ela, havia grudado em seus poros. Emanuel, exausto pela jornada dupla de tatuador e mediador de crises, havia caído em um sono pesado no quarto principal, cercado pelo aroma de sândalo de seus umidificadores.
Eduarda, no entanto, estava bem acordada. Sentada em sua escrivaninha, ela não estudava os traços de Brecheret, mas sim uma mensagem em um grupo de WhatsApp intitulado "Curadoria do Caos".
"Duda, você não pode furar. É a 'Noite do Abismo'. Performance, arte degenerada e música industrial. O galpão na Barra Funda é secreto. Vamos passar aí em dez minutos."
Ela olhou para a porta fechada do quarto de Emanuel. Sentia uma pontada de culpa, mas a sede de rebeldia falava mais alto. Emanuel a tratava como uma boneca de porcelana que precisava de escolta até para ver túmulos; Sara a tratava como uma piada. Eduarda precisava provar a si mesma — e ao mundo — que sua sensibilidade não era sinônimo de fraqueza.
Com movimentos de uma gata furtiva, ela trocou o pijama de seda por um vestido de tule preto com várias camadas, calçou seus coturnos de plataforma e aplicou um batom em tom de vinho tão escuro que parecia preto. Por cima de tudo, um casaco longo que escondia sua silhueta.
— Desculpe, Manu — sussurrou ela, deixando um bilhete minúsculo e estratégico escondido sob o controle remoto da TV: "Fui buscar inspiração nas estrelas. Volto logo. Não se preocupe."
Ela deslizou para fora do apartamento, o coração batendo na garganta, sentindo-se a própria protagonista de um filme de espionagem gótico.
Duas horas depois, o cenário era outro. O galpão na Barra Funda cheirava a fumaça de gelo seco, tinta fresca e suor. Eduarda estava no centro de um círculo de amigos, segurando uma taça de vinho barato e discutindo como a iluminação estroboscópica era uma metáfora para a fragmentação do ego pós-moderno.
— Duda, você está radiante! — disse Beatriz, sua amiga de faculdade. — Finalmente saiu daquela redoma de vidro que o seu tatuador rico te colocou.
— Eu não estou em uma redoma, Bia — mentiu Eduarda, sentindo-se poderosa. — Eu só... escolho meus momentos. E hoje, o momento exige caos.
Enquanto isso, de volta ao Morumbi, o caos decidiu bater à porta de Emanuel de uma forma menos artística. Sara, incapaz de dormir e faminta por atenção (ou apenas por um lanche de madrugada), invadiu o quarto de Emanuel.
— Manu! Acorda! — Ela o sacudiu, usando apenas um baby-doll de renda rosa choque que desafiava a gravidade. — Eu tive um pesadelo. Aquele cachorro do cemitério tinha o rosto da Eduarda e tentava me morder.
Emanuel despertou sobressaltado, piscando para a luz forte que Sara acendera.
— O quê? Sara, são três da manhã... Cadê a Duda?
Ele tateou o lado vazio da cama. O frio no lençol indicava que ela não estava ali há algum tempo.
— Deve estar no banheiro fazendo skin care de argila negra — bufou Sara, sentando-se na cama e cruzando as pernas. — Aquela garota é obcecada por tudo que é escuro.
Emanuel se levantou, uma premonição ruim apertando seu peito. Ele foi até o banheiro. Vazio. Foi até o quarto de estudos. Vazio. Ao voltar para a sala, seus olhos bateram no controle remoto. Ele pegou o bilhete.
— "Buscar inspiração nas estrelas"? — Emanuel leu em voz alta, sua voz subindo de tom. — Ela fugiu, Sara. A Eduarda fugiu de madrugada.
Sara soltou uma gargalhada que ecoou pelo apartamento.
— Fugiu? A mosca-morta virou rebelde? — Ela se levantou, os olhos brilhando com a fofoca. — Para onde ela iria? Para uma biblioteca 24 horas? Para um convento?
Emanuel já estava pegando o celular, rastreando o tablet de Eduarda que, por sorte ou descuido dela, ainda estava conectado à conta da família.
— Barra Funda. Um galpão industrial — disse ele, vestindo uma calça jeans e pegando a jaqueta. — Eu vou buscar ela.
— Ah, mas você não vai mesmo sem mim! — Sara correu para o quarto. — Eu quero ver a cara dela quando o "papai" chegar para buscar a gótica fugitiva. Isso vai ser melhor que final de novela!
— Sara, não é hora para isso! É um bairro perigoso!
— Exatamente! — gritou ela de dentro do closet. — Por isso você precisa de uma mulher de fibra ao seu lado, e não de uma boneca de pano. Me dá dois minutos!
Dez minutos depois, o SUV de Emanuel cortava as ruas desertas de São Paulo. Sara estava no banco do passageiro, tendo trocado o baby-doll por um conjunto de moletom de luxo que ainda assim conseguia ser chamativo, e seus inseparáveis saltos, pois, segundo ela, "uma mulher sem salto é uma mulher sem defesa".
— Se ela estiver com algum estudante de artes de cabelo colorido, eu vou rir tanto — comentou Sara, retocando o rímel enquanto o carro saltava sobre um buraco.
— Eu não estou para brincadeira, Sara — disse Emanuel, as mãos apertando o volante com força. — Se algo acontecer com ela, eu nunca vou me perdoar. Eu devia ter sido mais firme, ou talvez menos sufocante... eu não sei.
— Você é um fofo, Manu, mas é um tonto — disse Sara, com uma sinceridade brutal. — A Eduarda usa essa carinha de santa para te manipular. Ela sabe que você adora bancar o cavaleiro de armadura tatuada. Essa "fuga" é só mais um jeito de chamar sua atenção.
Emanuel não respondeu. Ele estacionou o carro em frente ao galpão, onde uma fila de jovens vestidos de preto e com correntes nos pescoços olhava para o SUV luxuoso como se fosse uma nave espacial.
— É aqui — disse Emanuel, descendo do carro.
Sara desceu logo atrás, atraindo olhares imediatos. Com seu cabelo loiro platinado e sua presença vibrante, ela parecia um sol em meio a um eclipse.
— Gente, que lugar horroroso! — exclamou Sara, tapando o nariz. — Cheira a mofo e... isso é incenso de sândalo barato? Credo.
Eles entraram no galpão. A música industrial era tão alta que o chão vibrava. Emanuel, com sua postura imponente e o rosto fechado, abria caminho entre os jovens, que recuavam instintivamente diante de sua presença de autoridade.
— Ali! — apontou Sara, com um sorriso malicioso. — No meio daquela roda de esquisitos!
Eduarda estava de costas, gesticulando dramaticamente enquanto explicava algo sobre "a angústia da existência" para um rapaz que usava um colar de espinhos.
Emanuel caminhou até ela e tocou seu ombro.
— A inspeção das estrelas acabou, Eduarda.
Eduarda congelou. O som da voz de Emanuel era como um balde de água fria em sua transe artística. Ela se virou lentamente, o batom escuro borrado no canto da boca, os olhos arregalados.
— Manu? O que... como você me achou?
— Você deixou o tablet ligado, gótica de araque! — gritou Sara, aparecendo por trás de Emanuel com as mãos no quadril. — E olha só para você! Parece que caiu em um balde de piche. Esse é o seu "momento de inspiração"?
Os amigos de Eduarda olhavam para o trio com curiosidade. O rapaz de colar de espinhos tentou intervir.
— Ei, cara, ela está com a gente. A gente está discutindo estética...
Emanuel apenas olhou para o rapaz. Um olhar frio, de quem já tinha visto muita coisa nas ruas antes de se tornar rico. O rapaz deu um passo atrás e voltou a beber sua cerveja quente.
— Vamos para casa, Eduarda. Agora — disse Emanuel, a voz baixa e perigosa.
— Não! — Eduarda se soltou do toque dele, a rebeldia finalmente explodindo. — Eu não vou! Vocês me tratam como se eu não tivesse vontade própria! A Sara sai, faz o que quer, é vulgar, grita, e você aceita porque "é o jeito dela". Mas se eu quero vir a uma festa de arte, eu sou "a boneca que precisa de proteção". Eu cansei!
Sara deu um passo à frente, os olhos brilhando.
— Ah, agora a santinha tem garras? Engraçado que para fugir você é independente, mas para pagar o Uber e não chorar no cemitério, você precisa do Manu, né?
— Cala a boca, Sara! — gritou Eduarda, as lágrimas começando a surgir, estragando a maquiagem dramática. — Você não entende nada! Você só se importa com silicone e brilho! Você não tem alma!
— Eu posso não ter alma, querida, mas tenho bom senso! Olha esse lugar! Se cair um cigarro aceso nesse seu vestido de tule, você vira uma tocha humana em dois segundos!
— Chega as duas! — Emanuel interveio, sua voz ecoando por cima da batida da música. — Eduarda, eu entendo que você queira seu espaço. Mas fugir de madrugada para um galpão clandestino sem avisar não é independência, é irresponsabilidade. E Sara, pare de colocar lenha na fogueira!
— Eu só estou ajudando! — protestou Sara, fazendo beicinho.
— Você não está ajudando, você está se divertindo com o conflito — rebateu Emanuel, voltando-se para Eduarda. — Duda, eu sinto muito se eu te sufoquei. Podemos conversar sobre isso em casa. Mas você não vai ficar aqui. Não deste jeito.
Eduarda olhou ao redor. Seus amigos de faculdade pareciam desconfortáveis. A magia da "Noite do Abismo" havia evaporado sob a luz da realidade trazida por Emanuel e a crueza de Sara. Ela se sentiu pequena de novo, mas desta vez, não era por causa de Emanuel, mas porque percebeu que sua "rebeldia" era apenas um grito por socorro.
— Tudo bem — sussurrou ela, baixando a cabeça. — Eu vou.
O caminho de volta para o carro foi um desfile de constrangimento. Sara caminhava na frente, desfilando como se estivesse em uma passarela, ignorando os olhares dos góticos. Emanuel vinha logo atrás, segurando a mão de Eduarda com firmeza, mas sem agressividade.
Quando chegaram ao SUV, o destino pregou uma última peça naquela noite.
Um cachorro vira-lata, o mesmo que parecia persegui-los desde o cemitério — ou talvez um primo muito próximo e igualmente feio —, estava sentado exatamente em cima do capô do carro de Emanuel.
— Não pode ser... — murmurou Emanuel, parando diante do veículo.
Sara soltou um grito agudo.
— É ELE! O CÃO DO INFERNO! Ele veio terminar o serviço!
— É só um cachorro, Sara — disse Eduarda, limpando o rosto com a manga do casaco. Mas até ela recuou um pouco. O animal tinha um olhar fixo e uma orelha caída que lhe dava um aspecto sinistro.
— Ele está possuído! — gritou Sara, escondendo-se atrás de Emanuel. — Ele seguiu a Eduarda do cemitério até aqui! Ele sente o cheiro de mofo dela!
— Para de falar bobagem, Sara! — Eduarda deu um passo à frente, tentando recuperar sua dignidade. — Ele só está com frio. Coitadinho.
Ela estendeu a mão para o cachorro. O animal rosnou baixo, um som que parecia vir das profundezas da terra. Eduarda recolheu a mão instantaneamente, pulando para trás e batendo nas costas de Emanuel.
— Ok, talvez ele não seja tão coitadinho assim — admitiu ela, a voz tremendo.
Emanuel suspirou. Ele pegou um guarda-chuva que estava no banco de trás através da janela entreaberta e, com movimentos calmos, tentou espantar o animal. O cachorro, com uma dignidade quase humana, desceu do capô, urinou na roda do carro luxuoso e saiu caminhando lentamente pela rua escura, sem olhar para trás.
— Ele marcou território no seu carro de duzentos mil reais, Manu — comentou Sara, recuperando a compostura e rindo. — Acho que o "espírito do cemitério" prefere o seu SUV do que a alma da Eduarda.
Eles entraram no carro sob um silêncio pesado. Emanuel começou a dirigir de volta para o Morumbi. A adrenalina da briga e da fuga estava sendo substituída por um cansaço avassalador.
— Manu? — chamou Eduarda, do banco de trás, a voz pequena e manhosa de novo.
— Oi, Duda.
— Desculpa. Eu só... eu me senti sufocada. Eu queria ser como a Sara por uma noite. Alguém que não precisa pedir permissão para existir.
Sara, no banco da frente, parou de olhar para o espelho. Ela se virou para trás, e por um breve momento, o sarcasmo desapareceu de seu rosto.
— Escuta aqui, ô História da Arte — disse Sara, a voz menos vulgar e mais firme. — Eu não peço permissão porque eu não dou opção para o Emanuel. Eu sou quem eu sou. Se você quer ir para um galpão gótico, você diz: "Emanuel, eu vou para o galpão gótico e se você não gostar, o problema é seu". Você não foge como uma colegial. Isso só faz ele querer te trancar em uma torre de castelo ainda mais alta.
Eduarda olhou para Sara, surpresa com o "conselho".
— Você... você está me ensinando a te enfrentar?
— Estou te ensinando a ter personalidade — rebateu Sara, voltando ao seu tom habitual. — Porque brigar com uma porta é chato. Eu prefiro uma rival que tenha sangue nas veias, não água de museu.
Emanuel sorriu para a estrada.
— Ela tem razão, Duda. Eu prefiro que você discuta comigo do que fuja de mim. Mas, por favor, nada de galpões na Barra Funda às três da manhã por um tempo, ok?
— Combinado — disse Eduarda, encostando a cabeça no vidro. — Mas eu ainda acho que o cachorro era um sinal.
— Um sinal de que a gente precisa lavar o carro — concluiu Emanuel.
Ao chegarem ao apartamento, o sol começava a dar os primeiros sinais no horizonte. Eduarda foi direto para o banho, tentando tirar o cheiro de fumaça e a maquiagem pesada. Sara foi para a cozinha preparar um café reforçado, reclamando que "o estresse abre o apetite".
Emanuel ficou na sala, observando as duas. Ele sabia que o equilíbrio era precário. Tinha uma namorada que era um furacão de vaidade e outra que era uma névoa de sensibilidade. E ele, o tatuador que gostava de controle, era apenas o capitão de um navio que insistia em navegar em tempestades.
Eduarda saiu do banho, vestindo um pijama de flanela fofinho, parecendo de novo a menina de cristal. Ela foi até a cozinha e, sem dizer nada, sentou-se ao lado de Sara.
— Sara? — chamou Eduarda.
— O que foi agora? Vai chorar porque o café está forte?
— Não. Só queria dizer que... seu conjunto de moletom é horrível. É muito rosa.
Sara parou com a xícara na mão. Ela olhou para Eduarda, viu o brilho de desafio nos olhos da menor e sorriu. Um sorriso largo e perigoso.
— É rosa neon, sua ignorante. É tendência em Milão. Mas vindo de quem usa tule de enterro, eu aceito como um elogio.
Emanuel entrou na cozinha e sentou-se entre as duas. Ele pegou uma torrada e olhou para o relógio. Em poucas horas, teria que abrir o estúdio.
— Sabe de uma coisa? — disse Emanuel. — Da próxima vez que vocês quiserem aventura, a gente vai saltar de paraquedas. Pelo menos lá no alto não tem cachorros de cemitério nem batom preto.
As duas riram. Foi uma risada curta, que logo se transformou em uma nova discussão sobre qual cor de paraquedas seria mais "estética" ou "chamativa".
Emanuel fechou os olhos por um segundo, saboreando o café e o caos. Ele sabia que a paz não duraria. Em algum momento, Eduarda encontraria um novo drama artístico e Sara encontraria uma nova forma de provocação. Mas, por enquanto, sob a luz do amanhecer de São Paulo, o silêncio e o salto alto haviam encontrado uma trégua.
E, no fundo, ele não trocaria aquelas duas — e nem o vira-lata do destino — por nenhuma vida tranquila no mundo.