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Entre o Medo e o Capricho

O planejamento para o final de semana no iate estava a todo vapor. Sara circulava pela cobertura com catálogos de moda praia de luxo, biquínis que custavam o preço de joias e uma lista interminável de exigências gastronômicas para a tripulação. Para ela, aqueles três dias em alto-mar eram o troféu final, a prova de que, apesar do colar de família e dos mimos intelectuais que Emanuel dava a Eduarda, era ela quem reinava no lado glamouroso e público da vida do tatuador.

No entanto, no canto oposto da sala, o clima era de uma melancolia silenciosa que Emanuel já começava a identificar como o prelúdio de uma tempestade emocional. Eduarda estava sentada no chão, cercada por livros de história e um mapa antigo da região da Serra da Mantiqueira.

— O que é tudo isso, Duda? — perguntou Emanuel, aproximando-se e acariciando o topo da cabeça dela.

Eduarda levantou os olhos, que brilhavam com uma empolgação tímida.

— Manu, eu andei pensando... já que você vai viajar com a Sara, eu não queria ficar aqui trancada no apartamento. Tem um grupo da faculdade organizando um acampamento de pesquisa perto de uma antiga vila colonial desativada. É um lugar mágico, com ruínas do século XVIII e uma natureza intocada. Eu queria muito ir.

Emanuel franziu o cenho. O instinto protetor, que nele era quase uma patologia, disparou imediatamente. Ele se sentou no sofá, observando o mapa que ela apontava.

— Acampar? No meio do nada, Eduarda? Você é sensível demais para isso, não acha? Insetos, frio, dormir no chão...

— Eu não me importo com isso! — ela disse, aproximando-se dos joelhos dele e apoiando o queixo, fazendo aquela carinha manhosa que sabia que o desarmava. — É por uma causa acadêmica, e o lugar é lindo. Por favor, me deixa ir. Vai ser no mesmo final de semana do seu passeio no iate. Assim eu não fico aqui me sentindo sozinha.

Emanuel pegou o mapa para examinar a localização exata. À medida que seus olhos percorriam as coordenadas, uma memória de uma notícia policial de dois anos atrás surgiu em sua mente. Ele era um homem que lidava com muita gente, de todos os estratos sociais, e seus estúdios de tatuagem eram centros de informação. Ele se lembrou de um caso brutal: um crime não resolvido envolvendo um grupo de andarilhos e uma seita local naquela exata região de floresta densa.

O rosto de Emanuel endureceu. A expressão serena deu lugar à máscara de controle rígido.

— Não. Você não vai.

Eduarda piscou, surpresa com a rapidez e a frieza da resposta.

— Como assim, não? Emanuel, eu já tenho vinte anos, eu posso decidir...

— Você não vai para esse lugar, Eduarda — ele cortou, a voz subindo uma oitava. — Eu conheço essa região por causa de alguns clientes do estúdio que são da polícia. Houve um crime bárbaro nessas ruínas há pouco tempo. É um lugar perigoso, isolado e sem sinal de celular. Eu não vou passar três dias num iate sabendo que você está dormindo numa barraca num lugar onde pessoas foram assassinadas.

— Isso foi há anos, Manu! — Eduarda exclamou, as lágrimas já começando a inundar seus olhos. — Você está sendo autoritário. Você vai se divertir com a Sara, vai levá-la para o luxo, e quer que eu fique aqui presa como um passarinho na gaiola?

— Eu estou protegendo a sua vida! — ele rugiu, levantando-se. — A Sara é uma mulher que sabe se virar, que tem malícia. Você é uma menina que se perde se o GPS do celular parar de funcionar. Você não tem noção do perigo.

— Eu odeio quando você me trata como se eu fosse burra! — Eduarda gritou, algo raro para ela. Ela se levantou e correu para o quarto, batendo a porta com força.

Sara, que assistia a tudo de longe com um sorriso de escárnio, aproximou-se de Emanuel, passando as mãos pelo peito dele.

— Deixe a pirralha chorar, Manu. Ela só quer chamar atenção. Vamos focar no nosso iate, o champanhe já está encomendado.

Emanuel a afastou com delicadeza, mas com firmeza.

— Agora não, Sara.

As próximas vinte e quatro horas foram um pesadelo de silêncio e resistência passiva. Eduarda não saiu do quarto para jantar. No dia seguinte, Emanuel tentou levar o café da manhã para ela, mas encontrou a bandeja intocada na porta.

— Duda, abre a porta — ele pediu, batendo suavemente. — Você precisa comer.

— Eu não estou com fome — a voz dela veio abafada, rouca de tanto chorar. — Se eu não posso ter a minha liberdade, não preciso de comida.

Emanuel sentiu o estresse acumulado pulsar em suas têmporas. Ele odiava conflitos emocionais, especialmente aqueles que não podia resolver com lógica. Ele entrou no quarto usando sua chave reserva e encontrou Eduarda encolhida na cama, abraçada ao travesseiro, os olhos inchados e o rosto pálido.

— Eduarda, para com esse drama — ele disse, sentando-se na beira da cama. — Você está fazendo greve de fome por causa de um acampamento? Isso é infantilidade.

— Não é pelo acampamento, é pelo fato de você não confiar em mim — ela soluçou, sem olhar para ele. — Você vai para o mar com ela, vai dar tudo o que ela quer, e para mim você só dá ordens. Você me tranca aqui porque tem medo, mas o seu medo está me sufocando. Eu prefiro não comer nada a aceitar essa sua "proteção" que parece uma prisão.

Emanuel olhou para ela e sentiu o coração apertar. Ele via a fragilidade dela, mas também uma teimosia que ele não imaginava que existia naquela criatura tão doce. Ele sabia que, se ela continuasse sem comer, acabaria passando mal, e a culpa cairia inteiramente sobre seus ombros.

Ele saiu do quarto e encontrou Sara na sala, provando um chapéu de sol imenso diante do espelho.

— Ela ainda está fazendo o showzinho da fome? — Sara perguntou, rindo. — Se fosse eu, já teria dado umas palmadas e mandado crescer.

— Cala a boca, Sara — Emanuel disse, sem paciência. — Eu vou resolver isso.

Ele pegou o celular e fez algumas ligações rápidas. Emanuel era um homem rico e influente; ele não aceitava "não" como resposta da vida, e estava na hora de usar isso para manter a paz em seu harém.

Meia hora depois, ele voltou ao quarto de Eduarda. Ela continuava na mesma posição.

— Duda, olha para mim — ele pediu, sua voz agora mais suave, mas ainda carregada de autoridade.

Ela se virou lentamente, a expressão de sofrimento partindo o coração do tatuador.

— Eu cheguei a uma solução. Você não vai para aquele acampamento com o grupo da faculdade. É perigoso e eu não mudo de ideia sobre isso.

Eduarda começou a chorar novamente, mas ele a interrompeu.

— Escuta até o fim. Eu acabei de alugar uma propriedade privada que faz divisa com o parque nacional. É uma fazenda histórica, com as mesmas ruínas que você quer estudar, mas é cercada, tem segurança privada armada e uma casa de apoio luxuosa.

Eduarda parou de soluçar, processando a informação.

— Uma fazenda?

— Sim. Eu contratei dois seguranças para ficarem de guarda na entrada da trilha. Você pode levar três amigas da sua faculdade, as que você mais gosta. Vou mandar um chef de cozinha para preparar as refeições de vocês, para que você não precise "caçar" comida ou passar necessidade. Vocês vão ter o acampamento, as ruínas e a pesquisa, mas sob a minha supervisão e segurança.

Eduarda sentou-se na cama, limpando as lágrimas. A manha começou a substituir o desespero.

— Mas... e o seu final de semana com a Sara?

— Eu vou para o iate, como planejado — Emanuel suspirou. — Mas vou passar o tempo todo checando o rádio e as câmeras de segurança da fazenda. É o máximo que eu posso ceder, Eduarda. Ou é isso, ou você fica trancada aqui com as chaves na minha mão. O que vai ser? Vai comer agora?

Eduarda olhou para ele, uma pequena vitória brilhando em seus olhos. Ela sabia que tinha dobrado o homem mais poderoso que conhecia.

— Você promete que as ruínas são as mesmas?

— São as mesmas formações rochosas e a mesma vila. Eu comprei o acesso exclusivo para você por três dias.

Eduarda se jogou nos braços dele, abraçando seu pescoço com força, o corpo macio se moldando ao dele.

— Obrigada, Manu... você é o melhor. Desculpa o drama, é que eu precisava muito disso para o meu curso.

Emanuel a apertou, sentindo um alívio momentâneo, mas já prevendo a reação de Sara. E ele não estava errado. Quando ele saiu do quarto e explicou a situação na sala, o grito de Sara quase quebrou os cristais da cristaleira.

— Você fez o quê? — Sara berrou, jogando o chapéu no chão. — Você alugou uma fazenda inteira com segurança armada só para essa menina brincar de Indiana Jones? Você tem noção do quanto isso custa?

— O dinheiro é meu, Sara — Emanuel respondeu, a voz fria. — E a segurança da Eduarda não tem preço. Eu vou passar o final de semana com você, não vou? Então pare de reclamar.

— Não tem preço? — Sara estava vermelha de raiva, o silicone de seu peito subindo e descendo com a respiração ofegante. — Você mima essa garota como se ela fosse uma princesa! Eu tenho que ficar num barco aguentando o balanço do mar enquanto ela tem uma fazenda inteira e um chef particular? Isso é ridículo! Você é um frouxo quando se trata dela!

— Eu não sou frouxo, eu sou o dono da situação — Emanuel se aproximou dela, seus olhos escuros fixos nos dela. — Eu resolvi o problema. Eduarda está feliz e segura, e você vai ter o seu iate e os seus diamantes. Se você disser mais uma palavra sobre isso, eu cancelo o iate e ficamos todos aqui olhando um para a cara do outro. Entendido?

Sara bufou, cruzando os braços. Ela sabia quando tinha perdido uma batalha, mas a semente do ódio por Eduarda apenas crescia.

— Tudo bem, Emanuel. Mas não reclame se eu gastar o triplo em champanhe para compensar o meu mau humor.

— Gaste o que quiser, contanto que fique em silêncio — ele finalizou.

Na manhã de sexta-feira, o movimento na cobertura era caótico. Eduarda estava radiante, vestida com roupas de trilha que pareciam saídas de um editorial de moda de luxo, acompanhada por três amigas da faculdade que olhavam para o apartamento de Emanuel como se tivessem entrado em um palácio.

— Tchau, Manu! — Eduarda se despediu, dando um beijo carinhoso no rosto dele e um abraço apertado. — Vou te mandar fotos de todas as colunas barrocas que eu encontrar!

— Mande fotos do segurança também, para eu saber que ele está acordado — Emanuel brincou, embora o tom fosse sério.

Sara já estava no elevador, usando óculos escuros gigantes e carregando uma bolsa de praia que custava mais do que o carro de qualquer uma das amigas de Eduarda. Ela não se deu ao trabalho de se despedir.

— Vamos logo, Emanuel! O capitão disse que o mar está perfeito e eu não quero perder nem um minuto de sol.

Emanuel observou Eduarda entrar na van de luxo que ele contratara para levá-la à fazenda. Ele sentia uma tensão no peito, uma premonição de que, por mais que tentasse controlar tudo, a vida entre aquelas duas mulheres era um campo minado.

O final de semana no iate foi, para os padrões de Sara, impecável. O sol brilhava, o champanhe fluía e ela podia desfilar sua vulgaridade sofisticada para quem quisesse ver nas redes sociais. Emanuel, no entanto, passava metade do tempo no convés, olhando para o tablet, monitorando a localização de Eduarda e as mensagens dos seguranças.

— Você não consegue se desligar, não é? — Sara perguntou, aproximando-se dele com uma taça na mão, o corpo bronzeado brilhando sob o óleo solar. — Ela está bem, Emanuel. Está lá brincando de olhar pedra velha. Esquece ela um pouco e foca em mim.

Emanuel olhou para Sara. Ela era linda, exuberante e trazia uma energia carnal que ele ainda desejava profundamente. Mas, ao olhar para a tela e ver uma foto que Eduarda acabara de mandar — ela sorrindo, com o rosto sujo de terra, segurando um fragmento de cerâmica antiga —, ele sentiu uma paz que o iate de milhões de dólares não conseguia proporcionar.

— Eu estou focado, Sara — ele mentiu, puxando-a para perto. — Só estou garantindo que tudo continue em ordem.

Na tarde de domingo, o iate retornou à marina. Sara estava exausta de sol e álcool, mas satisfeita com as centenas de fotos que postara. Emanuel, por outro lado, estava ansioso para buscar Eduarda.

Quando chegaram à fazenda para buscá-la, Eduarda correu para os braços de Emanuel, transbordando felicidade.

— Foi incrível, Manu! As ruínas são muito mais preservadas do que eu imaginava. E o chef fez um jantar temático de época para nós ontem à noite. Foi como viver no passado!

— Fico feliz que tenha gostado, pequena — ele disse, sentindo-se aliviado por vê-la sã e salva.

Sara desceu do carro de luxo, olhando para a grama e para a poeira com um nojo indisfarçável.

— Que cheiro de mato — ela reclamou, abanando o nariz. — Vamos logo embora daqui. Eu preciso de um banho de verdade e de um tratamento de spa para tirar esse sal da pele.

No caminho de volta para a cidade, o silêncio no carro era preenchido apenas pela voz animada de Eduarda contando suas descobertas arqueológicas. Sara mantinha os fones de ouvido, ignorando tudo, mas Emanuel via pelo reflexo do retrovisor o olhar de veneno que ela lançava para Eduarda ocasionalmente.

Ao chegarem na cobertura, Emanuel sentou-se em sua poltrona, exausto. Ele conseguira manter as duas satisfeitas — uma com o luxo e a atenção, outra com a aventura e a proteção. Mas ele sabia que o preço daquela paz era alto. Ele gastara uma pequena fortuna e uma quantidade imensa de energia mental para evitar que o mundo desabasse.

Eduarda aproximou-se dele, sentando-se em seu colo de forma manhosa, ignorando a presença de Sara que jogava as bolsas no sofá.

— Manu... — ela sussurrou no ouvido dele. — Obrigada por ter cuidado de mim. Eu sei que eu fiz drama, mas é porque eu queria muito que você me entendesse.

— Eu entendo, Duda. Só não me assuste mais assim com greves de fome — ele disse, beijando a testa dela.

Sara parou no meio da sala, as mãos nos quadris.

— Que cena patética. O grande Emanuel Albuquerque, o rei das tatuagens, reduzido a um babá de luxo. Aproveite sua "pesquisadora", Emanuel. Vou para o meu quarto ligar para a esteticista. Esse final de semana foi ótimo, mas o pós-venda está me saindo caro demais.

Quando Sara saiu, Eduarda olhou para Emanuel com aqueles olhos que sempre pareciam ler seus pensamentos mais profundos.

— Ela nunca vai me aceitar, não é?

Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento.

— Provavelmente não, Duda. Mas enquanto eu estiver no comando, ninguém vai te machucar. Nem ela, nem o mundo lá fora.

Ele a apertou em seus braços, sentindo o cheiro de mato e sol que ainda emanava da pele dela. Ele sabia que o crime que ocorrera naquelas ruínas anos atrás era real, e que o perigo sempre espreitava. Mas, em seu mundo de controle absoluto, ele acreditava que poderia manter o mal à distância.

O que ele não percebia era que o maior perigo não estava nas ruínas da floresta ou nos crimes do passado, mas na combustão lenta entre o fogo de Sara e a suavidade de Eduarda, um incêndio que ele mesmo alimentava a cada vez que tentava compensar uma com o que a outra possuía. Naquela noite, a cobertura estava em paz, mas era a paz de um campo de batalha após a trégua — temporária, frágil e prestes a ser quebrada pelo próximo capricho de uma ou pela próxima insegurança da outra. E Emanuel, o mestre do controle, era apenas o homem que segurava os fósforos, esperando para ver qual das duas chamas o consumiria primeiro.