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Labirinto de Fumaça e Prata
A manhã na cobertura de Emanuel começou com um silêncio enganoso, aquele tipo de calmaria que precede as tempestades mais violentas. O tatuador já estava de pé desde as seis, revisando o faturamento de seus estúdios em Berlim e Tóquio. Ele era um homem que prosperava na ordem, no controle milimétrico de cada agulha e cada pigmento, mas sua vida pessoal estava se tornando um borrão de cores conflitantes que nem mesmo sua disciplina conseguia retocar.
Eduarda ainda dormia, um anjo de porcelana envolto em lençóis de fios egípcios. Já Sara, movida por uma mistura de tédio e uma necessidade desesperada de reafirmar sua utilidade após o episódio da joia de família, decidiu que aquele seria o dia de sua "redenção doméstica".
— Eu não sou apenas um rosto bonito e um corpo perfeito, Emanuel — declarou Sara, aparecendo na cozinha com um robe de seda vermelha tão curto que beirava o perigoso. — Eu li em uma revista que homens de sucesso valorizam mulheres que cuidam do lar. Hoje, eu vou fazer o café da manhã. E não vai ser qualquer café. Vai ser um banquete.
Emanuel levantou os olhos do tablet, uma sobrancelha arqueada em ceticismo puro. Ele conhecia Sara há anos e sabia que a única coisa que ela sabia "preparar" na cozinha era um copo de gelo para seu uísque.
— Sara, não precisa disso. O pessoal do buffet deixou tudo pronto na geladeira. É só aquecer.
— Aquecer é para amadores — ela rebateu, jogando o cabelo loiro para trás com um gesto teatral. — Eu vou fazer panquecas flambadas e um omelete gourmet. Vá para o seu escritório. Deixe a cozinha para quem tem... visão.
Emanuel suspirou. Ele estava exausto demais para discutir. Se Sara queria brincar de dona de casa para massagear o próprio ego, que fosse. Ele apenas esperava que ela não quebrasse as louças de cerâmica artesanal que Eduarda tanto gostava.
Enquanto Emanuel se isolava entre contratos e esboços de tatuagens complexas, o caos começou a se manifestar na cozinha. Sara, em sua impulsividade característica, ligou todas as bocas do fogão industrial ao mesmo tempo. Ela não tinha paciência para receitas; para ela, a culinária era como a vida: quanto mais fogo, melhor.
— Onde está a droga da manteiga? — resmungou Sara, jogando uma quantidade excessiva de óleo em uma frigideira de cobre enquanto tentava, simultaneamente, bater ovos e mexer uma massa de panqueca que parecia mais cimento do que comida.
O óleo começou a fumegar. Sara, distraída tentando abrir uma garrafa de licor para a tal "flambagem", não percebeu que a temperatura estava subindo além do limite. Quando ela finalmente virou o licor sobre a massa na outra frigideira, o álcool encontrou as chamas do fogão e o óleo superaquecido.
O resultado foi uma explosão súbita de fogo alaranjado que lambeu os armários superiores e a coifa de aço escovado.
— Ai meu Deus! Emanuel! — o grito de Sara ecoou pelo apartamento, agudo e carregado de pânico real.
No quarto, Eduarda acordou de sobressalto. O cheiro de queimado invadiu suas narinas instantaneamente, despertando seu instinto de sobrevivência mais primário. Ela correu para o corredor, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.
— Emanuel? O que está acontecendo? — ela gritou, a voz trêmula.
Emanuel já estava em movimento. Ele saiu do escritório como um raio, atravessando a sala de estar em segundos. Quando chegou à cozinha, deparou-se com uma cena de pesadelo: chamas altas dançavam sobre o balcão de ilha, e uma fumaça negra e densa já começava a se espalhar pelo teto de gesso. Sara estava encolhida contra a geladeira, as mãos no rosto, soluçando de terror, enquanto Eduarda paralisara na entrada da cozinha, os olhos arregalados, tossindo por causa da fumaça.
— Saiam daqui! As duas! Agora! — a voz de Emanuel trovejou, uma ordem absoluta que não admitia contestação.
Ele não esperou por uma resposta. Agarrou o extintor de incêndio que ficava escondido em um nicho lateral e, com movimentos precisos de quem já havia passado por situações de risco em seus estúdios, rompeu o lacre.
— Emanuel, cuidado! — gritou Eduarda, tentando se aproximar, mas sendo repelida pela onda de calor.
— Recuem! Vão para a varanda! — ele ordenou novamente, sem desviar os olhos do fogo.
O jato de pó químico jorrou, sufocando as chamas com um som sibilante. Emanuel trabalhava com uma calma fria, ignorando o calor que ardia em sua pele e a fumaça que irritava seus pulmões. Ele era o mestre do controle, e não deixaria que seu lar fosse destruído por um capricho mal calculado.
Em poucos minutos, o fogo foi extinto, deixando para trás um rastro de pó branco, cinzas e o cheiro acre de plástico queimado. Emanuel desligou o gás com firmeza e se virou para as duas mulheres. Ele estava sujo, com o rosto manchado de fuligem e o robe de seda arruinado, mas seus olhos brilhavam com uma autoridade feroz.
Ele caminhou até elas na sala de estar. Sara ainda chorava, sentada no sofá, o robe vermelho manchado. Eduarda estava de pé, abraçando a si mesma, tremendo violentamente.
Emanuel não disse nada de imediato. Ele as envolveu em um abraço coletivo, puxando a cabeça de Eduarda para o seu ombro esquerdo e a de Sara para o direito. Era uma imagem poderosa: o homem rico e autoritário servindo de escudo para suas duas fraquezas.
— Acabou. Está tudo bem agora — ele murmurou, a voz rouca.
— Eu... eu só queria fazer algo especial — soluçou Sara, escondendo o rosto no peito dele. — O fogo subiu do nada, Emanuel. Eu achei que ia morrer.
— Você foi uma idiota, Sara — ele disse, mas o tom não era de raiva, e sim de uma proteção exausta. — Você poderia ter incendiado o prédio inteiro. Nunca mais toque naquele fogão. Nunca.
Eduarda, que até então estava em silêncio, levantou os olhos para ele.
— Manu, você está ferido? Sua mão...
Emanuel olhou para a própria mão direita; havia uma bolha vermelha começando a se formar perto do polegar.
— É apenas uma queimadura leve, Duda. Eu estou bem.
Eduarda, movida por sua natureza carinhosa e intuitiva, soltou-se do abraço e correu até o banheiro, voltando segundos depois com um kit de primeiros socorros e uma bacia com água fria.
— Senta aqui — ela pediu, a voz agora mais firme. — Deixa eu cuidar disso.
Emanuel sentou-se na poltrona e Eduarda ajoelhou-se ao seu lado. Com uma delicadeza infinita, ela começou a limpar a fuligem de sua pele. Sara, sentindo-se excluída e tomada por uma pontada de ciúme mesmo em meio ao trauma, sentou-se no chão do outro lado de Emanuel, agarrando-se à perna dele.
— Eu também estou em choque, Emanuel — disse Sara, tentando recuperar o protagonismo. — Meu coração está disparado. Sente só.
Ela pegou a mão esquerda de Emanuel e a pressionou contra o próprio peito, onde o silicone subia e descia com a respiração ofegante. Emanuel olhou para as duas: uma cuidando dele com a suavidade de uma enfermeira renascentista, a outra buscando sua atenção com a urgência de uma criança ferida.
— Vocês duas vão me levar à loucura — ele disse, fechando os olhos e encostando a cabeça no encosto da poltrona. — Uma tenta colocar fogo na casa e a outra quase tem um colapso nervoso só de olhar.
— Eu não tive um colapso — murmurou Eduarda, concentrada em aplicar uma pomada refrescante na queimadura dele. — Eu só fiquei com medo por você. A cozinha pode ser consertada, Manu. Você não.
— Ela tem razão — concordou Sara, a voz mais mansa. — Desculpa, Emanuel. Eu só queria... eu queria ser como ela por um dia. Queria que você me olhasse e visse alguém que cuida de você, não só alguém que gasta o seu dinheiro.
Emanuel abriu os olhos e olhou para Sara. Pela primeira vez em muito tempo, ele viu um lampejo de vulnerabilidade real por trás da máscara de vulgaridade e confiança.
— Sara, eu não preciso que você cozinhe. Eu não preciso que você seja a Eduarda. Eu preciso que você seja você, mas sem tentar destruir a cobertura no processo.
Eduarda terminou de fazer o curativo e deu um beijo leve na palma da mão dele.
— Pronto. Vai parar de arder logo.
Emanuel puxou as duas para mais perto dele. O apartamento ainda cheirava a fumaça, a cozinha estava em ruínas e o prejuízo seria de centenas de milhares de reais, mas ali, naquele momento, ele sentia um controle diferente. Não era o controle do medo ou da autoridade, mas o controle de quem sabe que é o centro de gravidade de dois mundos opostos.
— Escutem bem — começou Emanuel, sua voz assumindo aquele tom de comando que não admitia réplicas. — Eu vou ligar para a equipe de limpeza e para os empreiteiros agora mesmo. Quero que vocês duas subam e tomem um banho. Eduarda, ajude a Sara a se acalmar. Sara, sem provocações por hoje.
— Eu não preciso da ajuda dela — resmungou Sara, mas sem a convicção habitual.
— Você está tremendo tanto que mal consegue ficar de pé, Sara — Eduarda disse baixinho, estendendo a mão para a loira. — Vem. Eu preparo um banho com sais para você. Ajuda com o choque.
Sara olhou para a mão de Eduarda como se fosse um objeto estranho. A rivalidade entre elas era profunda, alimentada por meses de insultos e disputas de atenção, mas o susto do fogo criara uma rachadura temporária naquela barreira de ódio.
— Tudo bem — cedeu Sara, segurando a mão de Eduarda e levantando-se. — Mas não pense que isso nos torna amigas.
— Eu sei — respondeu Eduarda com um pequeno sorriso triste. — Só nos torna sobreviventes da sua culinária.
Emanuel observou as duas caminharem juntas pelo corredor. Ele sentia o estresse pulsar em suas têmporas, mas também uma estranha satisfação. Ele gostava daquela dependência que elas tinham dele. Gostava de ser o protetor, o homem que resolvia os incêndios — literais e metafóricos.
Ele pegou o celular e começou a dar as ordens.
— Sim, a cozinha — disse ele ao telefone, com a voz fria. — Quero tudo novo. Mármore italiano, eletrodomésticos de última geração. E tragam uma equipe de purificação de ar. Preço não é o problema. Quero isso pronto em quarenta e oito horas.
Ao desligar, ele caminhou até a cozinha destruída. Observou o rastro de destruição de Sara e sorriu amargamente. Ele era um tatuador renomado e rico, um homem que marcava a pele das pessoas para sempre, mas eram aquelas duas mulheres que estavam marcando sua alma de maneiras que ele ainda não conseguia compreender totalmente.
Mais tarde, o apartamento estava tomado por uma equipe silenciosa de limpeza. Emanuel estava na varanda, observando as luzes da cidade, quando Eduarda se aproximou por trás, abraçando sua cintura.
— A Sara dormiu — sussurrou ela. — O calmante que eu dei a ela fez efeito.
— E você? — Emanuel perguntou, virando-se para envolvê-la em seus braços.
— Eu estou bem. Só... pensando no que você disse. Sobre sermos um labirinto.
— Às vezes eu sinto que estou perdido nele, Duda.
— Mas você é quem desenhou o labirinto, Manu — ela disse, olhando-o nos olhos. — Você nos colocou aqui. Você gosta desse caos, não gosta?
Emanuel ficou em silêncio por um longo tempo. Ele pensou na intensidade de Sara e na paz de Eduarda. Pensou no fogo que quase destruiu tudo e na seda que agora o confortava.
— Talvez — ele admitiu finalmente. — Talvez a ordem seja monótona demais para mim.
— Só tome cuidado — Eduarda avisou, encostando a cabeça no peito dele. — O fogo da Sara é lindo de longe, mas ele queima. E eu não sei se a minha seda é forte o suficiente para apagar todos os incêndios que ela vai começar.
Emanuel apertou-a contra si, sentindo o cheiro de lavanda que agora substituíra o de fumaça.
— Enquanto eu estiver aqui, ninguém vai se queimar de novo. Eu prometo.
Lá dentro, no quarto de hóspedes, Sara acordou por um momento, ouvindo o murmúrio das vozes na varanda. Ela olhou para as mãos, ainda levemente sujas de cinzas, e sentiu uma raiva surda crescer novamente. Ela odiava a doçura de Eduarda, odiava a forma como a garota cuidara de Emanuel, mas, acima de tudo, odiava o fato de que, por alguns minutos, ela sentira que precisava daquela proteção.
— Isso não acabou, Eduarda — sussurrou Sara para a escuridão do quarto. — O próximo incêndio não vai ser na cozinha. Vai ser na sua vida.
Emanuel, na varanda, sentiu um calafrio repentino, mas o atribuiu ao vento da noite. Ele olhou para a cidade, sentindo-se o dono do mundo, sem perceber que o controle que ele tanto prezava era apenas uma ilusão de prata em um labirinto de fumaça que estava apenas começando a se fechar ao seu redor.