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O Poço Sem Fundo da Inocência
O sol mal havia despontado no horizonte de Ipanema quando Emanuel sentiu o primeiro puxão. Não era o toque impetuoso e exigente de Sara, que costumava acordá-lo com mordidas no ombro ou reclamações sobre o ar-condicionado. Era algo mais sutil, mais perigoso. Eram os dedos pequenos e macios de Eduarda, traçando o contorno das tatuagens em seu peito com uma lentidão que beirava a tortura.
Emanuel abriu os olhos, sentindo o peso do cansaço acumulado nas últimas semanas. Ele, um homem que se orgulhava de sua resistência física, estava exausto. Seus ombros doíam, sua lombar protestava e ele sentia que sua energia vital estava sendo drenada por um par de olhos grandes, úmidos e aparentemente inocentes.
— Emanuel... — sussurrou Eduarda, a voz rouca de sono e carregada daquela manha que, no início, ele achava adorável, mas que agora reconhecia como o prelúdio de um furacão. — Eu tive um pesadelo. Preciso que você me distraia.
Emanuel olhou para o relógio de cabeceira. Seis da manhã.
— Duda, pequena... eu dormi apenas quatro horas — murmurou ele, tentando fechar os olhos novamente. — A gente... a gente acabou de fazer isso às duas da manhã. No tapete da sala.
Eduarda fez um biquinho, os lábios tremendo levemente enquanto ela se aproximava, colando o corpo esguio ao dele. O biquíni de crochê que ela insistia em usar dentro de casa — sob o pretexto de que a fazia se sentir "confortável" — era uma armadilha visual.
— Mas agora é diferente — disse ela, subindo em cima dele com uma agilidade que contrastava com sua timidez habitual. — Agora eu estou carente. Você não vai cuidar da sua menina?
Antes que ele pudesse protestar, ela o atacou. Não era a agressividade de Sara, era algo pior: uma fome voraz disfarçada de necessidade emocional. Eduarda o beijava com urgência, suas mãos pequenas explorando cada centímetro de sua pele tatuada, exigindo, com gemidos manhosos, que ele fosse "forte e delicado" ao mesmo tempo.
Emanuel cedeu. Ele sempre cedia. Havia algo na dualidade de Eduarda — a forma como ela pedia "por favor" enquanto cavalgava nele com uma energia inesgotável — que o prendia em um ciclo vicioso.
Duas horas depois, Emanuel entrou na cozinha arrastando os pés. Ele encontrou Sara sentada à mesa, usando um robe de seda neon e uma expressão que poderia congelar o Saara. Ela batia a colher na xícara de café com uma força rítmica e ameaçadora.
— Ora, ora — disse Sara, a voz destilando veneno. — O fantasma resolveu aparecer. Pela cor dessas olheiras, ou você está com uma insônia crônica ou a bonequinha de porcelana descobriu que tem motor de Ferrari.
Emanuel não respondeu. Ele apenas pegou a jarra de café e bebeu direto no copo, precisando da cafeína para manter os olhos abertos.
— O que foi, Emanuel? O gato comeu sua língua ou a "Dudinha" comeu sua alma? — Sara levantou-se, caminhando até ele com os braços cruzados, fazendo o silicone saltar sob o decote. — Faz três dias que você não entra no meu quarto. Três dias! Eu estou aqui, vestida para matar, e você passa por mim como se eu fosse um móvel.
— Sara, eu estou exausto — conseguiu dizer ele, a voz falhando. — Eu tenho trabalho no estúdio, tenho reuniões...
— Não minta para mim! — gritou ela, a impulsividade assumindo o controle. — Eu ouvi os barulhos. Eu ouvi ela pedindo "mais carinho" às três da manhã. Carinho? Aquilo parecia um abate! Aquela garota é uma sonsa, Emanuel! Ela está te secando!
Nesse momento, Eduarda apareceu na porta da cozinha. Ela vestia uma camisola de seda branca, curta e romântica, com o cabelo bagunçado de uma forma que a deixava irresistivelmente fofa. Ela segurava um ursinho de pelúcia contra o peito e olhava para o chão, parecendo a imagem da vulnerabilidade.
— Emanuel... — chamou ela, a voz bem baixinha. — Eu estou com fome. Você faz aquele omelete para mim?
Sara soltou uma risada estridente e amarga.
— Fome? Você acabou de devorar o homem, garota! Deixa ele respirar!
Eduarda deu um passo para trás, os olhos enchendo-se de lágrimas instantaneamente. Ela olhou para Emanuel com uma expressão de quem acabara de ser chutada.
— Eu só queria tomar café... eu não fiz nada para ela, Emanuel. Por que ela grita comigo?
Emanuel sentiu o instinto protetor lutar contra o cansaço. Ele se aproximou de Eduarda e a abraçou de lado.
— Calma, Duda. A Sara só está estressada. Eu faço o seu omelete.
Sara bateu a mão na bancada, fazendo os pratos tremerem.
— Estressada? Eu estou faminta, Emanuel! E não é de omelete! Você prometeu que as coisas não mudariam. Você disse que queria as duas. Mas como você vai ter as duas se essa parasita de crochê não te deixa ter dez minutos de autonomia?
— Eu não sou parasita — murmurou Eduarda contra o peito de Emanuel, sua mão descendo sorrateiramente por baixo da camiseta dele, beliscando sua cintura de um jeito que só ele sentiu. — Eu só sou... apegada.
Emanuel estremeceu. O toque de Eduarda era um comando silencioso. Ele olhou para Sara, sentindo uma culpa genuína. Ele ainda a amava, ainda desejava o fogo dela, mas seu corpo simplesmente não obedecia. Ele era como um reservatório que estava sendo esvaziado mais rápido do que podia encher.
— Sara, a gente conversa mais tarde, está bem? — pediu ele, a voz suplicante.
— Mais tarde? — Sara pegou sua bolsa de grife e caminhou para a porta. — Não vai ter mais tarde, Emanuel. Eu vou para o shopping gastar o seu dinheiro, já que é a única coisa sua que eu ainda consigo usar!
A porta bateu com estrondo. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo risinho contido de Eduarda.
— Ela é tão brava, né? — disse ela, olhando para cima com aqueles olhos de corça. — Vamos para o quarto? O omelete pode esperar... eu tive outra ideia.
— Duda, não. Eu tenho que ir para o estúdio. Tenho um fechamento de costas às onze.
— Só um pouquinho — insistiu ela, manhosa, puxando-o pela mão. — Eu prometo que vou ser rápida.
Não foi rápido.
Emanuel chegou ao estúdio com duas horas de atraso. Suas mãos, geralmente firmes como rocha, tremiam levemente. Ele tentou se concentrar no desenho da fênix, mas a imagem de Eduarda — que o atacara no corredor antes de ele sair e novamente no box do chuveiro — nublava sua mente. Ela era insaciável. O que começou como uma timidez encantadora havia se transformado em uma possessividade sexual disfarçada de carência.
No meio da tarde, ele estava em seu escritório tentando revisar as contas dos estúdios de Londres quando a porta se abriu. Eduarda entrou, usando um vestido floral leve e um chapéu de palha. Ela parecia uma camponesa francesa, doce e pura.
— Vim te trazer um lanche — disse ela, colocando uma sacola sobre a mesa. — E cerejas.
— Duda, o que você está fazendo aqui? — Emanuel levantou-se, preocupado. — É perigoso você andar sozinha, eu poderia ter mandado o motorista...
— Eu senti saudade — disse ela, contornando a mesa. — O estúdio está vazio agora, o seu próximo cliente só chega em meia hora, não é? Eu vi a agenda no computador da recepção enquanto a moça foi ao banheiro.
Emanuel engoliu em seco.
— Eduarda, aqui não. É o meu local de trabalho.
— Mas a mesa é tão grande... — ela murmurou, sentando-se sobre os papéis e puxando-o pela gravata. — E eu estou tão... sensível hoje. Acho que é a falta de História da Arte. Preciso de uma aula prática.
Emanuel tentou resistir, mas a fome voraz de Eduarda era contagiosa. Ela o trancou por dentro e, ali mesmo, cercado por tintas e agulhas, ele foi consumido novamente. Eduarda não era apenas safada; ela era uma estrategista da luxúria. Ela sabia exatamente onde tocá-lo para anular sua vontade.
Quando ele finalmente a colocou em um Uber de volta para casa, Emanuel sentiu que poderia desmaiar. Ele voltou para sua cadeira e fechou os olhos.
— Você está um lixo — disse uma voz vinda da porta.
Era Sara. Ela estava encostada no batente, observando-o com um olhar de puro desprezo. Ela tinha visto Eduarda sair.
— Sara... o que você está fazendo aqui?
— Vim ver se você ainda estava vivo. Mas pelo visto, você é apenas um zumbi agora. — Ela caminhou até a mesa e viu um dos laços de fita que Eduarda usava no cabelo jogado no chão. — Ela não te deixa em paz nem aqui, Emanuel? O que aconteceu com o homem controlador que eu conheci? Você virou um brinquedo nas mãos de uma garota de vinte anos que finge que não sabe abrir uma garrafa de água.
— Eu não sou brinquedo de ninguém — rebateu ele, tentando recuperar a postura.
— Ah, não? — Sara se aproximou, sentando no colo dele, tentando despertar o desejo que sempre fora a base da relação deles. Ela começou a beijar seu pescoço, suas mãos experientes buscando uma reação. — Esquece ela, gato. Eu estou aqui. Vamos para o hotel aqui do lado. Eu quero você.
Emanuel fechou os olhos, tentando responder ao toque de Sara. Ele queria. Ele sentia falta daquela conexão bruta e direta. Mas seu corpo estava morto. Era como tentar ligar um carro sem bateria.
— Sara... eu... eu não consigo.
Sara parou. Ela se afastou e olhou para ele com uma expressão de horror e humilhação.
— Você não consegue? Comigo?
— Eu estou esgotado. Ela... ela não me dá descanso.
Sara levantou-se, o rosto vermelho de fúria.
— Ela está fazendo isso de propósito! Ela sabe que se te esgotar, eu não vou ter nada! Ela está ganhando a guerra pelo cansaço, seu idiota! E você, o grande mestre das tatuagens, está caindo como um patinho.
— Não é assim, Sara! Ela é apenas... intensa.
— Intensa? Ela é uma predadora de biquíni de crochê! — Sara gritou, pegando o laço de fita do chão e rasgando-o. — Eu não vou ficar aqui assistindo você ser transformado em um trapo humano por aquela sonsa. Ou você coloca limites naquela garota, ou eu vou embora!
— Você não vai embora — disse Emanuel, o instinto de posse surgindo através da névoa de cansaço. — Eu disse que quero as duas.
— Então aja como um homem que aguenta as duas! Porque agora, você não está servindo nem para uma!
Sara saiu do estúdio batendo a porta de vidro com tanta força que Emanuel temeu que ela estilhaçasse. Ele enterrou o rosto nas mãos. A logística emocional que ele imaginara — ter o fogo de uma e a paz da outra — havia se transformado em um pesadelo onde ele era o banquete e Eduarda era o convidado que nunca se saciava.
A noite que se seguiu foi o ápice do caos.
Emanuel chegou em casa decidido a dormir no sofá, apenas para ter paz. Mas Eduarda o estava esperando no topo da escada. Ela não estava chorando, não estava manhosa. Seus olhos tinham um brilho determinado, quase febril.
— Vem cá, Emanuel — disse ela, a voz suave mas firme.
— Duda, eu preciso dormir. De verdade.
— Eu sei. Por isso preparei uma surpresa no meu quarto. Para você relaxar.
Incapaz de dizer não àquela voz, ele a seguiu. Assim que entrou no quarto de Eduarda, o cheiro de velas de cereja o atingiu. Mas não era um ambiente relaxante.
Antes que ele pudesse reagir, Eduarda o empurrou para a cama. Com uma agilidade que ele não sabia que ela possuía, ela prendeu seus pulsos nas cabeceiras de ferro da cama com um par de algemas de pelúcia rosa.
— Duda? O que é isso? — perguntou ele, metade rindo, metade preocupado.
— Você trabalha demais — disse ela, subindo nele e sentando-se em seu quadril. — E a Sara fala demais. Eu decidi que você precisa focar só em mim hoje. A noite toda.
— Eduarda, me solta. Isso não tem graça.
— Tem sim — sussurrou ela, inclinando-se para beijar seu pescoço, a manha voltando à voz. — Você não disse que ia cuidar de mim? Pois agora eu vou cuidar de você. Do meu jeito.
Emanuel tentou se soltar, mas o cansaço era tanto que ele mal conseguia exercer força. Eduarda, sentindo sua fraqueza, sorriu. Foi um sorriso que ele nunca vira antes — não era doce, era vitorioso.
Ela montou nele. Uma, duas, três vezes. Cada vez que ele achava que ela tinha terminado, que ela iria se deitar e dormir, ela recomeçava. Ela era como uma força da natureza, incontrolável e insaciável. Emanuel sentia que sua alma estava sendo sugada. Ele estava algemado, à mercê de uma garota que estudava História da Arte mas que, naquela noite, parecia estar escrevendo um tratado sobre a resistência humana.
— Duda... por favor... chega... — implorou ele por volta das quatro da manhã.
— Só mais uma vez, meu amor — sussurrou ela, beijando suas lágrimas de cansaço. — Você é tão lindo quando está assim... só meu.
Do outro lado da parede, no quarto principal, Sara estava acordada. Ela ouvia o ranger rítmico da cama de Eduarda, ouvia os suspiros exaustos de Emanuel e os gemidos constantes da garota. Ela estava sentada na cama, bebendo champanhe direto da garrafa, os olhos fixos na parede.
A raiva de Sara havia se transformado em algo mais frio e calculado. Ela percebeu que Eduarda não era uma rival comum. Ela não lutava com palavras ou com decotes; ela lutava com a biologia. Se Emanuel não tivesse energia para Sara, Sara deixaria de existir na vida dele por pura inanição.
— Você quer jogar assim, bonequinha? — murmurou Sara, a voz sombria. — Então vamos ver quem aguenta mais tempo no ringue.
Na manhã seguinte, Emanuel estava destruído. Ele conseguiu se soltar das algemas quando Eduarda finalmente apagou, exausta de sua própria fome. Ele se arrastou até o banheiro, olhando-se no espelho. Ele parecia ter envelhecido cinco anos em uma noite.
Ele saiu do quarto e encontrou Sara no corredor. Ela estava vestida para sair, impecável como sempre, mas seu olhar era de puro aço.
— Bom dia, sobrevivente — disse ela. — Conseguiu dormir? Ou a "inocente" Eduarda te manteve ocupado?
Emanuel apenas encostou a cabeça na parede, fechando os olhos.
— Eu não aguento mais, Sara.
— Eu avisei — disse ela, aproximando-se e tocando o peito dele, sentindo o coração batendo fraco. — Ela está te matando, Emanuel. E ela sabe disso. Ela não quer dividir. Ela quer te consumir até não sobrar nada para mim.
— Ela é só... carente — tentou defender ele, mas a voz saiu sem convicção.
— Carente? — Sara soltou uma risada curta. — Ela acabou de te foder seis vezes em uma noite enquanto você implorava para parar. Isso não é carência, é controle. Ela é mais vulgar que eu, Emanuel. A diferença é que eu mostro o que sou no meu vestido, ela esconde o que é no biquíni de crochê.
Emanuel olhou para a porta do quarto de Eduarda. Ele sentia medo e desejo ao mesmo tempo. Ele queria a paz que ela prometia, mas a paz vinha com um preço de sangue e suor que ele não sabia se podia pagar.
— O que eu faço? — perguntou ele, entregando o controle pela primeira vez na vida.
Sara sorriu, um sorriso predatório.
— Você vai deixar que eu cuide disso. Se ela quer jogar o jogo da fome, vamos ver como ela se sai quando eu começar a ditar as regras desta casa.
Emanuel não tinha forças para protestar. Ele apenas queria dormir. Mas, no fundo de sua mente, ele sabia que a guerra entre o veludo e o espinho estava apenas começando, e que ele era o território que ambas estavam dispostas a destruir para conquistar.
Enquanto ele voltava para o sofá, Eduarda apareceu na porta do quarto, esfregando os olhos, a imagem da doçura matinal.
— Emanuel? — chamou ela, manhosa. — Onde você foi? Eu senti frio... volta para a cama?
Emanuel olhou para Sara, depois para Eduarda. Ele estava no centro de um furacão, e a única coisa que sabia era que, independentemente de quem vencesse, ele não sairia inteiro daquela cobertura.