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O Predador de Porcelana e a Trégua de Vidro
O silêncio na cobertura de Emanuel era enganoso. Às cinco e meia da manhã, o apartamento parecia uma galeria de arte vazia, onde cada móvel de grife e cada sombra projetada nas paredes de mármore contavam a história de uma batalha silenciosa. Emanuel estava estirado no sofá de couro da sala, o corpo pesado como se tivesse sido atropelado por um caminhão de carga. Seus músculos latejavam, um lembrete físico da intensidade avassaladora de Eduarda.
Ele fechou os olhos, tentando processar o que estava acontecendo em sua vida. Emanuel sempre foi o mestre do controle, o homem que ditava o ritmo da agulha sobre a pele, que decidia a profundidade da tinta. Mas com Eduarda, ele sentia que a pele era a sua própria alma, e ela estava tatuando nela algo que ele não conseguia ler. No fundo, em uma camada sombria e irracional de seu ser, ele adorava. A fome voraz dela, aquele contraste absurdo entre a menina que chorava por um drink de cereja e a mulher que o algemava com pelúcia e o consumia até a última gota de energia, era o vício mais potente que ele já experimentara.
Era uma vulgaridade disfarçada, uma luxúria que não precisava de saltos agulha ou batom vermelho para se manifestar. E isso o fascinava mais do que a agressividade óbvia de Sara.
Um movimento leve, quase imperceptível, fez Emanuel abrir as pálpebras. Eduarda estava parada ao lado do sofá. Ela vestia apenas uma camiseta dele, que ficava enorme em seu corpo pequeno, e segurava uma manta de lã de ovelha. Seus olhos grandes estavam calmos, sem o brilho febril da madrugada.
— Você fugiu de mim — sussurrou ela, a voz tão doce e manhosa que parecia mel escorrendo sobre vidro quebrado.
Emanuel tentou se sentar, mas um gemido de dor escapou de seus lábios.
— Eu não fugi, pequena... Eu só... eu precisava de espaço. Eu não tenho mais de onde tirar forças, Duda.
Eduarda inclinou a cabeça, observando-o com uma intuição emocional que o assustava. Ela viu o tremor em suas mãos e a palidez de seu rosto. Ela sabia que tinha chegado ao limite. Se o quebrasse agora, não haveria nada para consumir amanhã. E Eduarda era uma estrategista da carência; ela sabia que o descanso do guerreiro era essencial para que a guerra pudesse continuar.
— Eu sei — disse ela, ajoelhando-se ao lado do sofá e cobrindo-o com a manta com uma delicadeza maternal. — Eu fui egoísta. É que você é tão... viciante, Emanuel. Eu sinto que se eu parar de te tocar, você vai sumir.
— Eu não vou sumir — murmurou ele, sentindo o calor da manta e o toque suave dela em seu cabelo. — Mas eu preciso dormir. De verdade. Sem algemas, sem surpresas, sem... ataques.
Eduarda sorriu, um sorriso que não chegou a ser predatório, mas que guardava uma promessa silenciosa. Ela beijou a testa dele, um toque casto que contrastava violentamente com as horas anteriores.
— Durma, meu amor. Eu vou cuidar de tudo. Vou garantir que ninguém te acorde. Vou ser sua guardiã.
Emanuel relaxou, a guarda finalmente baixando. Em poucos minutos, ele mergulhou em um sono profundo e sem sonhos, o tipo de apagão que só o esgotamento total proporciona.
Eduarda levantou-se silenciosamente. Sua expressão mudou instantaneamente. A doçura permaneceu, mas havia uma nitidez em seu olhar. Ela caminhou até a cozinha, onde o sol começava a iluminar a bancada, e começou a preparar um chá de camomila. Ela ouviu o som de passos pesados vindo do corredor principal. Sara apareceu, já vestida com um conjunto de academia de lycra dourada, o rosto perfeitamente maquiado apesar da hora.
As duas mulheres se encararam no silêncio da manhã. Sara olhou para o sofá, onde Emanuel jazia imóvel, e depois para Eduarda.
— Você o destruiu — sibilou Sara, aproximando-se da cozinha como uma leoa faminta. — Você está feliz agora? Ele parece um cadáver.
Eduarda serviu o chá com movimentos lentos, sem se abalar com a presença imponente da loira.
— Ele está descansando, Sara. É o que homens fortes fazem depois de serem... bem cuidados.
— Bem cuidados? — Sara soltou uma risada ríspida, a ironia transbordando. — Você é uma parasita, garota. Você está sugando a vida dele para alimentar esse seu complexo de boneca carente. Você acha que ele vai aguentar isso por quanto tempo? Emanuel gosta de ser o caçador, não a presa.
Eduarda tomou um gole do chá, olhando para Sara por cima da borda da xícara. Pela primeira vez, ela não se encolheu. Ela não buscou a proteção de Emanuel. Ela estava em seu próprio território agora.
— O Emanuel gosta do que eu dou a ele — disse Eduarda, a voz calma e firme. — Ele gosta da minha fome. Ele gosta de saber que, por trás desse meu "complexo de boneca", existe algo que ele não consegue controlar totalmente. Você oferece o que todo mundo vê, Sara. Eu ofereço o que ele tem medo de admitir que quer.
Sara deu um passo à frente, o perfume forte e doce chocando-se com o aroma suave da camomila.
— Você fala muito para quem só sabe usar um biquíni de crochê e chorar por suco de cereja. Você acha que ganhou, não é? Mas o Emanuel é meu. Eu conheço os demônios dele. Eu conheço o que faz ele rugir. Você só conhece o que faz ele gemer de cansaço.
— Talvez — admitiu Eduarda, deixando a xícara sobre a bancada e caminhando em direção ao corredor, passando por Sara como se ela fosse apenas um obstáculo geográfico. — Mas hoje, ele é meu para proteger. Se você fizer um barulho sequer, se você tentar acordá-lo para suas cenas de ciúmes vulgares, eu juro que ele nunca mais vai olhar para você com o desejo que você tanto implora.
Sara ficou paralisada. A audácia de Eduarda a atingiu como um tapa. Ela viu a garota de vinte anos, a "estudante de arte sensível", entrar no quarto de hóspedes e fechar a porta com um clique suave, deixando-a sozinha na cozinha com o silêncio e o corpo exausto do homem que ambas disputavam.
As horas passaram. Eduarda não voltou para a cama. Ela sentou-se na poltrona da sala, a poucos metros de Emanuel, com um caderno de esboços no colo. Ela não desenhava estátuas gregas ou pinturas renascentistas. Ela desenhava Emanuel. Traçava as linhas de suas tatuagens, o vinco de cansaço entre suas sobrancelhas, a curva de seus lábios em repouso.
Ela estava planejando.
Eduarda sabia que a trégua era necessária, mas era apenas isso: uma trégua. Ela precisava que Emanuel se recuperasse para que pudesse, novamente, levá-lo ao limite. Ela sentia um prazer quase estético em ver como um homem tão poderoso podia ser reduzido a nada em suas mãos. Era a sua própria forma de arte. Uma performance de poder e submissão onde ela detinha as rédeas invisíveis.
Por volta do meio-dia, Sara voltou da academia. Ela entrou na sala fazendo o máximo de barulho possível, jogando as chaves sobre a mesa de vidro. Emanuel se mexeu no sofá, soltando um suspiro pesado, mas não acordou.
Eduarda levantou-se da poltrona em um salto, colocando o dedo sobre os lábios.
— Shh — sibilou ela.
— Shh é o caralho! — respondeu Sara, aumentando o tom de voz. — Esta é a minha casa também. Eu vou ligar o som, vou fazer um shake e vou acordar o meu namorado.
— Ele não é só seu namorado — disse Eduarda, aproximando-se de Sara com uma expressão gélida. — E ele não quer ser acordado por você. Olhe para ele, Sara. Ele está em paz. Se você tirá-lo desse sono agora, ele vai te odiar. Você quer o ódio dele ou o silêncio?
— Eu quero que você suma da minha vida! — Sara avançou, segurando Eduarda pelo braço com força. — Você é uma sonsa, uma vulgar de luxo! Você está brincando com fogo!
— Solte-a.
A voz de Emanuel não foi um grito. Foi um comando baixo, rouco e carregado de uma autoridade que fez ambas as mulheres congelarem. Ele estava sentado no sofá, a manta caindo pelos ombros, os olhos vermelhos e focados em Sara.
— Emanuel! — Sara soltou o braço de Eduarda, tentando mudar a expressão para algo mais suave. — Eu só estava tentando... esta garota está sendo impossível! Ela está agindo como se fosse a dona da casa!
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo a névoa do sono profundo ainda presente. Ele olhou para Eduarda, que imediatamente mudou sua postura. Seus ombros caíram, seus olhos marejaram e ela se encolheu, esfregando o braço onde Sara a segurara.
— Ela me machucou, Emanuel... — murmurou Eduarda, a voz trêmula. — Eu só queria que você dormisse mais um pouco. Você parecia tão cansado.
O instinto protetor de Emanuel disparou, superando até mesmo o seu esgotamento. Ele se levantou, caminhando até Eduarda e puxando-a para o seu lado.
— Sara, eu avisei a você — disse ele, a voz fria como gelo. — Eu avisei que queria paz. Eduarda me deu essa paz hoje de manhã. Ela me deixou descansar. E a primeira coisa que você faz quando chega é atacá-la?
— Paz? — Sara gritou, a impulsividade vencendo a razão. — Ela te deixou descansar para te usar de novo mais tarde! Ela é uma predadora, Emanuel! Você não vê?
— O que eu vejo — interrompeu ele, sua mão apertando o ombro de Eduarda — é uma mulher que se importa com o meu bem-estar e outra que só se importa com o próprio ego. Saia da sala, Sara. Vá para o seu quarto. Agora.
Sara abriu a boca para protestar, mas a expressão no rosto de Emanuel — uma mistura de decepção e rigidez controlada — a fez recuar. Ela olhou para Eduarda, que estava escondida no peito de Emanuel, e viu o pequeno sorriso vitorioso que a garota lançou por cima do ombro dele. Um sorriso que Emanuel nunca veria.
Sara deu as costas e saiu, o som de seus passos furiosos ecoando pelo apartamento.
Emanuel suspirou, abraçando Eduarda com força.
— Obrigado, pequena. Obrigado por cuidar de mim.
— Eu sempre vou cuidar de você, Emanuel — sussurrou ela, as mãos pequenas subindo pelas costas dele, sentindo os músculos que começavam a se tensionar novamente sob o seu toque. — Você se sente melhor? Está recuperado?
— Sim... — disse ele, sentindo a energia voltar aos poucos. — Eu precisava daquele sono.
Eduarda afastou-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele. A manha estava de volta, mas havia algo mais. Um brilho de antecipação.
— Que bom. Porque eu preparei um banho para você. Com sais de cereja. E eu pensei que, já que você está descansado... nós poderíamos terminar aquela conversa sobre o Renascimento. De um jeito mais... prático.
Emanuel sentiu um calafrio de excitação percorrer sua espinha. Ele sabia o que aquilo significava. Sabia que a trégua havia acabado e que o próximo ataque de Eduarda seria ainda mais intenso que o anterior. Ele deveria estar preocupado. Deveria impor limites. Deveria procurar Sara para tentar consertar as coisas.
Mas, enquanto Eduarda o guiava pela mão em direção ao banheiro, seu corpo respondia com uma urgência que ele não conseguia — e não queria — controlar.
— Você é um poço sem fundo, não é, Duda? — perguntou ele, a voz carregada de um desejo sombrio.
— Eu sou o que você quiser que eu seja, Emanuel — respondeu ela, fechando a porta do banheiro e trancando-a. — Mas hoje, eu quero ser a sua única obsessão.
Enquanto a água caía e o vapor preenchia o ambiente, Eduarda começou a desabotoar a calça de Emanuel com uma lentidão calculada. Ela via a fome nos olhos dele, a mesma fome que ela sentia. Ela sabia que Sara estava no quarto ao lado, roendo-se de ódio, e isso só aumentava o seu prazer.
Emanuel entregou-se. Ele amava a vulgaridade de Sara, mas a devassidão inocente de Eduarda era o que o mantinha preso. Ele era um homem rico, poderoso e influente, mas ali, entre as paredes de azulejo e o cheiro de cereja, ele era apenas o alimento de uma deusa de porcelana que nunca estava satisfeita.
Eduarda o beijou, um beijo que começou doce e terminou com o gosto metálico da posse. Ela já estava planejando o próximo passo, a próxima forma de deixá-lo sem fôlego, a próxima maneira de provar a Sara que o território de Emanuel não era apenas habitado por ela, mas completamente dominado por uma garota que sabia que o silêncio era a arma mais barulhenta de todas.
A guerra na cobertura de Ipanema estava longe de terminar, mas naquela tarde, sob o som da água e os gemidos abafados, Eduarda havia consolidado seu império. E Emanuel, exausto e extasiado, era o seu súdito mais fiel.