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O Labirinto de Vidro e a Fome das Sombras
A manhã na Avenida Atlântica nasceu com um céu de chumbo, prenunciando uma tempestade que se recusava a cair, mantendo o ar pesado e eletrizante dentro da cobertura de Emanuel. O tatuador estava sentado à imensa mesa de mármore negro, tentando focar nos relatórios financeiros de seu novo estúdio em Tóquio, mas a pulsação em sua têmpora direita indicava que sua paciência estava por um fio.
Emanuel era um homem de silêncios e precisão, mas sua casa, naquele dia, havia se tornado um campo de batalha de vontades opostas. De um lado, o fogo agressivo e vulgar de Sara; do outro, a manha persistente e úmida de Eduarda.
— Emanuel, eu já disse que não aceito um "não" como resposta — Sara entrou na sala de jantar como um furacão, usando um minúsculo conjunto de academia em tons de neon que deixava pouco para a imaginação. — A festa da Jade é o evento do ano. Todas as minhas amigas vão estar lá. Eu não vou ficar trancada aqui como se fosse uma prisioneira de luxo.
Emanuel nem sequer levantou os olhos do tablet. Sua voz saiu gélida, destilando uma autoridade que ele não pretendia negociar.
— O Rio de Janeiro está um caos hoje, Sara. Houve três arrastões na zona sul desde o amanhecer e tiroteios nos acessos aos túneis. Você não vai a festa nenhuma. Fique em casa, gaste o meu dinheiro no site da Gucci, mas não coloque os pés fora dessa porta.
— Você está sendo ridículo! — Sara bateu a mão na mesa, fazendo a xícara de café de Emanuel tilintar. — Você usa a segurança como desculpa para exercer esse seu complexo de Deus. Eu quero sair! Eu preciso respirar!
Antes que Emanuel pudesse responder, a porta do corredor lateral se abriu e Eduarda surgiu, parecendo uma visão de fragilidade em seu vestido de seda branca com pequenas flores bordadas. Ela caminhava de forma lenta, os olhos grandes e expressivos já marejados, segurando um folheto cultural contra o peito.
— Emanuel... — a voz dela era um sussurro manhoso, carregado de uma carência que ela sabia usar como ninguém. — Você prometeu que me levaria ao Municipal para ver a peça sobre o Renascimento. Minhas colegas de faculdade já estão lá... elas disseram que a fila está enorme, mas que guardaram meu lugar.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um breve segundo.
— Duda, eu acabei de dizer a Sara que a cidade está perigosa. O Teatro Municipal fica no Centro. Eu não vou mandar você para lá com esse clima de guerra civil nas ruas.
— Mas é para o meu curso, Emanuel... — Eduarda aproximou-se, ajoelhando-se ao lado da cadeira dele e apoiando o queixo em sua coxa, olhando-o de baixo para cima com aquela expressão de cachorrinho abandonado que costumava derretê-lo. — Eu estudei tanto para isso. Você disse que cuidaria de mim, que me daria tudo o que eu precisasse para a minha arte. Eu me sinto tão sozinha aqui... a Sara é tão grossa comigo o tempo todo...
— Ah, pronto! — Sara soltou uma risada estridente e amarga. — Começou o teatrinho da órfã. Emanuel, você não vai cair nessa, vai? Ela quer ir ver estátuas peladas e eu quero ir para uma festa real. Se ela pode sair para o Centro, eu posso ir para o Leblon!
— Ninguém vai a lugar nenhum! — Emanuel rugiu, levantando-se bruscamente. A cadeira arrastou no chão com um som violento. — Vocês duas me ouçam bem. Eu sustento esta casa, eu protejo vocês e eu decido o que é seguro. O meu telefone não para de tocar com alertas de segurança. Eu não vou colocar o meu nome e a minha paz em risco porque vocês decidiram ter um ataque de pelanca no mesmo dia.
Eduarda começou a soluçar, um choro baixo e rítmico, escondendo o rosto nas mãos.
— Você é tão duro... — soluçou ela. — Você me trata como se eu fosse um objeto que você guarda no cofre. Eu só queria um pouco de cultura, um pouco de ar... eu sinto que vou sufocar aqui com o perfume da Sara e os seus gritos.
— E eu sinto que vou morrer de tédio! — Sara rebateu, cruzando os braços, fazendo o silicone saltar sob o decote vulgar. — Se a "santinha" quer cultura, dê um livro para ela. Eu quero gente, quero bebida, quero a vida que você me prometeu quando me tirou daquela administração medíocre!
Emanuel sentia a pressão subir. Ele amava Sara pela sua vitalidade crua, pela forma como ela desafiava sua escuridão com uma vulgaridade que o excitava. E amava Eduarda pela sua pureza, pela forma como ela se apoiava nele, fazendo-o sentir-se o único protetor de um mundo cruel. Mas naquele momento, ele sentia vontade de esmagar as duas.
— Chega — disse ele, a voz baixando para um tom perigosamente calmo. — Eu vou para o meu escritório. Se eu ouvir mais uma reclamação, se eu ouvir mais um soluço ou um grito de festa, eu juro que confisco os celulares de ambas e tranco as portas por fora. Fui claro?
— Você não teria coragem — Sara desafiou, os olhos brilhando com uma rebeldia impulsiva.
Emanuel caminhou até ela, segurando-a pelo queixo com uma mão firme, forçando-a a olhar nos seus olhos sombrios.
— Tente a sorte, Sara. Veja se o meu amor por você é maior do que a minha necessidade de ordem.
Ele a soltou e saiu da sala, deixando um rastro de tensão absoluta.
Duas horas se passaram. Emanuel tentava trabalhar, mas o som de "funk" vindo do quarto de Sara e o choro persistente de Eduarda através das paredes estavam corroendo sua sanidade. Ele se sentia como um domador de feras em um circo em chamas.
De repente, a porta do seu escritório foi aberta sem bater. Eduarda entrou, o rosto inchado, vestindo apenas uma camisola curta que Emanuel lhe dera em uma de suas viagens. Ela parecia estar em um estado de fragilidade extrema.
— Emanuel... eu não consigo ficar lá — ela murmurou, caminhando até ele e sentando-se em seu colo, sem pedir licença. — A Sara aumentou o som de propósito. Ela está me chamando de nomes feios... ela disse que eu sou um peso morto na sua vida. Por favor, me deixa sair só um pouquinho? Eu pego um táxi blindado, eu juro.
— Duda, eu já dei a minha ordem — Emanuel tentou afastá-la, mas ela se agarrou ao seu pescoço, o cheiro doce de baunilha inundando seus sentidos.
— Por favor, meu protetor... — ela sussurrou no ouvido dele, a manha transformando-se em algo mais sedutor. — Se você me deixar ir, eu prometo que quando voltar... eu farei tudo o que você quiser. Eu serei a sua menina obediente da forma que você mais gosta.
Emanuel sentiu o corpo reagir. A manipulação de Eduarda era sutil, envolta em veludo, mas era tão poderosa quanto o fogo de Sara. Ele estava prestes a ceder, apenas para ter paz, quando a porta foi escancarada novamente.
Sara estava parada ali, segurando uma garrafa de champanhe aberta, os olhos injetados de raiva.
— Eu sabia! — gritou ela, apontando para os dois. — A vadiazinha está usando o corpo para conseguir o que quer! Que bonitinho, a estudante de arte vendendo a alma por um ingresso de teatro. Se ela vai sair porque sentou no seu colo, eu vou sair porque eu sou a dona dessa porra toda!
Emanuel levantou-se com Eduarda ainda em seus braços, colocando-a no chão com uma aspereza que a fez tremer.
— Saiam daqui — disse ele, a voz agora tão sombria que parecia vir do fundo de um poço. — As duas. Agora.
— Não saio! — Sara deu um passo à frente, derramando um pouco de champanhe no tapete persa caríssimo. — Você vai me ouvir, Emanuel. Eu não sou a Eduarda. Eu não choro para conseguir o que quero. Eu exijo! Eu sou a mulher que esteve com você quando você ainda estava abrindo o segundo estúdio. Eu mereço respeito!
— Respeito se ganha com lealdade, Sara — Emanuel caminhou até ela, sua presença física tornando o ar rarefeito. — E o que você está fazendo agora é desrespeitar o meu comando.
— Emanuel, ela é má... — Eduarda choramingou, escondendo-se atrás dele, segurando sua camiseta. — Veja como ela fala com você. Ela não te ama, ela só ama o seu dinheiro. Deixa ela ir para a festa e ficar lá para sempre. Deixa só eu aqui com você...
— Cala a boca, sua sonsa! — Sara avançou para cima de Eduarda, tentando puxar seu cabelo. — Você é uma parasita! Uma garotinha carente que não sabe nem limpar o próprio rabo sem o Emanuel!
— Chega! — O grito de Emanuel foi como um trovão. Ele segurou Sara pelo braço e, com a outra mão, empurrou Eduarda para longe dele. — Eu tive paciência. Eu tentei ser lógico. Eu tentei proteger vocês duas da cidade e de vocês mesmas. Mas vocês ultrapassaram o limite.
Ele caminhou até a mesa do escritório e pegou um molho de chaves e os dois celulares que estavam sobre a bancada.
— O que você vai fazer? — Sara perguntou, o tom de voz finalmente vacilando diante da escuridão nos olhos dele.
— O que eu deveria ter feito desde o início — Emanuel disse, a voz gélida. — Eu vou tirar o que vocês mais amam: o público.
Ele pegou o celular de Sara e o de Eduarda.
— Emanuel, não! — Eduarda correu até ele, as mãos trêmulas. — Minhas fotos, minhas pesquisas de arte... por favor!
— Você queria atenção, Eduarda? — ele olhou para ela com um desprezo que a fez recuar. — Pois agora você tem a minha total atenção. E você, Sara... queria festa? A festa acabou.
Emanuel caminhou até a porta principal da cobertura, as duas mulheres o seguindo em um misto de fúria e desespero. Ele abriu a porta, saiu para o hall do elevador e, com um movimento rápido, trancou a porta dupla por fora, usando a chave mestra que bloqueava até o acesso biométrico.
— Emanuel! Abra essa porta! — Sara começou a esmurrar a madeira maciça. — Você não pode fazer isso! É sequestro! Eu vou acabar com você!
— Emanuel... por favor... — a voz de Eduarda era um fio de choro do outro lado. — Está escuro aqui no hall... eu tenho medo... abre para a sua menina...
Emanuel encostou a testa na porta fria. Ele ouvia os gritos de Sara e os soluços manhosos de Eduarda. Ele as amava. Ele queria o fogo e a paz. Mas naquele momento, ele precisava do silêncio.
— Vocês queriam a minha atenção? — ele disse, alto o suficiente para que ambas ouvissem através da porta. — Pois agora vocês têm uma à outra. Passem o dia conversando. Aprendam a conviver no silêncio que vocês tanto desprezam. Eu vou para o estúdio. Vou trabalhar, vou tatuar pessoas que sabem o valor da dor e do silêncio. E quando eu voltar, à noite, espero que a casa esteja em paz. Se eu ouvir um único grito ou um único soluço quando eu abrir essa porta, eu juro que a próxima semana será bem pior do que um dia de castigo.
— Você é um monstro, Emanuel! — Sara gritou, a voz abafada.
— Eu sou o homem que mantém vocês vivas — ele respondeu, a voz desprovida de emoção. — E é bom que comecem a agir como se soubessem disso.
Emanuel caminhou até o elevador. Ele sentia o peso da decisão, mas também sentia um alívio sombrio. Ele sabia que, lá dentro, Sara e Eduarda acabariam se cansando de brigar e, eventualmente, buscariam conforto uma na outra ou no próprio cansaço. Ele era o mestre daquele labirinto, e às vezes, para manter as feras sob controle, era preciso deixá-las na escuridão por um tempo.
Ao entrar no carro, ele olhou para a fachada do prédio. Ele amava Sara. Amava Eduarda. E sabia que, à noite, quando voltasse, teria que lidar com o ódio de uma e a carência extrema da outra. Ele teria que beijar as feridas que ele mesmo causara. Mas, por enquanto, o silêncio do carro era a única coisa que importava.
O Rio de Janeiro lá fora continuava perigoso, caótico e violento. E dentro de sua cobertura, o mundo que ele criara estava em suspensão. Emanuel deu partida no motor, os olhos fixos na estrada, o coração dividido entre a culpa e a necessidade absoluta de poder. Ele era o tatuador rico, o homem que queria tudo. E ele teria tudo, mesmo que precisasse quebrar as asas das borboletas que guardava em sua redoma de vidro.