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O Eclipse da Autoridade
O ar na cobertura da Avenida Atlântica estava tão denso que poderia ser cortado com uma das facas de cerâmica da cozinha gourmet. Emanuel estava parado diante da imensa parede de vidro, observando o reflexo das luzes do Rio de Janeiro, mas seus olhos não viam a beleza da cidade. Eles viam a traição. Ele segurava o celular com tanta força que os nós dos dedos, cobertos por tatuagens de runas antigas, estavam brancos.
A notificação no Instagram não mentia. Sara, em sua impulsividade característica, postara um "story" brindando com uma taça de champanhe em um camarote cercado por figuras que Emanuel conhecia bem demais — e que detestava. Era um evento clandestino em um galpão na zona portuária, um lugar onde a lei era ditada pelo dinheiro sujo e pela falta de escrúpulos. Um lugar onde ele expressamente proibira que ela pisasse.
O som do elevador privativo ecoou no hall. Emanuel não se mexeu. Ele ouviu o riso alto e desafiador de Sara antes mesmo de vê-la. Ela entrou na sala exalando o cheiro de fumaça, álcool caro e o suor da pista de dança.
— Que recepção sombria, meu amor — disse Sara, jogando a bolsa de grife sobre a mesa de jantar de carvalho maciço. — Achei que você já estaria dormindo, ou quem sabe contando carneirinhos com a sua boneca de porcelana.
Emanuel virou-se lentamente. Seu rosto era uma máscara de gelo, os traços endurecidos por uma fúria que ele tentava, a duras penas, manter sob controle.
— Eu disse para você não ir, Sara — a voz dele saiu baixa, um rosnado contido que costumava fazer seus funcionários tremerem nos estúdios. — Eu disse que aquele lugar era perigoso. Que o dono daquela festa tem contas a acertar comigo e não hesitaria em usar você para chegar a mim.
Sara soltou uma risada debochada, caminhando até o bar e servindo-se de uma dose generosa de uísque. O vestido de paetês dourados subiu perigosamente, mas ela não se importou.
— Ah, Emanuel, deixe de ser dramático. Eu sei me cuidar. Você acha que porque me sustenta, pode ditar onde eu piso? Eu não sou uma das suas tatuagens que você desenha e fixa onde quer. Eu tenho vontade própria.
— Você tem a vontade de uma criança mimada que não entende o peso das consequências — rebateu ele, aproximando-se com passos pesados. — Você me desobedeceu deliberadamente. Você colocou a sua segurança em risco apenas para me testar.
— E se eu coloquei? — Ela o enfrentou, ficando na ponta dos pés, o rosto a centímetros do dele. — O que você vai fazer? Me colocar de castigo? Me cortar a mesada? Você adora esse papel de protetor sombrio, mas a verdade é que você morre de medo de perder o controle sobre mim.
Nesse momento, uma porta lateral se abriu silenciosamente. Eduarda apareceu, vestindo uma camisola de seda rosa pálido que parecia grande demais em sua estrutura pequena. Ela esfregava os olhos, a expressão sonolenta e assustada.
— Emanuel? — sussurrou ela, a voz manhosa e trêmula. — Eu ouvi gritos... está tudo bem?
Emanuel nem sequer olhou para ela. Sua atenção estava totalmente voltada para o incêndio que era Sara.
— Vá para o quarto, Eduarda — ordenou ele, sem desviar os olhos da loira.
— Mas... — Eduarda deu um passo à frente, buscando a proximidade física de Emanuel, seu porto seguro. — Você parece tão bravo... eu fiquei com medo.
— Eu disse: vá para o quarto! — O grito de Emanuel ecoou pela sala, fazendo Eduarda sobressaltar-se e encolher os ombros, os olhos enchendo-se de lágrimas instantaneamente.
Sara soltou um suspiro de tédio.
— Viu só o que você faz? Assusta a coitadinha. Por que não vai lá dar um copo de leite morno para ela e me deixa em paz? Eu tive uma noite incrível e não vou deixar você estragar o meu "high".
Emanuel sentiu a última fibra de sua paciência se romper. Ele agarrou o braço de Sara — não com força suficiente para machucar, mas com a firmeza de quem retoma as rédeas de uma fera.
— Escute bem, Sara — disse ele, a voz agora tão fria que parecia vir de um túmulo. — Você vive sob o meu teto. Você veste as roupas que eu pago. Você usa o carro que eu comprei. Tudo o que você é neste momento, socialmente, depende da minha assinatura e do meu nome.
— Você está me lembrando que é meu dono? — Sara tentou soltar o braço, mas ele não permitiu. — É isso? O grande Emanuel reduzindo tudo a dinheiro?
— Estou lembrando a você que nesta casa existe uma hierarquia — ele continuou, ignorando a provocação. — E essa hierarquia serve para manter vocês duas seguras. Se eu digo que um lugar é perigoso, não é um convite para você provar o contrário. É uma ordem. E se você não consegue seguir as regras de quem mantém esse estilo de vida que você tanto ama, talvez você deva procurar outro lugar para morar.
Sara empalideceu por um segundo, mas o orgulho falou mais alto.
— Você não teria coragem. Você é viciado em mim, Emanuel. Você precisa do meu fogo tanto quanto precisa da calma dessa sonsa aí no canto.
Emanuel soltou o braço dela com um gesto de desprezo.
— Não confunda necessidade com vício, Sara. Eu posso substituir o fogo. Eu posso comprar intensidade em qualquer esquina desta cidade. O que eu não posso é tolerar a insubordinação de alguém que coloca o meu império e a minha paz em risco por um capricho de noite de sábado.
Eduarda, que continuava parada no canto, chorava silenciosamente. O conflito a aterrorizava. Ela odiava a agressividade de Sara, mas o tom sombrio de Emanuel a deixava ainda mais insegura.
— Emanuel... por favor... — soluçou ela, tentando se aproximar novamente. — Não fale assim... a Sara só queria se divertir...
Emanuel virou o olhar gélido para Eduarda. O estresse acumulado da noite transbordou para a pessoa mais frágil da sala.
— E você, Eduarda? Vai defendê-la agora? — perguntou ele, a voz carregada de amargura. — Você é outra que vive em uma bolha. Acha que o mundo é feito de chocolate branco e livros de arte. Sabe por que você pode ser tão "doce" e "manhosa"? Porque eu estou aqui, nas sombras, lidando com a sujeira para que nada toque em você.
Eduarda recuou, como se tivesse levado um tapa físico.
— Eu... eu só não quero que vocês briguem...
— Pois aprenda uma coisa — Emanuel deu um passo em direção a ela, sua presença dominando o espaço. — A paz que você tanto gosta tem um preço. E o preço é a minha autoridade. Se eu perco o controle sobre o que acontece nesta casa, nenhum de nós está seguro. Se a Sara resolve brincar de bandida na zona portuária, ela traz o perigo para dentro do seu quarto também. Entendeu?
Eduarda assentiu freneticamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto delicado.
— Entendi... desculpa...
— Não peça desculpas por ela! — Sara gritou, apontando para Eduarda. — Pare de ser tão submissa, garota! Ele está nos humilhando e você fica aí balançando a cabeça como uma boneca de ventríloquo!
— Ela está sendo inteligente, Sara — retrucou Emanuel, voltando-se para a loira. — Coisa que você parece ter esquecido como se faz.
Ele caminhou até a mesa, pegou a bolsa de Sara e retirou o cartão de crédito preto que ele lhe dera. Com um movimento seco, ele o partiu ao meio.
— O que você está fazendo?! — Sara avançou, os olhos arregalados.
— Mostrando quem manda — disse ele, jogando os pedaços de plástico no chão. — Você está suspensa. Sem festas, sem compras, sem motorista particular por tempo indeterminado. Se quiser sair, vai a pé ou de ônibus. E se eu souber que você colocou os pés fora desta cobertura sem a minha autorização, eu mudo as fechaduras antes mesmo de você chegar na esquina.
— Você é um monstro! — Sara explodiu, partindo para cima dele com as unhas prontas para riscar o rosto de Emanuel.
Ele a segurou pelos pulsos com facilidade, imobilizando-a contra o próprio corpo. A respiração de ambos estava curta.
— Eu sou o homem que mantém você no topo — murmurou ele perto do ouvido dela. — Nunca se esqueça disso. Eu amo você, Sara, mas eu não preciso de você. Aprenda a diferença antes que seja tarde demais.
Ele a soltou e ela tropeçou para trás, a respiração ofegante, uma mistura de fúria e um desejo sombrio brilhando em seus olhos. Ela odiava o controle dele, mas aquela demonstração de força bruta e autoridade financeira a atingia em um lugar que ela não ousava admitir.
Emanuel olhou para Eduarda, que ainda soluçava baixinho no canto da sala.
— E você, Duda... vá deitar. Agora. Amanhã teremos regras novas para você também. Chega de ser protegida demais. Se você quer viver neste mundo comigo e com a Sara, vai ter que aprender a ter espinha dorsal.
Eduarda não disse uma palavra. Ela apenas se virou e correu para o quarto, fechando a porta com um som abafado.
Emanuel ficou sozinho na sala com Sara. O silêncio que se seguiu era carregado de eletricidade.
— Você acha que venceu, não é? — perguntou Sara, a voz agora rouca, limpando o rímel borrado com as costas da mão.
— Eu não estou jogando, Sara — respondeu ele, caminhando em direção ao seu escritório. — Eu estou governando. E na próxima vez que você decidir me desafiar, certifique-se de que tem dinheiro próprio para pagar a conta. Porque da minha conta, você não tira mais nem um centavo até que eu decida que você aprendeu a lição.
Emanuel entrou no escritório e fechou a porta, deixando Sara sozinha na penumbra da sala luxuosa. Ele sentou-se em sua poltrona de couro e fechou os olhos. Ele sentia o peso das duas mulheres em sua vida — a seda que o sufocava com manha e o espinho que o sangrava com rebeldia.
Ele queria as duas. Ele precisava das duas. Mas naquela noite, ele percebeu que o equilíbrio que ele tanto tentava manter era uma ilusão. Ele não era um mediador; ele era um domador. E o chicote, embora doloroso, era a única coisa que mantinha o circo funcionando.
No quarto de hóspedes, Eduarda estava debaixo das cobertas, tremendo. Ela sentia falta da praia, do biquíni de crochê e do anonimato. Ali, ela era uma rainha em uma gaiola de ouro, mas o rei acabara de mostrar que a gaiola tinha grades muito mais fortes do que ela imaginava.
No corredor, Sara olhava para o cartão partido no chão. Ela sentia um ódio profundo, mas também uma excitação perversa. Emanuel nunca estivera tão sombrio, tão absoluto. E, embora ela fosse lutar contra cada uma de suas ordens, ela sabia que, no fundo, era exatamente aquela escuridão que a mantinha presa a ele.
A noite terminou com o som do mar batendo na areia lá fora, indiferente aos dramas humanos no 22º andar. Emanuel, o tatuador rico e poderoso, tinha o controle. Mas ele sabia, melhor do que ninguém, que o controle é a coisa mais frágil do mundo quando se lida com o amor e a loucura. E ele estava disposto a queimar tudo, se fosse preciso, para não deixar que nenhuma das duas escapasse de suas mãos marcadas pela tinta e pelo destino.