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O Labirinto de Máscaras e Coelhos

O estúdio "Black Ink Empire", a sede principal de Emanuel em São Paulo, havia sido transformado em um cenário que oscilava entre o gótico e o luxuoso para a festa de Halloween anual. Paredes cobertas de veludo preto, iluminação neon em tons de roxo e laranja, e garrafas de champanhe que custavam o preço de um carro popular circulando em bandejas de prata. Emanuel, o anfitrião e o homem que todos queriam impressionar, estava impecável em um traje todo preto — uma calça de alfaiataria e uma camisa de seda entreaberta, deixando à mostra as tatuagens que subiam pelo seu pescoço. Ele não precisava de fantasia; sua presença já era intimidadora o suficiente.

No entanto, sua atenção não estava nos investidores ou nos tatuadores renomados que voaram de outros países. Seus olhos, escuros e vigilantes, estavam fixos na entrada da área VIP.

— Você está parecendo um segurança de boate barata, Manu. Relaxa os ombros antes que sua cara rache — a voz de Sara surgiu ao seu lado, carregada de sarcasmo.

Ela estava deslumbrante, mas de uma forma agressiva. Sara escolhera uma fantasia de "Rainha de Copas" que era, na verdade, pouco mais que um espartilho de couro vermelho ultrajusto, meias arrastão e um cetro cravejado de cristais. O decote era tão profundo que desafiava as leis da física, e o batom vermelho sangue combinava com o brilho competitivo em seus olhos.

— Eu sou o dono da festa, Sara. Meu trabalho é observar — Emanuel respondeu, a voz seca, sem desviar o olhar.

— Você está observando a porta, esperando a sonsa chegar para ver se ninguém vai roubar a sua bonequinha de porcelana — Sara bufou, tomando um gole generoso de seu coquetel. — Ela provavelmente vai vir vestida de freira ou de camponesa medieval. Um tédio.

Emanuel não respondeu. Ele sabia que Eduarda estava nervosa com a festa. Ela passara dias trancada no quarto com costureiras, algo incomum para quem costumava preferir vestidos leves e discretos. Quando a silhueta familiar finalmente apareceu no topo da escada de metal que levava ao VIP, o barulho da festa pareceu diminuir para Emanuel.

Eduarda não era uma camponesa. Ela era uma visão que fez o estômago de Emanuel contrair de uma forma que ele não sentia há muito tempo.

Ela estava fantasiada de coelhinha, mas não era uma fantasia qualquer comprada em lojas de artigos de festa. Era um corpete de cetim branco perolado, feito sob medida, que abraçava sua cintura fina e realçava seus seios médios de forma elegante, sem ser vulgar. A parte de baixo era um shortinho extremamente curto, adornado com uma cauda de pompom macio e branco. Nas pernas, meias de seda brancas que terminavam em rendas delicadas nas coxas, presas por ligas de cetim. As orelhas de coelho eram de pelúcia fina, presas em um arco cravejado de pequenas pérolas.

O contraste entre a pele alva de Eduarda, a delicadeza de seus traços e a ousadia daquela roupa era devastador. Ela parecia uma mistura de inocência e pecado, algo que atraiu os olhares de todos os homens no salão instantaneamente.

— Mas o que é isso? — Sara sibilou, a taça tremendo em sua mão. — Aquela garota... ela está ridícula. Parece uma propaganda de revista masculina dos anos 90.

Emanuel não ouviu. Ele já estava caminhando em direção à escada. Ele viu quando um grupo de modelos e fotógrafos parou para observar a entrada de Eduarda. Viu quando um tatuador de Los Angeles, um cara que Emanuel respeitava profissionalmente, mas que agora queria socar, sorriu para ela e fez um comentário baixo para o amigo ao lado.

Eduarda desceu os degraus com passos hesitantes, a mão pequena segurando o corrimão. Ela parecia estar procurando por Emanuel, o olhar doce e assustado vagando pela multidão. Quando seus olhos encontraram os dele, ela sorriu de forma manhosa, as bochechas corando instantaneamente.

— Manu... — ela sussurrou quando ele a alcançou na base da escada. — Eu estou muito... chamativa? A costureira disse que o estilo era "Pin-up romântica", mas agora eu sinto que todo mundo está me olhando.

Emanuel parou diante dela, sua estatura alta bloqueando a visão de qualquer outra pessoa que estivesse tentando admirá-la. Ele sentiu uma onda de ciúmes possessivo queimar seu peito, uma irritação irracional por saber que outros homens estavam vendo o que ele considerava ser seu santuário particular.

— Você está linda, Duda — disse ele, a voz rouca e baixa, quase um rosnado. — Mas você vai ficar ao meu lado a noite inteira. Entendeu?

— Sim, Manu... eu não quero ficar longe de você de qualquer jeito — ela respondeu, aproximando-se e segurando o braço dele, sua pele macia roçando no tecido da camisa dele.

— Ótimo. Porque se eu ver mais um cara olhando para você desse jeito, eu vou encerrar essa festa mais cedo — Emanuel declarou, os olhos faiscando enquanto ele lançava um olhar de aviso para um grupo de convidados que ainda a observava.

Eles caminharam de volta para a área VIP, onde Sara esperava com o rosto retorcido de inveja. Ela olhava para a fantasia de Eduarda com um ódio mal disfarçado. Comparada à sofisticação sensual de Eduarda, a fantasia de Sara parecia óbvia demais, quase barulhenta.

— Olha só, a coelhinha saiu da toca — Sara disse, a voz carregada de veneno. — Cuidado para não tropeçar nessas orelhas, Duda. Ou para não perder esse pompom por aí. Meio infantil para uma festa de adultos, não acha?

Eduarda se encolheu levemente, escondendo o rosto atrás do ombro de Emanuel.

— Eu achei que era uma festa de fantasias, Sara. O Manu disse que eu podia escolher o que eu quisesse — murmurou Eduarda, fazendo aquele beicinho que sempre desarmava Emanuel.

— E ela escolheu muito bem — Emanuel interveio, a mão pousando firmemente na cintura de Eduarda, puxando-a para mais perto. — Diferente de você, Sara, ela não precisa de meio metro de maquiagem e couro para chamar atenção.

Sara sentiu o golpe. Ela apertou o cetro com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Ah, por favor! Ela está usando um rabo de pelúcia e você está agindo como se ela fosse a rainha da Inglaterra. Emanuel, você está patético hoje. Onde está o homem racional que eu conheço? Você está vigiando ela como se fosse um cão de guarda.

— Talvez porque existam muitos lobos aqui hoje, Sara — Emanuel retrucou, sem tirar os olhos da multidão, identificando cada homem que ousava olhar por mais de dois segundos para Eduarda.

A festa continuou, mas para Emanuel, o evento havia se transformado em um campo de batalha. Ele mal conseguia manter uma conversa sobre negócios. Toda vez que Eduarda se afastava um centímetro para pegar um canapé ou uma bebida, ele a trazia de volta.

Em certo momento, um jovem empresário, herdeiro de uma rede de hotéis, aproximou-se do grupo. Ele estava visivelmente embriagado e com os olhos fixos no decote rendado de Eduarda.

— Emanuel, meu caro! Que festa incrível — disse o homem, ignorando Sara e Emanuel para focar em Eduarda. — E quem é essa criatura adorável? Eu não sabia que você tinha coelhinhas de estimação tão... apetitosas.

Emanuel sentiu o sangue ferver. Ele deu um passo à frente, sua presença física tornando-se uma ameaça palpável.

— Ela é minha namorada — Emanuel disse, a voz tão fria que parecia cortar o ar. — E se você usar esse tom com ela de novo, eu vou garantir que você saia daqui sem os dentes que tanto gosta de mostrar.

O homem empalideceu, deu um passo para trás e murmurou um pedido de desculpas apressado antes de desaparecer na multidão. Eduarda segurou a mão de Emanuel, seus dedos entrelaçados nos dele.

— Manu, está tudo bem... ele só estava brincando — ela disse, tentando acalmá-lo, embora estivesse secretamente adorando a demonstração de posse.

— Não estava brincando, Duda. Ele estava te desrespeitando — Emanuel rosnou. — Eu não gosto do jeito que esses caras olham para você. Eu deveria ter te proibido de usar essa roupa.

— Mas você disse que eu estava linda... — ela fez uma voz manhosa, olhando para ele por baixo dos cílios longos. — Você não gosta que os outros vejam o que é seu?

Emanuel olhou para ela, vendo a mistura de inocência e provocação. Ele percebeu que Eduarda, apesar de sua timidez, sabia exatamente o efeito que estava causando nele.

— Eu gosto que você seja minha, Duda. Mas eu odeio compartilhar a visão — ele admitiu, puxando-a para um canto mais escuro do VIP, longe dos olhares curiosos.

Sara, que observava tudo de longe, estava à beira de um colapso. Ela sempre fora o centro das atenções, a mulher que Emanuel exibia como um troféu de luxo. Ver Eduarda, com aquela fantasia "fofa", roubar não apenas os olhares da festa, mas todo o autocontrole de Emanuel, era insuportável.

— Isso é ridículo! — Sara exclamou, aproximando-se deles novamente, interrompendo o momento íntimo. — Emanuel, você está ignorando seus convidados por causa dessa palhaçada. A imprensa está lá embaixo, eles querem fotos do dono do império, não de um namorado ciumento escondido nos cantos.

— Mande a imprensa esperar — Emanuel disse, sem sequer olhar para Sara.

— Eu não vou deixar você passar vergonha por causa dessa garota — Sara disse, tentando puxar o braço de Emanuel. — Vamos descer, agora. Eu sou a sua acompanhante oficial para as fotos, lembra? Administração e imagem, Emanuel. É para isso que eu sirvo.

— Você serve para o que eu decidir que você serve, Sara — ele respondeu, finalmente voltando o olhar para ela, frio e cortante. — E hoje, sua única função é parar de me irritar. Se quiser tirar fotos, vá lá e tire. Mas não ouse tocar na Eduarda ou tentar diminuí-la de novo.

Sara soltou uma risada amarga.

— Você está cego. Ela te manipula com esse jeito de menina indefesa, e você cai como um adolescente. Olhe para ela! Ela está adorando ver você quase bater em metade da festa.

Emanuel olhou para Eduarda. Ela estava com a cabeça encostada em seu ombro, observando Sara com uma expressão de neutralidade que beirava o desdém silencioso. Havia um brilho de triunfo nos olhos da "coelhinha".

— Talvez ela esteja — Emanuel admitiu, para a surpresa de ambas. — Mas pelo menos ela não precisa gritar para ser notada.

Sara deu um grito abafado de frustração e virou as costas, marchando em direção ao bar. Ela precisava de algo muito mais forte que um martini para aguentar o resto daquela noite.

Emanuel voltou sua atenção para Eduarda. Ele passou a mão pelo rosto dela, sentindo a maciez da pele. O ciúme ainda queimava, mas agora estava misturado com uma urgência diferente.

— Vamos embora — ele anunciou.

— Mas a festa está apenas começando, Manu... — Eduarda disse, embora seus olhos brilhassem com a ideia de tê-lo sozinho.

— A festa acabou para mim no momento em que você desceu aquela escada — Emanuel disse, pegando a mão dela e começando a caminhar em direção à saída privativa. — Eu não vou passar o resto da noite protegendo você de olhares que eu quero que sejam só meus.

— E a Sara? — perguntou Eduarda, fingindo preocupação.

— Ela tem o cartão de crédito e o champanhe. Ela vai ficar bem — Emanuel respondeu, sem olhar para trás.

Enquanto atravessavam o salão em direção ao elevador, Emanuel manteve o braço firmemente ao redor da cintura de Eduarda, um aviso silencioso para qualquer um que ousasse olhar. Ele era um homem de lógica e controle, mas naquela noite, a pequena coelhinha de seda branca havia provado que, quando se tratava dela, ele era capaz de queimar o próprio império apenas para garantir que ninguém mais visse o brilho de sua pele.

Ao entrarem no elevador e as portas se fecharem, o silêncio foi imediato. Eduarda se soltou do abraço e se encostou na parede de espelho, ajeitando as orelhas de pérola.

— Você ficou realmente bravo, Manu? — ela perguntou, a voz doce e submissa voltando ao normal.

Emanuel se aproximou, prendendo-a entre seus braços contra o espelho.

— Eu fiquei com vontade de matar metade daqueles homens, Duda. Você não tem ideia do que aquela roupa faz com a cabeça de alguém.

— Eu só queria ser bonita para você — ela sussurrou, passando os braços pelo pescoço dele.

— Você é bonita demais para o meu próprio bem — ele respondeu, antes de beijá-la com uma fome que dizia que a verdadeira festa estava apenas começando, longe das luzes neon e da inveja de Sara.

Lá embaixo, no meio do estúdio luxuoso, Sara virava mais uma taça de champanhe, observando o elevador subir. Ela era a rainha de copas, mas naquela noite, o reino pertencia a uma coelhinha que sabia exatamente como prender o lobo em suas garras de veludo. E o ódio que Sara sentia era apenas o combustível para a próxima batalha que, ela jurava, não terminaria daquele jeito.