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Sal, Seda e Silicone

O sol de Angra dos Reis não pedia licença; ele dominava o horizonte com uma força dourada que refletia nas águas cristalinas, transformando o mar em um espelho de diamantes líquidos. Emanuel observava a paisagem da popa de seu iate de setenta pés, o "Obsidian", sentindo a brisa salgada bagunçar seus cabelos curtos. Três meses haviam se passado desde a festa de Halloween, e o equilíbrio de sua vida parecia ter se tornado ainda mais precário, como uma corda bamba esticada sobre um abismo de luxo e ressentimento.

Ele vestia apenas uma bermuda de linho preta. O tronco largo, coberto por tatuagens que narravam sua ascensão no mundo da arte e dos negócios, estava exposto ao calor. Emanuel era um homem de silêncios, mas ultimamente o silêncio era um artigo de luxo que ele não conseguia comprar.

— Emanuel! Se você não mandar o marinheiro trazer mais gelo para o meu rosé agora mesmo, eu juro que jogo esse balde inteiro no mar! — O grito de Sara veio da área de solarium, cortando a paz matinal como uma navalha.

Ela estava deitada em uma espreguiçadeira, a personificação da ostentação praiana. O biquíni de fita, em um tom de dourado metálico, mal cobria o necessário, deixando claro que cada centímetro de seu corpo siliconado e bronzeado fora esculpido para ser notado. Os óculos escuros de uma grife italiana cobriam metade de seu rosto, e o cabelo loiro, apesar da maresia, parecia impecável.

— O gelo está chegando, Sara. Controle-se — Emanuel respondeu, sem se virar. A voz dele era um murmúrio grave, carregado daquela paciência exausta que ele desenvolvera para lidar com as crises dela.

— Controle-se? Estamos aqui há duas horas e eu ainda não me senti devidamente servida! — Sara sentou-se, ajeitando a parte de cima do biquíni com um gesto vulgar e deliberado. — E cadê a outra? Se afogou no protetor solar fator cem?

Quase como uma resposta ao veneno de Sara, a porta de correr da cabine principal se abriu suavemente. Eduarda saiu para o convés, movendo-se com a leveza de quem teme incomodar o próprio ar. Ela usava um maiô de crochê branco, uma peça artesanal que equilibrava a elegância de uma dama com uma sensualidade fofa e discreta. Sobre o maiô, uma saída de praia de seda transparente que flutuava ao redor de suas pernas esguias.

Eduarda segurava um chapéu de palha de abas largas e um livro de poesias. Ao ver Emanuel, seus olhos brilharam com aquela doçura submissa que sempre o desarmava.

— Manu... o sol está muito forte lá fora? — perguntou ela, aproximando-se dele com passos curtos. — Eu trouxe o creme que você gosta para as suas costas.

Emanuel sentiu um alívio imediato ao ver a suavidade dela. Era como se Eduarda fosse o antídoto para a toxicidade vibrante de Sara.

— Está forte, Duda. Venha aqui para a sombra — disse ele, estendendo a mão para ela.

Eduarda aceitou o toque, aninhando-se ao lado dele. Ela ignorou a presença de Sara, embora o clima de rivalidade fosse tão denso que poderia ser cortado com uma faca.

— Ah, que cena emocionante! — Sara soltou uma risada sarcástica, levantando-se e caminhando em direção aos dois. O balanço do iate não parecia afetar seu equilíbrio sobre os saltos plataforma de cortiça. — A santinha veio cuidar do papai. Por que você não vai ler seus livrinhos lá dentro, Eduarda? Aqui fora é lugar para quem tem corpo para mostrar, não para quem parece uma criança perdida na colônia de férias.

Eduarda baixou a cabeça, os dedos apertando o braço de Emanuel.

— Eu só quero ficar perto do Emanuel, Sara. Não estou fazendo nada contra você — murmurou Eduarda, a voz trêmula de uma forma que Emanuel sabia ser metade mágoa e metade estratégia.

— Não está fazendo nada? — Sara parou na frente deles, as mãos nos quadris, o que realçava seu decote generoso. — Você vive como uma sombra, sugando a energia dele com essa sua carência patética. Emanuel, olha para ela! Ela nem consegue sustentar o olhar. Você realmente prefere essa água de salsicha a uma mulher de verdade?

— Sara, chega — Emanuel disse, o tom de voz baixando, o que era sempre um sinal de perigo. — Eu não trouxe vocês para Angra para ouvir as mesmas ofensas de sempre. Se você não consegue ficar cinco minutos sem atacar a Eduarda, eu mando o bote te levar de volta para a marina agora mesmo.

Sara estreitou os olhos, a fúria faiscando por trás das lentes escuras. Ela sabia que Emanuel não estava blefando. Ele era o homem que pagava por seus preenchimentos, suas viagens e sua vida de rainha desocupada, mas ele também era o único que não tinha medo de deixá-la falando sozinha.

— Você sempre defende ela — sibilou Sara. — É por causa daquela noite no Halloween, não é? Você acha que ela é especial porque se vestiu de coelho. Mas eu te garanto, Emanuel, a novidade acaba rápido.

— Não é sobre a roupa, Sara — Emanuel rebateu, voltando a olhar para o mar. — É sobre a paz. Coisa que você parece desconhecer.

Eduarda aproveitou o momento de silêncio para se sentar no sofá de popa, abrindo seu livro. Ela tinha um pequeno sorriso de vitória nos lábios, escondido pela aba do chapéu. Ela sabia que, enquanto Sara gritava e se tornava vulgar, ela ganhava terreno com seu silêncio sensível.

— Manu — chamou Eduarda, manhosamente —, você pode passar o protetor no meu ombro? Eu não alcanço.

Emanuel pegou o frasco de creme das mãos dela. Ele se sentou atrás de Eduarda, espalhando o líquido fresco sobre a pele macia e pálida. O toque era gentil, quase reverente. Sara observava a cena, sentindo o sangue ferver. Para ela, aquele toque era um insulto pessoal.

— Sabe o que eu acho, Emanuel? — Sara começou, caminhando até o bar do convés e servindo-se de uma dose generosa de uísque, ignorando o vinho. — Eu acho que você está ficando velho e preguiçoso. Você gosta da Eduarda porque ela é fácil de controlar. Ela é como uma das suas tatuagens: fica onde você coloca e não reclama. Já eu... eu sou o desafio que você não aguenta mais.

— Você não é um desafio, Sara. Você é um ruído constante — Emanuel respondeu, as mãos ainda nos ombros de Eduarda. — Existe uma diferença entre personalidade forte e falta de educação.

— Falta de educação? — Sara virou-se bruscamente, o líquido no copo balançando perigosamente. — Eu sou formada em administração, eu sei como o mundo funciona! Eu não vivo em um mundo de quadros e poesias de quinta categoria. Eu vivo na realidade. E a realidade é que você me ama porque eu sou a única que te faz sentir vivo de verdade, mesmo que seja de raiva!

Eduarda fechou o livro com um estalo suave. Ela se virou para Sara, os olhos grandes e expressivos cheios de uma falsa compaixão.

— É triste que você pense que o amor precisa de raiva para existir, Sara. Talvez por isso você esteja sempre tão... tensa.

— Tensa? — Sara deu um passo em direção a Eduarda, a mão livre fechada em um punho. — Escuta aqui, sua mosca morta...

— Sara! — O grito de Emanuel ecoou pelo iate, fazendo até os pássaros que seguiam o barco se afastarem. Ele se levantou, sua estatura dominando o convés. — Basta! Eu não vou dizer de novo.

O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo som do motor do iate e das ondas batendo no casco. Sara respirava fundo, o peito subindo e descendo, a vulgaridade de sua agressividade contrastando com o luxo ao redor. Eduarda permaneceu sentada, o retrato da fragilidade ofendida, buscando a proteção de Emanuel com o olhar.

— Eu vou mergulhar — anunciou Emanuel, a voz carregada de uma tensão acumulada que nem o mar de Angra parecia capaz de lavar.

Ele caminhou até a plataforma de popa e saltou na água sem olhar para trás. O impacto do corpo contra a água fria foi um alívio. Lá embaixo, no silêncio do oceano, não havia gritos, não havia carência, não havia a disputa incessante por cada milímetro de seu espaço emocional.

No convés, as duas mulheres ficaram sozinhas. Sara terminou seu uísque em um gole só e encarou Eduarda.

— Você acha que venceu, não é? — perguntou Sara, a voz agora baixa e perigosa.

— Eu não estou competindo, Sara — Eduarda respondeu, ajeitando a saída de praia de seda. — Eu só quero que ele seja feliz.

— Mentirosa — cuspiu Sara. — Você quer que ele seja seu. Você quer trancá-lo nesse seu mundinho de sensibilidade até que ele esqueça como é ser um homem de verdade. Mas eu não vou deixar. O Emanuel é fogo, Eduarda. E fogo não sobrevive com água de flores.

— O fogo também consome tudo o que toca, Sara. Às vezes, o que ele precisa é de terra firme para descansar — Eduarda rebateu, demonstrando uma firmeza rara.

Sara soltou uma risada ríspida, caminhando de volta para sua espreguiçadeira.

— Veremos quem sobra quando as cinzas caírem.

Quando Emanuel subiu de volta para o barco, dez minutos depois, encontrou uma cena de paz armada. Sara estava deitada de bruços, exibindo as curvas perfeitas para quem quisesse ver, enquanto Eduarda lia em silêncio. Ele pegou uma toalha e secou o rosto, sentindo-se um estranho em seu próprio refúgio.

— Vamos almoçar na Ilha do Dentista — Emanuel anunciou, retomando o controle da situação. — Quero as duas prontas e sem brigas. Vou pedir para o chef preparar lagosta.

— Lagosta? Espero que seja melhor que esse atendimento de quinta — reclamou Sara, sem abrir os olhos.

— Eu adoro lagosta, Manu. Obrigada por pensar na gente — disse Eduarda, com um sorriso doce.

O almoço foi um exercício de diplomacia de guerra. Emanuel sentou-se na cabeceira da mesa externa, com Sara à sua direita e Eduarda à sua esquerda. Sara usava cada oportunidade para ostentar seu conhecimento sobre vinhos e sobre a vida social das celebridades que frequentavam a ilha, enquanto Eduarda fazia comentários sobre a luz do sol e como a cor do mar lembrava as pinturas de Sorolla.

Emanuel ouvia as duas, sentindo a pressão subir. Ele amava a inteligência social de Sara, a forma como ela não se intimidava com ninguém e como sua presença era um impacto constante. Mas ele também precisava da quietude de Eduarda, da forma como ela parecia entender seus humores sem que ele precisasse dizer uma palavra.

— Emanuel, olhe! — Sara apontou para um iate vizinho. — É o pessoal daquela galeria de Nova York. Você deveria ir lá cumprimentá-los. Seria ótimo para os seus estúdios.

— Eu estou de folga, Sara — Emanuel respondeu, servindo-se de mais vinho.

— Você nunca está de folga do sucesso, querido. Deixe de ser preguiçoso. Se você não cuidar da sua imagem, ninguém vai cuidar por você. Certamente não a Duda, que mal consegue falar com o garçom.

Eduarda baixou os talheres, os olhos começando a brilhar com lágrimas prontas para cair.

— Eu só acho que o Manu merece um descanso, Sara. Ele trabalha tanto... — a voz de Eduarda falhou de forma calculada.

— Ah, pronto! Vai começar o teatro — Sara revirou os olhos. — Emanuel, você não se cansa disso? Dessa chantagem emocional barata?

Emanuel bateu com a palma da mão na mesa, fazendo os cristais tilintarem.

— Chega! As duas! — O grito de Emanuel foi seco e autoritário. — Eu não quero ouvir mais uma palavra sobre trabalho, imagem ou sobre quem é mais útil. Se vocês não conseguem aproveitar um almoço em um dos lugares mais bonitos do mundo sem se matarem, eu juro que volto para o Rio agora mesmo e deixo as duas na marina.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sara cruzou os braços, bufando, mas calou-se. Eduarda limpou o canto do olho com o guardanapo de linho, mantendo-se em um silêncio mártir.

Emanuel respirou fundo, tentando recuperar o controle de sua própria sanidade. Ele olhou para Sara, vendo a loira deslumbrante que exalava uma energia sexual e agressiva que o desafiava. Depois olhou para Eduarda, a morena delicada que exalava uma ternura e uma dependência que o prendia.

Ele era o mestre das sombras, o tatuador rico que o mundo admirava, mas ali, naquele iate, ele era apenas um homem tentando mediar uma guerra civil que ele mesmo criara ao não conseguir escolher entre o veneno e o mel.

— Eu vou para a cabine tirar um cochilo — Emanuel anunciou, levantando-se. — Quando eu acordar, espero que tenham encontrado uma forma de coexistirem.

Ele caminhou para o interior do iate, o som de seus passos desaparecendo no carpete luxuoso.

Assim que ele saiu da vista, Sara inclinou-se sobre a mesa, o rosto a poucos centímetros do de Eduarda.

— Você acha que ele vai aguentar muito tempo, "Dudinha"? Esse seu papel de vítima está ficando velho.

Eduarda não recuou. Ela olhou diretamente nos olhos de Sara, uma frieza súbita substituindo a doçura habitual.

— Ele aguenta porque eu dou a ele o que você nunca vai dar, Sara. Eu dou a ele um motivo para voltar para casa. Você é apenas o espetáculo. Eu sou o lar.

Sara soltou uma risada anasalada, mas havia uma dúvida em seu olhar que ela não conseguia esconder.

— O lar é onde a gente dorme, querida. O espetáculo é onde a gente vive. E o Emanuel nasceu para viver.

— Veremos — disse Eduarda, levantando-se com elegância e caminhando em direção à cabine de Emanuel, deixando Sara sozinha com o resto da lagosta e sua própria fúria.

Lá dentro, na penumbra da suíte master, Emanuel estava deitado, os olhos fixos no teto. Ele ouviu a porta se abrir e o som leve dos passos de Eduarda. Sentiu o peso de seu corpo se acomodando ao lado dele, o cheiro de lavanda e protetor solar preenchendo o ar.

— Manu... — sussurrou ela, abraçando-o pela cintura e escondendo o rosto em seu peito. — Desculpa pela briga. Eu só queria que o dia fosse perfeito.

Emanuel passou o braço por cima dela, puxando-a para mais perto. Ele não disse nada. Ele sabia que, em alguns minutos, Sara também entraria, provavelmente fazendo barulho, reclamando do ar-condicionado e tentando retomar seu território com a mesma força de sempre.

Ele era o pivô de um equilíbrio doentio. O sol de Angra continuaria brilhando lá fora, mas dentro de seu coração, a tempestade entre a timidez manhosa e a vulgaridade siliconada nunca terminaria. E, de uma forma sombria e racional, Emanuel sabia que era exatamente esse caos que o mantinha em pé. Ele precisava do silêncio de uma para suportar o grito da outra, e do fogo de uma para não congelar na doçura da outra.

A tarde caiu lentamente sobre o mar, tingindo o céu de tons de rosa e laranja. O iate Obsidian continuava seu curso pelas águas calmas, carregando três pessoas presas em um labirinto de desejos e rivalidades onde ninguém saía vencedor, mas ninguém estava disposto a ir embora.