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O Lobo e a Porcelana

O sol de outono começava a se despedir, tingindo o céu de um laranja profundo e melancólico que se infiltrava entre os galhos retorcidos das árvores. Emanuel havia escolhido a dedo aquela propriedade isolada no interior, uma vasta extensão de mata preservada que cercava uma de suas casas de campo mais discretas. Ali, longe do barulho de São Paulo e, principalmente, longe da presença estridente e sufocante de Sara, ele buscava algo que a cidade não podia mais lhe oferecer: o controle absoluto sobre o instinto.

Emanuel estava encostado no capô do jipe preto, vestindo roupas escuras e botas de couro. Seus olhos observadores seguiam cada movimento de Eduarda. Ela parecia uma visão deslocada naquele ambiente rústico. Ele a fizera vestir uma capa curta com capuz, de um tom de vermelho carmesim que contrastava violentamente com a palidez de sua pele e a brancura do vestido leve de seda que ela usava por baixo.

— Você entendeu as regras, pequena? — perguntou Emanuel, a voz grave vibrando no ar parado da floresta.

Eduarda apertou as bordas da capa, os dedos pequenos tremendo levemente, mas não de medo real. Havia um brilho de antecipação em seus olhos escuros, uma entrega que só ela sabia oferecer a ele. Ela gostava de ser o objeto de sua atenção obsessiva, gostava de sentir que ele moveria montanhas — ou cruzaria florestas — apenas para tê-la em seus braços.

— Eu corro... e você me caça — sussurrou ela, um sorriso manhoso curvando seus lábios. — Mas o que acontece se você me pegar, Manu?

Emanuel se aproximou, o passo lento e predeterminado de um predador que não tem pressa porque sabe que a vitória é inevitável. Ele parou a centímetros dela, o cheiro de floresta e tabaco emanando de sua pele.

— Se o lobo pegar a Chapeuzinho... — ele inclinou a cabeça, sua mão subindo para traçar o contorno do rosto delicado dela com o polegar — ...ele a leva para a toca. E lá, não haverá ninguém para ouvir seus pedidos de misericórdia. Só eu e você.

Eduarda soltou um suspiro trêmulo, o peito subindo e descendo rapidamente sob a seda. A dinâmica de poder entre eles sempre fora baseada nessa proteção quase sufocante, mas hoje, Emanuel queria levar isso ao extremo. Ele queria sentir a adrenalina da perseguição, e ela queria sentir o desespero doce de ser capturada por ele.

— Eu vou te dar cinco minutos de vantagem — disse Emanuel, afastando-se e olhando para o relógio de pulso. — Corra, Duda. Corra como se sua vida dependesse disso. Porque quando eu começar a andar, eu não vou parar até sentir o seu coração batendo contra o meu peito.

Eduarda não esperou. Ela lançou um último olhar provocador por cima do ombro e disparou em direção à trilha fechada. O vermelho de sua capa era como uma mancha de sangue movendo-se entre o verde escuro das folhagens.

Emanuel ficou parado, contando os segundos no silêncio absoluto da mata. Ele fechou os olhos, aguçando os ouvidos. Ouviu o estalar de galhos secos, o farfalhar das folhas e a respiração apressada dela que o vento trazia de longe. Ele sorriu. No mundo dos negócios e na convivência caótica com Sara, ele precisava ser racional e frio. Mas ali, ele podia ser o animal.

— Cinco minutos — murmurou ele, ajustando as luvas. — Pronta ou não.

Ele começou a caminhar. Não corria; Emanuel não precisava correr. Ele conhecia aquele terreno como a palma de sua mão, e conhecia Eduarda ainda melhor. Ele sabia que ela tenderia a buscar os lugares mais bonitos, as clareiras onde a luz ainda tocava o chão, porque ela via o mundo através da lente da arte, da estética. Ela não era uma criatura do submundo; era uma ninfa que tentava se esconder na beleza.

Enquanto isso, Eduarda corria com o coração martelando nas costelas. O ar frio entrava em seus pulmões, e o roçar dos galhos em seus braços lhe dava uma sensação de liberdade selvagem. Ela olhou para trás, vendo apenas as sombras que se alongavam. Onde ele estaria? Ela sabia que Emanuel era silencioso. Ele era o tipo de homem que não anunciava sua chegada; ele simplesmente estava lá, dominando o espaço.

— Ele não vai me achar aqui — ofegou ela, desviando da trilha principal e entrando em um emaranhado de samambaias gigantes.

Ela se agachou atrás de um tronco caído, coberto de musgo verde e macio. O silêncio da floresta era profundo, quebrado apenas pelo pio de uma coruja distante. Eduarda tentou acalmar a respiração, cobrindo a boca com a mão. O medo lúdico percorria sua espinha como eletricidade. Era inebriante saber que, naquele exato momento, um homem rico, poderoso e perigoso estava usando todos os seus sentidos para encontrá-la.

De repente, o som de um galho quebrando ecoou à sua direita.

Eduarda congelou. Seus olhos se arregalaram. Ela olhou através das frestas do tronco e viu uma silhueta escura movendo-se entre as árvores. Era ele. Emanuel caminhava com uma calma aterradora, os olhos fixos no chão, lendo os rastros que ela, em sua pressa inocente, deixara para trás.

— Eu sei que você está por perto, pequena — a voz dele ecoou, não muito alta, mas carregada de uma autoridade que fez as pernas de Eduarda fraquejarem. — Consigo sentir o seu perfume de baunilha lutando contra o cheiro dos pinheiros. É um rastro doce demais para esta floresta.

Eduarda sentiu um arrepio de prazer. Ela se encolheu mais, tentando se tornar invisível. Mas o som dos passos dele estava ficando mais alto. *Crac. Crac.* O ritmo era constante, implacável.

— O lobo está com fome, Chapeuzinho — continuou Emanuel, e ela podia jurar que ouvia o sorriso na voz dele. — E ele não quer apenas o lanche da cesta. Ele quer a dona da capa.

Eduarda não aguentou a tensão. Ela se levantou e disparou novamente, saindo de seu esconderijo. Ela ouviu o riso curto e seco de Emanuel atrás dela.

— Isso! Corra! — gritou ele.

Ela corria sem rumo agora, o capuz caindo e revelando seus cabelos longos que voavam ao vento. Ela avistou uma descida que levava a um pequeno riacho e pensou que, se atravessasse a água, poderia despistá-lo. Ela desceu a encosta escorregando, os pés molhando-se na água gelada. Ao chegar do outro lado, ela parou para recuperar o fôlego, apoiando-se em uma rocha.

Mas quando se virou, Emanuel já estava no topo da encosta, observando-a lá de cima. A luz do crepúsculo batia em suas costas, transformando-o em uma sombra gigantesca e ameaçadora.

— A água não esconde o seu brilho, Duda — disse ele.

Ele desceu a encosta com uma agilidade que ela não previu e, em poucos segundos, cruzou o riacho. Eduarda tentou correr de novo, mas o chão estava úmido e ela tropeçou em uma raiz, caindo sobre o tapete de folhas secas. Antes que pudesse se levantar, sentiu o peso do corpo dele sobre o seu.

Emanuel a prendeu contra o chão, suas mãos segurando os pulsos dela acima da cabeça. Ele estava ofegante, os olhos escuros brilhando com uma intensidade que a fez esquecer como se respira.

— Peguei você — rosnou ele.

Eduarda olhou para ele, o rosto corado, o peito subindo e descendo em espasmos rápidos. O medo lúdico havia se transformado em um desejo avassalador.

— O lobo me pegou — sussurrou ela, a voz manhosa e trêmula. — O que ele vai fazer agora?

Emanuel soltou os pulsos dela, mas apenas para passar as mãos pelo pescoço de Eduarda, sentindo a pulsação acelerada em sua carótida. Ele se inclinou, roçando o nariz no dela.

— O lobo vai levar o seu prêmio para casa — disse ele, a voz baixa e possessiva. — Ele vai mostrar para a Chapeuzinho que, na floresta dele, não existem regras, apenas a vontade dele.

Ele a beijou com uma fome que misturava a agressividade da caça com a proteção absoluta que ele sentia por ela. Eduarda respondeu com a mesma intensidade, enlaçando as pernas na cintura dele, puxando-o para mais perto. Naquele momento, não havia Sara, não havia estúdios de tatuagem, não havia problemas financeiros. Havia apenas a terra sob suas costas e o homem que era seu dono, seu protetor e seu predador.

Emanuel a levantou do chão com facilidade, carregando-a no colo como se ela não pesasse nada. Eduarda escondeu o rosto no pescoço dele, sentindo-se segura e, ao mesmo tempo, deliciosamente em perigo.

— Você foi rápida — elogiou ele, caminhando de volta em direção ao jipe enquanto a escuridão finalmente tomava conta da floresta. — Mas ninguém foge de mim por muito tempo.

— Eu não queria fugir de verdade, Manu — confessou ela, mordendo levemente o lóbulo da orelha dele. — Eu só queria ver até onde você iria para me buscar.

— Eu iria até o inferno, se fosse preciso — respondeu ele, e a seriedade em sua voz dizia que não era apenas parte da brincadeira. — Mas por enquanto, a nossa toca vai servir.

Eles chegaram ao veículo. Emanuel a colocou no banco do passageiro e a olhou por um longo momento. O vestido de seda estava sujo de terra, a capa vermelha estava desalinhada e os cabelos dela estavam cheios de folhas secas. Para ele, ela nunca estivera tão linda. Ela era uma obra de arte que ele havia acabado de conquistar na natureza selvagem.

— Vamos para casa — disse ele, entrando no carro.

Durante o trajeto de volta para a sede da fazenda, o silêncio era preenchido apenas pelo som do motor. Eduarda encostou a cabeça no ombro de Emanuel, sentindo a adrenalina baixar e dar lugar a um cansaço doce. Ela sabia que, ao voltarem para a cidade, a guerra com Sara recomeçaria. Sabia que teria que lidar com os gritos, as ofensas e a vulgaridade da outra. Mas ali, sob a proteção do lobo, ela se sentia invencível.

Ao chegarem na casa, Emanuel a levou diretamente para o quarto principal. Ele a colocou na cama e começou a tirar as botas dela com uma paciência que contrastava com a brutalidade da perseguição de minutos atrás.

— Você está com frio? — perguntou ele, cobrindo-a com um edredom de penas.

— Só se você não estiver aqui comigo — respondeu ela, estendendo a mão.

Emanuel se despiu e deitou-se ao lado dela, puxando-a para o seu abraço. Eduarda aninhou-se em seu peito, ouvindo o batimento rítmico e forte do coração dele.

— Manu... — chamou ela baixinho, quase pegando no sono.

— Oi, pequena.

— Amanhã... a gente pode brincar de novo?

Emanuel sorriu na escuridão, beijando o topo da cabeça dela.

— Amanhã, a caçada será diferente. Mas o resultado será o mesmo. Você sempre será minha, Eduarda. Não importa o quanto corra.

Ela sorriu, fechando os olhos com a certeza de que, naquele triângulo amoroso caótico e exaustivo, ela havia encontrado o seu lugar de poder. Sara podia ter os holofotes e o barulho, mas ela tinha a alma do lobo. E para Eduarda, isso era mais do que suficiente para vencer qualquer guerra.

Enquanto o sono a envolvia, ela ainda podia sentir o cheiro da floresta e o toque firme de Emanuel. A Chapeuzinho Vermelho não tinha mais medo do Lobo Mau; ela o havia domesticado com sua fragilidade, transformando a perseguição em uma dança eterna de posse e entrega. E Emanuel, fechando os olhos ao lado dela, sabia que, por mais que tentasse manter o controle de sua vida, era naquelas brincadeiras perigosas com Eduarda que ele encontrava a única paz que sua alma atormentada conhecia.