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Madrugada de Mármore e Insônia
A chuva fina que começou a cair sobre São Paulo por volta das duas da manhã tinha um cheiro de terra molhada e poluição, uma mistura que Emanuel conhecia bem. Ele estava parado diante da imensa parede de vidro da sua cobertura, observando as luzes da cidade que nunca dormia, mas seu foco não estava no horizonte. Seus olhos voltavam-se, de minuto em minuto, para o rádio comunicador e o celular sobre a mesa de centro.
A reunião com Tóquio havia terminado há pouco, deixando-o com os nervos à flor da pele. Sara dormia no quarto principal, um sono pesado de quem havia tomado duas taças de vinho e conseguido o que queria antes de apagar. Mas Emanuel não conseguia descansar. O relatório dos seguranças não chegava há mais de quarenta minutos.
— Onde você está com a cabeça, Eduarda? — sussurrou ele para o vidro embaçado.
O rádio chiou, cortando o silêncio do apartamento.
— Patrão? Aqui é o sargento Rocha. Temos uma situação.
Emanuel pegou o aparelho no primeiro segundo.
— Prossiga, Rocha. O que aconteceu? Ela está bem?
— Ela está bem, senhor. Mas o grupo... o professor e os alunos decidiram que não vão sair agora. Eles alegam que a iluminação da lua e a neblina criaram uma "atmosfera estética ideal". Eles pretendem passar o resto da noite aqui e sair apenas ao amanhecer, para ver o sol bater nas esculturas de bronze.
Emanuel sentiu uma veia pulsar em sua têmpora. Ele apertou o rádio com força.
— Você está me dizendo que minha namorada vai dormir em um cemitério? No chão? No meio do nada?
— Eles têm sacos de dormir e lanternas, senhor. A senhorita Eduarda parece irredutível. Ela disse que, se o senhor a obrigar a sair, ela não volta para a cobertura.
Emanuel desligou o rádio sem responder. Ele conhecia aquela teimosia mansa. Eduarda não gritava como Sara; ela simplesmente se fixava em uma ideia com a resiliência de uma raiz que quebra o asfalto. Se ele a forçasse agora, a fragilidade dela se transformaria em um muro de gelo que levaria semanas para derreter.
— O que foi agora? — A voz de Sara veio do corredor, arrastada e rouca.
Ela apareceu segurando um lençol ao redor do corpo, o cabelo loiro bagunçado de uma forma que ela considerava sexy, mas que para Emanuel, naquele momento, era apenas irritante.
— A Eduarda decidiu que vai virar a noite no cemitério com os amiguinhos cultos dela — Emanuel disse, pegando sua jaqueta de couro e as chaves do carro.
Sara soltou uma risada curta, sentando-se no braço do sofá.
— Só pode ser piada. Aquela sonsa vai dormir com os mortos? Emanuel, deixa ela lá! Se um viciado ou um fantasma der um susto nela, talvez ela aprenda a parar de ser tão exótica. Vem deitar, esquece isso.
— Eu vou buscá-la — Emanuel sentenciou, calçando os sapatos.
— Você vai o quê? — Sara levantou-se, o lençol quase escorregando. — Emanuel, são três da manhã! Você vai atravessar a cidade para buscar uma garota que quer brincar de gótica? Você é o dono de um império, não um motorista de aplicativo!
— Eu sou o homem que garante que ela chegue viva em casa, Sara. Se você quer dormir, durma. Eu não vou deixá-la lá a noite toda.
— Se você sair por aquela porta por causa dela, eu juro que quebro aquele vaso de cristal que você trouxe da Itália! — Sara gritou, a vulgaridade aflorando enquanto ela buscava qualquer forma de controle.
Emanuel parou na porta e olhou para ela com um desprezo frio.
— Quebre o vaso, Sara. Amanhã eu compro outro. Mas se algo acontecer com a Eduarda, não há dinheiro no mundo que resolva.
Ele saiu, batendo a porta e deixando Sara gritando obscenidades para as paredes vazias.
O trajeto até o Cemitério da Consolação foi rápido. As ruas estavam desertas, e o motor potente do carro de Emanuel era o único som que cortava a névoa. Ao chegar ao portão principal, ele viu o carro de sua segurança estacionado. Rocha aproximou-se imediatamente.
— Senhor, eles estão no setor das famílias aristocráticas. É um pouco afastado.
— Eu vou até lá. Fique aqui — ordenou Emanuel.
Ele caminhou entre as alamedas de mármore e ferro. O lugar era imenso, um labirinto de anjos chorando e mausoléus imponentes. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som de seus próprios passos. Finalmente, ele viu o brilho de lanternas e ouviu vozes baixas.
Eduarda estava sentada em um degrau de pedra de um túmulo monumental, com um caderno no colo. Ela usava um casaco pesado que Emanuel lhe dera, e o colar de safira brilhava discretamente sob a luz da lanterna que estava ao seu lado. Ao redor dela, outros jovens sussurravam sobre neoclássico e romantismo.
— Eduarda.
O nome saiu da boca de Emanuel como um comando. O grupo de estudantes silenciou-se imediatamente, olhando para o homem alto e de expressão fechada que parecia ter saído de um filme policial.
Eduarda levantou o olhar. Ela não parecia assustada, apenas... culpada.
— Manu? O que você está fazendo aqui? Eu disse pelo rádio que ia ficar.
— Você disse, mas eu não aceitei — disse ele, aproximando-se e parando a poucos centímetros dela. — Levante-se. Vamos embora.
— Não! — Ela se levantou, mas não para segui-lo. — Emanuel, olha para este lugar. O professor está explicando a transição da morte heróica para a morte sentimental. Eu nunca vou ter outra chance de ver isso assim, no silêncio total.
— Você vai ver isso em livros, Eduarda. Ou eu compro um desses túmulos e trago para o jardim da cobertura se for preciso — Emanuel disse, a paciência se esgotando. — Mas você não vai dormir ao relento em um cemitério no centro de São Paulo.
— Você está me envergonhando na frente de todos! — ela sussurrou, os olhos começando a marejar. — Você sempre faz isso. Me trata como se eu fosse uma criança de cinco anos.
— Eu te trato como alguém que eu prezo. Agora, pegue suas coisas.
— Com licença, senhor... — O professor, um homem magro de óculos, tentou intervir. — Nós temos autorização e segurança. A Eduarda está perfeitamente...
Emanuel virou o rosto para o homem, e o olhar foi tão gélido que o professor deu um passo atrás, engolindo o resto da frase.
— A autorização de vocês não cobre a minha paz de espírito. Eduarda, última vez.
Ela olhou para os colegas, depois para Emanuel. A timidez dela estava lutando com a vontade de pertencer àquele mundo intelectual, mas a presença de Emanuel era magnética, uma força de gravidade que ela não conseguia ignorar. Ela começou a guardar o caderno na bolsa, os movimentos lentos e manhosos.
— Eu odeio quando você faz isso — ela murmurou, aproximando-se dele. — Você estraga tudo o que é importante para mim.
— Eu garanto que você continue viva para que as coisas continuem sendo importantes, Duda — ele respondeu, pegando a bolsa dela e colocando a mão em suas costas, guiando-a para fora.
A caminhada de volta ao carro foi feita em silêncio. Eduarda fungava baixinho, o som que sempre partia o coração de Emanuel, mas ele se manteve firme. Ao chegarem ao portão, ele a ajudou a entrar no carro.
— Rocha, pode encerrar. Bom trabalho — Emanuel disse ao segurança antes de assumir o volante.
Dentro do carro, o aquecedor começou a espantar o frio da madrugada. Eduarda estava encolhida no banco do passageiro, olhando para a janela.
— Você é um monstro, Emanuel — ela disse, a voz pequena. — A Sara sai para festas, volta bêbada, gasta milhares de reais em roupas vulgares e você não diz nada. Eu tento estudar, tento ser alguém, e você me arrasta para fora de um cemitério como se eu fosse uma fugitiva.
— A Sara não corre risco de ser atacada por um maníaco em um túmulo, Eduarda. E se ela correr, ela sabe se defender. Você é... — Ele hesitou.
— Eu sou o quê? Fraca? — Ela virou-se para ele, as lágrimas escorrendo. — É isso que você pensa de mim? Que eu sou só uma boneca que você guarda em uma caixa de vidro?
Emanuel estacionou o carro bruscamente no acostamento de uma avenida deserta. Ele se virou para ela, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa.
— Você é a única coisa pura que eu tenho, Eduarda! — ele explodiu. — Eu passo o dia lidando com gente que quer me roubar, com a vulgaridade da Sara, com a pressão de um império que eu construí do nada. Quando eu olho para você, eu quero que você continue assim, intocada por essa sujeira. Você acha que é controle? É desespero! Eu não posso te perder.
Eduarda parou de chorar, surpresa com a explosão de vulnerabilidade dele. Emanuel raramente admitia medo. Ele sempre era o roqueiro de gelo, o empresário implacável.
— Manu... — Ela esticou a mão e tocou o rosto dele, os dedos frios aquecendo-se na pele quente de Emanuel. — Você não vai me perder. Mas você precisa me deixar respirar.
— Eu te deixo respirar em qualquer lugar que não tenha cadáveres e perigo iminente — ele resmungou, mas segurou a mão dela e a beijou. — Vamos para casa.
O retorno à cobertura foi marcado por uma trégua frágil. Emanuel esperava encontrar Sara dormindo, mas a luz da sala estava acesa. Ao abrirem a porta, o cenário era de guerra. O vaso de cristal que Emanuel mencionara estava estraçalhado no chão, os cacos brilhando como diamantes cruéis sobre o tapete persa.
Sara estava sentada no sofá, bebendo direto de uma garrafa de champanhe, ainda usando apenas a lingerie.
— Olha só! O herói trouxe a defunta de volta! — Sara exclamou, a voz levemente arrastada pelo álcool. — Que lindo. O vaso já era, Emanuel. O próximo vai ser a sua televisão de cem polegadas se você não parar de me tratar como se eu fosse um móvel desta casa.
Eduarda recuou, escondendo-se atrás de Emanuel. O medo dela de Sara era real, uma repulsa física pela agressividade da loira.
— Sara, vá para o quarto. Agora — Emanuel disse, o tom de voz indicando que ele estava no limite de sua sanidade.
— Eu não vou a lugar nenhum! — Ela se levantou, cambaleando levemente. — Eu cansei! Eu cansei dessa menina sonsa roubando a sua atenção com esses chorinhos de merda. Olhe para mim, Emanuel! Eu sou a mulher que as pessoas olham na rua. Eu sou a mulher que faz você se sentir poderoso. Ela é só... um fardo!
— Cala a boca, Sara! — Eduarda gritou, surpreendendo a todos. Ela saiu de trás de Emanuel, os olhos faiscando. — Você é vulgar, você é vazia e a única coisa que você ama no Emanuel é o cartão de crédito dele! Você quebra as coisas porque não tem nada por dentro para oferecer.
Sara ficou boquiaberta por um segundo, antes de avançar.
— Sua vadiazinha de museu! Eu vou arrancar esse colar do seu pescoço!
Emanuel agiu rápido, colocando-se entre as duas e segurando Sara pelos pulsos antes que ela pudesse atingir Eduarda.
— BASTA! — O grito de Emanuel pareceu fazer as janelas vibrarem. — Sara, se você der mais um passo, eu ligo para o RH da minha holding e mando cancelar todos os seus cartões e o aluguel deste lugar. Eduarda, para o seu quarto. Agora!
Eduarda, assustada com a fúria dele, obedeceu imediatamente, correndo para o corredor. Sara, sentindo a pressão nos pulsos e a ameaça financeira, murchou.
— Você não faria isso... — ela sussurrou, a confiança vacilando.
— Tente-me — Emanuel disse, soltando-a com um empurrão leve. — Eu estou exausto. Eu atravessei a cidade, lidei com a teimosia de uma e agora com a sua histeria. Eu não sou um brinquedo de vocês duas.
Ele caminhou até o bar, serviu-se de mais uísque e bebeu tudo de uma vez. O silêncio na sala era cortante. Sara olhou para os cacos do vaso no chão e, pela primeira vez na noite, pareceu sentir um pouco de vergonha, ou talvez apenas medo das consequências.
— Eu só... eu sinto falta de quando era só a gente, Manu — ela disse, a voz suavizando, tentando a tática da sedução.
— Nunca foi só a gente, Sara. Você sempre amou o brilho mais do que a mim. E a Eduarda... a Eduarda ama uma versão de mim que eu nem sei se existe mais.
Ele passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso dos seus vinte e cinco anos parecerem cinquenta.
— Vá dormir, Sara. Amanhã teremos uma conversa séria sobre limites.
Ela hesitou, mas vendo que não conseguiria nada mais naquela noite, retirou-se para o quarto, deixando Emanuel sozinho com os destroços de cristal.
Ele sentou-se no sofá, fechando os olhos. Alguns minutos depois, sentiu um toque leve em seu ombro. Era Eduarda. Ela havia trocado de roupa, vestindo uma camisola de algodão simples, e trazia uma pequena caixa de curativos.
— Você cortou a mão quando segurou a Sara? — ela perguntou baixo.
Emanuel olhou para a própria mão e viu um pequeno corte, provavelmente de um estilhaço do vaso que voara durante a confusão.
— Nem percebi.
Eduarda sentou-se no chão, entre as pernas dele, e começou a limpar o corte com uma delicadeza quase religiosa. O contraste entre a paz que ela emanava agora e o caos de poucos minutos atrás era o que mantinha Emanuel preso àquela dinâmica.
— Desculpa por hoje, Manu — ela disse, sem olhar para cima. — Eu só queria que você tivesse orgulho de mim por algo que não fosse só o meu rosto.
— Eu tenho orgulho de você, Duda. Só não quero que você se coloque em perigo para provar nada.
Ela terminou o curativo e apoiou a cabeça no joelho dele.
— A Sara não vai embora, vai?
Emanuel suspirou, acariciando os cabelos dela.
— Eu não sei se consigo mandar nenhuma de vocês embora, Duda. Esse é o meu problema.
— A gente é o seu vício — ela murmurou, fechando os olhos.
— É. Um vício caro e perigoso.
Emanuel ficou ali, no escuro da sala, com uma namorada dormindo no quarto e a outra aninhada em seus pés. Ele era o mestre de um império mundial, um tatuador cujas mãos criavam beleza eterna na pele das pessoas, mas sua própria vida era um rascunho mal acabado de conflitos e desejos contraditórios.
Lá fora, o sol começava a dar os primeiros sinais no horizonte de São Paulo, o mesmo sol que os colegas de Eduarda estavam esperando ver entre os túmulos. Emanuel, no entanto, preferia a penumbra de sua sala. No claro, as feridas e os cacos de cristal eram visíveis demais. Na sombra, ele ainda podia fingir que tinha tudo sob controle.
Ele pegou Eduarda no colo, sentindo o corpo leve e quente dela, e a levou para o quarto. Antes de fechar os olhos, ele soube que o dia seguinte traria novas brigas, novos ciúmes e novas ameaças. Mas, enquanto tivesse o veneno de Sara para mantê-lo alerta e a doçura de Eduarda para acalmá-lo, Emanuel continuaria navegando naquele mar revolto, o único lugar onde ele realmente se sentia vivo.