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Vaidade de Plástico e Punhos de Ferro
A manhã na cobertura de Emanuel nasceu com uma luz cinzenta, filtrada pelas cortinas de linho que custavam mais do que um carro popular. O silêncio que Eduarda tanto prezava foi o primeiro a morrer, estilhaçado pelo som estridente de um salto agulha marchando pelo mármore da cozinha.
Emanuel estava sentado à ilha de granito, os olhos fixos na tela do iPad enquanto analisava os relatórios financeiros de seu estúdio em Berlim. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza, deixando à mostra as tatuagens que subiam por seus braços e peito, uma armadura de tinta que contrastava com sua expressão de cansaço administrativo.
Eduarda apareceu logo depois, deslizando como uma sombra suave. Ela usava um babydoll de seda branca com detalhes em renda, curto o suficiente para ser provocante, mas tão delicado que a fazia parecer uma pintura de porcelana. Ela não disse nada; apenas se aproximou de Emanuel e encostou a cabeça em seu ombro, soltando um suspiro manhoso enquanto buscava o calor da pele dele.
— Bom dia, pequena — Emanuel murmurou, desviando o olhar da tela por um segundo para beijar o topo da cabeça dela. — Dormiu bem?
— Mais ou menos... — ela sussurrou, a voz ainda rouca de sono. — Tive sonhos agitados. Parecia que o jantar de ontem ainda não tinha acabado na minha cabeça.
Emanuel ia responder, mas a presença de Sara cortou o ar como uma lâmina cega. Ela entrou na cozinha usando um roupão de cetim de oncinha, aberto o suficiente para exibir o colo siliconado e a pele bronzeada artificialmente. O cabelo loiro, embora levemente bagunçado, ainda parecia montado para uma sessão de fotos.
— Bom dia para quem já acordou com o destino traçado! — Sara exclamou, ignorando o clima íntimo entre os dois. Ela se serviu de um café preto, mas não antes de empurrar levemente o braço de Eduarda para alcançar o açúcar. — Emanuel, querido, largue esse tablet. Eu tomei uma decisão monumental ontem à noite.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um instante. Ele conhecia aquele tom de voz. Era o tom de quem tinha passado a madrugada navegando por perfis de cirurgiões plásticos no Instagram.
— Sara, se for sobre trocar as próteses de novo, a resposta é não. Você já tem mais plástico no peito do que o oceano Pacífico — ele disse, a voz seca, sem rodeios.
Sara soltou uma risada debochada, sentando-se no banco à frente dele e cruzando as pernas de forma que o roupão se abrisse quase totalmente.
— Ah, não seja ridículo. Meus peitos estão perfeitos, eu sei disso. O upgrade agora é em outro lugar. Mais... íntimo.
Eduarda, que estava servindo um pouco de iogurte com frutas, parou o movimento no ar. Ela sentiu o rosto esquentar, prevendo o que viria.
— Eu estava olhando as fotos de um médico em Miami — continuou Sara, passando a língua pelos lábios de forma vulgar. — Ele faz uma tal de ninfoplastia com laser que é um escândalo. Eu quero deixar a minha buceta igual à de uma Barbie, Emanuel. Lisinha, apertada, sem uma dobrinha sequer. Quero que pareça que eu nunca nem usei.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Eduarda baixou os olhos para a tigela, sentindo uma mistura de choque e vergonha alheia. Emanuel, por outro lado, apenas encarou Sara com uma expressão de absoluta descrença.
— Você está brincando, não é? — Emanuel perguntou, a voz baixando uma oitava, um sinal claro de irritação.
— Por que eu estaria brincando? — Sara rebateu, batendo as unhas de acrílico no balcão. — É estética, Emanuel! É sobre performance, sobre beleza. Imagine você entrando lá e encontrando tudo perfeito, como se fosse a primeira vez, todo santo dia.
— Sara, pelo amor de Deus — Eduarda interveio, a voz pequena e trêmula. — Você já é... você já faz tanta coisa. Pra que passar por uma cirurgia num lugar tão sensível por pura... vaidade?
Sara virou o rosto lentamente para Eduarda, um sorriso venenoso surgindo em seus lábios pintados.
— Ah, chegou a especialista em "naturalidade". Por favor, Eduarda, sua opinião sobre estética vale tanto quanto seu diploma de História da Arte: nada. Você é toda molenga, toda fofinha, parece uma criança que esqueceu de crescer. Se você quer ser medíocre, o problema é seu. Eu busco a perfeição.
— Chega! — Emanuel bateu a mão na mesa, o som ecoando pela cozinha. — Sara, eu não vou pagar por isso.
Sara paralisou, o sorriso sumindo instantaneamente.
— O quê? Como assim não vai pagar? Emanuel, são só dez mil dólares. Para você, isso é o que você gasta em tinta de tatuagem em um mês!
— Não é sobre o dinheiro, embora seja uma fortuna jogada no lixo — Emanuel se levantou, sua estatura imponente dominando o ambiente. — É sobre o fato de que você está viciada em se retalhar. Faz seis meses que você mexeu no nariz. Três meses desde o último preenchimento labial que te deixou parecendo um pato por duas semanas. Eu não vou financiar uma mutilação desnecessária em uma parte do seu corpo que não tem absolutamente nada de errado.
— Ah, então agora você é o juiz da minha anatomia? — Sara gritou, levantando-se também, a voz subindo para um tom histérico. — Você adora usar, não é? Adora o que eu ofereço! Mas na hora de investir na manutenção, você vira esse moralista de merda?
— Manutenção? Você fala de si mesma como se fosse um carro, Sara! — Emanuel retrucou, a veia em seu pescoço saltando. — Eu tenho estúdios para gerir, funcionários em três continentes, e você quer que eu pare tudo para assinar um cheque para você operar a buceta? Tenha o mínimo de dignidade.
Eduarda aproximou-se de Emanuel, tocando seu braço com a ponta dos dedos, tentando acalmá-lo.
— Emanuel, não fica assim... a pressão vai subir...
— Sai daqui, sua sonsa! — Sara avançou um passo na direção de Eduarda, que recuou instintivamente para trás de Emanuel. — Você está adorando isso, não está? Adorando ver ele me negando algo enquanto você fica aí, com essa cara de quem nunca nem depilou a virilha direito. Você é uma hipócrita!
— Eu não sou hipócrita, Sara — Eduarda respondeu, as lágrimas começando a embaçar seus olhos grandes. — Eu só acho que... que o Emanuel gosta da gente pelo que somos. Eu não preciso de cirurgia para me sentir amada por ele.
— Porque você é uma acomodada! — Sara berrou. — Você se apoia nele como uma parasita emocional. Eu, pelo menos, dou algo em troca que ele não encontra em nenhum museu empoeirado!
Emanuel segurou o rosto de Sara com uma mão, não de forma violenta, mas com uma firmeza que a obrigou a calar a boca e olhá-lo nos olhos.
— Escute bem — ele disse, a voz gélida. — Eu não vou pagar um real. Nem um centavo. Se você quer tanto essa cirurgia, use o dinheiro da sua formação em administração e vá trabalhar. Ou venda algumas daquelas bolsas que eu te dei e que custam o preço de um rim. Mas do meu bolso, para essa futilidade vulgar, não sai nada.
Ele a soltou e se virou para Eduarda, sua expressão suavizando-se imediatamente.
— Pequena, pega suas coisas. Vamos descer para o estúdio. Eu tenho uma sessão longa hoje e não quero você aqui sozinha com esse clima.
Eduarda assentiu rapidamente, sentindo um alívio imenso. Ela lançou um olhar rápido para Sara, que estava parada no meio da cozinha, o rosto vermelho de fúria, as mãos fechadas em punhos.
— Isso não vai ficar assim, Emanuel! — Sara gritou enquanto eles saíam da cozinha. — Você vai se arrepender de me tratar como uma pedinte! Eu sou a mulher que todo mundo quer, e você vai implorar para tocar nessa "futilidade" quando eu terminar!
Emanuel não olhou para trás. Ele guiou Eduarda até o quarto, ajudando-a a escolher um vestido leve de flores miúdas e um cardigã fino. Enquanto ela se trocava, ele se sentou na beira da cama, massageando as têmporas.
— Eu não sei até quando eu aguento, Duda — ele confessou, a voz baixa e exausta.
Eduarda sentou-se ao lado dele, aninhando-se em seu peito. Ela cheirava a sabonete de baunilha e paz.
— Você não precisa aguentar tudo sozinho — ela murmurou, passando as mãos pequenas pelos ombros tensos dele. — Eu estou aqui. Eu sempre vou estar.
Emanuel a abraçou com força, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Você é a única coisa que faz sentido nessa casa às vezes. A Sara... ela é como um incêndio. É fascinante de olhar, mas queima tudo o que toca.
— E eu? — perguntou Eduarda, olhando para ele com aquela vulnerabilidade que sempre o desarmava.
— Você é o jardim que sobra depois que o fogo passa — ele respondeu, beijando-a suavemente. — Agora vamos. Preciso trabalhar para sustentar esse estilo de vida que, pelo visto, nunca é o suficiente para algumas pessoas.
No andar de baixo, na garagem, o Mercedes preto esperava. Enquanto Emanuel manobrava para sair do prédio, Eduarda olhou para cima, para a varanda da cobertura. Ela sabia que Sara estava lá, em algum lugar, tramando sua próxima jogada, alimentando seu ódio com doses de uísque e inveja.
O dia no estúdio de tatuagem foi, para Eduarda, um refúgio. Emanuel era o rei naquele ambiente. O "Ink Empire" era um espaço industrial de luxo, com paredes de tijolos aparentes, iluminação de trilhos e obras de arte urbana espalhadas pelas paredes. O som das máquinas de tatuagem, um zumbido constante e rítmico, era quase hipnótico para ela.
Emanuel a instalou em seu escritório particular, uma sala envidraçada de onde ela podia vê-lo trabalhar enquanto estudava seus livros de História da Arte. De vez em quando, ele levantava os olhos do cliente e sorria para ela através do vidro, um gesto rápido que fazia o coração de Eduarda disparar.
No entanto, o celular de Eduarda não parava de vibrar. Eram mensagens de Sara.
"Você acha que ganhou, né, sonsa?" "Aproveita o seu dia de 'primeira-dama' do estúdio." "Ele vai enjoar desse seu jeito de mosca morta. Homem como o Emanuel precisa de fogo, não de água com açúcar."
Eduarda bloqueou a tela, sentindo a ansiedade subir pela garganta. Ela tentou se focar na análise do "Nascimento de Vênus", mas as palavras de Sara ecoavam. "Homem como o Emanuel precisa de fogo". Será que ela era suficiente? Será que sua doçura era apenas um paliativo para o estresse dele, enquanto a paixão real ficava com a mulher que queria transformar o próprio corpo em um santuário de plástico?
No final da tarde, Emanuel entrou no escritório, limpando as mãos com um pano. Ele parecia revigorado, o trabalho criativo sempre limpava sua mente.
— Vamos jantar fora? — ele sugeriu. — Só nós dois. Sem gritaria, sem pedidos de cirurgias íntimas, sem drama.
— Eu adoraria — Eduarda disse, levantando-se e abraçando a cintura dele. — Mas... e a Sara? Ela vai ficar furiosa.
— A Sara que lide com as próprias frustrações. Eu já dei o que ela queria por tempo demais. Hoje eu quero a minha paz.
O jantar foi em um restaurante francês discreto, à luz de velas. Eduarda sentia-se segura ali, longe da sombra agressiva da loira. Eles conversaram sobre o futuro, sobre a viagem que Emanuel queria fazer para a Itália para que ela pudesse ver as obras que estudava de perto. Por algumas horas, o relacionamento triplo parecia uma lembrança distante.
Mas a realidade os esperava na cobertura.
Ao abrirem a porta, o cenário era de guerra. Sara tinha espalhado todas as suas roupas de grife pela sala. Malas abertas estavam jogadas sobre o sofá de couro. Ela estava sentada no chão, cercada por sapatos de sola vermelha, bebendo direto da garrafa de vinho.
— Onde vocês estavam? — ela perguntou, a voz arrastada, os olhos borrados de rímel.
— Jantando — Emanuel respondeu, a voz voltando ao tom rígido de comando. — O que é tudo isso, Sara?
— Eu vou embora! — ela gritou, levantando-se com dificuldade, equilibrando-se nos saltos. — Se você não me valoriza, se você não quer investir na minha felicidade, eu vou achar quem queira! Existem dezenas de homens que pagariam dez cirurgias dessas só para me ter por uma noite!
Emanuel cruzou os braços, sem se abalar.
— Então vá, Sara. As portas estão abertas. Você sabe que eu não impeço ninguém de sair.
Sara hesitou. O blefe dela encontrou um muro de concreto. Ela esperava que ele implorasse, que ele cedesse ao cheque para não perdê-la. Ver a indiferença dele foi como um tapa na cara.
Ela olhou para Eduarda, que estava encolhida perto da porta, e depois voltou para Emanuel.
— Você prefere essa... essa boneca de pano a mim? — Sara perguntou, a voz falhando por um segundo.
— Eu prefiro a paz, Sara. E você é o barulho que eu não aguento mais ouvir hoje.
Sara soltou um grito de frustração e atirou a taça de vinho contra a parede, estilhaçando o cristal perto de uma fotografia cara. Eduarda deu um sobressalto, escondendo o rosto nas mãos.
— Fora! — Emanuel rugiu, apontando para a porta. — Agora! Vá para um hotel, vá para a casa de uma amiga, eu não me importo. Mas saia da minha frente antes que eu perca a pouca paciência que me resta.
Sara pegou uma de suas bolsas e saiu pisando fundo, deixando o rastro de destruição na sala. O som da porta batendo ecoou como um tiro.
Emanuel respirou fundo, fechando os olhos. Ele sentiu as mãos de Eduarda em suas costas, o toque suave tentando consertar o que o caos havia quebrado.
— Ela vai voltar — Eduarda sussurrou. — Ela sempre volta.
— Eu sei — Emanuel murmurou, virando-se para abraçá-la. — Mas por hoje, o silêncio é nosso.
Ele a pegou no colo, ignorando as roupas espalhadas e o vinho escorrendo pela parede. Ele a levou para o quarto, onde a luz era suave e o cheiro era de baunilha. Ali, entre os lençóis de cetim, ele buscou a doçura de Eduarda para esquecer o amargor de Sara.
Eduarda, manhosa e entregue, o recebeu com todo o afeto que guardava, sentindo-se, pela primeira vez, a vencedora de uma batalha que ela nunca quis lutar. Ela sabia que Sara voltaria no dia seguinte, provavelmente com um pedido de desculpas ensaiado e uma nova estratégia de sedução. Mas naquela noite, sob o peso do corpo de Emanuel e o calor de seus beijos, o mundo era feito apenas de seda e silêncio.
A arte, afinal, era muito mais duradoura do que o plástico. E Emanuel, o artista das peles, sabia disso melhor do que ninguém.