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Sombras e Sussurros no Escuro
O silêncio na cobertura de Emanuel era, na maioria das vezes, um luxo caro. Após a expulsão dramática de Sara na noite anterior, o apartamento parecia ter finalmente expelido uma toxina. O cheiro de vinho tinto que manchara a parede fora limpo por uma equipe de limpeza impecável logo cedo, e a única evidência da passagem da loira eram algumas peças de roupa íntima de renda neon esquecidas sob o sofá, que Eduarda fingia não ver.
Emanuel estava em seu escritório doméstico, uma sala de vidro fumê onde ele desenhava os projetos de tatuagem mais complexos para seus clientes VIPs ao redor do mundo. Ele era um homem que lidava com a dor e a estética de forma pragmática; para ele, a pele era um pergaminho e a tinta era o destino. No entanto, havia algo que ele não tolerava: a morbidez gratuita.
Eduarda, por outro lado, tinha um segredo. Um vício silencioso que contrastava com sua aparência de boneca renascentista e sua faculdade de História da Arte. Enquanto a maioria das pessoas a imaginava analisando a luz de Caravaggio ou a delicadeza de um afresco, ela estava, na verdade, fascinada pelo lado mais sombrio da psique humana.
Encolhida no canto do enorme sofá de veludo azul-marinho, com os fones de ouvido enterrados sob seus cabelos longos e uma manta de cashmere cobrindo-a até o queixo, Eduarda olhava fixamente para a tela do celular. O brilho do aparelho iluminava seus olhos grandes, que agora não brilhavam por causa de Botticelli, mas sim pelo reflexo de uma cena de crime granulada em um documentário de *True Crime*.
— O corpo foi encontrado em três partes distintas, preservado pelo frio extremo daquela noite de dezembro... — a voz do narrador, um barítono sombrio, ecoava em seus ouvidos.
Eduarda sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela era sensível, sim, mas havia algo naquela narrativa — a busca pela justiça, os detalhes forenses, a anatomia da maldade — que a prendia de uma forma quase hipnótica. Era como se, ao entender o pior do mundo, ela se sentisse mais segura em seu pequeno casulo de privilégio.
Emanuel já a havia proibido de assistir aquilo.
— Isso adoece a alma, Eduarda — dissera ele uma vez, ao encontrá-la chorando por causa de um caso de desaparecimento infantil. — Você já é sensível demais, absorve a energia de tudo. Não quero você alimentando sua mente com o lixo que os seres humanos são capazes de fazer uns com os outros.
Mas a proibição só tornara o hábito mais clandestino.
Na tela, o caso da "Dama de Gelo" se desenrolava. Era um crime ocorrido nos anos 90, em uma pequena vila na Áustria. Uma jovem artista, muito parecida com ela, fora traída por quem mais confiava. Os detalhes sobre a manipulação psicológica do assassino faziam o estômago de Eduarda dar voltas, mas ela não conseguia desviar o olhar.
De repente, a porta de vidro do escritório se abriu. O som metálico do trilho deslizante fez Eduarda pular, quase derrubando o celular entre as almofadas do sofá.
— Duda? — a voz de Emanuel era profunda e carregava o cansaço de horas de desenho técnico.
Ela rapidamente bloqueou a tela e puxou os fones, escondendo-os sob a manta com um movimento desajeitado.
— Oi, meu amor — ela disse, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — Já terminou o desenho do cliente de Tóquio?
Emanuel caminhou até ela, observando-a com aquele olhar clínico de quem sabe identificar uma linha torta a quilômetros de distância. Ele se sentou na beirada do sofá e estendeu a mão para acariciar o rosto dela. Notou que a pele de Eduarda estava pálida e que ela tremia levemente.
— Você está gelada — ele comentou, franzindo o cenho. — O que estava fazendo? Estudando para a prova de Iconografia?
— Sim... — mentiu ela, desviando o olhar. — É muita coisa para ler. As flores, os santos... a gente acaba ficando cansada.
Emanuel não disse nada por um momento. Ele apenas a observou. Ele conhecia cada tique de Eduarda: a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava nervosa, o jeito como evitava contato visual direto quando escondia algo. Seu olhar desceu para a manta, onde um fio branco de fone de ouvido aparecia discretamente.
— Por que você está ouvindo música para estudar Iconografia? — perguntou ele, a voz ficando mais fria, mais controlada.
— Não é música, é... um podcast sobre o Barroco — ela tentou, mas sua voz falhou.
Emanuel não era um homem de meias palavras. Ele esticou a mão e, antes que ela pudesse reagir, puxou o celular de entre as almofadas.
— Emanuel, não! — ela pediu, tentando segurar o braço dele, mas ele foi mais rápido.
Ele pressionou o botão lateral. A tela se iluminou, revelando o vídeo pausado em um close-up de um par de luvas cirúrgicas ensanguentadas sobre uma mesa de evidências. O título do vídeo brilhava em letras garrafais: "O PSICOPATA DA ÁUSTRIA: CORPOS NO CONGELADOR".
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado daquela irritação silenciosa que Emanuel guardava para os momentos em que se sentia desrespeitado. Ele largou o celular sobre a mesa de centro com um estalo seco.
— De novo isso, Eduarda? — ele perguntou, levantando-se e passando a mão pelo cabelo curto, visivelmente frustrado.
— É só um documentário, Emanuel... — ela começou, levantando-se também, a manta caindo aos seus pés. Ela parecia pequena e vulnerável em seu pijama de cetim, mas havia uma teimosia latente em sua expressão. — Eu gosto de entender como essas coisas acontecem.
— Entender o quê? Como um homem corta uma mulher em pedaços? — ele rugiu, fazendo-a encolher os ombros. — Eu já te disse mil vezes que essa merda afeta o seu psicológico. Você acorda gritando de madrugada, você fica com medo da própria sombra, e depois sobra para mim ter que te acalmar enquanto você soluça no meu peito.
— Eu não sou uma criança! — ela retrucou, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Eu tenho 20 anos, eu estudo a arte, e a arte também é feita de horror e tragédia. Por que você pode tatuar caveiras e demônios nas pessoas e eu não posso assistir a um caso criminal?
— Porque eu lido com a ficção e com o simbolismo, Eduarda! — ele se aproximou, sua presença física tornando-se imponente. — Isso que você assiste é real. Pessoas reais sofreram, morreram de formas terríveis, e você consome isso como se fosse entretenimento antes de dormir. Olha para você! Você está tremendo. Seus olhos estão vermelhos. Esse caso... esse caso da Áustria que eu vi na tela... você sabe o que ele fez com aquela garota?
Eduarda baixou a cabeça, as lágrimas finalmente caindo.
— Ele a trancou em um porão por dois meses antes de... — ela parou, incapaz de continuar.
— Exatamente — Emanuel cortou, a voz dura. — E agora você vai passar a semana inteira imaginando como seria estar naquele porão. Você vai olhar para as portas fechadas desta casa e vai sentir um aperto no peito. Eu trabalho o dia inteiro para te dar conforto, segurança e paz, e você vai buscar o medo por conta própria. É um desrespeito comigo e com a sua própria saúde mental.
— Você é muito controlador! — ela disparou, a mágoa explodindo. — Você quer decidir o que eu visto, o que eu como e agora o que eu assisto? A Sara tem razão, você trata a gente como se fosse dono das nossas mentes!
O nome de Sara agiu como um rastilho de pólvora. Emanuel deu um passo à frente, os olhos faiscando.
— Não ouse trazer as loucuras da Sara para essa conversa. Eu cuido de você porque você é preciosa, porque você é doce e eu não quero que esse mundo podre te estrague. Mas se você prefere se intoxicar com esses lixos, vá em frente. Só não espere que eu fique aqui para segurar sua mão quando os pesadelos começarem.
Ele se virou para sair da sala, mas Eduarda correu e segurou sua mão, sua natureza manhosa e dependente falando mais alto que sua breve rebeldia.
— Emanuel, espera... não sai assim.
— Me solta, Eduarda — ele disse, sem olhar para trás. — Eu vou para o estúdio. Vou terminar o que tenho que fazer lá. Talvez o barulho das máquinas seja melhor do que ouvir você defendendo o seu direito de ver necropsias.
Ele saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer os cristais da sala tilintarem.
Eduarda desabou no sofá, abraçando os próprios joelhos. O apartamento, que antes parecia um refúgio, agora parecia vasto e frio. Ela olhou para o celular na mesa de centro. O vídeo ainda estava lá, pausado. A curiosidade mórbida que a impulsionara minutos atrás fora substituída por um vazio doloroso.
Ela sabia que ele tinha razão, em parte. Ela era esponjosa demais para aquele tipo de conteúdo. Mas o controle de Emanuel a sufocava às vezes, mesmo que fosse um controle nascido do cuidado.
Enquanto isso, Emanuel dirigia seu carro pelas ruas de São Paulo, o rádio desligado. Ele estava furioso. Furioso com a teimosia de Eduarda e furioso consigo mesmo por se importar tanto. Ele sabia que, em algum lugar da cidade, Sara provavelmente estava em alguma festa, bebendo e se exibindo, causando o tipo de problema que ele sabia resolver com dinheiro ou uma conversa áspera. Mas Eduarda... Eduarda era o seu ponto fraco. Ver aquela luz de inocência nos olhos dela ser substituída pelo brilho doentio de uma tela de crime o machucava de uma forma que ele não sabia explicar.
Ele chegou ao estúdio, mas não conseguiu trabalhar. A imagem de Eduarda chorando no sofá não saía de sua cabeça. Ele pegou o celular e viu que não havia mensagens dela. Geralmente, ela mandaria dezenas de pedidos de desculpas, áudios chorosos e promessas de ser "uma boa menina". O silêncio dela o preocupava mais do que a briga.
Duas horas depois, ele voltou para casa.
A cobertura estava na penumbra. Ele caminhou em direção ao quarto principal, esperando encontrá-la dormindo ou ainda chorando. Mas o quarto estava vazio.
Ele a encontrou na biblioteca, sentada no chão, cercada por livros pesados de arte. Ela não estava com o celular. Estava com um livro aberto sobre as obras de Artemisia Gentileschi — a pintora que transformou seu próprio trauma em arte poderosa.
Eduarda levantou os olhos quando ele entrou. Ela parecia exausta, as bochechas ainda manchadas pelo choro seco.
— Eu apaguei o aplicativo — ela disse, a voz bem baixinha.
Emanuel suspirou, o resto de sua raiva evaporando. Ele se aproximou e sentou-se no chão ao lado dela, ignorando o desconforto para o seu corpo grande.
— Por que você gosta tanto disso, pequena? — ele perguntou, desta vez sem agressividade, apenas buscando entender.
Eduarda fechou o livro devagar.
— O mundo é assustador, Emanuel. Às vezes, ver esses casos me faz sentir que eu preciso estar alerta. Que eu preciso saber como as pessoas más agem para que eu possa... não sei... me proteger.
Emanuel puxou-a para o seu colo, e ela se aninhou ali imediatamente, escondendo o rosto em seu pescoço.
— Você não precisa se proteger — ele murmurou, as mãos grandes acariciando as costas dela. — É para isso que eu sirvo. É para isso que eu construí esses muros, que eu trabalho até tarde, que eu lido com pessoas como a Sara e com o estresse dos estúdios. Para que você possa continuar vendo o mundo através das cores e das flores, e não através de sangue e porões.
— Mas eu me sinto boba às vezes — ela soluçou. — Me sinto fraca por ser tão... protegida.
— Não há fraqueza na doçura, Duda. O mundo já tem monstros demais. Eu não preciso que a mulher que eu amo se torne uma especialista neles. Eu preciso que você seja o meu descanso.
Ele a beijou na testa, um beijo longo e protetor.
— Promete que vai parar com isso? — ele pediu. — Pelo menos por um tempo. Deixe sua mente limpar.
— Eu prometo — ela sussurrou, apertando a camisa dele. — Mas você tem que prometer que não vai mais sair de casa daquele jeito. Eu fiquei com medo.
— Medo de quê? — ele perguntou, sorrindo de leve.
— De que você não voltasse. De que você decidisse que uma loira barulhenta é menos problemática do que uma estudante de arte que vê casos criminais escondida.
Emanuel soltou uma risada curta e a apertou mais forte.
— A Sara é um problema que eu resolvo com paciência. Você é um problema que eu resolvo com o coração. Não confunda as coisas.
Ele a levantou nos braços e a levou para a cama. Naquela noite, não houve vídeos, não houve sombras e não houve gritos. Houve apenas o som da respiração ritmada de dois seres que, à sua maneira torta e intensa, tentavam encontrar um equilíbrio entre a proteção sufocante e a curiosidade perigosa.
No entanto, em um canto escuro da sala, o celular de Eduarda brilhou por um segundo com uma notificação de um novo vídeo: "O Mistério da Galeria de Arte: O Crime que Chocou a Itália".
Eduarda, nos braços de Emanuel, não viu. Mas o fascínio pelo abismo ainda estava lá, enterrado sob camadas de seda e promessas, esperando o próximo momento de solidão para sussurrar seus segredos sombrios novamente. Pois ela sabia, melhor do que ninguém, que até as pinturas mais belas escondiam suas camadas de tinta preta por baixo do verniz.