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O Origami de Ouro e o Riso Proibido

O retorno de Eduarda para a cobertura em São Paulo foi marcado por uma aura de serenidade que parecia protegê-la como uma bolha de sabão inquebrável. Ela não entrou mais no apartamento com os ombros encolhidos ou o olhar fugidio; agora, ela trazia consigo o frescor das ondas de Ilhabela e a segurança de quem tinha um refúgio próprio, um castelo de cristal à beira-mar onde o veneno de Sara não conseguia penetrar. Emanuel a observava com uma mistura de alívio e desejo renovado; a "mini mansão" fora o melhor investimento que ele já fizera, não apenas pelo patrimônio, mas por devolver o brilho aos olhos da sua pequena historiadora da arte.

No entanto, se o lado de Eduarda na balança estava leve e florido, o lado de Sara era um monumento ao desastre estético e ao mau humor crônico. A ninfoplastia, que Sara imaginara ser o auge de sua sofisticação íntima, transformara-se em um pesadelo de edemas, pontos repuxados e uma aparência que, nas palavras dela, parecia "um acidente de trânsito em miniatura".

Naquela tarde de quinta-feira, o clima na sala de estar era de uma tensão cômica, pelo menos para Emanuel. Sara estava refestelada em uma poltrona de veludo, mas não de forma elegante. Ela usava uma daquelas almofadas terapêuticas em formato de donut — com um buraco providencial no meio — para evitar que qualquer pressão tocasse a área operada. Vestia um robe de seda caríssimo, mas mantinha as pernas abertas de um jeito que lembrava um caubói que acabara de descer de um cavalo após uma travessia pelo deserto.

— Emanuel, eu estou falando sério! — Sara exclamou, agitando uma revista de moda com indignação. — Aquele médico é um charlatão! Ele disse que o "excesso de pele" era necessário para o fechamento, mas agora... agora tem uma dobra do lado esquerdo que parece um origami feito por um estagiário bêbado!

Emanuel, que estava em pé perto do bar servindo-se de uma dose de uísque, sentiu um tremor no diafragma. Ele fechou os olhos por um segundo, tentando manter a face marmórea que o tornara um tatuador respeitado mundialmente. A imagem de Sara, sempre tão arrogante e preocupada com a perfeição plástica, agora reduzida a uma mulher que reclamava de uma "dobra assimétrica" enquanto sentava em uma boia de pelúcia, era demais para a sua resistência.

— Sara, o médico explicou que ainda está inchado — Emanuel disse, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal enquanto ele lutava contra a contração dos músculos do rosto. — Você precisa ter paciência.

— Paciência? — Sara bufou, e o movimento brusco a fez soltar um ganido de dor, ajeitando-se freneticamente na almofada. — Eu paguei por uma joia, Emanuel! Eu queria algo que parecesse uma escultura de mármore liso! No momento, se eu abrir as pernas no escuro, alguém vai achar que eu estou escondendo um pacote de salgadinhos amassado ali embaixo!

Foi o limite. Emanuel deu um gole no uísque, mas o líquido quase saiu pelo nariz. Ele soltou um som abafado, uma espécie de tosse que rapidamente evoluiu para um engasgo.

Eduarda entrou na sala nesse momento, carregando um buquê de lavandas frescas que trouxera da última viagem à ilha. Ela viu a cena: Sara em sua pose de caubói convalescente e Emanuel com o rosto vermelho, segurando o balcão do bar como se sua vida dependesse disso.

— Está tudo bem aqui? — perguntou Eduarda, a voz doce e genuinamente preocupada.

— Não, não está nada bem, Duda! — Sara disparou, apontando para a própria virilha com um gesto dramático. — Eu fui mutilada! Eu queria ser a Barbie e virei um quebra-cabeça de mil peças montado errado! E o seu namorado, em vez de me consolar, parece que está tendo um AVC!

Emanuel não aguentou mais. O primeiro som de riso escapou — um "pfff" curto e explosivo. Ele tentou cobrir a boca com a mão, mas a imagem mental de Sara se comparando a um pacote de salgadinhos amassado era potente demais.

— Emanuel! — Eduarda o repreendeu, aproximando-se dele e tocando seu braço. — Não ria. Ela está sofrendo, coitada. É um procedimento cirúrgico, é sério.

— Eu sei... eu sei que é sério — Emanuel conseguiu dizer entre espasmos de riso que agora começavam a sacudir seus ombros. — Mas... "origami feito por um estagiário bêbado"... Sara, por favor...

— Ah, você acha engraçado? — Sara levantou-se com dificuldade, a almofada de donut caindo no chão com um som surdo. — Eu gastei horas de anestesia, Emanuel! Eu sofri! Eu não consigo nem usar uma calcinha de fio dental porque a dobra escapa pelo lado! Você tem noção da humilhação?

Emanuel agora estava gargalhando abertamente. Ele se curvou sobre o balcão, as lágrimas começando a surgir nos cantos dos olhos. O riso era descontrolado, uma liberação de todo o estresse das últimas semanas.

— Pare, Emanuel! — Eduarda pediu, embora um pequeno sorriso começasse a brincar nos cantos de seus próprios lábios. — Tenha empatia. Imagine se fosse com você. Se você fizesse uma cirurgia e ficasse... torto.

— Mas eu não faria! — Emanuel conseguiu articular, recuperando o fôlego por apenas um segundo. — Eu não tentaria transformar meu corpo em um boneco de plástico! Sara, você foi reclamar com o médico que queria "minimalismo"! O que você esperava? Que ele apagasse tudo com uma borracha?

— Eu esperava simetria! — Sara gritou, mas o esforço a fez sentir uma pontada nos pontos, e ela teve que se sentar novamente, errando o centro da almofada e soltando um grito de frustração. — Ai! Inferno!

Eduarda olhou para Sara, que agora parecia uma criança birrenta e dolorida, e depois para Emanuel, que estava literalmente sem ar, com o rosto roxo de tanto rir. A situação era absurda. Era a personificação da vaidade sendo punida pela própria futilidade. Eduarda tentou manter a postura de "boa moça" e mediadora, mas quando Sara tentou se ajeitar novamente na almofada e acabou ficando presa no buraco do donut, a resistência de Eduarda desmoronou.

Ela virou o rosto para o lado, cobrindo a boca com a mão, mas os ombros começaram a tremer. Um som de "hihihi" escapou por entre seus dedos.

— Até você, Eduarda? — Sara perguntou, a voz carregada de uma mágoa mortal. — Você, a santinha da ilha, a defensora dos oprimidos? Você está rindo da minha desgraça vaginal?

— Eu... eu sinto muito, Sara — disse Eduarda, com a voz embargada pelo riso contido. — Mas a almofada... você está... você parece um passarinho tentando chocar um ovo de plástico.

Emanuel, ao ouvir o comentário de Eduarda, perdeu completamente o que restava de sua dignidade. Ele soltou uma gargalhada tão alta que ecoou por todo o pé-direito duplo da cobertura.

— Um passarinho! — Emanuel berrou, apontando para Sara. — Um passarinho de silicone!

— Seus dois idiotas! — Sara gritou, tentando se levantar com dignidade, o que era impossível com o robe de seda enganchado na almofada. — Eu odeio vocês! Eu vou embora! Vou para um hotel onde as pessoas respeitem a minha estética!

— Você não consegue nem caminhar até o elevador sem ganir, Sara! — Emanuel disse, tentando se acalmar, mas falhando miseravelmente quando olhou para a expressão de ultraje no rosto dela. — Fique aí. Use seu gelo. E, por favor, pare de descrever o "origami", ou eu vou acabar morrendo de asfixia.

Sara, bufando de ódio, conseguiu finalmente se desvencilhar da almofada e marchou (ou melhor, caminhou com as pernas arqueadas) em direção ao seu quarto.

— Vocês vão ver! Quando o inchaço passar e eu estiver perfeita, vocês vão implorar para ver o meu origami! — ela gritou antes de bater a porta.

O silêncio que se seguiu na sala foi preenchido apenas pelos suspiros de Emanuel e pelo riso contido de Eduarda, que agora estava sentada em uma banqueta, limpando as lágrimas dos olhos.

— Isso foi horrível, Emanuel — disse ela, embora ainda estivesse sorrindo. — Nós não deveríamos ter rido assim. Ela está realmente chateada.

— Eu sei, eu sei — Emanuel disse, aproximando-se dela e passando a mão por seus cabelos. — Mas você tem que admitir, Duda... a obsessão dela atingiu um nível de comédia pastelão. Ela não quer ser uma mulher, ela quer ser um protótipo de laboratório. E a natureza tem um senso de humor peculiar.

— Ela é muito fútil — Eduarda concordou, suspirando. — Mas eu senti pena. Deve doer muito.

— O que dói nela é o ego, pequena. O ego da Sara é a única coisa que não precisa de preenchimento, porque já é inflado demais.

Emanuel puxou Eduarda para um abraço, sentindo o perfume de lavanda e mar que emanava dela. O contraste era gritante. Enquanto Sara lutava contra pontos e assimetrias em busca de uma perfeição artificial, Eduarda estava ali, natural, leve e real.

— Vamos para a ilha amanhã cedo? — perguntou Emanuel no ouvido dela. — Eu preciso de um pouco de ar puro e de silêncio. Sem donuts, sem cirurgias e sem dramas.

— Eu adoraria — respondeu Eduarda, aninhando-se no peito dele. — Eu quero terminar aquela tela que comecei. O azul do mar de lá é muito mais bonito do que qualquer joia de ouro.

— Com certeza é.

Emanuel deu um beijo no topo da cabeça de Eduarda. Ele sabia que a paz na cobertura era temporária. Em alguns dias, Sara estaria recuperada, pronta para exigir uma nova bolsa ou uma viagem para compensar seu sofrimento estético. Mas, por enquanto, ele tinha o riso compartilhado com Eduarda e a perspectiva de um final de semana longe do caos urbano.

No quarto, Sara estava deitada de barriga para cima, com uma bolsa de gelo estrategicamente posicionada, olhando para o teto com um desejo ardente de vingança. Ela ouviu o som do riso baixo de Emanuel e Eduarda vindo da sala e apertou os lençóis com força.

— Riam enquanto podem — ela resmungou para si mesma. — Assim que eu puder fechar as pernas sem ver estrelas, eu vou fazer a vida daquela mosca morta um inferno. E Emanuel vai descobrir que um origami, mesmo torto, é muito mais interessante do que uma pintura de paisagem.

Mas, apesar de suas ameaças mentais, até Sara teve que admitir, em um momento de rara honestidade consigo mesma diante do espelho do banheiro, que a situação fora um pouco ridícula. Ela suspirou, ajeitou o gelo e fechou os olhos. A beleza, afinal, custava caro. E, naquele momento, o preço estava sendo pago em prestações de dor e gargalhadas alheias.

Na manhã seguinte, bem cedo, Emanuel e Eduarda saíram discretamente. Eles deixaram um bilhete para Sara e uma cesta de frutas frescas, junto com um novo estoque de pomadas cicatrizantes. Enquanto o jipe de Emanuel descia a serra em direção ao litoral, Eduarda olhou para ele e começou a rir novamente.

— O que foi? — perguntou ele, sorrindo.

— Eu só lembrei da cara dela quando a almofada ficou presa — ela disse, escondendo o rosto nas mãos. — "Um passarinho tentando chocar um ovo". Eu sou uma pessoa horrível, Emanuel.

— Não, você é humana — ele disse, segurando a mão dela. — E é por isso que eu te amo. Porque você ri das coisas certas e valoriza o que é de verdade.

O sol começou a surgir no horizonte, iluminando o caminho para a liberdade. Em Ilhabela, não haveria cirurgias, não haveria vaidades extremas e, certamente, não haveria almofadas de donut. Haveria apenas o mar, o toque de Emanuel e a certeza de que, no jogo da vida, a simplicidade de Eduarda sempre venceria a plasticidade de Sara.

E na cobertura, o silêncio finalmente reinou, interrompido apenas pelo som ocasional de Sara reclamando com a empregada que o gelo estava "frio demais". A comédia da vaidade fizera uma pausa, mas o palco continuava armado para o próximo ato de um triângulo onde o riso, por mais proibido que fosse, era a única forma de sobreviver à loucura.