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O Refúgio de Cristal e o Fiasco de Ouro

O silêncio na cobertura de Emanuel era uma ilusão de ótica. Por trás das paredes de vidro e do design minimalista, a tensão vibrava como uma corda de violoncelo prestes a romper. Eduarda estava definhando. A pele, antes viçosa e clara, agora exibia olheiras profundas, e sua imunidade parecia ter caído junto com sua autoestima. Cada grito de Sara, cada humilhação pública e cada provocação cruel agiam como um veneno lento no organismo sensível da estudante de arte.

Emanuel observava tudo com uma fúria contida. Ele era um homem que resolvia problemas com precisão cirúrgica, mas o conflito entre suas duas mulheres era uma ferida aberta que não cicatrizava. Ele temia que Eduarda adoecesse seriamente; ela já não comia direito e qualquer som mais alto a fazia sobressaltar.

Foi então que ele tomou uma decisão. Se o ambiente da cobertura estava contaminado pela presença errática de Sara, ele criaria um santuário onde o veneno não pudesse chegar.

— Duda, arrume uma mala pequena — disse Emanuel, entrando no quarto onde ela folheava um livro de gravuras sem realmente ler.

— Para onde vamos? — perguntou ela, a voz frágil e pequena.

— Você vai conhecer sua nova casa — ele respondeu, beijando-lhe a testa com uma ternura que raramente demonstrava diante de outras pessoas. — Comprei um lugar para você. Na costa. Para quando o barulho aqui ficar insuportável.

A "mini mansão" em Ilhabela era uma joia da arquitetura orgânica. Construída em madeira, vidro e pedra, a casa parecia flutuar sobre as rochas, com uma vista infinita para o mar azul-turquesa. Não era apenas uma propriedade; era um isolamento de luxo. Quando Eduarda pisou no deck de madeira e sentiu a brisa salgada no rosto, ela chorou. Pela primeira vez em meses, ela sentiu que podia respirar sem pedir licença.

No entanto, o que era paz para Eduarda foi o combustível para a explosão de Sara em São Paulo.

— Uma casa? Você comprou uma mansão para aquela songamonga e para mim você dá o quê? Um par de sapatos? — Sara gritava no meio da sala, jogando uma almofada de seda contra a televisão de oitenta polegadas.

— Sara, abaixe o tom — Emanuel disse, sentado em sua poltrona, girando um copo de uísque com uma calma perigosa. — Eu gasto fortunas com você todos os meses. Suas bolsas de grife custam o preço de um carro popular. Suas joias, suas roupas, suas idas incessantes ao cabeleireiro... tudo sai da minha conta. A casa da Eduarda é um investimento na saúde dela. Coisa que você está destruindo.

— Não se compara! — Sara berrou, o rosto ficando vermelho sob a base cara. — Uma casa é patrimônio! É um lugar onde ela vai se sentir a dona de tudo! Eu quero algo que me faça sentir valorizada também!

Emanuel suspirou, sentindo a exaustão pesar nos ombros. Ele sabia que, para manter Eduarda em paz em seu novo refúgio, precisava calar Sara com algo que a distraísse por tempo suficiente.

— Tudo bem, Sara. Você venceu — ele disse, com um brilho de desdém nos olhos. — Eu pago a cirurgia íntima que você tanto quer. A ninfoplastia, a estética, tudo. Mas com uma condição: você vai ficar em silêncio sobre a casa da Eduarda e não vai colocar os pés lá. Nunca.

Sara parou de gritar instantaneamente. Um sorriso ganancioso e triunfante surgiu em seus lábios preenchidos.

— Fechado. Eu quero o melhor cirurgião de São Paulo. Quero que fique perfeito, como uma joia.

Enquanto Eduarda passava os dias em sua nova mansão, pintando aquarelas da vista do mar e recuperando o brilho nos olhos, Sara se internava em uma clínica de luxo nos Jardins. Ela estava radiante, imaginando-se como uma versão aprimorada de si mesma, pronta para esfregar sua "perfeição" na cara de todos.

No entanto, a natureza tem um jeito curioso de punir a vaidade excessiva.

Três dias após a cirurgia, Emanuel recebeu uma ligação histérica de Sara. Ele estava na costa com Eduarda, observando a namorada mais jovem colher conchas na areia, quando o telefone vibrou.

— Emanuel! Você precisa vir aqui agora! Está tudo errado! Eu vou processar aquele açougueiro! — Sara soluçava e gritava ao mesmo tempo.

— O que aconteceu, Sara? — Emanuel perguntou, afastando-se para que Eduarda não ouvisse.

— Está... está parecendo um origami mal dobrado! E a cor, Emanuel... está roxo! Eu não consigo nem fechar as pernas!

Emanuel teve que sufocar uma risada. Ele voltou para a capital apenas para encontrar Sara deitada em uma cama de hospital, cercada por compressas de gelo e com uma expressão de puro pânico. O cirurgião, um homem renomado que parecia querer enfiar a cabeça em um buraco, tentava explicar a situação.

— O que houve, doutor? — perguntou Emanuel, mantendo a seriedade a duras penas.

— Bem... — o médico pigarreou, ajustando os óculos — a paciente insistiu em uma remoção de tecido muito além do recomendado. Ela queria algo... "minimalista". O problema é que houve um edema severo e um hematoma por conta do esforço excessivo que ela fez ao tentar tirar fotos para as redes sociais logo após a anestesia passar.

— Fotos, Sara? — Emanuel olhou para ela, incrédulo.

— Eu precisava ver como estava ficando! — ela choramingou. — E agora está tudo inchado e tem um ponto que parece que vai estourar! Emanuel, eu estou parecendo um peru de Natal deformado!

A recuperação de Sara foi um espetáculo de tragicomédia. Ela precisava usar uma almofada especial com um furo no meio para conseguir se sentar, e cada vez que espirrava, soltava um grito que podia ser ouvido no andar de baixo. A vulva "perfeita" que ela tanto desejara estava agora escondida sob camadas de pomadas antibióticas e gazes, e o médico a proibira terminantemente de qualquer atividade sexual por dois meses.

— Isso é carma — murmurou Emanuel para si mesmo enquanto observava Sara tentar caminhar até o banheiro como se estivesse pisando em brasas, com as pernas abertas de forma cômica.

Enquanto isso, em Ilhabela, Eduarda florescia. Ela não sabia dos detalhes sórdidos do fracasso estético de Sara, e Emanuel preferia manter assim. Para Eduarda, ele levava flores, livros de poesia e a paz que ela tanto merecia.

— Você parece outra pessoa — disse Emanuel, abraçando Eduarda no deck da mini mansão, enquanto o sol se punha.

— Eu me sinto outra pessoa — ela respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Aqui não tem gritos. Aqui o barulho é só das ondas.

— Fique aqui o tempo que precisar, pequena. A casa é sua.

A felicidade de Eduarda era radiante e simples. Ela não precisava de bisturis ou de validação externa para se sentir bonita. Ela se sentia amada no silêncio, enquanto Sara, de volta à cobertura, vivia um pesadelo de gelo e arrependimento.

Certa tarde, Emanuel chegou na cobertura e encontrou Sara sentada no sofá, com sua almofada de furo, assistindo a um programa de fofocas. Ela estava de mau humor, com o rosto inchado de tanto chorar.

— Como está a recuperação? — ele perguntou, tentando não olhar para a posição bizarra em que ela estava.

— Dói, Emanuel. Dói tudo. E o médico disse que a cicatriz pode ficar... "assimétrica". Você tem noção do que é uma ninfoplastia assimétrica? Eu vou ser torta!

— Você quis o extremo, Sara. Agora tem que lidar com as consequências.

— E aquela lá? — Sara perguntou, o veneno voltando à voz, apesar da dor. — Ainda está brincando de sereia na mansão que você deu para ela?

— Ela está feliz, Sara. Algo que você parece ter esquecido como se faz sem envolver um cartão de crédito ou uma sala de cirurgia.

Sara bufou, mas logo se arrependeu, pois o movimento brusco fez seus pontos repuxarem.

— Ai! Droga! — ela gritou, ajeitando-se na almofada. — Eu odeio aquela garota. Odeio que ela sempre saia ganhando com esse jeitinho de quem não quebra um prato.

— Ela não ganha, Sara. Ela apenas vive. Você é quem está sempre em uma competição onde o prêmio é a sua própria frustração.

Emanuel saiu da sala, deixando Sara sozinha com sua amargura e suas compressas de gelo. Ele pegou o carro e dirigiu de volta para a costa. Ele precisava do ar puro, do cheiro de mar e, acima de tudo, da doçura de Eduarda.

Ao chegar na mansão de Ilhabela, ele a encontrou no jardim, pintando uma tela grande. Ela usava um vestido branco solto e seus cabelos estavam presos com um prendedor de madeira. Ela parecia uma extensão da própria natureza ao redor.

— Emanuel! — ela exclamou, largando o pincel e correndo para os braços dele.

— Como foi o dia, meu amor? — ele perguntou, girando-a no ar.

— Foi perfeito. Terminei três quadros. E você? Como estão as coisas na cidade?

Emanuel sorriu, lembrando-se da imagem de Sara tentando sentar na almofada de furo.

— Digamos que as coisas em São Paulo estão um pouco... complicadas. Mas nada que você precise se preocupar.

— Você parece cansado — ela disse, passando a mão pelo rosto dele. — Fique aqui comigo este final de semana. Sem telefone, sem estúdio, sem problemas.

— É tudo o que eu mais quero.

Naquela noite, sob o luar da costa, Emanuel percebeu que a dualidade de sua vida estava atingindo um ponto de ruptura. De um lado, o luxo vulgar e doloroso de Sara, uma mulher que mutilava o próprio corpo em busca de uma perfeição que não existia. Do outro, a beleza orgânica e a paz de Eduarda, que encontrava a felicidade em uma concha ou em um pôr do sol.

Ele sabia que Sara voltaria a atacar assim que seus pontos caíssem e sua "nova versão" estivesse pronta para o combate. Mas, por enquanto, ele se permitia afogar no silêncio de Eduarda.

Sara, em São Paulo, olhava-se no espelho de mão, tentando ver o resultado por baixo dos curativos. Ela ainda acreditava que, quando o inchaço passasse, ela seria a rainha da cobertura novamente. Mal sabia ela que a verdadeira rainha não precisava de tronos de ouro ou de cirurgias íntimas; ela já havia conquistado o território mais valioso de todos: a paz que o dinheiro de Emanuel podia comprar, mas que a alma de Sara jamais conseguiria habitar.

Eduarda dormiu tranquila, com o som das ondas como canção de ninar. Ela era dona de uma mansão, de um coração e de uma serenidade que nenhuma ninfoplastia no mundo poderia tirar dela. A felicidade, afinal, era o melhor tratamento estético que existia, e Eduarda estava absolutamente radiante.