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Lentes Indiscretas e o Protocolo do Caos

O silêncio na mansão de Emanuel não era um sinal de paz, mas o breve intervalo entre duas explosões. Naquela manhã, o café servido em porcelana fina tinha um gosto amargo para o dono da casa. Emanuel, sentado à cabeceira da mesa, encarava a tela de seu tablet com uma expressão que oscilava entre o desejo de cometer um crime e uma gargalhada histérica de puro desespero.

— Emanuel, querido, você viu o engajamento? — Sara entrou na sala de jantar deslizando como uma serpente em um robe de seda transparente, segurando o próprio celular como se fosse um troféu de guerra. — "A Vênus do Tatuador" é o tópico mais comentado do país. Minhas fotos estão em todos os lugares. O site da revista caiu três vezes!

Emanuel levantou os olhos lentamente. A frieza em seu olhar teria congelado o sangue de qualquer pessoa normal, mas Sara estava blindada por camadas de silicone e narcisismo.

— Estão em todos os lugares, Sara, inclusive no grupo de WhatsApp dos meus investidores conservadores — disse ele, a voz baixa e letal. — Você não apenas posou nua usando o meu estúdio como cenário, como marcou a localização geográfica e usou a hashtag com o nome da minha holding. Você tem noção de que eu passei a madrugada inteira com advogados tentando impedir que o Google indexasse sua... anatomia... vinculada ao meu logotipo?

— Ah, para de ser careta! — Sara sentou-se, cruzando as pernas e exibindo uma tatuagem estratégica na coxa. — É publicidade gratuita! Você é um artista, Emanuel. Deveria estar orgulhoso de que a sua "melhor obra" está sendo admirada por milhões.

— Você não é minha obra, Sara. Você é um passivo financeiro que está começando a custar caro demais para a minha paciência — Emanuel fechou o tablet com um estalo seco. — Onde está a Eduarda?

— A bonequinha de porcelana? — Sara soltou uma risadinha vulgar. — Saiu cedo. Disse que tinha um "seminário experimental" sobre a influência do movimento corporal no cinema expressionista alemão. Alguma bobagem acadêmica que ela usa para se sentir superior enquanto eu ganho dinheiro de verdade.

Emanuel franziu o cenho. O nome do seminário soava inofensivo, mas, conhecendo o histórico de Eduarda de ser atraída por desastres culturais como um ímã atrai limalha de ferro, um sinal de alerta disparou em sua mente.

— Algum "seminário experimental"? — Emanuel repetiu, pegando o celular. — Onde?

— No Centro Cultural Subterrâneo, ou algo assim. Ela foi toda animada com aquele caderninho de anotações e um vestido que parecia uma camisola de batizado — Sara deu de ombros, atacando uma torrada.

Emanuel não esperou. Ele conhecia aquele centro cultural. Era um antro de artistas de vanguarda que, muitas vezes, confundiam "expressão artística" com "exibicionismo desenfreado". Ele se levantou, vestindo o paletó com movimentos bruscos.

— Se eu chegar lá e encontrar a Eduarda em outra exposição de órgãos genitais, Sara, eu juro que vendo este seu celular e compro um estoque vitalício de burcas para vocês duas — ameaçou ele, saindo a passos largos.

O trajeto até o centro da cidade foi um exercício de autocontrole. Emanuel dirigia seu SUV preto enquanto ouvia o rádio, apenas para captar um locutor de fofocas comentando sobre "a loira do tatuador que quebrou a internet". Ele desligou o som com um soco no painel.

Ao chegar ao endereço, um prédio antigo com paredes descascadas e pichações conceituais, Emanuel sentiu o estômago revirar. Não havia cartazes claros, apenas uma placa de giz que dizia: "O Corpo como Película: Experiência Imersiva de Cinema Vivo".

Ele entrou. O ambiente estava escuro, cheirando a incenso barato e suor. No fundo, uma tela projetava imagens granuladas em preto e branco de sombras se movendo. Mas o problema não era a tela. No centro do salão, em um palco circular iluminado por uma luz vermelha pulsante, dois "artistas" realizavam uma demonstração ao vivo de "tensão muscular e fricção cinematográfica".

Basicamente, era um ato erótico performático, coreografado com uma lentidão torturante.

E lá estava ela.

Eduarda estava sentada na primeira fila, com os olhos arregalados, as mãos cobrindo a boca e o caderninho de anotações caído no chão. Ela parecia estar em estado de choque catatônico, incapaz de desviar o olhar da performance explícita que acontecia a menos de dois metros dela.

Emanuel caminhou pelo corredor como um anjo da morte. As pessoas ao redor, tipos de barba mal feita e óculos de aro grosso, resmungaram quando ele passou esbarrando em todos, mas o olhar de Emanuel silenciou qualquer protesto.

— Eduarda — a voz dele soou como um trovão no meio da música experimental dissonante.

A moça deu um pulo que quase a fez cair da cadeira. Ela olhou para trás e, ao ver Emanuel, seu rosto passou do pálido ao carmesim em um segundo.

— Manu! — ela sussurrou, a voz falhando. — Eu... eu... o professor disse... ele disse que era sobre sombras!

— As únicas sombras que eu estou vendo aqui, Eduarda, são as que esses dois estão projetando na parede enquanto cometem um atentado ao pudor em nome da arte! — Emanuel a segurou pelo pulso, puxando-a para cima. — Vamos embora. Agora.

— Mas Manu, se eu sair agora, eles vão achar que eu sou uma burguesa sem sensibilidade estética! — ela choramingou, tentando recuperar o caderninho, mas Emanuel a arrastou sem cerimônia.

— Eu prefiro que você seja uma burguesa insensível do que uma espectadora de filme adulto ao vivo! — Ele a conduziu para fora, sob os olhares de desaprovação dos intelectuais presentes.

— Que falta de espírito artístico! — gritou um homem de boina ao fundo.

Emanuel parou, virou-se e encarou o homem.

— Se eu ouvir mais um pio sobre "espírito artístico", eu vou mostrar para vocês o que é uma performance de "impacto físico imediato" — rosnou ele.

O silêncio foi imediato.

Já fora, sob a luz do sol, Eduarda começou a chorar. Era aquele choro manhoso, de criança que se perdeu no shopping, que costumava desarmar Emanuel, mas hoje ele estava no limite.

— Eu juro, Manu... no panfleto tinha uma foto de uma estátua grega! — ela soluçava, limpando as lágrimas com as costas das mãos. — Eu achei que a demonstração ao vivo seria de... sei lá, poses clássicas! Como eu ia saber que eles iam começar a... a... se esfregar daquele jeito?

Emanuel parou em frente ao carro e respirou fundo, contando mentalmente até dez. Em seguida, até vinte.

— Eduarda, olhe para mim — ele disse, segurando o rosto dela com as duas mãos. — Você tem vinte anos. Você faz faculdade de História da Arte. Como é possível que você seja a única pessoa no planeta que entra em um porão escuro no centro da cidade e espera encontrar o Louvre?

— Eu sou otimista! — ela exclamou, fazendo um biquinho trêmulo.

— Não, você é um perigo público para a minha sanidade mental — Emanuel abriu a porta do carro para ela. — Entre. Vamos para casa. Eu preciso lidar com a namorada que mostra tudo por dinheiro e com a que vê tudo por acidente.

O clima na mansão, quando chegaram, era de um circo romano prestes a começar. Sara estava na sala, cercada por sacolas de compras luxuosas — claramente gastando o adiantamento da revista — e gritando ao telefone com algum fotógrafo.

— Não, eu quero o dobro de iluminação na próxima! Se é para ser vulgar, que seja em alta definição! — Sara desligou o celular e viu os dois entrarem. — Olha só! A puritana voltou do bordel cultural! E aí, Duda? Aprendeu alguma posição nova para ensinar ao Manu ou ficou só no rascunho?

Eduarda se encolheu atrás de Emanuel, agarrando a camisa dele.

— Sara, por favor, eu estou muito traumatizada... — murmurou a morena.

— Traumatizada? Você deveria me agradecer! — Sara levantou-se, caminhando até eles com um sorriso triunfante. — Enquanto você se esconde em porões, eu estou sendo convidada para festas VIP em iates. Aliás, Emanuel, um dos produtores da *Vogue Noir* quer te conhecer. Ele disse que as suas tatuagens seriam o cenário perfeito para um ensaio de "Body Art" comigo.

Emanuel caminhou até o bar da sala e serviu-se de uma dose generosa de uísque. Ele bebeu tudo de uma vez, sentindo o líquido queimar a garganta.

— Escutem bem as duas — começou ele, a voz baixa, controlada, o que era muito mais assustador do que se estivesse gritando. — Sara, você vai ligar para esse produtor agora e dizer que, se ele colocar os pés na minha propriedade ou mencionar o nome da minha empresa novamente, eu vou processar a revista até que eles não tenham dinheiro nem para imprimir panfleto de mercado. As fotos já saíram, o dano está feito, mas a exploração da minha marca acaba aqui.

— Você não pode me impedir de trabalhar! — Sara protestou, batendo o pé.

— Você não trabalha, Sara. Você faz pose. Se quiser trabalhar, eu te arrumo um cargo de recepção no meu estúdio de tatuagem mais movimentado, onde você vai ter que usar uniforme fechado até o pescoço e aguentar cheiro de antisséptico dez horas por dia — Emanuel virou-se para Eduarda. — E você, Duda...

— Eu não tive culpa, Manu! — ela se antecipou, unindo as mãos em prece.

— Você vai suspender suas idas a "seminários experimentais" até o fim do semestre — sentenciou ele. — Se o professor quiser te mostrar arte, que mande o link do YouTube. Você não pisa mais em nenhum lugar que tenha "subterrâneo", "imersivo" ou "cinema vivo" no nome. Entendido?

Eduarda assentiu, fungando.

— Mas Manu, e a minha nota de participação?

— Eu compro a galeria e dou a nota que você quiser, mas você não vai mais ser plateia de pornografia conceitual — Emanuel sentou-se no sofá, fechando os olhos por um momento. — Eu sou um homem simples. Eu só queria ter um estúdio de tatuagem de sucesso e duas namoradas bonitas para me distrair do estresse. Por que parece que eu estou gerenciando um manicômio de luxo?

Sara soltou uma risadinha, sentando-se no braço do sofá ao lado dele e passando a mão pelos cabelos dele.

— É porque nós somos intensas, Manu. Você não aguentaria uma namorada normal. Você morreria de tédio em uma semana.

Eduarda aproximou-se pelo outro lado, sentando-se no chão e apoiando a cabeça no joelho dele, buscando a proximidade física que a acalmava.

— Eu só gosto de coisas bonitas, Manu... só que as coisas bonitas às vezes ficam estranhas muito rápido — ela disse, com sua voz manhosa.

Emanuel olhou para uma, depois para a outra. De um lado, a loira loquaz que havia acabado de estampar a nudez em todos os portais de notícias. Do outro, a morena sensível que tinha o dom de se meter nas situações mais impróprias por pura ingenuidade.

— Vocês duas são o meu karma — Emanuel suspirou, mas acabou passando o braço pelos ombros de Sara e deixando a outra mão descansar sobre a cabeça de Eduarda. — Uma me expõe para o mundo e a outra me faz resgatar donzelas em perigo de performances eróticas.

— Admite, você se sentiu um herói me tirando de lá — Eduarda sorriu, olhando para ele com adoração.

— Eu me senti um idiota, Eduarda. Um idiota com um carro caro e namoradas sem noção — ele deu um sorriso de canto de boca, o primeiro do dia. — Mas, já que a Sara está rica com o adiantamento da revista e a Eduarda está "traumatizada" demais para estudar... eu decidi uma coisa.

— O quê? — as duas perguntaram em coro.

— Vamos viajar. Amanhã. Para a minha casa de praia em uma ilha privada — Emanuel disse, levantando-se. — Sem internet para a Sara não ver os comentários das fotos, e sem centros culturais para a Eduarda não se perder em apresentações de "cinema vivo". Só nós três, o mar e o silêncio.

— Ilha privada? — Sara se animou. — Tem sinal para postar foto de biquíni?

— Se você ligar o celular, Sara, eu o jogo no fundo do oceano — Emanuel avisou, sério.

— E tem museus lá, Manu? — perguntou Eduarda, esperançosa.

— Não, Duda. Só conchas e peixes. Peixes não fazem performances artísticas, eles apenas nadam.

Emanuel caminhou em direção ao escritório, sentindo um peso sair de seus ombros. Ele sabia que a paz duraria pouco. Em menos de quarenta e oito horas, Sara estaria reclamando do tédio e Eduarda estaria tentando analisar a "composição estética das dunas". Mas, por um momento, ele se permitiu rir da própria desgraça.

— Ah, e Sara? — ele parou na porta.

— Sim, querido?

— Se eu encontrar alguma revista sua escondida na mala da Eduarda, eu vou fazer você ler cada legenda em voz alta para o coelho Algodão.

— Coitado do bicho, Emanuel! — Sara riu, jogando uma almofada nele.

Eduarda correu para o quarto para arrumar as malas, já planejando quais vestidos românticos levaria, enquanto Sara começava a selecionar seus biquínis mais minúsculos, ignorando deliberadamente a ordem de "discrição" de Emanuel.

Emanuel, trancado em seu escritório, abriu uma gaveta e tirou um catálogo de joias. Ele precisava de algo muito brilhante para compensar o estresse daquela semana. Talvez diamantes para Eduarda, para acalmá-la, e algo em ouro maciço para Sara, para calá-la.

— Duas namoradas — ele murmurou para si mesmo, servindo-se de mais um uísque. — Quem foi o gênio que me disse que isso seria uma boa ideia?

Lá fora, o som das duas brigando por causa de quem usaria a mala maior ecoava pela mansão. Emanuel sorriu. Era um caos, era vulgar, era manhoso e era absolutamente dele. E, no fundo, ele não trocaria aquele desastre por nenhuma paz no mundo. Mas, por precaução, ele decidiu que, na ilha, o controle remoto da TV e os roteadores ficariam trancados em seu cofre pessoal. Segurança em primeiro lugar.