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Flash de Luxúria e a Exposição do Proibido
O escritório de Emanuel cheirava a tabaco caro e à tinta de impressora que cuspia, incessantemente, os relatórios financeiros de seus estúdios de tatuagem. Ele massageou as têmporas, sentindo a tensão latejar. Ser um magnata das artes corporais era fácil; difícil era gerenciar o caos hormonal e narcisista que habitava sua mansão.
A porta foi escancarada sem qualquer cerimônia. Sara entrou como um furacão de perfume importado e saltos agulha, jogando um contrato sobre a mesa de carvalho de Emanuel com a força de quem acaba de conquistar um império.
— Assina como meu tutor legal, meu agente ou apenas como o homem que vai ter que me buscar no aeroporto quando eu voltar de Ibiza — exclamou Sara, cruzando os braços sobre os seios siliconados que pareciam prestes a explodir sob o top de renda. — A *Vogue Noir* me quer na capa. Edição especial: "Nudez e Poder".
Emanuel nem sequer olhou para o papel. Ele levantou os olhos lentamente, a expressão sombria e gélida.
— Não.
— Como "não"? — Sara descascou o verniz da voz, subindo o tom. — Emanuel, é a minha chance! Eu nasci para ser vista, para ser desejada por milhões! Eu sou uma obra de arte viva, e você, melhor do que ninguém, deveria saber que arte não se esconde em uma gaiola de ouro.
— Você não é arte, Sara. Você é exibicionista — Emanuel levantou-se, sua estatura imponente fazendo a loira recuar um passo, embora ela tentasse manter a postura. — Eu permito seus decotes vulgares e suas festas porque isso faz parte do seu... "charme". Mas vender sua nudez em bancas de jornal? Nem pensar. Você leva o meu nome. Ou o que as pessoas vão pensar do meu império se a minha namorada estiver disponível em cada posto de conveniência por cinquenta reais?
— Cinquenta reais? Eu sou uma edição de colecionador! — Sara gritou, batendo a mão na mesa. — Você é um hipócrita! Vive tatuando mulheres nuas, vive cercado de modelos nos seus estúdios, mas quando se trata de mim, você quer bancar o coronel possessivo?
— Eu sou possessivo com o que eu pago para manter, Sara — Emanuel disse, a voz baixando para um tom perigosamente calmo. — E eu pago muito caro para que você não precise vender um centímetro da sua pele para ninguém. O assunto está encerrado. Se eu souber que você assinou isso, corto todos os seus cartões e você volta a administrar a padaria do seu tio no subúrbio.
Sara bufou, os olhos faiscando de puro ódio. Ela pegou o contrato de volta, amassando-o levemente.
— Você vai se arrepender disso, Emanuel. Eu não sou a Eduarda. Eu não sou uma bonequinha de porcelana que você guarda na estante para admirar enquanto toma uísque.
Ela saiu batendo a porta com tanta força que um dos quadros abstratos na parede ficou torto. Emanuel suspirou, sentindo que sua pressão arterial estava atingindo níveis históricos. Ele precisava de paz. Ele precisava de Eduarda.
— Duda? — chamou ele, saindo para o corredor.
Não houve resposta. Ele caminhou até o ateliê de História da Arte dela, mas o cômodo estava vazio. Onde estaria a sua "manhosa"? Geralmente, àquela hora, ela estaria lendo algum livro denso sobre o Renascimento ou mimando o coelho Algodão.
Emanuel pegou o celular e rastreou o GPS do carro que ele havia dado a ela. O ponto brilhava em um endereço no centro da cidade. "Galeria Metrópole".
— O que ela está fazendo lá? — resmungou, pegando as chaves do seu SUV.
Enquanto Emanuel dirigia, bufando a cada semáforo fechado, Sara já estava em um estúdio fotográfico clandestino no bairro dos Jardins. Ela não aceitava "não". Ela havia ligado para um antigo contato, um fotógrafo decadente mas talentoso, e estava agora sob as luzes de estúdio, vestindo nada além de um colar de pérolas e uma atitude desafiadora.
— Isso, Sara! — gritava o fotógrafo. — Pensa no Emanuel proibindo você. Usa essa raiva! Abre mais as pernas, isso... mostra para o mundo o que ele quer guardar só para ele!
— Ele acha que manda em mim — Sara sibilou entre dentes, posando com uma mão na nuca. — Ele vai ver a capa dessa revista em todos os outdoors da cidade. Eu vou ser a nudez mais cara que ele já tentou comprar.
Enquanto isso, Emanuel estacionava bruscamente em frente à galeria. Ele entrou no prédio antigo com passos largos, a expressão de quem estava pronto para cometer um crime passional. O ambiente estava lotado de intelectuais de óculos de aro grosso e estudantes de artes com roupas largas.
Ele avistou Eduarda ao fundo. Ela parecia pequena, encolhida entre dois pilares, segurando uma taça de vinho branco com as mãos trêmulas. Ela usava um vestido romântico de seda creme, elegante e discreto, mas seu rosto estava vermelho como um pimentão.
Emanuel aproximou-se e, ao olhar para as paredes, sentiu o sangue congelar. A exposição chamava-se "O Corpo Humano: Além do Pudor". Eram fotografias em tamanho real de modelos masculinos e femininos em poses absolutamente explícitas, sem qualquer filtro artístico que suavizasse a realidade da carne.
— Eduarda! — a voz dele cortou o burbulho da sala como um chicote.
A moça deu um pulo, quase derrubando o vinho no próprio vestido.
— Manu! — ela exclamou, com uma mistura de alívio e pavor. — O que você está fazendo aqui?
— Eu que pergunto! — Ele a segurou pelo braço, não com força, mas com uma urgência possessiva. — O que você está fazendo no meio dessa... dessa orgia visual? Você viu o que tem naquelas fotos, Eduarda?
— Eu não sabia, Manu! Eu juro! — Ela começou a falar rápido, com aquele jeito manhoso e desesperado, encostando a cabeça no peito dele enquanto as pessoas ao redor começavam a olhar. — O meu professor disse que era uma exposição sobre "Geometria Corporal". Eu achei que fossem desenhos de sombras, formas abstratas... eu cheguei aqui e... e... tem um homem ali na parede que... Manu, é horrível!
Emanuel olhou para a foto ao lado deles. Era um close-up que deixava pouco para a imaginação. Ele sentiu uma vontade súbita de rir da ironia, mas a irritação era maior.
— Geometria corporal? — Emanuel repetiu, sarcástico. — O único ângulo que eu estou vendo ali é o de um processo por atentado ao pudor. Vamos embora agora.
— Por favor, vamos! — Eduarda se agarrou ao braço dele como se ele fosse um bote salva-vidas. — Eu tentei sair, mas o professor me pegou para apresentar o curador e eu fiquei com vergonha de ser indelicada...
— Indelicada? Eduarda, você está cercada de genitálias em alta resolução e está preocupada com etiqueta? — Emanuel a conduziu para fora, resmungando. — Você é ingênua demais para este mundo. Se eu te deixo sozinha por duas horas, você acaba em uma vernissage de filmes adultos achando que é um festival de cinema mudo.
— Não precisa ser grosso — ela murmurou, fazendo biquinho enquanto entravam no carro. — Eu me senti mal lá dentro. Senti como se estivesse traindo você só por olhar.
Emanuel suspirou, relaxando um pouco ao ver a sinceridade nos olhos dela. Ele passou a mão pelo rosto de Eduarda, puxando-a para um beijo rápido e possessivo.
— Você é minha, Duda. Até os seus olhos me pertencem. Não quero que eles vejam nada que não seja eu, ou o que eu permitir.
— Eu sei, Manu... — ela sussurrou, aninhando-se no banco. — Eu prefiro as suas tatuagens àquelas fotos feias.
Eles voltaram para a mansão em um silêncio tenso, mas relativamente pacífico. Emanuel achava que tinha controlado o incêndio. Mal sabia ele que o combustível estava sendo jogado no quarto ao lado.
Ao entrarem na sala, deram de cara com Sara. Ela estava sentada no sofá, bebendo champanhe direto da garrafa, com um sorriso de orelha a orelha.
— Chegaram os pombinhos? — ironizou Sara. — Como foi o passeio cultural? Descobriram alguma nova "geometria" interessante?
— Cala a boca, Sara — Emanuel disse, jogando as chaves sobre a mesa. — E você, por que está tão feliz? Achei que estaria chorando no quarto por causa do contrato que eu proibi.
— Ah, Emanuel... — Ela se levantou, caminhando até ele com um rebolado vitorioso. — Você proibiu o contrato da *Vogue Noir*. Mas você esqueceu que eu sou formada em Administração. Eu li as letras miúdas. Eu não preciso de um agente se eu for a minha própria produtora.
Emanuel estreitou os olhos.
— O que você fez?
Sara pegou o celular e mostrou uma notificação de e-mail.
— As fotos já foram enviadas para a gráfica da *Play-Elite*. Eu assinei como modelo independente. Recebi o adiantamento agora mesmo. Amanhã, a pré-venda começa no site.
Emanuel ficou em silêncio por cinco segundos. Eduarda arregalou os olhos, levando a mão à boca.
— Sara! Você posou nua? — perguntou a morena, chocada. — O Manu proibiu!
— O Manu não é meu pai, querida. E ao contrário de você, que vai para exposições de peladões escondida, eu mostro o que é bom para quem pagar mais — Sara deu um gole no champanhe. — E sabe qual é a melhor parte, Emanuel? Eu usei o cenário do seu estúdio principal para as fotos. Ficou tão... temático. "A Vênus do Tatuador".
Emanuel sentiu uma veia latejar em sua testa. Ele não gritou. Ele caminhou até a adega, pegou uma garrafa de uísque e um copo.
— Você usou o meu estúdio? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.
— Usei. O segurança é um fã querido, bastou um sorriso e um decote.
Emanuel serviu-se, deu um gole longo e então olhou para as duas. De um lado, Eduarda, a personificação da inocência que acabara de ser "contaminada" visualmente por uma exposição acidental. Do outro, Sara, a vulgaridade em pessoa, que havia acabado de transformar o nome dele em manchete de revista masculina.
— Sabe o que é engraçado? — Emanuel disse, soltando uma risada seca e sem humor. — Eu gasto milhões em segurança, em discrição, em arte de alto nível. E eu tenho em casa uma namorada que é atraída por exposições de nudes como um ímã, e outra que faz questão de distribuir fotos da própria anatomia como se fosse panfleto de pizzaria.
— Manu, eu não tive culpa! — choramingou Eduarda, aproximando-se dele e segurando sua mão.
— E eu não tenho vergonha do meu corpo! — rebateu Sara.
Emanuel olhou para o teto, pedindo paciência a algum deus das artes que certamente o estava ignorando.
— Sara — ele disse, voltando o olhar para a loira —, amanhã eu vou comprar todos os exemplares dessa revista. Todos. Vou mandar queimar cada um deles no jardim desta casa. E o valor que eu gastar nisso vai ser descontado da sua mesada pelos próximos três anos.
— Você não pode fazer isso! — Sara gritou, perdendo a pose. — É censura! É contra a liberdade de expressão!
— É o meu dinheiro, Sara. E a minha liberdade de não querer ver a sua bunda em cada banca de jornal enquanto eu tento jantar com investidores — Emanuel virou-se para Eduarda. — E você, Duda... amanhã, você vai para a faculdade com um motorista novo. Um que tenha ordens expressas de checar a ementa de cada exposição antes de deixar você sair do carro. Se o tema for "corpo humano", você volta para casa e vai pintar naturezas-mortas. Maçãs, Eduarda. Maçãs não ficam nuas e não causam escândalos.
— Maçãs são chatas, Manu... — ela murmurou, manhosa, abraçando a cintura dele.
— Chatas, mas seguras — ele sentenciou, passando a mão pelos cabelos dela.
Sara bufou, jogando-se de volta no sofá.
— Você é um tirano, Emanuel. Um tirano com um gosto péssimo para mulheres. Uma é uma freira tonta e a outra é uma deusa incompreendida.
— E você é uma dor de cabeça banhada a silicone — Emanuel respondeu, sem olhar para trás enquanto conduzia Eduarda para as escadas. — Duda, vamos para o quarto. Eu preciso ver algo que não seja vulgar nem artístico demais. Eu preciso de silêncio.
— Você ainda está bravo comigo? — perguntou Eduarda enquanto subiam, olhando para ele com aqueles olhos de cachorrinho que caiu do caminhão de mudança.
Emanuel parou no degrau, olhou para ela e soltou um suspiro longo.
— Eu estou exausto, Duda. Mas se você prometer que nunca mais vai entrar em um lugar chamado "Geometria Corporal", eu talvez te perdoe antes do amanhecer.
— Eu prometo! — ela sorriu, dando um beijo na bochecha dele. — Amanhã eu só vou olhar para fotos de estátuas de mármore. Bem vestidas.
— Estátuas não usam roupa, Eduarda — Emanuel resmungou, mas um pequeno sorriso de canto de boca apareceu. — Esquece. Amanhã você fica no jardim com o coelho. O Algodão é o único ser nesta casa que não me dá dor de cabeça.
— Ele roeu o seu sapato de couro italiano hoje cedo, Manu... — confessou ela em um sussurro.
Emanuel parou, fechou os olhos e respirou fundo.
— Amanhã — ele disse, a voz subindo uma oitava —, eu vou transformar esse coelho em uma pantufa.
— Manu! — Eduarda gritou, rindo e batendo de leve no braço dele.
Lá embaixo, Sara abriu a segunda garrafa de champanhe, planejando como faria para esconder alguns exemplares da revista antes que os capangas de Emanuel chegassem às bancas. A noite na mansão estava apenas começando, e entre fotos proibidas, exposições acidentais e coelhos roedores, Emanuel percebeu que a sua vida era a tatuagem mais complexa e dolorosa que ele já havia feito em si mesmo. E o pior: ele não queria remover nem um centímetro dela.