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Cemitérios, Silêncio e uma Peruca de Oncinha

O trajeto de volta do salão de beleza foi marcado por um silêncio que só era interrompido pelos soluços dramáticos de Sara no banco de trás e pelo som rítmico do motor do SUV. Emanuel mantinha os olhos na estrada, mas o canto de sua boca ainda teimava em subir toda vez que ele olhava pelo retrovisor e via o lenço de seda escorregando, revelando uma mecha laranja espetada que parecia um antena de rádio mal posicionada.

Eduarda, ao seu lado, mantinha a postura impecável. Ela estava radiante. O tratamento que recebera de Beatriz deixara seu cabelo com um brilho acetinado, e ela se sentia, pela primeira vez, em vantagem. Não que ela gostasse de ver o mal dos outros, mas a paz que o silêncio forçado de Sara trazia era um bálsamo para sua alma sensível.

— Manu... — Eduarda chamou baixinho, sua voz manhosa e doce quebrando a tensão. — Já que ainda falta um tempo para o vernissage, você poderia passar naquele lugar que eu te pedi?

Emanuel suspirou, mas era um suspiro de quem não conseguia dizer não para aqueles olhos grandes e expressivos.

— O cemitério histórico, Duda? — Ele perguntou, já reduzindo a velocidade.

— O quê?! — O grito de Sara veio do banco de trás, agudo o suficiente para fazer os ouvidos de Emanuel zumbirem. — Um cemitério? Emanuel, eu estou com o cabelo destruído, parecendo uma sobrevivente de um desastre nuclear, e você vai levar essa... essa gótica de boutique para ver defunto?

— É para a minha pesquisa de História da Arte, Sara — explicou Eduarda, sem se virar, mantendo o tom suave, mas firme. — A estatuária fúnebre daquele setor é do século XIX. É arte pura.

— É mórbido! É brega! É falta do que fazer! — Sara continuou o protesto, ajeitando o lenço com fúria. — Eu preciso de um hospital, de um exorcista, de um milagre capilar! Não de anjos de pedra chorando!

— Se não quiser descer, fique no carro — sentenciou Emanuel, estacionando o veículo diante dos imponentes portões de ferro forjado do cemitério da Consolação. — Eu vou acompanhar a Eduarda. Ela precisa de algumas fotos para o portfólio.

Emanuel desceu e, com a cavalheirismo que reservava apenas para os momentos em que não estava estressado, abriu a porta para Eduarda. Ela desceu como uma brisa, o vestido champagne contrastando com o cinza das pedras antigas.

Lá dentro, o cenário era de uma beleza melancólica. Grandes mausoléus de mármore, esculturas de Victor Brecheret e alamedas sombreadas por árvores centenárias. Eduarda respirou fundo, sentindo-se em casa. Ela amava a paz dali; para ela, o cemitério não era sobre a morte, mas sobre a memória e a estética do luto.

— Olha aquele anjo, Manu — ela sussurrou, aproximando-se de uma escultura de mármore branco. — Veja a delicadeza das asas. Parece que ele vai voar a qualquer momento.

Emanuel parou atrás dela, envolvendo a cintura de Eduarda com seus braços fortes. Ele, um homem que lidava com agulhas e tinta, sabia apreciar a arte, embora preferisse a pele viva ao mármore frio.

— É bonito, Duda. Você tem razão.

A paz, porém, durou exatamente três minutos. O som de saltos altos batendo no calçamento de pedra anunciou a chegada da tempestade. Sara apareceu, caminhando de forma desajeitada, segurando o lenço na cabeça com uma mão e a bolsa de grife com a outra. Para tentar disfarçar o desastre no cabelo, ela havia colocado uns óculos escuros enormes que ocupavam metade do seu rosto.

— Eu não vou ficar no carro sozinha! — ela bufou, parando ao lado deles. — Tem mosquitos lá fora e o ar-condicionado parou de gelar no segundo em que você saiu, Emanuel! Isso é um complô!

— O ar está ótimo, Sara. Você que está com os nervos à flor da pele — Emanuel respondeu sem se virar.

Sara olhou ao redor, fazendo uma careta de nojo.

— Credo, que lugar horroroso. Olha o estado desse mármore, todo manchado. Se eu fosse o fantasma desse cara aqui, eu processava a prefeitura. E Eduarda, pare de alisar esse anjo! Deve estar cheio de bactérias de cem mil anos.

Eduarda ignorou. Ela caminhou alguns passos à frente, em direção a um túmulo cercado por correntes de ferro.

— Este é o meu favorito — disse ela, os olhos brilhando. — Dizem que a mulher que está enterrada aqui morreu de amor.

— Morreu de tédio, isso sim, se tivesse que ouvir você falando de história o dia todo — Sara retrucou, sentando-se na beirada de um túmulo vizinho, cruzando as pernas e exibindo suas sandálias caríssimas.

— Sara, não sente aí — Emanuel advertiu, a voz ficando rígida. — É falta de respeito.

— Respeito? O dono dessa tumba já virou pó há décadas, Emanuel. Ele não vai se importar se eu descansar minha bunda siliconada aqui por cinco minutos enquanto você termina esse passeio bizarro.

Nesse momento, um vento súbito soprou pelas alamedas, levantando as folhas secas do chão. E, para o azar total de Sara, o vento foi forte o suficiente para arrancar o lenço de seda de sua cabeça.

— Meu lenço! — ela gritou, tentando agarrá-lo, mas o tecido voou, prendendo-se no topo de uma cruz de pedra alta e pontiaguda.

Lá estava ela. O sol da tarde batendo diretamente no topo de sua cabeça, iluminando o desastre: o cabelo estava cor de abóbora fluorescente, com tufos de megahair pendurados como se fossem musgos secos.

Um grupo de turistas que passava por perto, liderado por um guia que explicava a arquitetura fúnebre, parou subitamente.

— E aqui, à direita, temos um exemplo de... — O guia parou, olhando fixamente para Sara. — Meu Deus, o que é aquilo? É uma performance artística?

— É um espantalho de luxo? — perguntou uma turista, pegando a câmera.

— NÃO ME FOTOGRAFEM! — Sara berrou, cobrindo a cabeça com as mãos, o que só serviu para deixar os fios ainda mais arrepiados devido à eletricidade estática. — Emanuel, faça alguma coisa! Mande eles pararem!

Emanuel, que estava tentando manter a compostura por respeito ao local, não aguentou. Ele encostou a testa no ombro de Eduarda e começou a tremer. Não era choro. Era uma risada silenciosa e convulsiva.

— Manu! — Eduarda tentou repreendê-lo, mas seus próprios lábios tremiam. — Coitada dela...

— Coitada nada, Duda — Emanuel conseguiu dizer entre os risos. — Ela parece um personagem de filme de terror que deu errado. Veja, ela está tentando escalar o túmulo para pegar o lenço!

Sara, em sua total falta de noção e desespero, havia subido no pedestal de uma estátua para tentar alcançar o lenço preso na cruz.

— Saiam daqui! Seus pobres! — ela gritava para os turistas. — Eu sou Sara Vasconcelos! Eu uso Chanel!

— Você parece o Chucky, a boneca assassina, versão loira oxigenada! — gritou um adolescente do grupo de turistas, caindo na gargalhada.

A situação escalou rapidamente. O segurança do cemitério, um senhor de idade com cara de poucos amigos, apareceu atraído pela gritaria.

— Ei! A senhora aí! Desça já dessa estátua! Isso é patrimônio histórico, não é playground!

— Patrimônio histórico é a minha conta bancária, seu velho! — Sara rebateu, finalmente conseguindo puxar o lenço, mas ao fazer isso, ela perdeu o equilíbrio.

O que se seguiu foi uma cena digna de comédia pastelão. Sara escorregou do pedestal, mas seu vestido justo demais impediu que ela caísse de pé. Ela aterrissou sentada diretamente sobre uma poça de lama formada pela rega das flores próximas, e o lenço, agora rasgado, ficou pendurado em sua orelha.

— Meu vestido de três mil dólares... — ela sussurrou, olhando para a mancha marrom que agora decorava sua bunda e suas coxas.

Emanuel não aguentou mais. Ele soltou uma gargalhada tão alta que alguns pássaros voaram das árvores.

— Sara, você é uma força da natureza — ele disse, caminhando até ela, mas sem fazer menção de ajudá-la a levantar imediatamente. — Você conseguiu ser expulsa de um salão de luxo e quase ser presa em um cemitério em menos de duas horas.

Eduarda aproximou-se, oferecendo um lenço de papel de sua bolsa, com uma expressão que misturava pena e um prazer culposo que ela tentava esconder.

— Você quer ajuda, Sara? — perguntou a morena, com sua voz mais manhosa.

— Não encosta em mim, sua... sua... historiadora de tumba! — Sara se levantou sozinha, bufando, a lama escorrendo pelas pernas. — Emanuel, eu quero ir embora agora! Eu odeio este lugar! Eu odeio o seu cabelo, Eduarda! Eu odeio tudo!

— Calma, Sara — disse Emanuel, recuperando o fôlego e limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — Vamos para o carro. Mas você vai sentar em cima de um tapete de plástico. Não quero lama no meu couro legítimo.

— Plástico?! Eu não sou uma marmita, Emanuel!

— Ou o plástico, ou você vai a pé — ele respondeu, o tom de autoridade voltando, mas ainda com aquele brilho de diversão no olhar.

Enquanto caminhavam de volta para a saída, Eduarda se agarrou ao braço de Emanuel, sentindo-se protegida e, de certa forma, vingada por todos os anos de insultos que ouvira de Sara.

— Manu... — ela sussurrou quando estavam quase no portão. — Eu ainda posso ir ao vernissage?

— Claro que sim, meu amor. Você está deslumbrante. Vamos deixar a Sara em casa para ela tentar... bem, tentar se tornar humana de novo, e depois eu te levo para ver as pinturas.

— E o meu jantar?! — Sara gritou lá de trás, tentando limpar a lama com o lenço rasgado. — Eu exijo um jantar caro para compensar esse trauma!

Emanuel parou e olhou para trás.

— Sara, com esse cabelo e essa mancha de lama, o único lugar onde você vai entrar hoje é no chuveiro. E se reclamar mais uma vez, eu compro uma peruca de oncinha naquelas lojas de fantasia da esquina e te obrigo a usar pelo resto da semana.

Sara abriu a boca para retrucar, mas ao ver que Emanuel falava sério — e que ele parecia muito disposto a cumprir a promessa —, ela finalmente se calou.

O resto da tarde foi, conforme Emanuel previra, maravilhosamente silencioso. Eduarda passou o caminho todo encostada em seu ombro, observando as fotos que tirara no cemitério, enquanto Sara, no banco de trás, tentava desesperadamente usar o filtro de "cabelo perfeito" no Instagram para esconder a realidade alaranjada de sua cabeça.

Ao chegarem na mansão de Emanuel, Sara saltou do carro e correu para dentro, escondendo o rosto como se houvesse paparazzi em cada arbusto.

Emanuel desligou o motor e olhou para Eduarda.

— Você teve um bom dia, Duda?

Eduarda sorriu, um sorriso doce e levemente malicioso que Emanuel adorava. Ela se inclinou e deu um beijo suave nos lábios dele, deixando o aroma de lavanda de seu cabelo envolvê-lo.

— Foi um dia perfeito, Manu. Especialmente a parte do anjo... e a parte da lama.

Emanuel riu mais uma vez, puxando-a para um abraço apertado.

— Você é terrível quando quer, sabia?

— Eu sou apenas uma estudante de arte, Manu — ela murmurou, manhosa, aninhando-se no peito dele. — Eu só aprecio o contraste entre a beleza e o... grotesco.

E, naquela noite, enquanto Eduarda brilhava no vernissage, sendo admirada por todos por sua elegância discreta e seu conhecimento profundo, Sara estava trancada em seu quarto, com uma toalha na cabeça, gritando com um cabeleireiro particular que se recusava a atendê-la no domingo à noite.

Emanuel, observando Eduarda de longe com uma taça de vinho na mão, percebeu que, apesar de todo o estresse e das brigas, ele não trocaria aquela dinâmica por nada. Afinal, a vida com elas era como uma obra de arte: às vezes clássica e suave como Eduarda, às vezes um desastre abstrato e barulhento como Sara. Mas, definitivamente, nunca era entediante.