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Sombras, Possessão e o Peso do Privilégio
A noite após o vernissage ainda vibrava sob a pele de Eduarda. Ela se sentia flutuar, envolta pelo carinho de Emanuel e pelo sucesso de suas análises artísticas. No entanto, na mansão do tatuador, o clima era diferente. Sara, já com o cabelo minimamente corrigido por um profissional caríssimo que aceitou o trabalho sob ameaça, não conseguia lidar com o vazio de não ser o centro absoluto das atenções. Para Sara, o sexo nunca era apenas prazer; era uma ferramenta de validação, uma forma de reafirmar seu poder sobre Emanuel.
Sentada no sofá de couro da sala de estar, usando apenas um robe de seda preta que deixava pouco para a imaginação, Sara cruzou as pernas, observando Emanuel servir-se de um uísque. Eduarda estava sentada em uma poltrona próxima, folheando um catálogo de exposição, parecendo uma boneca de porcelana sob a luz suave do abajur.
— Emanuel, querido — Sara começou, sua voz arrastada e carregada de uma malícia calculada —, eu estava pensando... Lembra daquela noite em Paris? Antes da "santinha" chegar?
Emanuel arqueou uma sobrancelha, mantendo o copo de uísque a meio caminho da boca. Ele conhecia aquele tom.
— Lembro de muitas noites em Paris, Sara. Seja específica.
— Você sabe do que eu estou falando — ela riu, uma risada gutural, lançando um olhar de soslaio para Eduarda, que fingia não ouvir. — Eu quero mais. Quero aquela sensação de ser preenchida por todos os lados. Quero outro homem com a gente hoje.
Eduarda sentiu o sangue fugir do rosto. Ela apertou as bordas do catálogo, os nós dos dedos ficando brancos. O conceito de compartilhar Emanuel era algo que ela aceitava por amor e por entender a natureza complexa dele, mas a ideia de um estranho ali, naquele santuário, a apavorava.
Emanuel, para a surpresa de Sara, não pareceu nem um pouco perturbado. Ele deu um gole longo no uísque, seus olhos escuros e analíticos fixos na loira.
— Você quer ser usada, Sara? É isso? — A voz dele era fria, prática.
— Eu quero prazer, Emanuel. E você sabe que eu amo ter dois... — Ela se inclinou para frente, sussurrando palavras vulgares que fizeram Eduarda encolher-se na poltrona. — Quero saciar cada centímetro.
Emanuel deu um meio sorriso, aquele que ele usava quando estava prestes a fechar um negócio ou terminar uma tatuagem difícil.
— Tudo bem. Vou ligar para o Marcus. Ele está na cidade e você sempre gostou do vigor dele.
Sara deu um gritinho de empolgação, batendo palmas como uma criança ganhando um doce, ignorando completamente o desconforto evidente de Eduarda.
— E a Duda? — Sara perguntou, com um brilho venenoso nos olhos. — Ela vai ficar só olhando ou o Marcus pode dar um jeito na timidez dela também?
Emanuel levantou-se, sua presença preenchendo a sala de forma esmagadora. Ele caminhou até Eduarda e colocou a mão sobre o ombro dela. O toque era possessivo, protetor, quase um aviso.
— Eduarda vem conosco — disse ele, o tom de voz mudando para algo mais profundo, um rosnado contido. — Mas ninguém encosta nela. Marcus está vindo para você, Sara. Eduarda é minha. Só minha.
O quarto principal da mansão estava mergulhado em uma penumbra luxuosa quando Marcus chegou. Ele era um homem alto, atlético, um antigo colega de Emanuel que compartilhava de certas liberdades morais, mas que sabia muito bem quem mandava ali.
Sara já estava na cama, nua, exibindo as curvas acentuadas pelo silicone e a pele bronzeada artificialmente. Ela se movia como uma predadora faminta. Eduarda, por outro lado, estava sentada em uma poltrona no canto do quarto, ainda vestindo seu vestido de seda champagne. Ela parecia deslocada, uma virgem em um altar profano.
— Caramba, Emanuel — Marcus murmurou, os olhos fixos em Eduarda por um segundo a mais do que o permitido. — Você realmente tem um gosto impecável. Ela é...
— Olhe para a Sara, Marcus — Emanuel interrompeu, a voz como o estalar de um chicote. — Eu não vou repetir.
Emanuel aproximou-se de Eduarda. Ele não pediu que ela se despisse. Pelo contrário, ele a pegou no colo com uma facilidade impressionante e a levou para a imensa cama. Ele a deitou no centro, mas não permitiu que ela ficasse exposta.
— Fique assim, boneca — ele sussurrou no ouvido dela, enquanto Sara já começava a se enroscar em Marcus no pé da cama. — Não tire o vestido. Eu quero você exatamente assim.
O contraste era brutal. De um lado da cama, o caos carnal. Sara gritava, gemia e se contorcia, entregando-se a Marcus com uma vulgaridade que beirava o desespero por atenção. Ela queria ser vista, queria ser ouvida, queria provar que era a rainha da perversão. Marcus a tratava com a crueza que ela pedia, preenchendo-a enquanto Emanuel observava, mas mantendo seu corpo como um escudo sobre Eduarda.
Emanuel não deu a Marcus o que ele queria. Cada vez que o amigo tentava desviar o olhar para o centro da cama, onde a seda champagne do vestido de Eduarda brilhava sob a luz fraca, Emanuel rosnava.
— Foque no que você veio fazer, Marcus! — Emanuel exclamou, sua voz vibrando de uma possessividade animalesca.
Emanuel abriu as pernas de Eduarda, levantando apenas o suficiente do vestido para ter acesso a ela. Ele não a expôs ao outro homem. Ele cobriu o corpo pequeno e delicado dela com o seu próprio tórax largo e tatuado. Enquanto Sara era compartilhada, Eduarda era escondida.
— Manu... — Eduarda soluçou baixinho, as mãos pequenas agarrando os ombros dele. O barulho de Sara e Marcus a assustava, mas o peso de Emanuel sobre ela trazia uma segurança distorcida.
— Shhh... Só olha para mim, Duda — ele ordenou, a voz rouca de desejo e proteção. — Ninguém te vê. Ninguém te toca. Você é meu segredo aqui dentro.
Emanuel começou a possuí-la com uma intensidade que Eduarda nunca sentira antes. Não era apenas sexo; era uma marcação de território. Ele a fodia com vigor, mas seus beijos eram suaves, escondendo o rosto dela em seu pescoço, protegendo seus ouvidos dos gemidos vulgares de Sara.
Em um momento de delírio, Marcus, movido pela adrenalina e pela visão parcial das pernas de Eduarda, ousou perguntar:
— Cara, ela é linda demais... Deixa eu só...
Emanuel parou o movimento por um segundo. Ele se virou para Marcus com um olhar tão letal que o outro homem recuou instintivamente, mesmo estando no meio do ato com Sara.
— Se você terminar essa frase, Marcus, você sai daqui sangrando — Emanuel disse, as palavras saindo por entre dentes cerrados. — Ela não é para os seus olhos. Ela não é para o seu toque. Você está aqui pela Sara. Use-a e cale a boca.
Sara, que estava no auge do prazer, sentiu um estalo de lucidez no meio de seus próprios gritos. Ela ouviu a ameaça de Emanuel. Ela viu como ele envolvia Eduarda, como ele a mantinha vestida, como se ela fosse algo sagrado demais para ser maculado pela sujeira que eles mesmos estavam criando ali.
A realização atingiu Sara como um balde de água gelada, mesmo enquanto Marcus continuava a usá-la.
Emanuel aceitava que ela, Sara, se deitasse com outros. Ele não se importava em dividi-la. Na verdade, parecia quase um alívio para ele que outro homem saciasse a fome insaciável dela. Mas Eduarda... Eduarda era o tesouro que ele guardava a sete chaves. A proteção que ele exercia sobre a morena timida não era apenas cuidado, era uma forma de dizer que ela era pura demais para o mundo em que Sara transitava com tanta facilidade.
Sara gemeu mais alto, tentando abafar o pensamento, tentando recuperar o sentimento de superioridade, mas o gosto na sua boca tornou-se amargo. Ela era a diversão, a carne, o excesso. Eduarda era a esposa, a alma, a propriedade privada que nem mesmo o melhor amigo de Emanuel tinha permissão de cobiçar.
Quando tudo terminou, o silêncio que se seguiu foi pesado. Marcus, percebendo que sua presença não era mais bem-vinda e que o clima de possessividade de Emanuel estava no limite, vestiu-se rapidamente e saiu, mal despedindo-se.
Sara ficou deitada, ofegante, o corpo suado e saciado, mas o coração estranhamente apertado. Ela olhou para o lado.
Emanuel ainda estava sobre Eduarda. Ele a ajudava a ajeitar o vestido, limpando o rosto dela com uma ternura que Sara nunca recebera após o sexo.
— Você está bem, meu anjo? — Emanuel perguntou, a voz agora doce, sem nenhum traço do rosnado de minutos atrás.
— Estou... — Eduarda sussurrou, escondendo-se no peito dele, manhosa. — Só quero dormir agora, Manu.
— Vamos dormir. Só nós dois.
Emanuel levantou-se e, sem dizer uma única palavra para Sara, pegou Eduarda no colo e a levou para o banheiro, provavelmente para um banho morno e cuidadoso.
Sara permaneceu na cama, nua, rodeada pelo cheiro de sexo e uísque. Ela olhou para o próprio corpo, o silicone impecável, a pele perfeita, e sentiu-se, pela primeira vez na vida, vulgar. Não porque o que fizera fosse errado em sua concepção, mas porque percebeu que, no universo de Emanuel, ela era descartável e compartilhável, enquanto a "mosca morta" da Eduarda era a única coisa que ele realmente temia perder.
— Emanuel? — ela chamou, a voz fraca, tentando recuperar um pouco de atenção.
A porta do banheiro estava entreaberta. Ela ouviu o som da água caindo e a risada baixa e protegida de Eduarda.
— Vá dormir no outro quarto, Sara — a voz de Emanuel veio lá de dentro, fria e impessoal. — Já teve o que queria por hoje.
Sara fechou os olhos, sentindo uma lágrima de raiva e frustração escapar. Ela tinha tido dois homens, tinha tido todos os prazeres que pedira, mas, enquanto se levantava para sair, percebeu que Eduarda, mesmo sem pedir nada, tinha ficado com a única coisa que o dinheiro e a vulgaridade de Sara jamais poderiam comprar: o respeito e a devoção absoluta de um homem que preferia matar a deixar que o mundo tocasse em sua joia mais preciosa.