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Vibrações de Veludo e o Pecado de Renda

A mansão de Emanuel estava imersa em um silêncio tenso, quebrado apenas pelo som metálico de suas chaves sendo jogadas sobre a mesa de mármore. O tatuador observava suas duas namoradas com um olhar que misturava exaustão e uma diversão sombria. Eduarda estava sentada no sofá, as pernas encolhidas e o coelho Algodão aninhado em seu colo, parecendo a personificação da inocência. Sara, por outro lado, andava de um lado para o outro, seus saltos agulha estalando contra o piso como tiros de advertência.

— Eu não aguento mais essa rotina de "família feliz" no meio do mato ou em vernissages de museu, Emanuel! — Sara exclamou, parando diante dele com as mãos nos quadris, fazendo o decote generoso de seu top de seda saltar. — Eu preciso de fogo, de ação, de algo que me faça sentir viva e não como uma tia solteirona cuidando de roedor!

Emanuel deu um meio sorriso, aquele que raramente chegava aos olhos, mas que indicava que ele tinha um plano. Ele caminhou até Eduarda, tirou o coelho do colo dela com uma delicadeza incomum e o colocou no cercadinho.

— Você quer fogo, Sara? — Emanuel perguntou, a voz baixando para um tom perigosamente rouco. — E você, Duda... quer descobrir por que as pessoas dizem que eu sou um homem difícil de satisfazer?

Eduarda corou instantaneamente, desviando o olhar, enquanto Sara soltou uma risadinha maliciosa, aproximando-se de Emanuel e passando as unhas longas pelo braço tatuado dele.

— O que você tem em mente, meu rei? — Sara sussurrou.

— Vamos sair. E não é para jantar. Quero que vocês duas escolham as armas para a nossa próxima noite. Vamos ao "L'Éden".

Sara deu um gritinho de empolgação. Ela conhecia o lugar: o sex shop mais luxuoso e exclusivo da cidade, um estabelecimento onde a discrição era garantida por preços astronômicos e onde as fantasias mais obscuras ganhavam forma em prateleiras de vidro e veludo. Eduarda, porém, sentiu um frio na barriga.

— Manu... eu não sei se... — começou a morena, a voz manhosa e hesitante.

— Você vai adorar, boneca — Emanuel interrompeu, pegando o queixo dela e forçando-a a olhar para ele. — Eu quero ver você em algo que não seja linho cru por uma noite.

O trajeto no SUV de Emanuel foi marcado pela tagarelice de Sara, que já listava os tipos de látex e vibradores que pretendia testar, e pelo silêncio contemplativo de Eduarda, que observava as luzes da cidade passando pela janela, sentindo-se como uma intrusa em um mundo de luxúria explícita.

Quando chegaram ao L'Éden, a fachada era discreta, apenas uma porta de carvalho negro com um pequeno logotipo dourado. Ao entrarem, o ambiente era climatizado e cheirava a sândalo e couro novo. Não parecia uma loja de artigos eróticos comum; parecia uma boutique de alta costura em Paris, se a alta costura fosse feita de algemas de seda e chicotes de couro de vitela.

A gerente, uma mulher elegante vestida inteiramente de preto, reconheceu Emanuel imediatamente.

— Senhor Emanuel, que prazer recebê-lo novamente. Vejo que trouxe companhia... encantadora.

— Quero o salão VIP, Beatriz — Emanuel disse, sua voz assumindo aquele tom de comando que não admitia réplicas. — E quero que elas fiquem à vontade.

Sara não esperou um segundo convite. Ela disparou em direção à seção de lingeries de couro e acessórios de metal, seus olhos brilhando como os de uma criança em uma loja de doces.

— Olha isso, Emanuel! — Sara gritou, segurando um conjunto de tiras de couro que mal cobririam o essencial. — Imagine como meu silicone vai ficar valorizado nisso aqui. É agressivo, é vulgar, é a minha cara!

Emanuel observou Sara com um olhar de aprovação clínica, mas logo se virou para Eduarda, que permanecia parada perto da entrada, as mãos entrelaçadas, olhando para um par de algemas de pelúcia rosa com uma expressão de puro pavor.

— Venha aqui, Duda — chamou ele, estendendo a mão.

— Manu, as pessoas estão olhando... — ela sussurrou, aproximando-se dele e buscando proteção em seu braço.

— Não tem ninguém aqui além de nós e da equipe, e eles são pagos para serem cegos e mudos — ele respondeu, conduzindo-a para uma área mais reservada, onde as lingeries eram feitas de rendas francesas e sedas tão finas que pareciam transparentes. — Veja isto.

Ele pegou um conjunto de cor de vinho, uma renda tão delicada que parecia uma teia de aranha. Era sexy, mas mantinha uma elegância que combinava com a aura de Eduarda.

— É lindo... — ela admitiu, tocando o tecido com a ponta dos dedos. — Mas é tão... aberto.

— É para mim, Duda. Só para mim — Emanuel sussurrou no ouvido dela, fazendo-a estremecer.

Enquanto isso, Sara voltava com uma cesta cheia de itens: um vibrador de vidro soprado, um chicote de penas e um conjunto de mordaças de silicone.

— Eu quero tudo isso! — Sara exclamou, jogando os itens sobre um balcão de vidro. — E quero que você use tudo em mim hoje à noite, Emanuel. Quero ser sua escrava, sua vadia, o que você quiser.

Emanuel olhou para a pilha de objetos de Sara e depois para o conjunto delicado na mão de Eduarda. O contraste entre as duas nunca fora tão evidente. Sara era o excesso, o grito, o impacto visual. Eduarda era o sussurro, o mistério, o toque suave que permanecia na pele.

— Sara, você sempre quer ser o centro das atenções, não é? — Emanuel disse, cruzando os braços. — Mas hoje, eu quero que a Eduarda escolha algo para você.

O sorriso de Sara desapareceu instantaneamente.

— O quê? Ela não tem gosto para isso! Ela vai me vestir como uma freira ou uma camponesa do século dezenove!

— Eduarda — Emanuel ignorou o protesto de Sara —, escolha um acessório para a Sara. Algo que você acha que combina com a personalidade dela.

Eduarda olhou para Sara, que a encarava com puro veneno nos olhos. A morena caminhou lentamente pela loja, seus olhos passando por máscaras de couro, correntes e óleos corporais. Ela parou diante de uma vitrine que exibia mordaças de luxo — bolas de silicone presas por tiras de couro legítimo.

Eduarda pegou uma que era de um rosa choque berrante, quase fluorescente.

— Esta aqui — disse Eduarda, com uma voz surpreendentemente firme. — Porque a Sara fala demais. Acho que o silêncio faria bem a ela... e a nós.

Emanuel soltou uma gargalhada genuína, que ecoou pelo salão luxuoso. Sara ficou vermelha de raiva, os punhos cerrados.

— Sua... sua ratinha atrevida! Você quer me calar? Eu sou a alma desta relação!

— Exatamente, Sara — Emanuel disse, pegando a mordaça rosa da mão de Eduarda. — Às vezes a alma precisa de um pouco de quietude. Vou levar esta. E Eduarda, escolha algo para mim também.

Eduarda caminhou até a seção de acessórios masculinos. Ela escolheu uma venda de seda negra, simples e pesada.

— Quero que você use isso, Manu — ela disse, aproximando-se dele e entregando o objeto. — Quero que você sinta apenas o meu toque, sem se distrair com o que vê.

Emanuel olhou para a venda e depois para Eduarda com um novo respeito. A timidez dela estava dando lugar a uma intuição emocional que o fascinava. Ela estava aprendendo a jogar o jogo dele.

— Excelente escolha — Emanuel aprovou.

Sara, sentindo-se escanteada, tentou recuperar o território. Ela correu até uma prateleira de brinquedos eletrônicos e pegou um vibrador enorme, cromado, que vibrava com um som de motor potente.

— E este aqui? — Sara perguntou, tentando soar sedutora. — Para quando você estiver viajando, Emanuel. Para eu não sentir saudades.

— Ponha isso de volta, Sara — Emanuel disse, a voz ficando fria. — Se você sentir saudades, você me liga. Eu não quero máquinas fazendo o meu trabalho.

Sara bufou, devolvendo o objeto com força. A tensão entre as duas mulheres era quase palpável, como se a eletricidade da loja estivesse carregando seus corpos.

— Agora, vamos para os provadores — Emanuel comandou. — Quero ver o que compramos.

O provador VIP era uma sala ampla, com espelhos do chão ao teto e luzes que podiam ser reguladas para simular o luar ou o pôr do sol. Emanuel sentou-se em um divã de veludo preto, uma taça de champanhe na mão, observando as cortinas se fecharem.

Minutos depois, as cortinas se abriram simultaneamente.

Sara saiu primeiro. Ela estava vestida com o conjunto de tiras de couro preto. Seus seios siliconados estavam quase totalmente expostos, apertados pelo material rígido. Ela usava botas acima do joelho e a mordaça rosa que Eduarda escolhera, o que dava a ela um aspecto de boneca erótica de luxo, mas o contraste da mordaça colorida com o couro negro tornava a cena quase cômica, exatamente como Eduarda pretendera. Sara tentou falar algo, mas apenas um som abafado e frustrado saiu de sua boca.

— Você está... impactante, Sara — Emanuel disse, com um brilho de deboche nos olhos. — O rosa realmente destaca a sua... sutileza.

Eduarda saiu logo em seguida. Ela vestia o conjunto de renda vinho. O tecido abraçava suas curvas naturais, e a transparência deixava entrever a pele clara e macia. Ela não usava sapatos, e seus pés pequenos afundavam no tapete. Ela parecia uma ninfa, algo etéreo e proibido. Ela segurava a venda de seda negra entre os dedos.

Emanuel levantou-se, ignorando os trejeitos desesperados de Sara para chamar atenção, e caminhou até Eduarda.

— Você é uma obra de arte, Duda — ele sussurrou, passando a mão pelo ombro dela. — Sara é o espetáculo, mas você... você é a devoção.

Sara começou a pular e a gesticular, apontando para a mordaça, claramente querendo que Emanuel a tirasse. Ela estava irritada por ter sido transformada em um acessório de fundo enquanto a "santinha" recebia os elogios.

— Calma, Sara — Emanuel disse, sem tirar os olhos de Eduarda. — O silêncio te deixou mais bonita. Aproveite o momento para refletir sobre como é bom ser observada sem precisar gritar.

Ele pegou a venda de seda da mão de Eduarda e a entregou para ela.

— Coloque em mim, Duda.

Eduarda, com as mãos levemente trêmulas, mas o olhar decidido, posicionou-se atrás de Emanuel. Ela passou a seda negra pelos olhos dele, sentindo a textura do tecido e o calor da pele do homem. Ela deu um nó firme na nuca dele.

— Agora — Eduarda sussurrou, a voz carregada de uma confiança nova —, você é meu, Manu.

Emanuel, agora privado da visão, sentiu os outros sentidos se aguçarem. Ele ouviu a respiração ofegante e abafada de Sara, o cheiro de couro e champanhe, e o toque leve, quase como uma brisa, dos dedos de Eduarda em seu peito.

— Sara — Emanuel disse para o vazio —, eu sei que você está aí. Sinta o que está acontecendo. Sinta a paz que a Eduarda traz.

Eduarda aproximou-se de Sara. Com um gesto de triunfo silencioso, ela passou a mão pelo rosto da loira, que estava com os olhos arregalados de fúria e desejo. Eduarda então se virou para Emanuel e o beijou, um beijo longo, calmo, que provava a ele que ela não precisava de acessórios caros para dominá-lo.

Sara, incapaz de protestar verbalmente, apenas assistia à cena, sentindo-se, pela primeira vez, a intrusa no próprio jogo de sedução. Ela percebeu que, naquele templo do consumo erótico, a única coisa que não podia ser comprada era a conexão profunda que Emanuel sentia pela fragilidade de Eduarda.

— Chega de provadores — Emanuel disse, desfazendo o nó da venda e voltando a enxergar. — Vamos levar tudo. Beatriz, mande a conta para o meu escritório.

O retorno para o carro foi silencioso. Sara já havia retirado a mordaça, mas estava estranhamente quieta, processando a humilhação de ter sido "calada" pela rival. Eduarda estava encostada no ombro de Emanuel, sentindo-se exausta, mas vitoriosa.

— Gostaram da experiência? — Emanuel perguntou, ligando o motor.

— Eu odiei aquela coisa rosa! — Sara explodiu, finalmente recuperando a voz. — Emanuel, você deixou ela me humilhar! Eu parecia um chiclete mastigado com aquela bola na boca!

— Você parecia o que é, Sara — Emanuel respondeu, o tom de voz voltando ao normal. — Alguém que precisa aprender que o prazer nem sempre vem do barulho.

— E você, Duda? — Emanuel olhou pelo retrovisor para a morena.

— Eu gostei, Manu — ela disse, com um sorriso doce e sonolento. — Especialmente da parte em que você não podia me ver. Acho que, no escuro, todos nós somos mais verdadeiros.

Emanuel riu, acelerando o carro pelas ruas desertas da madrugada. Ele tinha nos bancos de trás o que o dinheiro podia comprar e o que a alma precisava para sobreviver. Sara traria o caos e a luxúria para a cama naquela noite, mas seria o toque de Eduarda que o faria dormir em paz.

Ao chegarem na mansão, Sara correu para o quarto, gritando que precisava de um banho de sais para tirar o "cheiro de loja". Emanuel pegou Eduarda no colo, sentindo o peso leve e familiar dela.

— Você me surpreendeu hoje, boneca — ele disse, subindo as escadas.

— A arte ensina que o contraste é necessário para a beleza, Manu — ela sussurrou, escondendo o rosto no pescoço dele. — E hoje, a Sara foi o contraste perfeito para a minha beleza.

Emanuel entrou no quarto, sabendo que a noite estava apenas começando. Ele tinha as algemas, a seda, a mordaça e a renda. Tinha o fogo de uma e a água da outra. E enquanto a lua observava através das janelas de vidro, o tatuador percebeu que, naquele triângulo de desejos e rivalidades, ele era o artista, e elas eram a tela onde ele pintaria, com prazer e dor, a sua obra mais complexa e viciante.