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Heranças de Pêlo e Caprichos de Cristal
A mansão de Emanuel, geralmente um mausoléu de design minimalista e silêncios caros, agora possuía um novo som: o leve e rítmico bater de patinhas sobre o tapete persa do quarto principal. Algodão, o pequeno coelho branco que Emanuel trouxera como um pedido de desculpas, havia se tornado o centro gravitacional da vida de Eduarda.
Para a jovem estudante de História da Arte, o animal não era apenas uma mascote; era um refúgio. Eduarda passava horas sentada no chão, com o coelho aninhado em seu colo, lendo sobre o simbolismo das tapeçarias medievais enquanto acariciava as orelhas longas e macias do bicho.
— Veja, Manu, como ele é inteligente — murmurou Eduarda, com aquela voz manhosa que costumava derreter a rigidez de Emanuel. — Ele já sabe que, quando eu abro essa caixinha, é hora do petisco de maçã. Ele é o nosso filhinho, não é? O nosso pequeno herdeiro.
Emanuel, sentado em sua poltrona de couro com um tablet nas mãos, desviou o olhar dos gráficos de lucro de seus estúdios de tatuagem em Berlim. Ele observou a cena com uma mistura de ternura e uma irritação crescente que ele mal conseguia identificar. Eduarda estava radiante, mas havia algo que o incomodava: nos últimos três dias, ela mal havia sentado em seu colo ou buscado seus beijos com a urgência de antes.
— É apenas um coelho, Duda — disse Emanuel, a voz rouca, tentando manter o tom pragmático. — Um animal de estimação. Não vamos exagerar nos títulos familiares.
— Como você pode dizer isso? — Eduarda fez um biquinho, abraçando o coelho contra o peito, o que fez o animal esconder o focinho sob o queixo dela. — Ele tem os seus olhos, Manu. Sérios e observadores. Ele é a nossa família agora.
Emanuel sentiu uma pontada de ciúmes — um sentimento absurdo, ele sabia, por ser direcionado a uma bola de pêlos de meio quilo. Ele se levantou e caminhou até ela, agachando-se. Suas mãos grandes, cobertas por tatuagens pretas e cinzas que contavam histórias de décadas de trabalho, estenderam-se para tocar o rosto de Eduarda.
— Eu prefiro quando você foca essa atenção toda em mim, boneca — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela.
— O Algodão também quer carinho, papai — ela brincou, movendo o coelho para que o nariz úmido do bicho tocasse a bochecha de Emanuel.
Emanuel recuou, bufando uma risada seca.
— Papai? Agora você definitivamente foi longe demais.
A porta do quarto se abriu com um estrondo, quebrando o momento de intimidade. Sara entrou como um furacão de seda e indignação. Ela usava um conjunto de ginástica de grife que parecia mais apropriado para uma passarela do que para uma academia, e seu rosto estava carregado de uma fúria mal disfarçada.
— Eu não aguento mais! — gritou Sara, jogando sua bolsa sobre a cama de Emanuel. — O cheiro de feno está impregnando a casa toda! Emanuel, esse bicho é um pesadelo. Ontem ele roeu o fio do meu carregador de iPhone banhado a ouro. Você tem noção do prejuízo?
— Foi um acidente, Sara — defendeu Eduarda, levantando-se com o coelho nos braços, buscando a proteção física de Emanuel. — Ele é só um bebê.
— Um bebê? É um roedor, sua tonta! — Sara virou-se para Emanuel, ignorando Eduarda como se ela fosse parte da mobília. — Emanuel, querido, se ela tem esse rato branco, eu exijo um cachorro. E não qualquer cachorro. Eu quero uma Lulu da Pomerânia. Fêmea. Com pedigree internacional. Eu já até escolhi o nome: Chanel.
Emanuel suspirou, sentindo a dor de cabeça típica que surgia sempre que Sara começava com suas exigências.
— Não vai ter cachorro nenhum, Sara — disse ele, voltando para sua poltrona. — Um coelho já é distração suficiente nesta casa. Eu não quero um cachorro latindo pelos corredores e urinando nos meus tapetes importados.
— Como assim não vai ter? — Sara parou no meio do quarto, as mãos nos quadris. — Você deu um bicho para ela! Por que ela ganha presentes vivos e eu ganho apenas joias e roupas? Eu quero algo que combine com o meu status. Uma Lulu é um acessório de luxo, Emanuel. Ela vai ficar linda nas minhas fotos no Instagram.
— Um animal não é um acessório, Sara — interveio Eduarda, a voz trêmula, mas firme. — Você não tem paciência nem para cuidar de si mesma, imagine de um cachorrinho que precisa de atenção e amor.
Sara soltou uma gargalhada estridente e vulgar.
— Amor? Olha quem fala! Você trata esse bicho como se tivesse saído de dentro de você. É patético, Eduarda. Você é tão carente que precisa que um coelho valide a sua existência.
— Chega, Sara — Emanuel interveio, o tom de voz subindo, sinalizando que sua paciência estava no limite. — A Eduarda ganhou o coelho porque ela sabe cuidar. Ela é responsável. Você não consegue nem manter uma planta viva na sua suíte.
— Isso é injusto! — Sara bateu o pé, os olhos brilhando de raiva. — Você sempre protege ela! Só porque ela faz essa cara de santa e fica manhosa pelos cantos. Eu sou a sua namorada também, Emanuel! Eu exijo a Chanel! Agora!
— Eu já disse que não — Emanuel sentenciou, os olhos escuros fixos nos de Sara. — E se você continuar gritando, eu vou cancelar a sua reserva no spa para o próximo final de semana.
Sara abriu a boca, incrédula. O spa era o seu santuário, o lugar onde ela gastava fortunas em banhos de ouro e massagens exóticas. O silêncio que se seguiu foi tenso. Ela olhou para Eduarda, que acariciava o coelho com um sorrisinho contido de satisfação, e sentiu o sangue ferver.
— Você vai se arrepender disso, Emanuel — sibilou Sara, a voz agora baixa e perigosa. — E você, sua ratinha de biblioteca... aproveite bem o seu "filhinho". Porque nesta casa, as coisas que não brilham costumam desaparecer.
Sara saiu do quarto batendo a porta com tanta força que um dos quadros de arte contemporânea na parede balançou perigosamente.
Eduarda estremeceu, abraçando Algodão com mais força.
— Manu... você acha que ela vai fazer algo contra ele? — perguntou ela, os olhos grandes cheios de preocupação.
Emanuel se levantou e caminhou até ela, envolvendo-a em seus braços. Ele sentiu o coração de Eduarda batendo rápido contra seu peito. Era essa fragilidade que o prendia a ela, essa necessidade constante de ser protegida.
— Ela não vai tocar no seu coelho, Duda. Eu garanto — ele murmurou, beijando a testa dela. — Mas você precisa parar de provocá-la. A Sara é impulsiva.
— Eu não provoco, Manu. Ela que é maldosa — Eduarda se afastou um pouco, olhando para ele com um brilho de adoração. — Obrigada por não dar o cachorro para ela. O Algodão é especial. Ele é o nosso laço.
Emanuel forçou um sorriso. Ele ainda sentia aquele incômodo por ser chamado de "papai" de um coelho, mas ver Eduarda feliz era um investimento que valia a pena. No entanto, ele conhecia Sara. Sabia que ela não aceitaria um "não" como resposta tão facilmente.
Naquela noite, o jantar foi uma prova de resistência. Emanuel sentou-se à cabeceira da mesa de jantar de mármore negro. Eduarda estava à sua direita, usando um vestido leve de seda azul, e Sara à esquerda, vestida para matar em um conjunto de couro sintético justo, com uma expressão de puro desdém.
Algodão estava em um cercadinho luxuoso no canto da sala de jantar, mastigando silenciosamente uma folha de couve orgânica.
— Emanuel, querido — começou Sara, cutucando sua lagosta com o garfo —, eu estive pensando. Já que você não quer me dar a Chanel, talvez possamos chegar a um acordo. Eu vi uma bolsa de pele de crocodilo na Hermès que...
— Não, Sara — Emanuel interrompeu sem tirar os olhos do prato. — Sem acordos hoje. Meu dia foi exaustivo e eu só quero comer em paz.
— Você está sempre exaustivo para mim! — ela rebateu, a voz subindo de tom. — Mas para ouvir as histórias de arte da Eduarda ou para ver esse bicho mastigar, você sempre tem tempo. Sabe o que eu acho? Eu acho que você está ficando mole. O grande Emanuel, o rei das tatuagens, o homem que não teme ninguém, está sendo dominado por uma universitária e um coelho.
Eduarda baixou a cabeça, sentindo-se pequena sob o ataque verbal de Sara.
— Sara, por favor... — murmurou Eduarda.
— "Sara, por favor" — imitou a loira, com uma voz fina e irritante. — Cala a boca, Eduarda. Ninguém te chamou na conversa. Emanuel, eu estou falando sério. Eu me sinto desvalorizada nesta casa. Eu trago brilho, eu trago vida para este lugar cinza, e você me trata como se eu fosse um incômodo.
Emanuel largou os talheres com um estalo metálico que fez as duas mulheres pularem.
— Você é um incômodo quando se comporta como uma criança mimada, Sara — ele disse, a voz fria como gelo. — Eu te dou tudo o que o dinheiro pode comprar. Mas eu não vou transformar a minha casa em um canil só para satisfazer um capricho seu para o Instagram. Se você quer um cachorro, compre uma casa para você e coloque dez Lulus lá dentro. Mas enquanto você viver sob o meu teto, as regras são minhas.
Sara empalideceu. A ameaça implícita de ser expulsa da mansão e da vida luxuosa de Emanuel era o seu maior medo, embora ela jamais admitisse. Ela olhou para Eduarda, buscando algum sinal de fraqueza, mas a morena estava acariciando discretamente a mão de Emanuel por baixo da mesa.
— Tudo bem — disse Sara, levantando-se da mesa com uma dignidade forçada. — Se é assim que você quer jogar, Emanuel. Mas não reclame quando a casa ficar silenciosa demais.
Ela saiu da sala de jantar, mas desta vez não bateu a porta. O silêncio que ela deixou para trás era mais ameaçador do que qualquer grito.
Emanuel suspirou, fechando os olhos por um momento. Ele sentiu os dedos pequenos e macios de Eduarda entrelaçarem-se nos seus.
— Você está bem, Manu? — ela perguntou, com aquela doçura que era o seu bálsamo.
— Estou, Duda. Só estou cansado dessas cenas.
— Vem... — ela disse, levantando-se e puxando-o suavemente. — Vamos colocar o Algodão para dormir e depois eu posso te fazer uma massagem. Você está muito tenso.
Emanuel deixou-se levar. No quarto, ele observou Eduarda colocar o coelho cuidadosamente em sua caminha de veludo, conversando com o animal como se ele entendesse cada palavra.
— Boa noite, meu pequeno — ela sussurrou. — Papai e mamãe estão aqui.
Emanuel sentou-se na beirada da cama, observando-a. O ciúme bobo de antes voltou, mas foi rapidamente substituído por uma sensação de posse. Eduarda era sua. O coelho era apenas um acessório para a felicidade dela, e se isso a mantinha mansa e dedicada a ele, ele aprenderia a tolerar o "filhinho".
No entanto, o que nenhum dos dois sabia era que, no quarto ao lado, Sara não estava dormindo. Ela estava sentada diante do espelho, retocando o batom vermelho com mãos trêmulas de raiva. Ela olhou para o seu reflexo, para os seios perfeitos, para o cabelo loiro impecável, e jurou a si mesma que não seria derrotada por um animal de estimação.
— Você quer um filhinho, Eduarda? — sussurrou Sara para o espelho, um sorriso maligno curvando seus lábios. — Pois eu vou te dar um pesadelo.
A guerra na mansão de Emanuel havia apenas mudado de fase. Se Eduarda tinha o amor e o coelho, e Emanuel tinha o controle, Sara usaria a única coisa que lhe restava: a capacidade de criar o caos absoluto onde todos esperavam paz. E ela sabia exatamente por onde começar. No dia seguinte, Emanuel teria uma surpresa que nem todo o seu dinheiro ou autoridade poderiam prever. A paz da "família" estava com os dias contados.